Assassin's Creed: Omnis Licitus

47 Reencontros e Despedidas


Notas iniciais
UFA! Depois de quase uma semana escrevendo, reescrevendo, lendo e pedindo muito consultoria à BadWolf que merece devidamente seus créditos aqui, está pronto o capítulo que inicialmente seria o último dessa fanfic e ele está ENORME! Foi muito divertido, mas ao mesmo tempo muito complicado escrever sobre esses dois convivendo. Tomei certas liberdades aqui e ali, mas acredito do fundo do meu coração que assim foi melhor.

— Não lhes diga nada, eu irei me encarregar de falar com os espanhóis, por nós dois. — Disse-lhe Haytham ao chegarem nos primeiros degraus da escadaria de pedra.

— Eu posso responder por mim mesma.

— Sei que pode, é só que eles irão me obedecer e acreditar em mim por estarem sob meu comando.

Jenny o encarou com a forte sensação de ter ouvido uma desculpa esfarrapada qualquer, mas antes que tivesse a oportunidade de responder-lhe, alguns soldados Espanhóis aproximaram-se e seu irmão e logo os repeliu com ordens e instruções ao passo que seguiam para o centro do pátio.

Um cavalo forte e descansado foi guiado por um soldado até seu superior e posteriormente Haytham o montou com elegância. Jenny o observava incrédula, seu pequeno irmão não só havia se tornado um homem, como também era um homem respeitado, ainda que fosse na Ordem dos Templários.

O Kenway estendeu a mão à irmã e ela vendo-se em meio a território hostil, não teve outra escolha se não aceitar e montar no mesmo cavalo.

— Fique com as pernas do mesmo lado. Eu vos disse que a levaria em segurança de volta para casa, pois estava indefesa e por isso preciso que mantenha sua atuação por um pouco mais de tempo. – Cochichou Haytham na orelha de Jenny que lhe respondeu com um singelo aceno de cabeça. – Ótimo.

O jovem incitou o cavalo quando os soldados abriram os portões do acesso principal do Forte e em seguida os irmãos Kenway iniciaram a trote moderado seu caminho para longe do local.

— Você realmente não confia em mim, não é? – Ela o questionou quando perdeu a imponente construção de vista.

— Você nunca me deu motivos para confiar.

— Bom, você terá sua prova quando chegarmos até Birch.

— Ele não está na Espanha e sim na França. Em sua casa de veraneio. Se esteve seguindo pistas até aqui, então não passavam de meus próprios rastros.

— Matou o homem do mercado então? – Ela o fitou ao se lembrar dos testemunhos que ouvira no dia anterior.

— Matei um traidor do mercado. O que vocês fazem quando algum Assassino vende informações sobre a irmandade.

Jenny não havia conhecido um traidor, ou mesmo havia ouvido falar de algum se não o velho mentor da época das Cruzadas e é claro o homem que seu próprio pai havia matado em uma ilha deserta onde conheceria Stede Bonnet.

— Curioso você dizer isso, afinal papai fez o mesmo, mas não com as mesmas intenções é claro.

— Você me odeia pelas aulas de esgrima, mas foi a você que ele contou tudo. Foi em você que ele confiou afinal.

— Ele lhe contaria tudo quando tivesse idade para entender, talvez em três ou quatro anos depois de sua morte. Mas eu não poderia nutrir esperança alguma quanto a qualquer treinamento.

— Ele lhe ensinou a navegar. – Haytham fitou o céu de azul claro que aquela tarde lhe proporcionava e sentiu a leve brisa balançar alguns poucos fios negros de seu cabelo.

— Talvez ele não quisesse que você partisse, além do mais em que situação ele poderia me ver liderando uma embarcação? – Jenny fez uma pausa, mas nenhuma resposta veio por parte do irmão. — Ele me ensinou com a certeza de que eu nunca colocaria em prática. O mesmo não pode ser dito quanto a seu treinamento.

Ambos ficaram em silêncio, mas certos de que pensavam na mesma pessoa e em como era a vida ao lado de um homem de tantas facetas como Edward Kenway.

— Você o odeia? – Haytham a perguntou em um tom baixo e melancólico, pois sua irmã teria de fato razões para odiar o pai.

— Faria diferença a essa altura? – Eles se calaram por um tempo, apenas com o som dos cascos do cavalo a seguir pela estrada diariamente usada por comerciantes e moradores das redondezas. Ele se perguntava o que aquela resposta deveria parecer, se era algo negativo ou ela apenas queria evitar o assunto.

– Não. Ao menos não mais. – Jenny complementou ao perceber que não havia motivos para omitir aquilo de seu meio irmão.

— O que te fez mudar de opinião?

— Meus filhos.

Ainda que tenha um alto grau de educação e elegância, Haytham não conseguiu reprimir o espanto ao ouvir a palavra “filhos” deixar os lábios de sua irmã.

— Então.... Então há outros Kenway?

Mas para o fim de sua momentânea felicidade, ela negou com a cabeça. – Eles morreram há dois anos. Começo a achar que é algum carma de nossa família, meus avós perderam meu pai para o mar e para o credo. Meu pai perdeu anos de minha existência e depois perderia a chance de te ver crescer ao morrer e bem, eu perdi as pessoas que mais amei na vida.

— Eu sinto muito. – Ela não lhe respondeu nada e ele prosseguiu. – Gostaria de tê-los conhecidos. Quais eram seus nomes?

— Nala da mais velha e Edward do bebê.

— Nala? Casaste com um estrangeiro? Um outro Assassino?

Jenny ergueu a face para seu irmão que se concentrava no caminho a sua frente e por um breve momento ela refletia sobre como seria a reação de seu irmão ao saber de tudo pelo o que havia passado.

— Sim, um estrangeiro. Mas não um membro oficial da Ordem, assim como eu.

— O que quer dizer?

— Quero dizer que não pode me chamar de Assassina. Não sou um membro oficial como meu pai era.

— Você é algum tipo de aluna?

— De certa forma.

— O que pode ser de alguma ajuda. Não há ordens para buscar nenhuma Assassina seja aqui ou em Londres, logo será mais fácil viajar com você desde que se comporte feito uma dama.

A loira arqueou a sobrancelha e analisou as palavras de seu irmão. – Uma dama? O que tens em mente?

[#]

Quando seus olhos vislumbraram o espelho a sua frente, ela tinha a certeza que estava observando outra pessoa e não ela mesma. O vestido elegante era pesado e quente, mas ao menos seu irmão teve o bom senso de lhe escolher um modelo de mangas largas. Sua cintura estava apertada ao máximo enquanto seus pés ainda tentavam se adaptar aos sapatos luxuosos. Seus cabelos lavados e penteado estavam ligeiramente presos e ondulados nas pontas. Havia também toda a maquiagem que as servas insistiram em passar após o banho, pareciam até mesmo alegres em ter tal tarefa.

Duas batidas na porta quebraram o transe que seu reflexo lhe causou por instantes e de seguida veio a voz de Haytham.

— Elas disseram-me que já haviam acabado com todos os preparativos.

— Entre.

Com um click a maçaneta se abriu e o jovem Kenway sorriu ao se deparar com o belo trabalho feito pelas jovens a qual ele pagou para que arrumassem sua irmã feito uma nobre.

— Papai estaria orgulhoso de você. – Ele disse com um sorriso debochado nos lábios.

— Isso é o que você chama de preparativos? – Ela se virou e expôs toda a parte frontal de seu traje digno de uma princesa. — O que disse a elas sobre mim?

— Nada específico. Apenas lhes paguei e solicitei que a arrumassem feito uma nobre.

— De certo elas deram por mim como alguma pretendente sua.

— Eu não poderia dizer que é minha irmã. A notícia poderia se espalhar e não queremos alertar ninguém de sua presença.

— Então qual é o seu plano?

— Levá-la sobre um nome falso durante a viagem. Agora és uma nobre dá família Rueda e eu estou encarregado de levá-la para a França em segurança. Partiremos pela manhã em uma carruagem confortável.

— Demoraremos semanas se formos de carruagem.

— Não posso cavalgar com uma mulher do meu lado sem levantar suspeitas quanto sua identidade. Ainda mais com as roupas que estava vestida. – Ela lhe lançou aquele velho olhar conhecido de ódio a ele que tratou de mudar de assunto rapidamente. – Não se preocupe quanto o tempo, não há ninguém que conheça os planos de Reginald Birch melhor do que eu. Sei que ele permanecerá lá por algum tempo ainda. Agora vá descansar e prepare-se para nossa longa viagem.

Na manhã seguinte, a loira repetiu todo o doloroso processo de vestir aquelas três camadas de roupa, prendeu suas madeixas e pegou a sombrinha bordada para deixar a segurança do alojamento que seu irmão providenciou e que ela sabia não ter sido barato. Por fim, sua Hidden Blade foi presa no pulso direito e ela calçou os sapatos de saltos barulhentos.

Para certo divertimento de sua parte, ela encontrou o irmão elegantemente parado na porta do casarão a lhe esperar. Haytham estendeu a mão e ela a segurou com o leve toque de sua luva de ceda branca.

— Devo dizer que está encantadora.

Alguns homens que tratavam do carregamento da carruagem na rua passavam próximo a eles e sempre haveria servos por de trás de paredes e portas escutando o que seus patrões diziam para aumentarem em fofocas posteriormente.

— Gracias.

— A propósito tenho um presente para você, vire-se por gentileza.

Jenny o interrogou com o olhar, mas ele apenas confirmou seu pedido com um breve menear de sua cabeça. Ela sabia que o meio-irmão estava achando muita graça em todo aquele teatro. Sem ter como rebater, ela fez como pedido e virou-se de costas. Com delicadeza, Haytham afastou os cabelos que lhe recaiam sobre os ombros e a frieza de um metal tocou sua pele quando ela viu o brilho de uma joia que adornava um colar. Com desgosto, ela percebeu ser uma cruz Templária. O maior símbolo da Ordem presa em seu pescoço.

Com um falso sorriso, Jenny tornou a ficar frente a frente com Haytham, que sustentava um sorriso vitorioso na fase. Ela dirigiu-se para porta e quando ouviu a voz do irmão para lhe falar qualquer coisa, abriu a sombrinha e a apoiou sobre os ombros, bloqueando assim, o contato visual de ambos.

Tendo já entendido a mensagem dela e com sua cota de divertimento já concluída, ele se apressou para tomar a dianteira de Jenny. Como um bom cavaleiro, ele se prostrou a frente das portas da carruagem e auxiliou a subida de sua irmã para o interior, subindo ele mesmo logo após. O veículo era discreto com cortinas nas janelas que impediam que quem estivesse de fora visse o interior, além disso, era deveras confortável.

Os cavalos foram incitados e a carruagem começou seu percurso pelas ruas movimentadas da Espanha, as quais Jenny observava com gosto, afinal ela nunca antes havia estado naquele país e a presença de seu irmão ali lhe permitia o luxo de relaxar ao menos que um pouco. Sem se preocupar com armadilhas ou ataques surpresas por conta de Templários.

Haytham, já mais acostumado ao país, demonstrava menos interesse pelo exterior, mas não pela mulher a sua frente. Tão estranho era ver sua irmã depois de tantos anos, não mais uma moça e sim uma mulher com cicatrizes adquiridas ao longo da vida, sejam estas internas ou externas. Mesmo vestida elegantemente, ela ainda exibia as características de seu pai, como a pele bronzeada pelo tempo em alto mar. Os cabelos cor de palha e queimados. Se ela tivesse nascido homem como ele, certamente seria a perfeita cópia do pai.

As casas e comércio começaram a diminuir em número pelas vias e a estrada de terra substituía as pedras da cidade. Os Kenway adentravam cada vez mais o interior da Espanha, tendo árvores e vegetações diversas a lhes preencherem o campo de visão. Por isso, o jovem julgou estarem a uma distância segura para voltar a dirigir a palavra à sua irmã e em inglês.

— Eu... – Ela rompeu o transe que as paisagens lhe incumbiam e fitou o irmão. – Eu quero saber quem meu pai era realmente.

Jenny se ajeitou sobre o assento e surpreendentemente, ela mantinha a postura ereta de uma dama de alta sociedade. Seus olhos encararam os dele, não com raiva como ele estava acostumado ou mesmo desdém e sim com compaixão.

— Não olhe para mim como se eu ainda fosse um menino.

— Desculpe... – A loira desviou o olhar para os campos esverdeados e floridos no exterior, parecia estar revendo tudo em sua memória. – Por onde devo começar?

— Como nosso pai virou um Assassino?

A mais velha respirou profundamente, preparando-se emocionalmente para reaver tudo. Todas as memórias que seu pai lhe passou. Todas as informações que conseguira através de suas cartas e tudo mais que Adewale e principalmente Anne Bonny lhe contaram.

— Em meio uma tempestade, o navio dele foi encontrado e atacado, ele já não era um corsário e sim um pirata, mas seu navio não resistiu à investida adversária e afundou. Os tubarões estavam ocupados comendo os mortos e os mutilados. Os ferimentos deles eram leves e por isso conseguiu nadar até uma praia, no Cabo Bonavista. Ele não foi o único a chegar lá, pois do navio adversário estava o Assassino Duncan Walpole...

Haytham ouvia atentamente, mal piscava enquanto ela parecia ter um olhar vago, de certo estava a reviver o momento que ela mesma ouvira aquilo pela boca do próprio Edward Kenway.

[#]

Com o cair da noite, o jovem providenciou quartos para ambos em uma estalagem muito conhecida e que comumente era usada por comerciantes que podiam pagar pela cama quente e a comida de aroma agradável. Não era algo com a qual ele realmente fazia questão, mas não poderia permitir que sua irmã dormisse em uma espelunca com pulgas. Adicionando o fato de que para todos, Jenny era na verdade uma Rueda.

Contudo, ele muito apreciou a comodidade e o calor proporcionado pela lareira que havia em seu quarto. Com os pés descalços e o chapéu de lado, Haytham refletia diante das chamas que crepitavam e dançavam. Absorvia vagarosamente as palavras que ele ouviu naquele dia. Os relatos de assassinatos, os saques e mesmo a vida vil que seu pai levou por anos. Acordando em um bordel diferente todos os dias.

A porta rangeu e findou seus pensamentos, fazendo-o se virar já com a mão na espada, mas era sua irmã. Sem o vestido volumoso, a maquiagem e sem sua Hidden Blade. Uma camisola, também providenciada por ele, era tudo o que cobria o corpo dela. Seus pés igualmente descalços a levaram até ele enquanto ele repousava a espada de lado.

Jenny sentou-se ao seu lado, em um contato maior do que eles jamais tiveram. Seus olhos fixos no fogo tal qual ele estava. E em seu pescoço ainda ardia o vermelho da cruz Templária que ele lhe deu, o que lhe deixou curioso.

— Pensei que o jogaria fora na primeira oportunidade que tivesse. – Ele comentou calmamente a ela.

— Você a guardava para alguém especial? Alguma garota?

— Não, mas os Assassinos não são os únicos a guardarem relíquias.

Ela concordou, sem gracinhas ou qualquer resposta jocosa. Jenny estava cautelosa e ele sabia o motivo.

— Por que veio aqui? Podem criar boatos se a virem visitando-me no meio da noite sozinha. Lembre-se ninguém sabe que somos irmãos.

— Vim ver como você estava.

— Não sou um menino ingênuo. Posso lidar com tudo isso.

— Não duvido que possa, só espero que seja da maneira correta. – Jenny por fim olhou para ele que ao perceber a atitude, lhe retribuiu o gesto. – Eu já o odiei por ter deixado a minha mãe, por ter ido para Londres e até por ter se casado e ter tido você. Oh, Deus sabe o quanto odiei os dois. – Ela recolheu as pernas para cima do sofá e as abraçou. – Eu pensei por anos que eu poderia ter ajudado, eu poderia ter impedido que ele morresse se ele tivesse me dado essa chance. Então, tudo mudou depois de Nala.

— Ela era como você?

— Um pouco... Para ser sincera ela tinha um nariz muito parecido ao seu. – Um singelo sorriso desenhou-se nos lábios da loira, de maneira quase imperceptível. – Ela não era branca, pois seu pai era um ex-escravo. Ele me ajudou a partir de Londres, me ajudou a treinar e até me defendeu em Portugal. Depois de Anne Bonny, ele era tudo o que eu tinha na vida

— Tenho certeza que era uma menina adorável. Mesmo que tivesse seu gênio forte.

Os dois se permitiram rir naquele instante único que ambos estavam vivendo, algo que nunca poderia ter sido imaginado nem por um quanto pelo outro quando ainda viviam juntos.

— Ele não me deu a chance de ser uma Assassina para que outra porta se abrisse a mim. Ele não me queria nessa vida de dor e perdas, mas sim em uma vida pacata e segura, como deveria ter sido para ele com Tessa.

— Seus filhos, o que aconteceu a eles?

— Vivíamos em uma tribo que servia como um refúgio para negros, um lugar escondido nas matas. Mas algumas atitudes denunciaram nossa localização e fomos atacados.

— Templários?

— Não sei te dizer, a maioria era de soldados seguindo ordens pelo bem de seus empregos. Além disso, parece que nem todos os Templários são homens maus.

Jenny se levantou e caminhou rumo à porta com o olhar de seu irmão sobre si. Quando seus dedos recaíram sobre a maçaneta, ela olhou uma última vez para ele e lhe sorriu gentilmente. — Nosso pai não tinha um passado louvável, mas isso não diminuía suas qualidades, lembre-se disso.

Ela se foi, deixando para trás um Haytham tão pensativo quanto antes, ele precisaria de tempo para aceitar e conviver com o conhecimento que ela compartilhava aos poucos com ele.

A Kenway repetiu todo o processo de se vestir e de se maquiar na manhã seguinte para encontrar seu irmão no desjejum que compartilharam quase que em completo silêncio se não fosse pelo simplório “Buenos Dias” de ambos. Sem delongas, eles voltaram à carruagem para partirem cada vez mais para o norte.

— Se me permitir, estou curiosa para saber o que Birch faz na França. – Ela o questionou assim que perderam de vista a casa onde pernoitaram.

— Estudando. Um assunto que sei também ser recorrente entre os Assassinos. Birch procura por artefatos místicos que ele diz terem estado na possa de Assassinos como Altair e Ezio di Firenze.

— Ele nunca te questionou quanto o Observatório?

— Já. Mas eu sabia tanto quanto ele sobre isso. — Ele hesitou por um instante, seus lábios se afastaram e fecharam, parecia procurar as palavras certas a dizer. – Você.... Você já esteve nesse lugar?

— Não. Mesmo entre os Assassinos tal local é um segredo e só há duas pessoas que realmente sabem sua localização. Eu sou uma delas é até onde sei o velho Mentor já pode estar morto depois de tanto tempo.

— E acredita que seja realmente algo de tamanho poder?

— Acredito. Meu pai podia ser um bêbado, mas não era mentiroso.

Eles se entre olharam e um silêncio natural recaiu no interior da carruagem, mas não por muito tempo.

— Bom, eu ainda tenho muito a descobrir não?

— Sim, é verdade. Onde parei ontem? Ah sim, Mary Kid, uma mulher que merece respeito.

Os dias se passaram nessa rotina familiar, onde Jenny apresentava cada pirata a seu irmão e também cada morte. Cada ilha paradisíaca e seus muitos perigos. Até que após quase uma semana em sua narrativa restava apenas Adewale, Ah Tabai, seu pai e Anne Bonny vivos.

— Então, quer dizer que meu pai poderia não ter se casado com a minha mãe se essa mulher tivesse partido com ele?

— Bom, ela poderia ter sido sua mãe e você provavelmente teria cabelos vermelhos ou loiros como o meu. Mas ela dizia que foi a decisão mais acertada se separarem.

— Pelo jeito que você a descreve, não tenho certeza se meu pai pensou o mesmo.

— Ele pensou, afinal ele poderia ter voltado e ficado com ela e ele teve essa oportunidade.

— Você me disse que ele nunca mais voltou ás Bahamas depois que partiram.

— Sim, e é verdade. Mas um Templário sobreviveu e refugiou-se nas colônias inglesas mais ou norte. Nosso pai era orgulhoso demais para deixar um trabalho inacabado, então ele foi atrás dele e no caminho encontrou Anne. Você tinha por volta de quatro anos e foi a última viagem longa dele. Ele nunca mais quis partir para tão longe, e ela dizia que ele já tinha raízes fortes em Londres.

— Não foi ele quem te contou isso não é mesmo?

— Bom, há certas coisas que nem mesmo a mim ele confiou, não era um assunto a ser tratado ainda mais já casado com a sua mãe.

— Meu pai ficou com ela mesmo casado?

— Ele não sabia da morte da minha mãe quando ela foi sua contramestre também, talvez você o entendesse se a tivesse conhecido. – Haytham arqueou a sobrancelha e ela percebeu nitidamente o quanto ele estava incomodado. – Ou talvez não. Mas chegamos no momento que eu o conheci e tudo era novo para mim...

Jenny manteve a narrativa até o marco do início da vida de seu pai em Londres, que fora o casamento de Edward com Tessa. A partir daí tudo o que ela sabia foi contado por Miko, sobre como eles iniciaram a Irmandade Inglesa e como seu pai manteve pouco contato com os Assassinos das Bahamas. Naquela tarde ela chegou ao fatídico dia que Edward seria morto.

— Se eu ao menos soubesse o motivo da discussão entre Birch e meu pai na noite anterior... – Haytham proferiu mais para o vento do que para a irmã.

— Discussão? – Ele a encarou por um instante antes de falar, havia pesar em seus olhos cinzentos quando suas palavras saíram da boca.

— Sim, na noite anterior eu pude ouvir meu pai e Reginald com as vozes alteradas, tenho certeza de meu pai tê-lo mandado embora, pois assim ele o fez. Então, quando eu o vi no ataque a matar um dos invasores, tomei como errada a decisão do meu pai.

— Tudo está para acabar em breve, verás.

Haytham nada lhe respondeu, afinal não havia certeza de nada ainda, apesar de sua leve inclinação a acreditar nela. Jenny nunca lhe pareceu tão sincera na vida, sem máscaras ou sarcasmo na voz. Pela primeira vez na vida, ele a via até mesmo relaxada, sem obrigações como costurar ou tocar piano feito uma dama. Mas ainda havia doze anos entre eles que ele de nada sabia.

— E quanto a você? Por onde estava por todo esse tempo? — A atenção de Jenny que estava voltada para o campos e pequenas casas pelas quais passavam entre o titubear da carroça sobre a estrada irregular foi direcionada até o irmão. – Sei que não era possível você navegar com o Gralha sozinha.

— Bom... Anne Bonny estava na Irlanda a espera de Adewale, ele estava a caminho de Londres para encontrar o nosso pai, mas eu fui no local do encontro e parti com ela comandando sobre uma meia dúzia de homens que ela conseguiu. Entre eles Sexta-feira...

— Por isso sua moderação quanto o relacionamento de nosso pai com ela.

— Um dia você irá encontrar alguém que irá te fazer repensar sobre suas diretrizes, meu irmão. Mas se ainda desejar saber, fui para as Bahamas onde aprendi a lutar e por em prática os ensinamentos de navegação...

Ainda restava uma boa distância até a chegada à casa de veraneio de Reginald Birch, quando Jenny apenas contava de forma resumida ter recebido informações de movimentação Templária no porto de Londres. Toda sua fuga e principalmente seu contato com Miko fora omitido, visto que ele ainda era o Mentor da Ordem Assassina Inglesa. Sua Hidden Blade, as cartas e os mapas foram encontrados no secreto cômodo da casa dos Kenway na Queen Anne Square no que ela dizia ao irmão.

No dia seguinte, o velho cocheiro informou a seu irmão que haviam adentrado território francês, fazendo a dupla relembrar as velhas aulas de francês que tinham em Londres. Desta vez era Jenny que tinha a vantagem, pois na casa dos Windsor, sua amiga Ana recebia aulas extras devido o interesse de seu pai em lhe casar com Philip Bourbon.

[#]

A vida em uma família rica exigia certas obrigações, mas também proporcionava pequenos prazeres como um jantar fino e caro. Um quarto extenso, com cama confortável, lareira, sofás e mesmo uma banheira. Havia até servas para lhe ajudar a se trocar ou mesmo esfregar suas costas. Mas a loira pouco solicitava ajudava devido o costume de se virar sozinha. E depois do jantar daquela noite fresca de primavera, ela se deleitou ao retirar o vestido pesado e banhar-se. Contudo durante o banho, seus pensamentos permaneciam em seu irmão e em como ele estava recebendo tanta informação em tão pouco tempo. Mas de todas as suas dúvidas a pior era sobre o que ele faria quando concluíssem a missão dela.

Como que ouvindo seus questionamentos, um par de batidas na porta rompeu o silêncio local e ela rapidamente teve que deixar a banheira de lado. – Haythan?

— Sim, precisamos conversar.

— Espere um pouco. – Jenny secava seu corpo enquanto procurava às pressas uma camisola para vestir quando ouviu o girar da maçaneta. – Haythan!

— Não há motivos para se enfeitar dentro do quarto, Jenny... – Mas uma toalha lhe atingiu a face assim que ele passou porta adentro.

— Eu estou sem roupas! Onde está sua educação e sua paciência?

Jenny não podia ver, mas o irmão estava tão vermelho quanto uma pimenta e virou-se imediatamente de costas, mantendo os olhos fechados todo o tempo. – Desculpe.

A mais velha já descia por sobre o corpo sua vestimenta para dormir e um longo robe por cima. – Tudo bem, pode se virar. — Com um pigarro forçado, ele se virou enquanto olhava para qualquer coisa que não fosse a irmã. – Estou devidamente vestida.

— Bom, sendo assim, melhor que sejamos breve.

— O que é tão urgente?

— Estamos próximos e precisamos organizar nossa abordagem de maneira que não levantemos suspeitas. Por isso irei te apresentar como minha noiva e por isso irei levá-la a ele. Para que possas receber sua aprovação.

A loira tinha a sobrancelha arqueada e os dedos levemente recostados sobre os lábios enquanto disseminava o plano. — Disse-me antes que não havia uma garota, ele poderá desconfiar que há algo estranho.

— Você é uma Rueda, uma família com recursos que podem ajudar os Templários. Além disso... – Ele tossiu e desviou o olhar dela antes de terminar sua explicação. – Sua beleza, é bem chamativa.

— Devo considerar isso como algum tipo de elogio?

— Se Reginald Birch se convencer que é uma boa pretende seja pelo dinheiro ou qualquer outro motivo, então ele não desconfiará de nada. Há muitas jovens ricas solteiras, preciso de um motivo a mais para justificar um noivado repentino.

— São seus olhos. – Ela lhe respondeu ao reprimir um riso sarcástico enquanto Haythan lhe encarava seriamente, até ela suspirar. – Não se preocupe, ainda posso me recordar das tediosas aulas de etiqueta e me portar feito uma boa pretendente.

— Ótimo. Chegaremos lá com o sol alto amanhã e ele provavelmente já sabe de minha repentina volta, por isso preste atenção em como agiremos...

Os irmãos Kenway passaram mais algum tempo planejando como deveriam se portar e o que falar quando dentro das propriedades de Reginald Birch. Para Haythan seria como todas as outras vezes, mas para Jenny, aquele encontro havia um outro significado. Seria o fim de sua jornada pela vingança.

A loira não conseguiu pregar os olhos depois que seu irmão a deixou, o que exigiu mais maquiagem sobre a face para lhe dar o ar saudável que as moças gostavam de passar com suas bochechas rosadas. Por indicação de Haythan, ela escolheu o vestido mais caro que ele havia lhe comprado. Uma peça vermelha para combinar com o pingente que reinaria solitário em seu colo nu, visto que o vestido deixava seus ombros expostos. Os cabelos estavam presos em um coque e os pés seriam calçados por sapatos silenciosos e sem salto, caso houvesse necessidade de uma fuga. No pulso direito sua Hidden Blade era ocultada pela manga larga do vestido.

Como nos últimos dias, Jenny encontrou seu “noivo” a sua espera no saguão de entrada para juntos desfrutarem de um desjejum. Apesar desses momentos lhe exporem a olhares sempre curiosos, a loira concluiu que qualquer que fosse a senhorita que um dia viria de fato atrair a atenção de seu irmão, seria uma moça de sorte.

Já alimentados, eles partiram, desta vez sem bagagens ou qualquer suprimento, visto que estavam há poucas horas de chegarem ao destino final.

A casa de Veraneio de Reginald Birch era belíssima, possuindo um grande território a céu aberto que possuía até bonitos jardins. Ninguém poderia dizer que ali vivia um assassino.

Alguns servos, que Jenny percebeu estarem armados, se aproximaram quando viram a carruagem parar logo na entrada do local. Com o cenho franzido e cautela, aguardaram para ver quem eram os recém-chegados, e foi com sorrisos que acenaram à Haytham ao lhe verem sair primeiro. Mas um espanto lhes tomou ao ver o jovem estender a mão para mais alguém.

Dedos finos se seguraram no Kenway e logo Jenny veio à luz do dia em um misto de graça e elegância. O rapaz lhe auxiliou a descer da carruagem e despachou o veículo logo após. Os guardas vieram até seu encontro e com educação o cumprimentaram em inglês.

— Seja bem-vindo, mestre Kenway.

— Obrigado.

A dupla de homens direcionou os olhos para a acompanhante misteriosa e a cumprimentaram de igual maneira antes de abrirem caminho ao casal. Haythan conduziu sua irmã pela mão através dos jardins e do chafariz central que adornava a entrada do casarão. Já na porta desta, um homem de meia idade lhe atendeu com a feição neutra e um uniforme mais alinhado que os guardas de antes.

— Boa tarde, mestre Kenway. É um prazer tê-lo de volta. – Sua voz era retilínea e seu inglês impecável denunciava sua nacionalidade.

— Obrigado, Sr. Edmund. – Haytham se virou para a irmã e lhe apresentou. — Esta é minha noiva Daiana Rueda.

— É uma grande honra. – Ele se curvou perante Jenny e voltou à postura ereta e impassível de antes.

— Onde está Reginald?

— Sr. Birch está em seu escritório particular. Irei imediatamente anunciar vossa chegada.

— Oh não Edmund. Por favor, acomode a senhorita enquanto irei encontrar com Reginald pessoalmente.

— Sim, senhor. – Novamente o homem se curvou ligeiramente para frente e de seguida se virou de costas. — Acompanhe-me por favor.

Jenny trocou um último olhar com seu irmão antes de se pôr a seguir o homem que já tinha alguma distância de si, e ele apenas sinalizou para que ela seguisse Edmund. Contra sua vontade, ele o fez e partiu para o interior do casarão enquanto seu irmão subia a escadaria em forma curvilínea.

— Senhorita Rueda, posso lhe trazer um chá? – Ele disse enquanto transpassava por outra porta para chegar a um salão bonito com um belo vitral e um piano no centro.

— Não é necessário, obrigada.

— Devo elogiar o seu inglês. – Jenny parou e o encarou com o semblante sério. – Mas não é exatamente como o praticado na Inglaterra.

— Sim, é um pouco difícil.

A loira lhe esboçou um sorriso e dirigiu-se ao piano de cauda que ali repousava, fingindo algum interesse no mesmo.

— Se permite, irei tratar de minhas responsabilidades. — Ela lhe assentiu e o homem partiu por outra porta mais a frente.

Apenas por educação, Haytham bateu à porta e aguardou a autorização do Grão-Mestre Templário para que entrasse. Reginald estava sentada com uma pilha de papéis diante de si, estes que foram ignorados assim que o Kenway adentrou o recinto sempre bem alinhado de seu mentor.

— Boa tarde Haytham, é bom ver que seus assuntos na Espanha já foram resolvidos, mas devo dizer que estou surpreso por sua repentina volta.

— Sim, é verdade. Eu tão pouco esperava um retorno tão apressado de minha parte, mas as circunstâncias me obrigaram, de certo modo.

Haytham cruzou o escritório que era facilmente iluminado pelo sol, repleto de estantes de livros e artefatos antigos, outros curiosos. Objetos que pertenceram à antigas famílias adornavam a parede, tais como escudos e retratos.

— Soube que viajaste da Espanha até aqui acompanhado. O que não me surpreenderia em outras circunstâncias que não uma jovem bela e de classe. – Birch o encarou com um sorriso de satisfação no rosto e os dedos entrelaçados uns nos outros.

— E ela é o motivo que me trouxe até aqui.

Reginald se levantou e sorriu ao jovem que mantinha a feição séria. – O que teria essa moça de tão especial para fazer você correr de volta? Será ela assim tão bela a ponto de conquistar o melhor Templário que tenho sobre o meu comando.

— Tenho certeza que é uma jovem sem igual, irá se surpreender ao vê-la pessoalmente.

— Ora, então o que estamos esperando? Estou muito curioso.

Birch passou pelo rapaz e abriu a porta para que ambos partissem. Haytham o seguia dois passos atrás de seu mentor. Atento a qualquer sinal que ele pudesse dar de alguma suspeita, mas não houve qualquer movimentação que lhe pudesse indicar o menor indício de qualquer desconfiança do homem.

— Qual é o nome dela?

— Daiana Rueda.

— Uma espanhola? – O Grão-Mestre riu enquanto descia as escadas. – Temo que tenha comido muita daquela comida ardente deles e tenha se apaixonado.

O Kenway nada lhe respondeu, se limitando a segui-lo até o salão onde ambos sabiam que Edmund havia deixado a visitante. Sem delicadeza, Reginald abriu as portas do salão e o adentrou já com o olhar sobre a jovem que estava de costas. Sem ser percebido, Haytham fechou as portas atrás de si e as trancou.

— Buenas tardes. – Cumprimentou Reginald ao se aproximar dela.

— Oh não se de o trabalho, prefiro falar em inglês.

O homem desconfiou de imediato, mas quando Haythan passou por si ele tornou a sorri. – Uma jovem prendada esta que encontraste.

Jenny se virou e encarou o homem que lhe sorria tão abertamente. – Tenha certeza disso, mas duvido que seja da forma como imaginas. A propósito devo dizer que o tempo não foi gentil com você.

Reginald arqueou a sobrancelha e olhou para Haytham que estava próximo demais da outra porta. – Desculpe, senhorita. Mas creio que não nos conhecemos.

— Oh não. Estás enganado. Afinal, meu pai até mesmo queria me arranjar um casamento com você não se lembra? — O sorriso de Birch desapareceu e sua pele parecia um tom mais clara que o normal. Jenny soltou seus cabelos e os deixou caírem por sobre os ombros. — Estou mais parecida com eu pai agora não estou?

— Haytham, o que significa isso? – Ele confrontou o jovem que o fitava tão sério quanto antes.

— Sou eu que deveria lhe fazer essa pergunta. Todos esses a anos você me prometeu que a encontraria. Que procurava por pistas dela ou do Gralha, mas tudo era mentira.

— Eu cuidei de você por anos e é só chegar essa mulher contando histórias fantasiosas que você acredita nela? Ela odiava a você e sua mãe. Sempre fora uma garota problemática. Uma mancha deixada pelo seu pai ainda dos velhos tempos. – Reginald cuspiu ao chão com desdém.

— Não ouse falar do meu pai! – Reprimiu Jenny com a voz autoritária, mas ainda em tom discreto.

— Que gracinha, defendendo o bêbado e criminoso que era seu pai quando veio de Bristol. – O homem já com a voz alterado se voltou novamente à Haytham. – Eu ajudei o seu pai a conhecer a sua mãe. Eu o ajudei a se firmar em Londres e eu sou muito mais responsável pela boa vida que você teve do que seu próprio pai

— E o que ele ganhou com isso Haytham? Pense, o que um homem da estirpe dele ganharia ao ajudar um homem bêbado e criminoso, como assim ele gosta de se referir ao nosso pai?

— Eu era pago e não um falso bom samaritano.

— Aposto que usou dinheiro roubado pelo meu pai em seus negócios de Templários, talvez tenha até comprado essa bonita casa com ouro roubado. Tu não és ninguém para falar de meu pai, apenas um aproveitador barato que enganou um menino de dez anos.

Um estalo ecoou pelo salão quando com a palma da mão Birch atingiu a face de Jenny. Em um impulso natural Haytham se pôs entre os dois e segurou imediatamente o pulso do homem. Seus olhos cinzentos o encararam nos olhos dele e vagarosamente ele lhe dirigiu a palavra.

— Não toque nela novamente.

Reginald puxou seu braço de volta e se afastou dos irmãos. – É assim que irá agir? Depois de tudo o que lhe ensinei, da vida que lhe dei e é ela que irás defender? Uma Assassina que age contra tudo o que você acredita?

Jenny voltou a erguer a face após o impacto do golpe que ainda lhe causava certa ardência, contudo havia um surpreendente sorriso em seus lábios. – Como pode saber que sou uma Assassina se em nenhum momento mencionei isso?

Repentinamente Haytham olhou a irmã e em seguida para seu mentor que de furioso parecia agora temeroso, afinal, ela tinha razão. Em nenhum momento ele ou Jenny havia mencionado a palavrada Assassina, nem mesmo quando falavam de seu pai.

— Você sabia... – Disse Haytham, nitidamente com raiva em sua voz. – Sabia que ela estava com os Assassinos, sabia que havia partido com eles.... Você soube por todos esses anos e ainda sim.... Você é uma vergonha, não trabalha e nunca trabalhou em prol da Ordem, apenas em seus próprios interesses.

— A vida que lhe proporcionei foi um destino muito melhor que seu pai planejava.

— Uma vida construída sobre mentiras.

O tilintar da Hidden Blade soou e os olhos de Reginald logo recaíram sobre a lâmina que brilhava sobre o pulso da jovem que se aproximava feito um felino. – Não pode permitir isso, Haytham. Eu criei você! Você é o que é graças a mim e ninguém mais.

— Ela também é o que é graças a você.

Birch dava um passo para trás toda vez que ela dava um para frente, até que suas pernas se esbarram em alguns atiçadores ao lado da lareira e ele prontamente pegou um e empunhou feito uma espada de lâmina fina tipicamente francesa.

— Haytham, eu irei matá-la na sua frente para que vejas o quão tolo foi em vir até mim em busca de uma vingança patética. – O Grão-Mestre ajeitou a postura e apontou a ponta afiada do atiçador contra ela.

O Kenway não lhe respondeu, mas sua irmã investiu contra o homem que tentou se defender com sua arma improvisada, porém a jovem repeliu facilmente o golpe com a mão esquerda que ligeiramente segurou o pulso direito de Birch, fazendo pressão que os dedos deles se abrissem e deixassem o objeto pontiagudo cair ao mesmo tempo que sua lâmina perfurava o peito do Grão-Mestre Templário.

Um filete de sangue escorria pelos lábios dele enquanto suas elegantes roupas se manchavam cada vez mais de sangue.

— Devia ter mandado me matar quando teve a chance.

Jenny retirou a lâmina e já sentindo as forças lhe deixarem, Reginald apoiou-se na parede, sentindo os joelhos dobrarem e suas costas escorregarem até o solo, fazendo uma mancha de sangue sobre o bonito papel de parede.

Ela se virou e encontrou o irmão assistindo a tudo, ela não conseguia imaginar o que se passava na cabeça dele afinal. – O que farás agora?

— Reconstruir a Ordem.

— O quê?! Não pode estar falando seriamente.

— Jenny, não importa o que tenha me contados, eu já sou um Templário e isso não pode mais ser desfeito.

— Então é isso? Pretende me matar agora também?

— Você mesma disse que não é uma Assassina e pode continuar não sendo.... Volte para nossa casa em Londres. Poderá ter a vida pacata que desejou, sem guerras e vinganças. Ainda será uma Kenway e eu irei lhe dar a vida que merece depois de tudo isso.

— Aquela casa nunca foi o meu lar. – Jenny o encarou seriamente e se virou. – Nossos caminhos se separam aqui...

A loira foi em direção à porta e a destrancou para partir no silêncio gelado que havia agora entre ela e Haytham. Um abismo de ideais que nunca seria ultrapassado nem por um e nem por outro.

Notas finais
E então? O que acharam do fim dessa união e de Reginald Birch? Apenas posso assegurar que esta não será a ultima vez que esses dois irão se encontrar. E no próximo capítulo, teremos o próximo destino de Jenny e sua nova missão.