Notas iniciais
Com mais de um mês de espera, eis que retorno para provar que não abandonei o barco, pois sim, vocês merecem respostas (que não virão nesse capítulo, sorry). Como eu estava com saudades dessa fic, da Jenny e é claro do Sextinha que continua narrando. Espero do fundo do meu coração que gostem porque escrever sobre culturas africanas é osso rs

Quando o olheiro disse “Terra à vista” eu deixei para trás os papéis e subi para o convés, recebendo sobre a pele o quente toque do sol que nascia no horizonte. Ainda estava distante, mas fiquei sem ar ao perceber que em poucas horas eu estaria novamente em Luanda. O vento estava a nosso favor e as velas enchiam-se belamente a carregar-nos pelas aquelas águas. Empolgado em estar de volta ao meu verdadeiro lar, desci pela escotilha e fui até Jenny lhe contar as boas novas.

— Jenny! Acorde, Jenny! — Ela abriu os olhos e sentou-se sobre a rede ao me ver aproximando-se de si.

— O que houve Sexta-feira?

— Estamos quase chegando! Estamos quase em Luanda!

Eu vi um discreto sorriso entre seus lábios. Ela parecia estar superando as perdas e até já conversava com outros tripulantes. Enquanto eu sentia que poderia começar a pular feito uma criança, tamanha era a minha felicidade. Jenny desceu da rede e me abraçou. Fiquei paralisado, pois era a primeira vez que ela estava tão perto desde Lisboa e isso fazia meses, visto que tudo ocorreu em 1737 e já estamos na metade de 1738. Seus braços soltaram-me lentamente e ela me olhou nos olhos.

— O que pretende fazer agora?

Pude ver verdadeiramente que havia um leve contentamento dela por mim em seus olhos.

— Reencontrar o meu povo. Venha, vamos subir.

Estendi-lhe a mão e ela a segurou de bom grado. Apertei-a tão forte que provavelmente a machuquei, mas ela não reclamou afinal. Ao longo de nossa viagem percebi que a jovem Jenny que conheci no porto de Londres se foi. Uma Jenny que fugiu da morte do pai e um casamento arranjado. Uma Jenny que pensava poder resolver tudo e que a vida podia ser o paraíso em Tulum. Uma Jenny que ainda sonhava em ser pirata, beber rum e cantar sobre os setes mares enquanto seu Gralha a levava para conhecer o mundo. Essa menina morreu junto à Anne Bonny e repousa ao lado do pai em algum lugar do oceano agora.

A mulher que vislumbrava o horizonte ao meu lado agora era apenas um reflexo dessa menina morta. Se Adewalé pretendia tornar essa garota em alguém maduro, então ele conseguiu. É claro que eu sentia falta da alegria na voz dela, da sua cara emburrada quando algo lhe desagradava e do seu beijo. Como eu sentia falta dos seus beijos e de dormir junto a ela. Eu poderia compra-la a uma lagarta que vive sua vida pacífica comendo folhas até precisar se recolher em um casulo e poder ser livre novamente. Mas ela nem de longe carregava cores tão bonitas quanto das borboletas.

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Havia um porto em Angola, mas sendo o Ashai um navio composto por ex-escravos e escravos fugidos não podíamos simplesmente aportar na colônia portuguesa. Desviamos um pouco a rota e ancoramos próximo a rochedos e corais que dificultariam qualquer aproximação.

Fui o primeiro a descer e mergulhar nas águas quentes e cristalinas daquele mar tão convidativo. Do meu cabelo, que a muito eu não cortava, escorria pequenas gotas quando retornei à superfície e olhei para a proa e vi Jenny observando a mim e aos outros homens que também mergulhavam.

— Vamos Jenny! A água está quente!

Eu não acho que ela teria pulado, mas o bom cozinheiro deu uma mão e a emperrou para fora do brigue logo após me ouvir chamando-a. Jenny mergulhou e quando seus pulmões puxaram ar novamente ela o xingou por alguns instantes e jurou que aquilo teria volta. Ela ainda era vingativa então.

Após alguns instantes para torcer nossas roupas adentramos as matas enfim, tentando seguir uma trilha natural, provavelmente utilizada pelo próprio animais. Com paciência eu poderia descobrir os animais que passavam por ali, mas nossa prioridade era encontrar água doce. Minha prioridade era encontrar um rio específico, o rio Kwanza. De acordo com as informações de nossas paradas anteriores os Ambundu estavam ao norte desse rio, mantendo-se longe dos homens brancos.

Os sons de macacos e aves era tudo o que ouvíamos, conversas ali eram desnecessárias, pois sabíamos o quão perigoso era caminhar pelas selvas da África. Nunca sabíamos quando poderíamos encontrar um Ongo (Leopardo) ou um ninho de Gunbatete (Abelha). Jenny vinha quase colada a mim e confesso que isso me dava certa satisfação, afinal ela ainda era uma menina criada na cidade que pouco sabe sobre a selvageria natural. Além disso, mesmo em Tulum, ela nunca fora boa em se esconder das onças.

Não demorou para que todos estivessem cobertos de picadas de insetos tão grandes quanto meus dedos e tudo o que eu podia fazer é torcer para não pegar nenhuma febre. Por sorte, encontramos um pouco de lama onde estavam alguns sapos e espalhamos por pernas, braços e rostos. Com algumas frutas, encontradas pelo caminho, amenizávamos a fome, mas o calor interno de uma selva é inexplicavelmente tão severo quanto nas terras secas dos Jihoji (Leões).

O meio dia se passou e nossa andança não resultava em nada, logo teríamos que retornar sem nenhuma informação importante. O Calundu (Espírito) daquelas matas, porém, derramou chuva sobre nós e seguimos o fluxo de água com uma pouco mais de segurança, visto que a maioria dos animais grandes se abrigavam das chuvas. Com exceção daqueles grandes demais para encontrar qualquer abrigo.

A correnteza da água nos confirmou nossa proximidade de um rio, mas ainda me restava saber se era o Kwanza ou não. De certo não havia ali crocodilos, não com a água agitada daquele jeito, o que também significava que não havia como atravessarmos. Além disso não poderíamos passar pelas matas na escuridão da noite, seria muito arriscado. O grupo decidiu, então, descansar um pouco e esperar a chuva diminuir. E como era de costume, as chuvas intensas eram sempre rápidas.

Logo estávamos voltando para o Ashai e tudo aconteceu sem ninguém ter percebido. Homens e mulheres cercaram-nos por entre as árvores, de tal forma que pareciam simplesmente terem nascidos daqueles troncos. Em seus corpos haviam pinturas que os ajudam a ser como as matas e em suas mãos pendiam lanças de madeiras com suas pontas afiadas. Havia poucas vestes sobre seus corpos, as mulheres tinham os troncos totalmente expostos tais quais os homens. Colares com dentes e outros enfeites estavam pendurados em seus pescoços e pulsos. Na cintura, entrelaçados de palha e tecidos seguravam o pouco de roupa que lhe tapavam o sexo. Mas estava claro por suas posturas que se tratavam de Mukuoluas (Guerreiros).

Kungunguma! (Branco!)

Um homem próximo a Jenny gritou, com sua lança em riste, pronto para perfurá-la e sem me mover gritei em resposta, na língua deles. Minha língua natal.

Kamba! Kamba! (Amigo! Amigo!)

Senti toda atenção deles sobre mim, Jenny permanecia parada enquanto eu erguia minhas mãos vazias para o alto. A mulher que estava bem a minha frente, deu um passo em minha direção, olhando-me atentamente com seus olhos cor de mel. Era uma bela negra, devo admitir.

— Quem é você? – Ela disse em Kimbundu e tentando me lembrar dessas antigas palavras, lhe respondi em Kimbundu.

— Ninguém.

Mabuba (Cachoeira) não conhece ninguém. – Seus olhos se desviaram de mim para encontrar Jenny logo atrás. – Ninguém anda junto com kungunguma.

— Ela é kamba.

— Kungunguma kana banta. (Branco não é amigo)

Olei diretamente em seus olhos e querendo tirar a atenção de de Jenny mudei de asasunto da melhor maneira que pude pensar. — Você é de Ambundu? — Sua expressão mudou, sua sobrancelha se arqueou e pude ver a curiosidade em sua íris, mas ela não me respondeu. – Eu sou Iá-Ndenge (Mais novo ou menor), nasci em Ambundu, mas os kungunguma me levaram.

— Quem é sua mama (mamãe) ou tata (papai)?

— Eu não os conheci, não ganhei meu dijina (nome).

Seus olhos se arregalaram e ela voltou a as afastar, seus companheiros não pareciam compreender o motivo de sua reação e eu muito menos. Os outros tripulantes esperavam, não era de vossos agradado atacar outros negros, independente da região ou tribo. Toda a resolução daquele empasse estava em minhas mãos.

— Não pode ser... Tu eras apenas um menino quando houve o ataque. Não podes ter sobrevivido por tantos anos.

Desta vez fui eu a me aproximar, abaixando completamente minha guarda, estendi minha mão para tocar na dela. Nunca esperei reconhecer alguém ou ser conhecido por alguém, ainda mais por alguém que era mais novo do que eu.

— Você lembra de mim?

Kana. (Não). Bessagana (mulher luandense de idade) lembra. Ela é minha kazola. (vovó). Venha.

Ela se virou e disse algo aos seus companheiros que lentamente abaixaram as armas, percebi que se olharam entre si, mas não ousaram contradize-la. Ela era superior a todos eles, mas ainda me restava saber o porquê. Sinalizei para que os negros que estavam junto a mim me seguissem e assim eles os fizeram, até mesmo Jenny, que permanecia em silêncio.

Caminhamos por um tempo, até chegarmos em um trecho raso do rio que agora eu tinha certeza ser o Kwanza. Mais algum tempo descendo desfiladeiros e a mata se abriu, chegando ao seu limite e dando espaço para o clima seco de areia e barro. Enquanto Mabuba descia seguida pelos seus mukuoluas e os outros tripulantes do meu próprio grupo por uma ribanceira que limitava o verde eu observei com atenção as cabanas de madeira e palha ali espalhadas. Mulheres em volta de tecidos coloridos, crianças correndo e homens ocupados com seus afazeres trajados com peles de animais.

A verdade é que eu me lembrava muito pouco de minha infância, mas eu soube que aquela não era a primeira vez que eu estava ali e percebendo minha paralisia inexplicável Jenny também cessou a caminhada e entrelaçou seus dedos nos meus.

— Obrigada, por salvar minha vida uma vez mais. – Sua voz era quase um cochicho. – Esse é o seu povo então?

Eu a olhei e ela sorria quase que delicadamente para mim, havia muita felicidade em mim e logo comecei a chorar. Eu apenas confirmei com um breve aceno enquanto ela enxugava minhas lágrimas. Eu estava em casa novamente e ao lado da pessoa mais importante do mundo.

— Chegou a hora do seu descanso, Sexta-feira.

Quando, ainda de mãos dadas, eu entrei ao lado dela por entre o povo e as cabanas que compunham àquela singela aldeia, recebemos os olhares curiosos de todos ao redor. Segurei-a ainda mais forte e continuei a seguir Mabuba até dentro de uma cabana um pouco maior que as demais. Em seu interior, fomos recebidos por peles de Ongo e de Jihaji. Havia máscaras de madeiras pintadas e diversos jarros igualmente decorados. No centro, estava uma velha mulher vestidas com os tecidos coloridos típicos da África, seus cabelos estavam escondidos sobre o mesmo tecido colorido e em suas orelhas brincos grandes de flores e folhas estavam pendurados. Mas sua atenção estava voltada para algumas folhas que ela parecia separar.

— Kazola. — Mabuba a chamou e logo ela se virou para nós

— Mabuba, quem são esses?

— Achamos eles por entre a mata, próximos ao rio.

— E por que os trouxeste aqui?

— Kazola... – Mabuba se virou e me encarou antes de se dirigir à mulher novamente. – Esse é Iá-Ndenge.

A velha se aproximou com os olhos estreitos, de certo já não tinha a visão potente como os da jovem, mas eram idênticos aos de Mabuba. Sua mão calejada tocou minha face e percebi com desgosto que as pontas de seus dedos inexistiam.

— É verdade... Mas você já não é o menor dentre nós. Eu não o vi mais depois do porto, mas minha memória não falha. É aquele menino que fora capturado junto a mim vinte anos atrás.

— Você estava lá também? Eu não consigo me lembrar...

— Eu ainda tinha meus dedos inteiros nessa época. – Ela riu em uma vã tentativa de amenizar seu comentário.

Recebi um abraço inesperado daquela mulher a qual eu não conseguia me lembrar, mas por algum motivo eu sabia que ela estava sendo sincera e simplesmente a retribui. Após esse breve momento ela me soltou.

— Eu lembro de você, era um menino pequeno e calado, mais parecia um munjolo (macaco) se pendurando pelas árvores e correndo. Vejo agora como está grande e bonito, sua mama teria orgulho de você.

— Minha mama.... Ela retornou?

Seu sorriso se desfez rapidamente e eu já sabia a resposta antes dela negar com a cabeça. – Sinto muito. Eu nunca mais a vi. Mas vejo que tens uma companhia no mínimo incomum.

Seus olhos recaíram sobre Jenny que mais uma vez estava sendo julgada em silêncio, da mesma maneira que todos os negros são ao serem capturados. Mas as posições aqui estavam invertidas.

— Sim, essa é Jenny Scott Kenway. Filha de um poderoso homem que lutou por nossa causa, libertando muitos escravos ao lado de Adewalé.

Os olhos da mulher se encheram de repulsa instantaneamente e seus passos pesados e furiosos a trouxeram para bem próximo de mim.

— Vá embora daqui e leve seus amigos Assassinos com você. – Me espantei de imediato com a mudança de sua postura, mas ela continuou. — Adewalé é um nome famoso entre nós, um Assassino que vem atacando negreiros e libertando homens. Eu ouvi histórias sobre a maldita richa entre esses tais Assassinos e Templários enquanto fui escrava de um templário. Morte e ruína é tudo o que traz esse conflito que nada tem em comum com nossa causa. E não queremos atrair a atenção de nenhum templário ou Assassino até aqui.

— Nós não somos Assassinos, apenas viajamos juntos à Adewalé.

— E o que faziam na mata?

— Os outros procuravam água. Eu procuro o meu lar. Você me entende não? O quanto desejei estar de volta ao meu verdadeiro povo. Me afastar para sempre de correntes e açoites. Parar de fugir de uma vez por todas.... Consegue me entender?

A severidade em seu olhar se amenizou e ela se virou de costas repentinamente. – Vocês podem passar a noite aqui e se o que diz é verdade, então podes ficar, mas deve esquecer completamente qualquer ligação com seus amigos Assassinos. Nós só queremos paz.

Notas finais
Sextinha terá que deixar os Assassinos para sempre se quiser ficar e como Jenny fica nessa história? Ela ta meio sumida né? O próximo capítulo trará mais respostas, prometo! Não posso e não devo prometer nenhuma data de postagem, apenas posso dizer que mês vem tem férias oo/o/ UHUL!!!! E é isso, agradeço quem aguardou e ainda bota fé nessa fic. Até 2018 acaba, assim espero rs.