– Oi Jenny. – Cumprimentou Ana ao se aproximar dela sentada no mesmo local de dois dias atrás e fazendo exatamente a mesma coisa.

– Oi Ana. – Jenny ergueu o olhar para a menina e lhe serviu um sorriso sincero.

– Foi muito divertido ver o James ontem. Obrigada.

– Não precisa agradecer afinal. – A Kenway deu de ombros e completou. – Fique a vontade para voltar quando quiser.

– Lembrarei-me disso. – Ana se sentou ao lado daquela que em sua mente já podia chamar de amiga. – O que está fazendo?

Jenny a olhou de lado e ponderou sobre a atitude da menina ao se sentar ao seu lado.

– Não se importa em sujar o seu vestido?

– Ele seria lavado de qualquer maneira mesmo. No final é só terra. – Jenny sorriu por uma segunda vez ao ouvir aquela resposta simples, mas verdadeira.

– Estou anotando o clima de hoje.

– Por quê?

– É um hábito. Meu pai me deu essa tarefa quando estávamos navegando e todos os dias eu o fazia para ele. Mesmo em terra firma continuei a rotina.

– Então você já navegou com o seu pai? Quero dizer, você também já foi pirata?

Sem resistir, a menina riu espontaneamente a ponto de lacrimejar. Ela enxugou as lágrimas pelo canto dos olhos ao observar que Ana estava inerte à espera da resposta.

– Desculpe. Não pude evitar. – Respirou fundo e prosseguiu. — Não. Mas conhecia uma pirata chamada Ane Bonney.

– Oh! Ela tem o mesmo nome que eu.

– Sim. E ela era linda, forte e inteligente. Muito mais legal que Tessa.

– Quem é Tessa?

– A esposa do meu pai. – Jenny soltou um muxoxo.

– Ela não é sua mãe?

– Minha mãe se chamava Caroline Scott e meu nome completo é Jenifer Scott Kenway. Ela morreu quando eu nasci.

– Sinto muito em ouvir isso.

– Tudo bem. Mas, me diga, por que não se junta às outras garotas? Você é da nobreza, não é?

– Sim. Mas não concordo com os pensamentos dela. Além de que vivo rodeada de pessoas da nobreza e realeza. Os adultos só falam sobre política, as mulheres sobre vestidos e as meninas sobre seus futuros casamentos. Não há variações nos assuntos.

– Que tedioso.

– Exatamente. O que você faz depois das aulas?

– Em casa?

– Sim.

Jenny deu uma espiada nas palmas das mãos que até o momento permaneciam ocultas pelo caderno aberto. Estavam raladas, os braços estavam doloridos, assim como os ombros e no joelho havia algumas escoriações. Ela não podia simplesmente lhe contar que gostava de escalar casas e prédios para ouvir tudo o que se passava ao redor.

– Nada demais. E você?

– Ah... – Ana soltou um suspiro. – Tenho aulas de canto, dança, costura, etiqueta e todas essas chatices.

– Uau! Sua vida é terrível.

Para Kenway aquilo parecia um calvário. Viver sobre regras de como se comportar, como comer, como falar etc. Aprendera a cantar música de piratas e a comer com as mãos e talheres simples. A costura que sabia fazer era para remendar velas e bandeiras e se comportava como uma pessoa livre.

– Bom, podemos conversar sobre qualquer coisa que quiser.

– Estás a falar sinceramente? – Ana se virou com os olhos brilhando em direção a sua amiga.

– Sim. Por que não estaria? Do que gostaria de conversar? – Jenny lhe sorriu animada.

– Conte-me como é o mar.

– Imenso, azul e cheio de perigos. Com animais enormes e sangrentos. Certas vezes pode-se ser pego em meio a tufões revoltosos e tempestades que te fazem duvidar da existência de um sol. O mar é cruel, mas também é bondoso. Possui corais coloridos com infinitos peixes e ouriços. Uma sociedade de águas-vivas. E caminhos tão secretos que levam a tesouros já perdidos e esquecidos. Há fantasmas daquelas de naufragaram sobre suas águas, batalhas navais e ilhas belíssimas. Cheias de verdes, frutas ácidas, animais diferentes, pessoas livres e rum.

A essa altura a menina já estava em pé, proclamando as belezas e perigos da vida de alguém que vive no mar, que vive a viajar.

– O que é rum?

– Meu pai diz que é o combustível dos homens. – Ela deu de ombros, demonstrando não ter explicação melhor que aquela.

– Oh! Você parece tão apaixonada pelo mar tanto quanto aquelas meninas são apaixonadas pelo príncipe.

– Nenhum príncipe me daria tantas coisas quanto o mar.

– Talvez um príncipe dos mares.

– Talvez alguém como meu pai.

– Mas seu pai não vive mais no mar.

– É. – Jenny abaixou a cabeça e os ombros.

Percebendo a tristeza que o comentário causara na amiga, Ana resolveu mudar o assunto.

– Hey. Gostaria de ir visitar minha casa hoje?

– Mas você não tem aula disso e daquilo?

– Tenho, mas ao entardecer eu sempre estou livre. Seria-me uma honra e um agrado.

– Combinado. Apenas diga-me onde mora.

Desta forma, naquele mesmo dia ao entardecer Jenny foi por cima dos telhados e trajando suas vestes simples e gastas até a área nobre, até a casa da família Winsdor. Pelo lado que já era encoberto pela sombra da noite que se aproximava, Jenny se esgueirou e desceu a partir das janelas, segurando-se nos beirais. Na primeira janela aberta que achou entrou. Estava em um salão circular rodeado de livros, uma mesa no centro possuía pergaminhos, papiro e tinta. No lado noroeste da sala um par de portas estava fechado e era a única saída e entrada do local, aparentemente. Sem fazer barulho, ela caminhou até lá e abriu a porta lentamente. Bisbilhotou o corredor longo que seguia a sua frente, havia alguns vasos bonitos sobre mesas de mogno dispostos até o final. Duas portas eram visíveis do lado esquerdo e do lado direito janelas davam vista ao jardim interno da mansão. O fim do corredor levava a uma escadaria. Jenny não fazia ideia de onde sua amiga pudesse estar, sua casa era enorme e ela estava vestida como um menino pobre. Seus cabelos castanhos estavam escondidos sobre uma boina mofada, o suor e poeira criaram uma crosta de sujeira na face e nada poderia distingui-la de um pequeno ladrão. Ela foi até a primeira porta a sua esquerda, encostou a orelha sobre a mesma e esperou. Nada. Foi até a segunda e fez o mesmo. Nada. Receosa de ir até a escada, ela respirou fundo, como se o oxigênio pudesse inflamá-la com coragem e iniciou o curto trajeto, mas logo se ouviu vozes e ela voltou como um rato fugido para a sala da biblioteca. Deixou a porta aberta apenas o suficiente para que pudesse ouvir claramente.

– Está certo senhorita. Eu a avisarei caso alguma menina Jenny chegue. Agora vá se preparar para o jantar. – Alguém proferiu com formalidade.

– Obrigada, Maria.- Respondeu Ana.

Jenny distinguiu passos ecoando pelos degraus da escada abaixo e o bater da porta que ela calculou seria da porta mais próxima a escadaria. Passado o susto, seu coração se acalmou e ela voltou a ganhar o corredor e sem delongas correu até a segunda porta a sua esquerda. Sem bater ou mostrar qualquer educação, Kenway virou a maçaneta e adentrou.

– Ana?

A menina estava sentada frente a penteadeira e escovava os longos cabelos loiros. Ela largou a escova no chão e arregalou os olhos.

– Como entrou aqui? – Ela se levantou apoiando-se sobre a mesa que sustentava o espelho a sua frente.

– Pela janela. – Jenny fez menção de se aproximar. Mas Ana ainda não percebera que era aquele visitante, e virou-se assustada.

– O que queres? Dinheiro?

O mendigo, ou melhor, Jenny franziu o cenho e só então se vislumbrou no espelho atrás da amiga. Estava aos farrapos e imunda. Percebera a confusão de criara.

– Sou eu. Jenny. Disse que veria ao entardecer. Mas ao que parece, preciso de um bom banho e não poderei demorar. – Ela abriu os braços em uma tentativa de se apresentar e mostrar que não representava ameaça alguma.

– Jenny? – Ana se aproximou. – Por que está vestida desse jeito?

– Ah... – Kenway vasculhou a mente em busca de uma boa resposta. – É que...

– Você parece um menino das baixadas.

– Isso! É um disfarce.

– E por que precisa estar disfarçada?

– Ora – Ela sorriu maliciosamente. – Para ouvir coisas. Ninguém liga para um garoto pobre e sujo pela rua. – Ela pensou sobre o seu segredo e ponderou que sua nova amiga era confiável bastante. – Vou lhe contar um segredo.

Ana se aproximou e Jenny lhe encostou os lábios na orelha da menina.

– Eu subo nos telhados para ouvir os segredos das pessoas.

Desta vez foi Ana que riu sem se reprimir.

– Do que está rindo? É verdade.

– Por que uma menina faria isso?

– Para descobrir coisas que podem me ser útil. Sabia que o padeiro em frente à Rainha Catelyn vende pães dormidos alegando serem frescos?

– Não.

– Pois eu sei.

– O que mais você sabe?

– Muitas coisas. Mas não há temo hoje. Preciso ir embora.

– Eu te acompanharei até a saída.

– Não precisa. Eu vim pelo telhado.

– Isso não pode ser verdade.

– Então veja.

Jenny venceu a pequena distância até a janela do quarto de Ana, abriu as placas de vidro contornadas de madeira e subiu em seu parapeito, usou as armações de madeira e se ergueu para erguer e acenar.

– Nos vemos amanhã.

Com isso ela escalou a madeira que prendia o vidro da janela e se lançou até o telhado. Ana correu até a janela e olhou para cima. Viu sua amiga correr até a árvore que permanecia na fronte de sua casa. Jenny pulou para um de seus galhos e sumiu por entre as folhas para aparecer segundos depois caindo no telhado da casa mais a frente através de outro galho. Assim ela correu para o próximo telhado até sumir de vista.