Assassin's Creed: Omnis Licitus

27 Os escravos Lila e Funmilayo


Notas iniciais
Eu tenho começado os capítulos pedindo desculpas pelo palavriado né? Bom, hoje além de pedir pelas palavras xulas peço pela violência no capítulo. Mais um dia de Thor e aqui estamos! Como o um certo jogo aí me decepcionou muuito nesse ultimo feriadão, preparem-se para um cap pouco cute e alegrinho. Como sempre ocorre em capítulos grandes, a revisão foi meia boca rs

Jenny escalou até o telhado com dificuldade, seu braço ferido pulsava como se ali houvesse um segundo coração e suas vestes encharcavam-se de sangue a cada salto que ela dava rumando de volta para o Gralha. A dor lhe fustigava a carne enquanto a vergonha e covardia apossavam-se de sua consciência despedaçada e falida. Não havia preocupação com seus passos barulhentos ou mesmo o rastro de sangue que ela deixava para trás, pois tudo o que a Kenway queria era se esconder de seu destino, da verdade que ela queria abdicar de sua vida.

A loira correu por entre a multidão que preenchia o porto, esbarrando em diversas pessoas que reclamavam e até xingavam para a jovem, mas Jenny estava surda para todas elas e em pouco tempo estava em seu destino. Sexta-feira desceu do mastro principal logo que viu a amiga a subir pela rampa a bombordo e assim que seus pés tocaram o solário de madeira que compunha o convés Jenny jogou-se contra seu tronco aos prantos.

— Jenny? – Ele a abraçou e de imediato sentiu a umidade em sua roupa. – O que aconteceu? Por que está ferida?

Mas ela não lhe respondia, afundando cada vez mais a face em seu peito, os marujos ao redor perceberam a situação e como se por um instinto feminino Anne saíra da cabine mestra ao estranhar o silêncio que de repente apoderou-se da fragata que era sempre tão bem povoada por canções alegres.

— O que está havendo aqui? – A ruiva levou as mãos à cintura e não tardou para ter a resposta de sua própria pergunta. – Jenny...

A mais velha se aproximou e com os olhos questionou Sexta-feira que a observava enquanto abrigava a amiga no abraço apertado, mas o rapaz apenas lhe deu os ombros. Bonny virou-se e com o jeito autoritário que todo capitão precisa ter, gritou para que os tripulantes voltassem a suas obrigações enquanto guiava o casal para dentro de suas acomodações.

Devidamente protegidos de olhares curiosos e perguntas desnecessárias, Anne pegou uma bacia com água e algumas faixas limpas ao passo que os jovens sentavam-se na cama.

— Cuide do braço dela enquanto eu vou apaziguar o murmurinho que está la fora e quando eu voltar quero respostas boas o suficiente para o porquê estar vestida e ferida desse jeito.

Nenhum dos dois lhe respondeu, mas ela pouco pareceu se importar, pois logo se apressava de volta para o convés. Seus passos eram a única coisa que quebrava o silêncio mórbido da cabine. Sexta-feira acariciava as madeixas da amiga para que esta por fim se acalmasse e apenas depois de muito fungar, a jovem buscou na bolsa a tira colo um papel enrolado e entregou ao rapaz.

Sexta-feira abriu o papel misterioso e após ler seu conteúdo seus olhos arregalaram-se em um misto de confusão e descrença. – Jenny... Onde você conseguiu isso?

— Na casa do tabelião. Eu o segui desde o mercado de escravos. Mas eu não queria que tivesse acontecido desse jeito... – Ela fungava já com o rosto completamente vermelho e os olhos inchados.

Com pouca delicadeza o rapaz puxou para cima a manga esquerda da capa que pertencia a Bonny e para seu espanto encontrou preso ao pulso da menina a lâmina escondida que também pertencia à Anne. A arma já não cintilava com o sangue fresco, mas sangue era reconhecível mesmo quando já está seco.

— A lâmina... O que aconteceu com o tabelião?

Sexta-feira lhe cedia o ombro para repousar a cabeça e gastar ali o tempo que fosse necessário para que tivesse condição de relatar qualquer coisa.

— Fui ao mercado de escravos atrás do homem que cobra as taxas de vendas para a coroa, o chamam de tabelião. – Com a voz tremida ela deu continuidade. – O segui até sua casa, uma boa casa em uma parte rica da cidade e menos movimentada. Ele estava junto de dois rapazes não muito mais velhos do que eu, o ajudaram durante a manhã e esperei até que o homem ficasse só para então invadir seu escritório... – Ela limpou o muco que lhe escorria pelo nariz e tomou fôlego para seguir o relato. – Ela falava em inglês e pedi a carta de alforria assinada, e ele me contou de Nassau... — Seus olhos se fecharam e como em uma mágica ela via o rosto do pai a lhe contar sobre uma Nassau livre. – Contou-me de como os piratas a deixaram apodrecer até a perderem para os Templários... Ele sabia sobre o meu pai, sabia sobre o ataque e se vangloriou, pois agora Londres está sob o poder dos templários. Eu me distraí ,Sexta-feira. Atentei-me às palavras e me descuidei de seus movimentos, e por isso, quando ele me entregou isto eu não o vi pegar a pistola de dentro da mesa. O tiro acertou a janela, mas o barulho foi suficiente para alertar um de seus filhos que apareceu na porta a tempo de ver tudo. Quando vi que ele já apontava o cano de novo em minha direção eu me joguei sobre seu corpo, mas eu nem pensei no que estava fazendo, pois a lâmina já estava pronta e ela o perfurou enquanto a bala rasgava o meu braço. Seu filho viu tudo isso da porta do escritório.

Não havia um ruído dentro da cabine se não da respiração do casal, e o silêncio pesado poderia se materializar a qualquer momento, pois havia por um lado o medo de Jenny do julgamento moral que receberia e por outro lado havia um Sexta-feira perdido em pensamentos, ansioso por ajudá-la, mas sem saber como o poderia.

— O que houve depois?

— Eu fugi, pois não conseguia ouvir o choro dele, não podia olhar para ele sem me ver na mesma situação em Londres. O desespero dele era palpável até mesmo para um cego e eu fui a responsável, eu o deixei naquele estado, pois eu matei seu pai. E agora eu não sei o que me distingui dos homens que estou caçando.

Sexta-feira endireitou-se a fim de ficar frente a frente com a loira, ele enxugou umas lágrimas que ainda insistiam em deslizar pela face vermelha da menina, suas mãos seguiram para a capa de Bonny que cubria o tronco e os braços dela, seus dedos desabotoaram os botões e deslizaram a peça pelos braços dela. Jenny observava cada gesta com curiosidade em saber o que aquilo poderia significar e como o rapaz iria lhe responder. Ao final de todo aquele ritual misterioso, o jovem negro segurou com delicadeza sua face esquerda.

— Jenny, agora está em suas mãos. Não pode mudar o que está feito e dificilmente esquecerás o dia de hoje. – Seu polegar produzia pequenas caricias na pele bronzeada dela enquanto falava sem quebrar por um instante o contato direto entre os olhos dela e os próprio. – Eu preferiria que não carregasse essa responsabilidade acredito que seu pai também... Matar alguém não é fácil Jenny, pois todos nós temos importância nesse mundo, todos nós criamos ligações, algumas boas e outras ruins e não importa quem seja. Mas é preciso ser forte para carregar a morte de alguém nas lembranças ou abandonar a consciência na primeira ilha deserta que encontrar.

— O que você fez Sexta-feira? Eu sei que já mataste... Foi no naufrágio?

O rapaz de sorriso sempre estampada estava sério, com os olhos brilhando feito uma criança prestes a chorar meneou a cabeça em uma resposta negativa. Escolhera manter a consciência por perto.

— Me de o braço, deixe-me cuidar de você. — A Kenway fez como o solicitado e com cuidado, enquanto Sexta-feira retirava a manga de sua blusa, já completamente embebida de sangue, e para seu desgosto a bala ainda estava lá. – Irá doer, morda alguma coisa e eu irei te contar.

Ela fez um pequeno bolo com o lençol da cama e enfiou na boca, ao passo que o jovem vasculhava por sobre a mesa a procura de algum objeto que lhe auxiliasse a retirar a bala, mas o melhor o que conseguiste fora uma colher de prata e uma garrafa de rum. Sem demora, ele encharcou um pedaço limpo do lençol que cobria a cama com o rum e iniciou a limpeza do ferimento, resultando em caretas e murmúrios de dor por parte da jovem.

— Quando eu estava na África, havia uma moça que não era da minha tribo, mas entendia o que eu falava. Ela fora entregue e não capturada como eu, sua beleza foi seu pecado.

Sexta-feira enfiou a colher pelo ferimento da bala, arrancando ainda mais resmungos de dor, mas ele os ignorou e continuou o procedimento para a retirada e sua história.

— Ela tinha o corpo mais bonito que eu já vi, a cabeça era raspada, mas os cabelos não faziam falta, o nariz era pontudo e não chato como o da maioria dos negros, mas os lábios eram carnudos e sedutores. Um grande comerciante dos muitos navios negreiros que estavam por ali se encantou por ela, como qualquer outro homem se encantaria e ela foi comprada por um bom preço. Seu nome era Lila e eu me encantei com ela tanto quanto ele.

Com destreza, o jovem alcançou a bala com a colher e a puxava para fora lentamente a fim de evitar mais saturações no músculo dela. Algumas lágrimas escorriam pelo rosto da Kenway, lágrimas de dor, contudo isso não a impedia de prestar atenção.

— Mas Lila não tinha tratamento diferente por ser bela, foi deixada na senzala e comia tão mal quanto qualquer um dos outros escravos. Eu não estava lá durante o dia e a noite ela era levada para seu dono, mas mesmo assim acreditávamos um no outro, mesmo assim dormíamos um ao lado do outro quando ela retornava e mesmo assim criamos esperança de um dia sermos livres juntos. Porém em uma noite ele nos viu juntos, abraçados e dormindo juntos.

Sexta-feira enfim retirou por completo a colher com a bala suja de sangue, descartou os dois objetos sobre a mesa ali perto e adiantou-se em enfaixar o braço dela com as tiras providenciadas por Bonny antes de deixá-los a sós.

— Foi quando tudo aconteceu... Ele se enfureceu e a puxou de mim enquanto a chamava de traidora, imunda, puta e todos os priores nomes que ele poderia dar a ela. Com o cano de uma pistola em minha direção ele disse que eu pagaria pela traição e ingratidão.

O rapaz não olhou para Jenny durante todo o processo até a ferida estar completamente protegida e ele retirar os trapos do tecido que permaneciam na boca dela, e foi somente então que ela viu os olhos marejados dele. Sem saber como consolar quem sempre lhe consolava, ela permaneceu sentada e como uma criança a ouvir um conto inventado, manteve-se atenta e a espera do que viria a seguir.

— Ele rasgou as roupas dela e fez tudo na minha frente... Abaixou as próprias calçolas e a violentou sem o mínimo resquício de piedade nos olhos. Ele a machucava por dentro e por fora e eu via os olhos dela a chorar, ouvi seus gritos, mas ele não abaixou a pistola um único instante e obrigava-me a ver e ouvir que Lila pertencia a ele e ninguém mais. Tudo o que fiz em minha covardia foi chorar junto com ela e não há dentro de mim maior arrependimento do que minha omissão.

A Kenway adiantou-se em defendê-lo, mas antes de qualquer som deixar sua boca, ele estendeu a mão para ela e negava com a cabeça qualquer tentativa de defesa.

— Depois de toda essa violência ele pediu para chamar o capataz e logo que esse chegou, levou a mim e a ela para o tronco, cada um em um tronco separado. Escorria sangue pelas coxas dela e suas roupas se resumiram a trapos que não tinham mais função alguma em seu corpo todo exposto. Lila foi amarrada de frente para o tronco, enquanto eu fui amarrado de costas. Ele pegou a chibata e veio na minha direção. Eu fiquei aliviado pensando que ele a pouparia, pensando que carregaria o restante da dor, fiquei feliz com isso, pois eu não a deixaria sofrendo só. Mas a crueldade humana quando bem alimentada não tem limites, Jenny. “Irás ver cada chibatada nela, irás contar comigo e irás carregar para sempre a culpa por tudo o que acontecer com ela”, foi o que ele disse para mim. Cem chibatadas, cada uma valia por uma moeda de ouro que ele deu por ela. Todos os escravos assistiam da senzala, o capataz preferiu não olhar e com o braço cansado ele foi para dentro descansar na cama, enquanto eu e ela ficamos amarrados sem água e sem comida até segunda ordem. Lila morreu no dia seguinte.

— Eu sinto muito, Sexta-feira... – Jenny cochichou por entre lábios, temendo ferir ainda mais o amigo, mas ele apenas continuou a falar.

— Quando ela morreu, eu fui solto e ordenado a cavar sozinho um túmulo para ela. Eu estava fraco demais, sem comida e água, então simplesmente desistir de ser forte e aguentar. Tudo o que me lembro depois disso, foi do capataz a me jogar água gelada, a noite estava caindo e ele cochichava para mim que eu havia desmaiado. Deu-me um pedaço de queijo mofado e disse-me para fugir para longe daquele lugar. Eu o perguntei o porquê ele estava me ajudando quando ele devia estar me entregando e me esfolando no tronco e então ele me respondeu que não havia motivos para punir alguém por amar outra pessoa... Eu fugi ainda chorando por Lila e fui o mais longe que minhas forças me permitiram.

Jenny esqueceu por um instante toda a dor que sentia dentro de sim e em seu braço dilacerado para abraçar seu amigo, mas o rapaz não retribuiu como de costume e apenas se deixou ser enlaçado pelos braços dela.

— Eu não podia deixar Lila para trás, não daquele modo. Então eu voltei para o casarão, o corpo dela fora enterrado sob a terra fofa e como eu já conhecia bem o local, não tive dificuldade de entrar. Ingressei por uma janela aberta no segundo andar e cheguei até o quarto dele, a porta estava destrancada e quando adentrei encontrei-o adormecido com outra escrava. Uma menina de não mais de quatorze anos. Ela estava acordada e me viu entrar, pedi para fazer silêncio e saísse da cama, quando ela saiu, eu vi sangue sobre o lençol e não sei bem da onde tirei força, mas no instante seguinte eu estava sobre ele e com as mãos apertando sua garganta. Ele batia em meus braços e me arranhou, enquanto tentava inutilmente gritar, mas a menina quebrou uma garrafa em sua cabeça e quando deixei de sentir seu peito a subir e descer eu o soltei. As veias do seu pescoço pareciam quase saltar para fora de pele e sua face estava roxa como uma ameixa madura. Nós o cobrimos como se estivesse a dormir e silenciosamente deixamos o casarão pelo mesmo local de onde entrei, ajudei-a a descer e quando estávamos próximo ao túmulo de Lila o mesmo capataz que me liberou apareceu. Ele me xingou e praguejou minha decisão de voltar, disse que não poderia deixar a menina ir comigo e antes que eu pudesse responder, ela disse que ficaria de bom grado se ele me deixasse partir em paz, como a mentira sobre a minha morte já estava cantada, seria ele punido se eu repentinamente voltasse e por isso ele me deixou ir. Eu não sei o nome dela, mas ela me deu um beijo e me agradeceu. Morreu ali o resto de honra que eu poderia ter, porque eu sabia que ela seria culpada pela morte do seu dono, ainda que fosse improvável uma menina tão magra como ela conseguir tal feito. Eu nunca mais a vi, mas soube depois que houve uma fuga em massa de escravos daquele homem e que muitos foram capturados por outros capatazes menos gentis.

— Então foi esse homem que... – Sexta-feira a interrompeu antes que ela pudesse terminar sua pergunta.

— Não, Jenny... Não foi dele o primeiro sangue que derramei e sim o de Lila. Ela poderia estar viva se eu tivesse sido menos covarde, se eu a tivesse protegido antes e tivesse tomado uma atitude. Então quando Adewale nos encontrou e me ofereceu uma oportunidade lutar contra homens como aquele eu aceitei porque não quero que outras jovens sofram como a Lila.

Sexta-feira se levantou e a loira o seguiu com o olhar. O rapaz da cor de ébano enxugou as próprias lágrimas e recolheu os panos sujos de sangue do local. – Eu nunca pensei que sentiria algo por outra pessoa como senti com Lila, mas então você apareceu naquela noite. – Ele esboçou um pequeno sorriso e se virou para voltar ao convés.

— Como ela o chamava? — O jovem parou e se virou, espantado com a pergunta repentina da garota. – Ela não te chamava de garoto ou menino como seus donos, certo?

O sorriso desapareceu e ele confirmou com um aceno sua pergunta. – Não, não chamava e ela me deu um nome, antes de Crusoé.

— E como era? Como era seu nome?

— Funmilayo, mas somente ela me chamava assim.

— O que significa?

— Aquele que traz alegria.

Nesta instante Bonny abriu as portas e Sexta-feira abaixou a face com o intuito de esconder da ruiva suas lágrimas, sem se despedir ou dar maiores explicações ele foi embora enquanto chegava a vez de Jenny se explicar para uma das últimas sobreviventes de Nassau.

Notas finais
Vamos aos esclarecimentos quanto aos nomes... Não faço ideia se Lila é um nome africano, o usei por conheço uma Lila que é negra e a acho uma muito bonitinha. Quanto a Funmilayo, esse sim é um nome africano, tenho um colega da Angola que possui esse nome, mas descobri que é um nome feminino na Nigéria. Acredito fortemente que seja unissex. Até o próximo...