Assassin's Creed: Other Side
10 Ainda Fiel?
Março de 1770 — Boston
O céu estrelado de Boston abraçou aquela figura solitaria, sua posição alheia a todos nas ruas abaixo de si. Não fosse alguém cuja percepção beirasse a de uma verdadeira águia, e uma pitada de curiosidade para erguer os olhos alguns metros acima dali, ninguém o notaria. Agachado nos telhados como um gato, os olhos estavam fixos na rua abaixo de si.
E movendo os dedos levemente por baixo do seu manto marrom-escuro, ele brincava com a lâmina fixa em seus pulsos. O metal desejoso de sangue; já fazia muito tempo que ele servia sob a Ordem, seguindo os passos à risca de seu Mentor e companheiro. Agora ele era um Templário nato, e ainda que aqueles poucos anos em suas costas se faziam presentes, era essa a principal vantagem contra aqueles que o subestimavam e acabavam com os pescoços sob sua lamina.
Tinha em mente e corpo meros 17 anos, mas não era menos letal do que tais características pareciam esconder.
Observava o velho predio abandonado, seus olhos frios deslizando por cada janela e centímetro da robusta construção. E poderia muito bem ter invadido qualquer janela e livrado a cidade de uma suposta gangue de saqueadores os quais ele mantinha os olhos fazia algum tempo. Mas seu desejo era ojtro, e pacientemente, ele apenas prostrou-se ali, a espera de uma velha amiga.
Ano após ano, Boston era uma dentre todas as colônias que transbordavam em dividas pressão Inglesa. Claro, a única saída para alguns era a resposta mais fácil. Situações como de roubos e saques se tornavam cada vez mais frequentes, apenas tomando Boston sob o jugo da decadência.
Uma sombra se projetou atrás dele, silenciosa o suficiente para deixa-lo impressionado. Claro, era isso que ela tencionava.
— Cheguei atrasada, Remy?
A adolescente de lábios finos agachou-se ao seu lado, baixando o capuz improvisado de seu rosto, os fios dourados sedosos e curtos caindo sobre seu pescoço. Kara Ivanov era tão letal e perigosa quanto ele mesmo conseguia se lembrar. Ela só não era completamente perfeita graças a sua petulância exagerada, tão arrogante e confiante quanto qualquer um.
“Ela até me lembra Shay, na verdade”, dizia Haytham. De fato, Remy se lembrava perfeitamente como o capitão irlandês era dotado de uma auto confiança gigantesca, parecendo pulsar em suas veias. A verdadeira definição de auto confiança ambulante.
— Na verdade não – ele retrucou, guiando-a pelos telhados enquanto planejava uma aproximação no velho prédio abandonado.
Saltando tão impressionantes e ágeis quanto um gato, eles agarraram uma das frestas do local, invadindo silenciosamente a janela que Remy abriu. Os passos leves na madeira empoeirada do antigo deposito – agora, um mero esconderijo de bandidos – mal causavam ruídos enquanto a dupla esgueirava-se pelos corredores.
— Mas ainda assim, fiquei surpresa que juntou-se a mim hoje. Achei que não gostasse de ajudar seu velho amigo em suas empreitadas por Boston.
A moça limitou-se a um suspiro incomodado, olhando as paredes friamente.
— Não é isso, mas lugares apertados demais não caem no meu gosto. Papai acha que tenho algum pavor a esses ambientes, os quais, devo admitir, me deixam desconfortada. Por isso acho que nunca gostei de estar em navios, aquelas cabines minúsculas são deveras sufocantes.
Remy sorria com o canto do rosto. – Pavor? Não me diga, Kara. E aquela vez que nos... divertimos a noite toda no sótão, enquanto o pobre do seu pai nos procurou por toda a casa? Você não pareceu tão assustada naquele dia.
— Por favor, Remy... – a jovem rolou os olhos, sorrindo levemente com a lembrança – Tínhamos 15 anos na época, e só para lembra-lo, foi em seu aniversario. Fizemos besteira, só isso. Se soubesse o quão idiota nós parecemos quando olhamos agora para trás, tu não me lembrarias disso.
— Ei, memórias boas ficam para sempre, não achas? – ele provocou, olhando-a de relance.
Antes que pudesse abrir a boca, os olhos de Kara cerraram entre seus fios dourados de cabelo; ela acenou com a cabeça, alertando-o das vozes ali próximo. Eles jogavam e se entretiam ao redor de uma mesa, conversando entre si e bebendo descontroladamente. Perfeito, ele murmurou. Eles estavam perfeitamente desnorteados e despreparados. Não que fosse, na verdade, uma vantagem essencial depois de tantas cicatrizes adquiridas nas inúmeras manhãs sob a tutela de Haytham Kenway.
— Não poderia pedir situação melhor – Remy disse, recostando-se na parede – Fiz bem em não elimina-los no caminho para cá; assim temos a gangue inteira para nos divertir de uma só vez. Hmph... É incrível como Boston tem ficado cada vez pior nos últimos anos.
— Com a pressão que a Coroa vem impondo nessa cidade, o que achou que aconteceria? Se não apenas lar de saqueadores, esse lugar é um ninho para escoria da pior espécie.
— Não precisa me lembrar, Kara – ele retrucou, lembrando de como aquela cidade só piorava a cada dia, um verdadeiro barril de pólvora prestes a explodir – Mas é por isso que fazemos o que fazemos. Ninguém disse que seria fácil, mas tem lá suas recompensas.
A loira deixou as sombras para trás, caminhando até o centro da sala, os passos silenciosos seguidos por Remy. A visão encapuzada de ambos foi logo percebida, os bandidos cessando suas conversas e bebidas de lado, levantando-se com facas e revolveres em mãos. Eles os fitaram, divertidos entre si em risadinhas, como se imaginassem o problema em que aqueles dois haviam entrado.
Um deles pisou a frente para cuspir no chão, os olhos maldosos sobre o corpo de Kara.
— Mas olha só o que temos aqui! Ganhamos na vida, pessoal! Uma noite tranquila e uma putinha com rosto de bebê só para nós – provocou o homem, arrancando gargalhadas dos amigos atrás dele. Com um assobio, ele deslizou os olhos da visão torneada de Kara, seus lábios se divertindo com a visão daquela moça.
Ele fitou Remy, um sorriso mortal se formando no rosto do jovem Templário, para sua irritação. – E você? Do que estás rindo, moleque? Acaso vê algo engraçado? Vou te mostrar o que é engraçado. Já sei o que fazer com você. Tu podes nos ser útil e servir de putinha junto da tua namorada também se quiser, não é mesmo, Edgard? – o grandalhão riu, virando-se para seus colegas — Ouvi dizer que você curte um mac--
E subitamente, um jato de sangue voou de sua garganta, o rosto de Kara próximo ao seu em um olhar frio. Rápida como uma tigresa, ela saltou contra seu peito, o som molhado de carne rasgando-se sob seu pescoço. Remy ria com a cena, batendo palmas com a técnica da moça, imaginando o quão tolo aquele homem foi em tão pouco tempo. As mãos da jovem saltaram da carne do pobre homem. Ele se contorcia, as mãos puxando em vão os pulsos de Kara, seus olhos suplicantes em dor.
— Não gosto que me tratem dessa forma, seu lixo asqueroso – ela murmurou, levantando-se de cima do corpo contorcido no chão sujo, o sangue se formando em uma poça em seu pescoço. Frieza era o que emanava de sua voz, e ela lançou um olhar aos outros sujeitos, que tremiam com armas em mãos – Isso é para aprenderem a como tratar uma dama. E quando encontrarem uma no inferno, lembrem-se do que eu lhes ensinei hoje.
— Muito bom, linda – o jovem Templário disse, pondo-se a seu lado, sua lamina saltando do seu pulso. Lâmina em mãos e espada na outra, em uma pose similar a Haytham Kenway em vários sentidos. O reflexo do treinamento se fazendo tão natural quanto ele percebia – Suas ultimas palavras, cavalheiros?
Um deles engoliu em seco, incerto do que dizer, suas mãos tremendo. Eles se entreolhavam, nervosos, como se decidissem mentalmente qual iria primeiro. E não precisaram, pois subitamente, um voou para trás, os miolos e pedaços de seu crânio espalhando-se no rosto dos outros.
O baque do corpo contra o chão assustou –os. O revolver nas mãos de Remy pulava entre cada um deles, em uma brincadeira letal, o cheiro de pólvora se fazendo forte na sala.
— Má ideia. Eu exigi suas ultimas palavras educadamente, mas parece-me que minha gentileza não foi suficiente. Então eu e minha cara amiga aqui vamos simplesmente acabar com suas vidas da forma mais dolorida possível.
Eles tremiam, engolindo em seco com aqueles dois adolescentes, tão jovens mas com olhares tão frios quanto qualquer um que eles já conheceram. E como eles se arrependeram de ter deixado suas casas naquela maldita noite e cruzado com aqueles dois malditos que apontavam uma arma para suas cabeças .
E como eles se arrependeram.
II
— Bem, essa foi uma noite bem produtiva, não acha? Acabamos com uma gangue em Boston, e não só isso, tornamos a noite mais interessante do que ficar em casa ouvindo o Sr. Ivanov contar aquelas velhas historias de sempre.
Kara assentia levemente de relance, segurando um corpo contra o chão, sua lamina funda no pescoço do pobre homem. A batalha não havia lhes oferecido trabalho algum, nada divertido para terminar aquela noite, a jovem Templaria percebeu. Em meio ao silencio, apenas o som dos grilos cantando podiam ser ouvidos. Os corpos estavam estirados no chão do local, seus trajes pingados de seu próprio sangue.
Terminando de limpar-se do que mais parecera um verdadeiro massacre, Remy aproximou-se e agachou-se perto da loira. O jovem rapaz no chão o olhava morbidamente, a boca suja do próprio sangue que escorria de seus lábios. Ele o fitou em olhos pesados, ter de borrar as mãos com vitimas tão jovens. Ele lançou um olhar reprovador à Kara, negando com a cabeça.
— O que já lhe disse sobre isso, Kara? – ele murmurou, puxando suavemente a mão da loira para longe do pescoço daquele garoto. Ela o lançou um olhar questionador, franzindo o cenho – Ele era praticamente um garoto, como nós. Nem devia ter muita diferença entre nossas idades. Podia te-lo apenas o nocauteado sem dificuldade alguma.
— Se ele estava nessa vida, Remy, é porque se decidiu sobre isso – ela retrucou, guardando a lamina, resignada. Ela caminhava de lado a outro, braços cruzados – Se fossemos prezar por toda vida que tiramos desse mundo, jamais faríamos nosso trabalho, não acha? Se começarmos a criar bons motivos para cada verme que eliminamos, então estaríamos enchendo o paraíso com nossas vitimas.
Ele suspirou, decidindo encerrar aquela discussão. Era ela tão cabeça quente quanto ele quando decidia algo a fundo. Eles se entreolharam após alguns segundos de silencio, a tensão dissipando-se com Remy fechando os olhos revirados do cadáver, respeitosamente. Se eles fossem tão diferentes daqueles sujeitos, então respeito seria o primeiro passo a se tomar. Algo a qual Kara não se sujeitava frequentemente.
E algo que o preocupava.
— Descanse em paz – ele murmurou. Ele levantou-se, coçando os olhos enquanto se aproximava da amiga – Kara, devemos ser mais condescentes e menos precipitados com quem decidimos brincar de ceifeiros.
Por baixo do manto, ela evitava olhar em seus olhos, de costas, respirando pesado embaixo do tecido castanho-escuro.
— Eu sei bem como você é dedicada para com a Ordem – ele continuou — mas não quero vê-la se tornando um traste como Charles Lee. – ele mencionou o nome em asco – O homem parece o pior tipo de fanático. Eu já o vi em ação. Desgostoso. E, sinceramente, não gosto da forma como ele te observa quando pensa que mais ninguém está reparando. O homem é repugnante em todos os sentidos.
— Deixe que olhe – a jovem meneou, baixando o capuz e finalmente concordando em algum ponto com o amigo. O clima pareceu se dissipar prontamente – Se ele ousar algum dia bancar o tipo engraçadinho, eu castro o maldito. E não se preocupe comigo. Eu decido como não me corromper, e sei que como aquele homem, eu não me pareço nada e nem tenciono ser como tal.
Remy inclinou-se proximo do seu rosto , sorrindo de modo convencido — Exato. Então apenas eu tenho o direito de se engraçar perto de você, não é?
— Não passe dos limites, Remy — ela retrucou, ignorando o rapaz.
"Bem, pelo menos ela voltou a seu comportamento de antes”, ele suspirou aliviado. O monte de corpos ensanguentados os cercavam, o chão tingido levemente de poças avermelhadas, e tão rápidos quanto eles entraram o prédio, o silencio instaurou-se outra vez ao voltarem às ruas vazias de Boston.
Subitamente, a neve pareceu cair mais forte, o vento invernal cortando seus rostos naquele inverno de Março. Eles decidiram que era melhor tomarem o caminho de volta para o calor aconchegante de sua casa. Os cavalos trotaram rapidamente pelas ruas lamacentas sob seus cascos. Rapidamente, eles cavalgaram pelas ruas escuras e taciturnas que os recepcionavam. E claramente alheios demais à figura que os observava de longe, curioso, apoiado em sua inseparável bengala.
Próximo ao a estabelecimento, ele tinha os olhos cerrados por baixo do chapéu que cobria seus cabelos grisalhos. O velho sentiu-se gelar quando havia descidoo olhar sobre os pulsos daquele rapaz, um mecanismo tào conhecido em sua vida voltando aos seus olhos em alguém completamente desconhecido.
Ele coçou a barba rala sob seu queixo, retornado a sua carruagem e tomando as rédeas.
— Aqueles homens... Estavam usando... Laminas ocultas? – ele murmurou a si mesmo. – Então isso quer dizer...? Não... Não, esqueça isso... – ele meneou, decidindo dar aquela noite por acabada. Ele já havia visto demais em sua vida, e algo como aquilo só o tornava mais preocupado.
— Esqueça isso, Achilles, seu velho senil. Esqueça tudo que tu viste. Uma boa noite de sono é o que eu preciso para me acalmar. Tenho de estar em condições para continuar o treinamento do Connor, e ficar pensando nessas bobagens só ira tirar meu sono...
III
— Vejo que está cansado da noite anterior com a Srta. Ivanov, Remy – o sotaque inglês de Haytham Kenway chamou outra vez sua atenção, seus olhos revirando de cansaço. A noite de sono não fora tão recompensadora quanto ele esperava, seus olhos trazendo olheiras em seu rosto.
Tudo que Remy respondeu foi um bocejo, assentindo levemente com a cabeça. Sentindo o café descer por sua garganta em um gole, ele virou os olhos à Haytham, um leve sorriso malicioso escondendo-se atrás da caneca de cerveja em sua boca.
— Err, mas não esse tipo de noite, senhor Kenway – ele reformulou suas palavras, sentindo suas bochechas queimarem. Na verdade, fazia anos que ele não tinha “ aquele tipo de noite” com a bela jovem. Uma única noite em toda sua vida era tudo o que ele podia gabar-se.
— No entanto, mestre Kenway, estou curioso com as noticias do senhor Cormac. – o jovem mudou de assunto — Da ultima vez que recebi cartas, ele se encontrava na França, se bem me lembro. Algo importante a serviço da Ordem, devo imaginar? Ou apenas seus instintos por mulheres em ação?
O Grão Templário assentiu, retirando seu usual chapéu tricorne e deixando-o na mesa, sentindo sua respiração acelerar. A verdade era que isso também incluía, em pequena parte, as pequenas buscas pela mãe do rapaz pelo país.
Mas, claro, contar aquilo estava fora de questão, e ele limitou-se a um lento assentimento.
— Sim, Remy. A busca pela Caixa Precursora está tomando muito de seu tempo. Não me admira que ele ainda esteja a sua procura. E também, quaisquer remanescentes de focos Assassinos são de seu encalço. Seu trabalho aqui nas colônias na Guerra dos 7 anos lhe rendeu uma bela fama, se bem se lembra disso.
— Espero que algum dia ele volte para estas terras – Remy disse, cruzando os braços em um sorriso – Ele ainda me deves um dia como capitão da Morrigan.
O templario sorriu, lembrando-se de tal fato. Mas como Shay costumava ser — e, provavelmente, ainda era — era bem capaz de questionar, irritado, o por que de um mero garoto como Remy frequentar uma taverna das piores como a Green Dragon era. Parecia que os dois haviam criado uma grande amizade; o irlandês frequentemente trocava cartas com aquele rapaz, ao mesmo tempo em que, em seus tempos ainda na América, repassou um ou outro de seus famosos truques com as garotas para Remy.
E quase sentindo-se tão responsável quanto um irmão mais velho, não restava duvidas de que Shay repreenderia o garoto por se encontrar em tal estabelecimento com a fama que o precedia. O cheiro de álcool emanado do Green Dragon era mesmo o constante odor que recebia a Ordem em suas usuais reuniões. Um reduto para a secreta Ordem Templária, alheios a todos que ali frequentavam.
E, claro, o tipo de cheiro que muito agradava homens como Thomas Hickey, o qual Remy logo revirou os olhos ao vê-lo atravessar a porta da taverna.
— Oh! Olá, ‘Aytham, — ele jogou-se na cadeira, garrafa de bebida em mãos. Com um sorrisinho enojado, o templário fitou Remy – Oh! E olá pra você também, pirralho.
O rapaz abanou o ar em seu rosto, o fedor de álcool lhe alcançando. O fedor que acompanhava Thomas só não era maior do que a vontade efervescente de Remy em atravessar as lâminas naquele pescoço.
– A que devemos a honra, Hickey? – ele retrucou, em claro tom sarcástico — Suponho que não vais encontrar nenhuma de suas putas aqui neste bar hoje, não é? Então se cansou de ter putas e decidiu se candidatar a prostituta pessoal de alguém?
A risada abafada de Charles cortou o silencio que se formou nos labios de Hickey. Ele o olhava irritado, os punhos apertando a garrafa em suas mãos, sendo impedido de qualquer besteira por Lee. O Templário juntou-se a mesa, tapeando o ombro de Hickey em risadas.
— Ora, mas vejam só esse garoto. Tão jovem e tão sagaz! Não me admira que foi treinado pelo senhor, Haytham – ele brincou, deslizando os olhos entre o Kenway e Remy – Continue assim e vai longe, rapaz. Oh, e não se preocupe com isso, Thomas, porque se não for verdade o que ele afirmas, então não tens do que se envergonhar.
Charles deu um belo gole na cerveja que Hickey segurava, limpando a boca e voltando-se a Haytham, os olhos ansiosos do Templário fitando o Kenway.
— Então, Mestre Kenway, estás certo do que temos de fazer? A pressão Inglesa não parece diminuir tão cedo, e receio que continuará assim até que façamos algo.
— E quanto aos Filhos da Liberdade? – inquiriu Remy, sendo olhado por um Lee divertido.
— Há! – Lee meneou, em asco – Aqueles meros protestantes? Eles acham que mudarão algo apenas reclamando aqui e ali, esperando que tudo mude? Que as Forças Britânicas decidam miraculosamente abandonar a America graças aos seus apelos? Acredite em mim, Remy, esses crápulas não alcançarão nada apenas por carregar um nome bonitinho em seu titulo e nobres ideais em seus corações.
— De fato, isso eu também acredito. – respondeu Remy, ponderando – Mas acredito que a questão com eles não seria o resultado em si, mas o começo dos meios para os colonos decidirem fazer algo. Um símbolo de esperança, por assim dizer.
— Esperança não trará liberdade para estas terras. O que precisamos é de ações, de planos. É exatamente o que decidimos discutir hoje, rapaz. Medidas drásticas serão necessárias nesses tempos – foi a resposta de Haytham, dando mais um gole da cerveja.
A porta do bar se abriu, revelando os membros restantes do Rito. Kara sentou-se ao lado do francês, ao passo que todos os outros praticamente recusavam-se sempre a proximidade do rapaz, a exceção, dentre eles, apenas de Johnsson, o qual nada emanava contra Remy. Mas o resto?
Sim, eles o enojavam fortemente, olhavam torto, o desprezavam por algum motivo que Remy não entendia. E Haytham percebia — bem como Kara — os olhares lançados ao rapaz, sua mera presença se formando aos olhos deles como se fosse um invasor entre os Templários.
Como se não pertencesse aquele meio, mesmo que suas mãos tenham se sujado tanto quanto a dos outros em busca de seu lugar na Ordem.
“Sangue chama sangue”, Haytham praticamente podia ouvir em sua mente.
O Grão Mestre levantou-se, iniciando a reunião enquanto tentava afastar aqueles pensamentos em sua cabeça. Todos ficaram de pé ao Grão Mestre.
— Companheiros, a pressão exercida pelo Governo Britânico vem crescendo muito nos últimos anos. Os soldados, os impostos e assim como eles, a arrogância do nosso caro Rei George. E acho que falo por todos aqui que para nossos planos com a Ordem possam ser alcançados, é essencial que auxiliemos na liberdade das colônias. Para isso, no entanto, devemos tomar medidas drásticas.
O tom na voz de Haytham havia mudado, Remy percebeu, inquietando-se na cadeira. Ele cruzou os braços, pensativo, tomando a palavra.
— E já foi decidido o que faremos, senhor Kenway?
— De certa forma, sim – ele retrucou, categoricamente. Os olhos dele voltaram a Charles, assentindo para o Grão Mestre em sua usual forma bajuladora que tinha a capacidade de irritar Remy.
Ele pigarreou, dando um passo a frente.
— Nós criaremos um golpe. Uma situação que trará resignação e injuria ao povo, de forma que suas repressões pela Coroa apenas tomarão outros níveis. Só assim, o povo se sentirá compelido de verdade a declarar sua revolta contra as forças inglesas. Tudo que eles precisam é de um incentivo, e o resto fará o trabalho.
A curiosidade atiçou Remy, coçando o queixo, desconfiado. Vindo daquele homem, coisa boa não sairia de sua boca.
— E o que tens em mente, Charles?
— Recebi a informação de que amanhã, dia 5 de março, forças inglesas se aglomerarão em certos pontos da cidade, o que nos será de grande valia, e assim, o povo não se sentirá satisfeito com a ocupação das tropas. Isto é, menos do que já sentem, claro. Em meio ao caos e revolta do povo, enquanto seus sangues fervem de ódio para com os casacas vermelhas, nosso trabalho será apenas acender o barril de pólvora e deixar a revolta instaurada em seus corações. Criar uma fagulha. E, depois disso, basta apenas esperar a Revolução seguir firme e forte nas Colônias. – ele dizia, os olhos abertos como um verdadeiro fanático. Ele sorriu, deslizando os dedos por seus cabelos suados, para nojo do jovem Templário.
— Não percebe, Remy, o que iremos realizar? Quando tudo se incendiar nestas terras, só o que a Inglaterra terá como saída será se defender da revolta popular em plena forma. Ah, — ele continuou, recostando-se na mesa — E nós estaremos lá, rapaz. Nós estaremos lá para garantir que isso aconteça. Alguém terá de morrer, claro, mas... Bem, perdas são um mal necessário. E quando os tiros dispararem contra a população, só então ela se levantará contra a Coroa como deveria ter feito faz tempo.
— Um mal necessário? – Remy provocou, fitando Lee com olhos divertidos – “Os fins justificam os meios” não seria uma maneira melhor de definir essa situação?
Lee sorriu, satisfeito – Exato.
— Engraçado concordar com tal dito, pois o homem que escreveu estas mesmas palavras não foi, também, um Assassino? – ele retrucou, sendo encarado por um Charles boquiaberto, suas mãos a ponto de saltarem contra Remy.
Foi a vez de Hickey rir, os olhos divertidos em direção a Charles. Do outro lado da mesa, podia-se ouvir risadinhas.
— Irrelevante. E sugiro que na próxima vez que soltar uma de suas farpas em minha direção, pense duas vezes, porque eu não hesitarei em ...– ele logo interrompeu-se, recebendo um olhar de Haytham.
Recuperando a compostura, seus olhos brilharam, voltando-se ao jovem novamente.
— Mas, claro — ele pigarreou — já que se interessou tanto em nosso esquema, rapaz, tu terás a honra de tomar o passo inicial para nosso plano.
O templário parecia satisfeito como nunca, afagando o ombro de Remy em um olhar malicioso e ao mesmo tempo, sincero. Sua voz rouca anunciando aquelas palavras, o olhar venenoso o encarando de perto.
"Não", pensou Remy. Ele sentiu-se compelido à voltar atrás, desejar outra saída. Que aquilo fosse apenas uma ideia vã, uma provocação por parte de Charles. Mas não, os olhares ao redor da mesa comprovavam isso, e ele sentiu-se inquieto ao entender o que eles tencionavam.
— E serás tu, Remy, quem darás o tiro de iniciação. O tiro que acenderá a Revolução.
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