Assassin's Creed: Omnis Licitus
15 Rebel Tradition
Notas iniciais
A primavera veio e se foi, dando lugar ao verão abafado que antecedeu um outono pacífico até a chegada de outro inverno. As folhas secas que se aglomeravam no solo tornavam os passos de Jenny e Sexta-feira barulhentos ao longo da corrida de ambos até o local reservado onde Ah Tabai e Bonny estavam. Alguns iniciados os acharam em meio à mata lutando, ou assim eles pensaram devido a proximidade de ambos. “Bonny retornou e Ah Tabai os espera para tratar de assuntos urgentes”. Essa foi a mensagem passada para eles.
O casal correu até chegar ao interior das antigas ruínas Maias, entre as paredes desgastadas de pedra que eram iluminadas por tochas encontraram o Mestre Assassino junto à ruiva debruçados sobre uma mapa estendido ao longo de uma mesa de madeira rústica. Ela deslizava o dedo pela costa londrina, Jenny logo percebeu. Mas não demorou para que notassem a presença dos recém-chegados.
O local cheirava a poeira, mesmo que fosse bem arejado e habitado. A sensação claustrofóbica não agradava a jovem Kenway.
— Bonny!
Jenny a abraçou calorosamente, mal dando tempo para a assassina elaborar qualquer reação se não de retribuir o afeto. Ao se soltarem, a mais velha deu uma boa olhada na iniciada que parecia ainda mais com seu pai agora. Os músculos de seus braços e pernas não eram mais flácidos e sim bem definidos e rígidos. Os cabelos castanhos estavam amarrados, mas mantinham-se medianos. As sardas não eram mais visíveis na pele bronzeada dela. A silhueta tornara-se esguia e atraente.
— Jenny... É tão bom revê-la. – Seus olhos foram até Sexta-feira. – É bom rever-te também.
O rapaz apenas a cumprimentou com um leve aceno e um sorriso. Ele não estava tão diferente quanto da última vez que se viram. Ah Tabai não esperou por mais conversas e cumprimentos, dando início a reunião.
— Logo após a morte de seu pai, Jenny. Londres foi tomada por templários e era arriscado para qualquer assassino adentrar aquele território. – Com as mãos para trás ele rodeou o mapa, até ficar frente a frente aos jovens. — A última missão de Bonny era exatamente isso, conseguir penetrar em Londres em segurança e encontrar informações sobre o ataque.
Ah Tabai explicava tudo com o semblante sério, quase inexpressivo. Não havia pesar em sua voz ao mencionar a morte Edward, talvez ele não sentisse tanto a perda quanto Jenny e Anne. Mas certamente havia criado respeito para o mesmo.
— Não pude desembarcar com o Gralha na Inglaterra, todas as rotas estão muito bem vigiadas pela marinha, então fui para a Irlanda e consegui passagem segura junto com uma família nobre. – A ruiva piscou para a menina que reprimiu um riso. Era fácil imaginar como a assassina conseguia grandes favores.
— Parece que um bando grande de subordinados templários atacou a sua casa dois anos atrás. Seu pai matou um, e seu irmão mais novo matou outro...
— Meio irmão. – Corrigiu Jenny instantaneamente. Ah Tabai ergueu uma sobrancelha para a menina.
— Eu não encontrei esses homens em Londres, mas durante uma festa com alguns templários os ouvi comentar que tais pessoas espalharam-se em serviços diferentes. – A assassina não sorria como de costume, explicava a situação séria que mal podia se acreditar que aquela era Bonny. — Como se matar Edward tivesse garantido a eles uma promoção dentro da ordem dos Templários.
— Certamente matar o meu pai, mesmo que de maneira covarde valia uma grande premiação.
As palavras da Kenway carregavam nojo e desdém. Ela não conhecia aqueles homens, ela não conhecia os templários pessoalmente, mas ela já os odiava com todas as forças que podia reunir.
— Consegui a localização de um deles. Seu nome é Paul e está atualmente em Portugal, na corte para receber e passar as ordens inglesas para o Marquês de Pombal e certamente para o rei.
— Por isso os chamamos aqui. Achamos que deverias saber Jenny. – Ah Tabai mantinha as mãos para trás, seus modos tão educados até pareciam nobres e eram estranhos no meio da selva e animais selvagens. – E quanto a você Sexta-feira, precisamos que acompanhe Bonny até Portugal.
— Eu não sei falar português e Adewale me disse que você sabia. – Ela sorriu ao rapaz.
— E quanto a mim? – A jovem se fez notar imediatamente. – Me chamaram aqui apenas para dizer que acharam um dos responsáveis pelo assassinato do meu pai e pronto? Eu quero ir também!
— Não. Você é apenas uma iniciada. Sexta-feira vai apenas para ser interprete. – Ah Tabai disse firmemente. – Ele não deve participar de forma ativa. – O Mestre assassino olhou para o jovem que nada respondeu.
Jenny deixou o grupo, correndo pelos corredores até ganhar a selva novamente. Sexta-feira correu atrás dela, mas ela escalou um tronco velho, saltou para um galho e assim foi se distanciando.
— Sexta-feira! – Ah Tabai o gritou – Deixe-a!
O rapaz se retraiu antes de alcançar o galho da árvore mais próxima. Ele se virou e antes de seguir o mestre assassino deu uma última olhada para trás.
— Não temos tempo a perder. – Ah Tabai caminhou de volta às ruínas sem perder a compostura. – Arrume as suas coisas. Bonny partirá hoje mesmo.
Jenny correu até a praia do outro lado da ilha. Praia que era comumente frequentada por onças, um local perigoso de se ir sozinha. Mas ela não se importava, estava há alguns metros do chão, sob um galho forte e fitando o oceano em seu balé costumeiro de ondas. Havia restos de um navio ali, provavelmente vítima de uma tempestade. Sua mente era assolada por outra tempestade, furiosa e que bagunçava seus pensamentos. Afinal por que a jovem treinara nos últimos dois anos se não para vingar a morte do pai?
— Meu pai não obedeceu às ordens daquele velho anos atrás. Não serei eu que irei quebrar a tradição.
A jovem saltou de galho em galho até a água salgada e mergulhou, deixando os sapatos para trás.. Com braçadas ritmadas ela ganhou distância da praia e foi contornando Tulum pela superfície do mar até ter o Gralha em vista novamente. O exercício a cansou um pouco, as roupas encharcadas grudavam em sua pele e o frio a dominava aos poucos. Mas Jenny mergulhou mais uma vez, mais fundo e usufruiu todo o oxigênio que seu pulmão conseguiu armazenar. A sombra do navio escureceu as águas que o rodeavam e ela voltou à superfície, respirando rapidamente enquanto sentia o peito arder. Abrigada nas sombras ela conseguiu distinguir as vozes de alguns marujos conhecidos e vozes novas. Uma em especial lhe chamou a atenção, era uma voz jovem, certamente masculina, mas não muito grosa. Ela escalou as tábuas de madeiras que formavam a estrutura do Gralha, lentamente e silenciosamente até conseguir alcançar o nível do timão. Erguendo a cabeça apenas o suficiente para conseguir enxergar, ela viu um rapaz magricela, com os pés descalços, calça rasgada, pele queimada do sol, o cabelo sujo e desgrenhado, um trapo velho estava enrolada em volta o crânio do rapaz, vestia uma camisa larga demais para seu tronco e em sua cintura havia uma espada enferrujada pendurada de lado.
Os homens mais fortes estavam descarregando caixas com mantimentos na praia e alguns cochilavam sob a brisa, certamente ela não teria oportunidade melhor. Com os braços ela se impulsionou para cima do parapeito e aterrissou no assoalho de madeira. Seus pés também descalços fizeram um baque surdo e instantaneamente o rapaz se virou para ela.
— Olá! – Ela sorriu. – Você é novo não?
— Olá. – Ele arqueou a sobrancelha, confuso com aquela aparição repentina.
A garota se aproximou ainda sorrindo, as roupas pesadas marcavam suas curvas, ela soltou os cabelos e os sacudiu para se espalharem sob as costas.
— Meu nome é Jenny e o seu?
— Alphonse, mas pode me chamar de Al.
— É um prazer Al. – Ela estendeu a mão direita para um aperto. Há muito tempo ela havia lido em um livro que o comprimento de aperto de mãos era uma forma de prevenir o ataque de um possível saque de espada, visto que a maioria das pessoas era destra, apertava-se a mão com da espada, pois a outra mão em geral não seria hábil o suficiente. Contudo, Jenny descobrira que seu pai era uma raridade, pois era ambidestro e ela por querer copiar o pai em tudo treinou com ambas as mãos, tornando-se hábil com ambas as mãos.
Ela o puxou para si quando lhe apertou forte a mão e agradeceu aos céus pelo garoto ser leve como uma criança, seu corpo trombou contra o dele e ela puxou a espada enferrujada com a mão esquerda, deixando o fio da mesma rente às costas do rapaz que tremia colado a ela.
— Eu poderia matá-lo, mas realmente não quero isso e acho que você também não. Estou certa?
Suas palavras foram sussurradas ao pé da orelha, desferida por lábios que desenhavam um sorriso travesso, mas o mesmo se desfez quando Jenny sentiu algo quente em seus pés, ela olhou para baixo e constatou que o que molhava os seus pés era urina. Ela voltou a fitar a face do rapaz que estava vermelha a poucos centímetros do seu. Ele fedia a peixe, mas não havia rum.
— Vai pagar por isso. – Disse ela com uma feição de nojo no rosto.
A jovem girou o cabo da espada em sua mão e acertou a lateral da cabeça de Al que revirou os olhos e desabou. A Kenway o segurou antes que tombasse no chão como uma jaca madura. Ela tirou a blusa dele e o pano já encharcado de suor que estava amarrado na altura da testa dele. Livrou-se da roupa molhada dela, exceto pela calça, pois se recusava em usar algo mijado. Escondeu os cabelos por debaixo do trapo vermelho encardido que ela amarrou sob a testa. Tomou a espada enferrujada para si, pendurando-a na cintura. Por fim, Jenny arrastou o rapaz até o parapeito de madeira e o suspendeu por cima deste para deixa-lo cair no mar.
— Espero que os tubarões estejam longe hoje.
Em seu coração havia uma pontada de remorso por fazer aquilo ao rapaz que era inocente, deixado para trás e boiando em alto mar, mas logo a maré iria subir e ele provavelmente acordaria na praia. Ela limpou a palma das mãos uma na outra enquanto olhava o corpo boiar.
— Sinto muito Al, mas foi necessário.
Jenny virou-se para o convés e para lá se dirigiu, subindo pelo mastro de vela, até alcançar o nível da bandeira pirata. A Kenway inalou profundamente o ar que preenchia aquele entardecer, a recordação de quando salvara James lhe tomou a mente, juntamente com a nostalgia. Lembrou-se que naquela noite havia sido proibida de fazer o que queria, mas ainda sim desafiou as ordens do próprio pai. Hoje ela desafiava um mestre Assassino e não podia fazer ideia nas consequências que isso causaria. Por enquanto ela apenas cuidava para que os nós das velas estivessem fortes e seguros, deixando-se a vista para que ninguém percebesse a ausência de Al.
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