Notas iniciais
Primeiro, quero mencionar que estou a revisar e principalmente a editar os primeiros capítulos dessas fic, pois eu li o Forsaken e achei que poderia melhorar o começo da fic. Espero do fundo do meu coração que não se chateiem e mais ainda que apreciem as mudanças que podem ser sutis ou drásticas. Segundo, esse é até então o maior capítulo dessa fic e alguns leitores meus já reclamaram antes de longos capítulos, desde então eu maneiro, mas não pude cortar esse capítulo. Espero que tenha ficado bom e que vos agrade. Terceiro, dei uma revisada muito rápida, por isso capaz de ter escapado uma ou outra coisa. Sem mais, apreciam a leitura.

Cansada de comer pão duro e peixe, Jenny tratou de se levantar logo cedo pela manhã e não hesitou em acordar o amigo que dormia na cama acima dela. Enquanto Sexta-feira sentava-se e esticava o corpo, a garota olhava ao redor a procura dos homens que deveriam estar dormindo no mesmo local, mas para sua surpresa, todas as camas estavam vazias. Sexta-feira aterrissou do breve salto que dera até o solário de madeira ao lado da Kenway e lhe deu alguns tapinhas amistosos em seu ombro.

— Não se preocupe, eles estão por aí, vai achá-los espalhados por diversos pubs ao longo do porto. – Ele comentou antes de ceder a um longo bocejo.

— Mas e quanto aos ingleses que capturamos ontem?

— Você não espera conquistar a lealdade de seus marujos deixando-os presos dentro do barco né? – O rapaz lhe deu um sorriso de canto da boca e rumou para os degraus que os levariam até o convés.

A garota não viu outra opção se não segui-lo. A brisa matinal logo lhe beijou a face trazendo consigo o cheiro salgado emanado pelo mar. Há três anos, Jenny sonhava em poder sentir tal brisa e cheiro todos os dias, mas agora ela não podia negar que ansiava por colocar os pés em terra firme.

— Vamos conhecer a cidade e tentar descobrir algo importante. – Ela lhe anuiu com a cabeça e já se precipitava em desembarcar quando Sexta-feira lhe segurou pelo braço. – Acredito que seja melhor ser você mesma agora.

Ela arqueou a sobrancelha e sua cabeça entortou-se para a direta em uma clara expressão de duvida. – O que quer dizer?

— Não é comum ver negros andando solitários pelas cidades grandes, um simples gesto pode me tornar um ladrão, escravo ou coisa pior. Mas, se eu for acompanhado de uma jovem londrina posso muito bem ser seu escravo tradutor.

— Como você era antes? – Ela sacudiu a cabeça vigorosamente em uma resposta negativa. – Não irei tratá-lo como escravo.

— Será só por um tempo e pense que é pela nossa própria segurança.

Ela cruzou os braços e emburrou a face nitidamente desgostosa daquela situação. – Está bem, que seja...

— Vá trocar de roupas, eu irei esperar por aqui.

Fazia tempo desde que Jenny não se vestia com um bom vestidoe sem sombra de Bonny ali por perto recorreu ao amigo que lhe aguardava do lado de fora para cruzar e dar os nós das vestes. Armada com um pente de madeira infestado de fios vermelhos ela travou uma batalha contra emaranhado que suas madeixas haviam se tornado e concluiu que precisava de um bom banho. Ela trançou os cabelos e botou um bonito laço de seda na ponta. Jenny se olhou no espelho e viu a jovem dama que seu pai ansiava em ver em Londres, trajada com um vestido longo em tonalidades de azul claro, sua cintura estava ainda mais afinada devido o corpete que lhe prendia a respiração, os seios empinados para o alto e a partir do quadril um conjunto de saias lhe cobria as pernas por sobre uma armação de ferro. Por fim, a parte mais dolorosa, os sapatos. Uma vez Tessa lhe dissera “Nossos pés acumulam nossos sofrimentos dentro dos mais belos sapatos”. Ela suspirou e recolheu os pés para dentro do par de sapatos galgados.

Quando a Kenway deixou a cabine de Bonny após bons longos minutos Sexta-feira fora incapaz de repreender sua própria surpresa. Seus lábios se abriram inutilmente enquanto seus olhospercorriam toda a extensão de seu corpo.

— Já pode fechar a boa Sexta-feira e sem uma palavra. Vamos, porque estou faminta.

— Esse é o espírito da coisa. – Ele proferiu com um sorriso divertido enquanto ela passava a sua frente e descia pela rampa de desembarque.

Após alguns passos desajustados pelo porto, Jenny conseguiu se recordar das aulas de etiqueta que tivera ainda em Londres e passou a caminhar como uma perfeita dama e Sexta-feira seguia ao seu lado com roupas simples e costumeiras de um escravo. Subindo pelas ruas de pedras de cores diversas, a dupla aos poucos deixava o porto imundo para trás e ganhavam as ruas de Lisboa.

No meio das ruas carroças passavam carregadas de mercadoria em barris e sacos, escravos acorrentados eram vistos aqui e ali, comerciantes disputavam aos berros clientes, mas aos poucos as edificações ganhavam tons mais luxuosos e elegantes e o movimento da rua minguava de um misto de pessoas para aqueles com poder monetário superior a reles mercadores.

Quando a Kenway vira um rapaz não muito mais velho do que ela com fendas vermelhas abertas nas costas, seus olhos buscaram de imediato os do escravo e ela queria poder salvá-lo. Tirá-lo dali e findar seu sofrimento, mas por que uma jovem que ostentava riqueza se importaria com um reles escravo? Seus pés queriam correr naquela direção, suas mãos ansiavam por tirar aquelas correntes, mas o que viria a seguir? Uma fuga? E como ela iria fugir de um local plenamente desconhecido com alguém também estranho.

Sexta-feira, percebendo a aflição em seus olhos, a puxoupara longe temendo uma atitude impensada vindoura de Jenny. E discretamente a guiou para próximo de um armazém que estava fechado e lhe fornecia certa segurança nas sombras fornecidas por suas paredes.

— Não há muitos escravos assim em Londres não é? – O rapaz quase chegava a cochichar ao seu lado.

Ela mantinha os olhos fixados nas pedras que ecoavam a cada passo que ela dava, odiando a si mesmo por ser incapaz de fazer algo realmente significante.

— Não.

— Seu pai era contra a escravidão, de acordo com Adewale. – Ela assentiu e ergueu a face para encará-lo. – Ele ainda foi mais longe ao considerar um ex-escravo como alguém igual a ele, alguém com direito a liberdade. Confiou a ele seu timão, seu posto como contramestre e acima de tudo sua amizade. E agora você segue os passos dele, comigo. Ele estaria orgulhoso.

— Tirando a parte que fugi com os assassinos contra a ordens explicitas dele de ficar fora disso.

Eles riram em cumplicidade, pois era isso que amigos verdadeiros faziam. Ajudam um ao outro nos momentos em que um perde-se pelo caminho nas ruelas confusas que a vida apresentava dia após dia. Até um ronco alto proveniente da barriga de Jenny silenciar ambos.

— É uma boa hora para comermos. – Ele comentou com seu tom brincalhão e ela lhe respondeu na mesma moeda.

— De acordo.

O fedor de peixe misturado ao mar logo perdia espaço para um aroma agradável de pão.Assim como em Londres, quanto mais distante do mar menos imundice se veria pelas ruas. Contudo, o clima de Portugal era agradável e o céu estava ensolarado, algo improvável de se ver na capital da Inglaterra, que para Jennytambém era a capital das chuvas.

— Há duas coisas que os portugueses sabem fazer com estrema perícia. – Ele abriu o largo sorriso que os Assassinos já se acostumaram a ver, era como se a identidade do jovem estive estampada em seus dentes brancos e brilhantes.

— O quê?

— Azeite e doces. Espero que tenha trago bastante dinheiro, pois irei levá-la à Cavé

— Um lugar francês?

Sexta-feira deu de ombros e prosseguiu caminhando pela rua. – Não sei, mas é bem famoso e não irei desperdiçar o que pode ser minha única chance de comer um doce de lá.

— Sabe, o costume de um cortejo é que o homem leve a dama para comer e não o contrário.

— Velhas tradições precisam ser repensadas e trate de parar de rir, nenhuma dama fica aos risos com seu escravo as claras como você está. Nossos disfarces dependem disso.

Ela revirou os olhos e apressou os passos à medida que o amigo transpassava por entre as pessoas tomando o cuidado de não esbarrar ou ao menos tocar alguém. E após alguns minutos finalmente o casal chegara a um estabelecimento com diversas portas de madeira e janelas quadradas de vidro eram enfeitadas com cortinas. Na calçada protegida do sol por uma cobertura de madeira havia mesas e cadeiras, quase todas ocupadas.

— Poderei entrar, mas não poderei comer. – Sexta-feira lhecochichou atrás de si.

— E por que não?

— Porque escravos comem angu e raízes, não doces finos.

Jenny bufou e quase cruzou os braços, mas pôde lembrar-se claramente de Ana lhe repreendendo todas as vezes que tencionava quebrar a postura elegante que uma senhorita de família deveria ter. – E como pretendes comer?

— Peça um presente para seu pai, um rico comerciante inglês e eles lhe entregaram uma caixa bem abastada. – Ela arqueou a sobrancelha e incitou a caminhada adiante.

— Que seja então.

A garota sentou-se no interior do café que era decorado de forma elegante, o cheiro adociado tomava-lhe os sentidos e quase se podia saboreá-lo. Não tardou para que um português jovial de bigodes finos sobre os lábios lhe trouxesse uma carta e os comprimentos de boas vindas em português.

— Ele lhe deseja as boas vindas a Cavé. – Traduziu Sexta-feira enquanto recebia um olhar de puro desgosto do rapazote.

— Não consigo ler nada aqui. – A Kenway passava de uma folha a outra sem entender um nome sequer. – Preciso da sua ajuda para escolher.

— Me de a carta.

A loira lhe estendeu a mão com o catálogo de preços e nomes das iguarias do local e quando o amigo iniciaria a leitura o jovem português pigarreou com o claro intento de interrompê-lo e por fim declarou em inglês.

— Se quiseres, lady, posso eu mesmo lhe ajudar na escolha e assim podes pedir ao seu escravo que a aguarde lá fora. Temos homens que o vigiarão de chicote em mãos.

Sexta-feira a olhou e viu a pele dela avermelhar-se, sabia que era de raiva e rezou silenciosamente que ela se controlasse. Suas preces foram atendidas.

— Agradeço a oferta, mas ele está aqui não apenas como meu tradutor e sim para minha segurança.

— Posso lhe garantir que não há o mínimo risco para a senhorita aqui na Cavé, apenas o que se apaixone por nossos doces incomparáveis. – O português lhe sorriu graciosamente, com a mera ilusão que estaria atendendo mais uma londrina que visitava Portugal.

— E quem é você para garantir a minha segurança? – O sorriso dele se desfizera tão repentinamente quanto surgira e antes que pudesse lhe responder, ela continuou. — Ele fica e fim de assunto. Traga-me seus doces mais caros, pois serão um presente para meu pai que esta a essa hora a comercializar sacas de açúcar para o seu Cavé.

— Com quiser mi lady.

O rapazote fez uma breve reverência para Jenny e lhe deu as costas, caminhando o mais rápido que pôde até os cômodos mais adentro da loja.

— Não devias ter falado assim. — Sexta-feira permanecera em pé ao seu lado e com os olhos baixos, evitando olhares que vinham de quase todas as direções tentou se fazer ao menos audível para a amiga.

— Não iria permitir que o enxotassem como um cão pulguento.

— Vamos embora assim que ele retornar com seu presente e levamos para o Gralha.

Passados alguns minutos, os outros freqüentadores do local pareciam ter se acostumado à presença de Sexta-feira e degustavam tranquilamente seus cafés quentes e doces açucarados. Quando o homem por fim retornara com uma pomposa caixa decorada e carregada de doces, Jenny deu-lhe uma bolsa de moedas sem nem ao menos fazer questão de contar. O português por sua vez, ainda insatisfeito com o atrevimento da Kenway tomou-lhe o saco das mãos e imediatamente virou-se de costas para a dupla que já saía até Sexta-feira captar mais uma vez a voz do atendente a comentar entre risos com outro servente e em português.

— Certamente é mais uma rapariga farta da vida solitária que se engraçara na cama com um escravo bem disposto.

Desta vez fora Sexta-feira que se enfureceu e antes mesmo que Jenny tenha dado por si, ele afastou-se dela e em com poucos passos venceu a distância entre ele e o rapazote que espantado demais mal percebera o punho de Sexta-feira lhe atingir em cheio a face esquerda. Sem chances para uma defesa, o jovem caíra desmaiado ao chão enquanto um dente seu ainda rolava pelo chão.

As pessoas ao redor se levantaram ainda segurando pães mordidos, alguns tinham as bocas sujas, outros levavam as mãos diante dos lábios em uma vã tentativa de conter suspiros de surpresa. Jenny o olhou tão incrédula quanto aqueles que os rodeavam e com a razão finalmente recuperada Sexta-feira lhe disse.

— Corra.

— Estou de saltos! – Ela protestou ao passo que alguns homens já chamavam por ajuda.

— Tire-os!

Dois capatazes adentraram a loja logo atrás de Jenny e seu amigo se precipitara para o interior, onde esperava encontrar a cozinha e a porta de entrada dos ingredientes e funcionários. As presas, a Kenway retirou os sapatos apertados e levantou as saias para evitar tropeçar rumando atrás de Sexta-feira e deixando os capatazes por um instante confusos. Começaram-se os gritosenquanto ambos empurravam e derrubavam coisas pelo estreito corredor da cozinha, os cozinheiros espantavam-se e fazia o máximo que podiam para sair do caminho e salvar seu trabalho.

O rapaz visualizou uma grande saca de farinha sobre uma mesa a sua direita e nos instante seguinte sacou a pequena faca que carregava presa as calças logo abaixo da coluna. A cozinha virou uma brancura só quando ele rasgou a saca de um canto ao outro. Jenny certamente o enxergaria, mas os outros tinham o intuito de fechar os olhos para protegê-los do pó. Eles sacudiam as mãos enquanto Sexta-feira abriu a porta dos fundos que ruidosamente lhes denunciou a localização. Ela e ele lançaram-se para fora e completamente banhados de farinha faziam um estardalhaço ao abrirem espaço aos empurrões em meio às ruas.

Algumas pessoas paravam para observa, enquanto outras saiam do caminho, algumas viam os capatazes gritarem um pouco mais atrás e logo houve o primeiro tiro. Mas nem Jenny e nem Sexta-feira eram tolos principiantes. Separaram-se em meio à multidão, correndo de forma sinuosa e derrubando obstáculos propositalmente pelo caminho. Mas havia um problema, a Kenway loira estava descalça a percorrer ruas de pedras em uma cidade ainda desconhecida e praguejou consigo mesma que deveria ter procurado logo um ponto alto para observar. Outro tiro.

Um pouco mais acima na rua, uma ruiva curiosa saiu do bordel em que estava para verificar o motivo de tamanho murmurinho vindo da rua. E quando ela visualizou a dupla que corria pelas ruas, brancos dos pés as cabeças ela imediatamente deixou o local.

— Mas o que diabos...

Jenny avistara próximo a um estábulo um grande amontoado de feno, ela não pensou duas vezes antes que correr para o abrigo, jogando-se em meio à forragem seca. Mas havia um rastro de farinha por todo o percurso que fizera, denunciando tristemente o fim da trilha no monte. Um dos capatazes, o que estava armado, aproximou-se e com passos cautelosos proclamou-lhe em português.

— Saia daí ou lhe tiro a balas!

Certamente, Jenny não entendera uma única palavra e sem uma arma em mãos tentava bolar uma escapatória que lhe parecia cada vez mais improvável.

— Não vou fazer outro aviso!

A voz dele era nítida e seus passos informavam que estava há dois metros, talvez três de distância. Ele engatilhou a pistola e quando seu dedo aconchegava-se na curva do gatilho algo lhe atingiu do céu. O monte de feno fora a última coisa que vira antes de fechar para sempre os olhos enquanto de sua garganta escorria o sangue quente que fugia de seu corpo moribundo.

Jenny assustou-se ao ver o corpo do homem aterrissar ao seu lado e quando vira o sangue a manchar a forragem e as roupas, proveniente de um buraco pequeno e profundo, ela soube que poderia sair. Ainda espreitando ela retirou o feno a frente dos olhos e contemplou com o maior alívio do mundo a silhueta de Bonny em roupas femininas. A ruiva estendeu a mão e lhe puxou com um solavanco, trazendo Jenny aos tropeços diante da luz do dia e com uma caixa protegida pelo braço direito.

— O que vocês fizeram?

— Não há tempo para explicações agora. Temos que ir atrás de Sexta-feira!

O olhar de Bonny não escondia e nem ao menos tencionava esconder toda a insatisfação com toda aquela confusão que ela nem poderia imaginar o motivo, mas também sabia que o rapaz poderia estar tão em perigo quanto e Jenny e decidindo-se ser a escolha mais sábia para o momento, deixou para mais tarde as lições que daria.

— Vá para o Gralha que eu irei atrás dele. Não tens condições nesse vestido. – A jovem Kenway assentiu e já se virava para partir. – Tente não chamar muita atenção.

Anne saltou para a carroça vazia que aguardava o momento em que trariam cavalos para lhe guiar e jogou-se sobre o telhado do estábulo. Ela puxou por sobre a cabeça o capuz que até então mantinha escondido por debaixo das vestes. Seus olhos procuraram pelas ruas vestígios de Sexta-feira, mas o movimento intenso de pessoas já os tinha apago, caso de fato tivesse existido um.

Sem muitas alternativas disponíveis, correu para o telhado próximo, escalou um pouco mais as paredes que ela deduziu ser outro bordel, pois tão quanto fosse abundante o movimento de um porto, de certo, mais meretrizes atrairia. Porém sem um mínimo rastro a seguir a ruiva pôs-se a correr de telhado a telhado. Já com o sol alto no céu azul e quase limpo de nuvens, avistou um homem deixando pelas sombras os fundos de um pub, sem camisa o mesmo tentava manter-se afastado da multidão, preferindo seguir rumo por ruelas estreitas ocupadas por garrafas, bêbados e ratos. Ela o seguiu até se aproximar o bastante e confirmar que de fato era Sexta-feira.

Bonny voltou ao nível do chão, poucos metros atrás do rapaz e silenciosamente lhe alcançou o passo.

— Vá para o Gralha.

Ela notara um pequeno suspiro de susto vindo de sua companhia, contudo, este logo notara quem era que o seguia e abrandou os ânimos. A ruiva desviou os olhos para as mãos dele e vira em suas palmas, manchas de sangue e sem ter que perguntar ela soube de imediato o que acontecera.

— E Jenny? – Ele a questionou, mantendo o ritmo dos passos apressados rumo ao cais.

— Em segurança.

Ainda que de relance, vira em sua respiração o alívio ao ouvir sua notícia e por um pequeno instante ela esqueceu a raiva causada pelos acontecimentos imprevistos e compartilhara de igual sentimento, não só por Jenny, mas também pelo pupilo de Adewale.

Em poucos minutos, ambos pisavam sobre o solário da fragata pirata e assim que ouvira o som de passos, Jenny deixara a cabine do capitão para lançar-se sobre Sexta-feira, em um abraço apertado, quase sufocante. Este que pôde apenas retribuir o afeto. Bonny pigarreou e ambos entenderam o recado para se separarem, ela retirou o capuz e cruzou os braços frente ao busto com a feição mais emburrada que um dia sustentara.

— Quero explicações e agora.

Enquanto Sexta-feira terminava de se limpar da farinha e dos resquícios de luta que teve com o homem que o seguiu, Jenny narrava de maneira resumida os fatos desde a partida do navio até a confusão que se iniciara na Cavé.

— E agora podem ter a plena certeza que, a menos que o príncipe venha correr sem roupas pelas ruas de Lisboa, os dois serão o assunto do dia e da noite.

Bonny os repreendia energicamente e sabendo de sua culpa pelos resultados daquele desastroso passeio, Sexta-feira aproximou-se e com a cabeça baixa assumiu sua responsabilidade.

— Foi idéia minha irmos a Cavé e eu comecei a confusão, sinto muito Bonny.

— O que tinha na cabeça quando socou o servente?

Ele desviou os olhos para o rosto da Kenway que estava ao seu lado, já com roupas simples de um marujo magricela qualquer. Ele respirou fundo e sustentou o olhar de Bonny, encarando-a de forma amistosa.

— Ele disse que Jenny era apenas uma rapariga que... – Ele parou, pois estava temeroso pelo restante da frase.

— Que o quê? – Fora a própria amiga que o incentivou a prosseguir.

— Que se aventurava na cama com um escravo.

De súbito, Anne relaxou a postura e como mágica toda sua raiva se fora. Sentiu o desejo de dar palminhas nas costas do rapaz e lhe dizer “Muito bem feito”. Mas como maior autoridade ali, perante aqueles dois, devia pensar primeiro com a razão e posteriormente com o coração. Para espantar o assunto delicado, ela deliberadamente mudou o rumo da conversa.

— E onde estão os doces então?

Jenny dividiu as iguarias já amassadas e deformadas entre os três, alguns tripulantes haviam voltado, a sua maioria é bem verdade, mas todos estavam cansados demais da noite anterior. Com suas energias sendo repostas para mais uma noite luxuriosa oferecidos pelos diversos bordéis ao longo do cais. Ou simplesmente em plano divertimento de beber acompanhado de outros desconhecidos desbravadores dos sete mares que encontrassem ao acaso pelos pubs e tavernas locais.

Já com o cair da tarde que levava embora o azul do céu, a menina se viu sentada a observar Lisboa, no pequeno espaço abaixo da bandeira Inglesa que o Gralha ostentava como disfarce. Anne havia se entocado para dentro da cabine e aos poucos os integrantes da tripulação acordavam de seu descanso. Sexta-feira galgou o mastro até alcançar a amiga e sentou-se ao lado no espaço pequeno demais, os forçando a ficar colado um ao outro. Ela o observou e quebrou o silêncio.

— Obrigada pelo que fez.

— Não deveria ter acontecido daquele jeito...

Ela calou-se e ali ficaram apenas a escutar o assobio do vento e as vozes distantes provenientes do porto que recebia e despachava mais mercadoria a todo instante.

— Eu ainda não pedi desculpas por ontem à noite. Por desconfiar por você.

— E nem precisas. A essa altura já não consigo me imaginar distante de você.

Jenny o fitou sem palavras, com a certeza de que seu coração a qualquer momento iria falhar enquanto ele permanecia com a expressão serena a observa a vida continuar do porto de Lisboa.

Notas finais
A Cavé existe. Não sei em Lisboa, mas no centro do Rio de Janeiro, existe uma confeitaria chamada Cavé que vende doces portugueses apesar do dono ser francês. Comi um doce de lá uma vez e não achei grandes coisas. E o que acharam do, como apelidaram, Sextinha? Jenny também nada fácil e sempre se metendo em confusão, correndo por aí. Espero que tenham entendido o motivo do capítulo grande e que perdoem e acima de tudo que tenham gostado, até o próximo. No próximo capítulo Jenny vai atrás de sua única fonte de informações em Lisboa, John. OBS.: Caso queiram saber os cap 1 e 2 já foram editados