Assassin's Creed: Omnis Licitus
24 A Fria Realidade
Notas iniciais
A posição da cama quanto a janela permitia a seus ocupantes alguns minutos a mais longe da claridade dos primeiros raios solares e foi com certo desgosto que Jenny despertara. Insistiu em manter os olhos fechados e sentir seus músculos relaxados em uma cama de verdade após tanto tempo dormindo sobre redes e palhas. Naquela hora toda sua sede de vingança se esvaíra e seu maior desejo era degustar daquela paz. O momento, contudo, perdeu sua plenitude de calmaria quando a Kenway sentiu um movimento em cima de si. Seus olhos se abriram rapidamente e como castigo tornaram-se a fechar devido a luz, e com a mão cedendo certa proteção ela ergueu a cabeça o suficiente para ver Kenna aninhada ao seu lado, com a cabeça repousada sobre seus seios. Ela não precisava de um espelho para ver seu rosto corar instantaneamente e sutilmente ela tentava acordar a rapariga.
— Kenna... Acorde, Kenna.
Tudo o que teve em resposta foram murmúrios e sua perna sendo enlaçada pelas pernas dela. Sendo as roupas de Kenna usadas meramente como adorno de decoração, foi com pavor que Jenny sentiu o sexo de sua companheira de cama roçar contra sua coxa. Ela simplesmente saltou da cama ao perceber a umidade do local. Assustada com a movimentação repentina, Kenna acordou cobrindo-se como pôde com os lençóis da cama.
— O que houve?
Jenny respirava profundamente, ainda ruborizada, permaneceu de costas enquanto vestia suas roupas esfarrapadas de marujo. – Nada. Preciso ir embora. Uma amiga está me esperando.
— Amiga? – Kenna sorriu da forma maliciosa como todas as prostitutas são ensinadas a fazer e parecia já relaxada.
— Sim. – Jenny vestia as calças e quase caiu, o olhar lascivo da outra jovem parecia de alguma maneira afetá-la. Como se temesse não conseguir resistir. – Lembra-se do nosso acordo?
— Sim, me lembro. – A morena revirou os olhos com a mudança de assunto.
— Ótimo!
Por fim, ela alocou os cabelos dentro da boina velha e se virou para a outra menina que ainda estava na cama. Sem delongas, era dirigiu-se até a janela e deu uma boa olhada para verificar se alguém poderia vê-la.
— O que está fazendo?
— Não se esqueça do acordo e boa sorte.
Jenny olhou para a rapariga uma última vez e lhe cedeu um sorriso que poderia ser interpretado de inúmeras maneiras. A loira precipitou-se para fora e agarrando-se nas brechas que encontrou na parede do edifício desceu até o solo. Mantendo os modos de um rapazote, seguiu até o centro da rua sem chamar atenção e tudo parecia bem até uma mão agarrar fortemente seu braço direito.
— O que esteve fazendo no Moinho Vermelho a madrugada toda?
Bonny falava baixo, próximo aso seu ouvido. Não trajava roupas masculinas, mas escondia bem as silhuetas com uma capa que lhe cobria do pescoço até o quadril, presa por cintos na cintura e escondendo pequenas bolsas nas laterais do corpo. Seu manto de Assassina.
— Dormindo.
A ruiva se aproximou, quase a ponto de beijar a orelha dela e inspirou repetidamente.
— Você está cheirosa. Não esteve só dormindo.
— Tomei um banho.
— O que já é mais do que o seu pai fazia
Elas riram e a ruiva deixou para lá os detalhes da noite da mais nova, o que quer que tenha feito, estava feito.
— Tenho mais informações e um plano em mente.
— Vamos para o Gralha então.
Sexta-feira logo veio recebê-las e visivelmente passou a noite acordado a espera delas. Aparentemente o rapaz estava cansado demais para perceber a pele limpa e cheirosa da amiga. O trio foi para a cabine do capitão e querendo não dar brechas para possíveis perguntas que requereriam respostas constrangedoras, Jenny tratou de compartilhar o que descobriu na noite anterior e ambos escutaram atentos.
— E como é o seu plano? – Questionou Bonny que tinha as pernas apoiadas sobre a mesa enquanto permanecia sentada logo atrás desta.
— Uma luta. Sexta-feira pode desafiar o príncipe e tenho certeza que será mais do que capaz de vencê-lo. E após a derrota a escolhida para tratar do Príncipe será você e assim poderemos entrar no palácio.
— Como assim poderemos? – Sexta-feira estava de pé e com os braços cruzados e o cenho franzido.
— Dois guardas acompanham o Príncipe a noite, posso dar um jeito em ambos e pegar suas roupas.
— Não podemos fazer isso, Jenny. – Ane suspirou e retirou os pés de cima do móvel.
— Não posso desafiar o Príncipe. – Sexta-feira relaxou os braços e fitou a jovem que alternava entre olhar para ele e para a ruiva. – O que acha aconteceria se um negro batesse no Príncipe de Portugal?
— Será uma luta justa e ele não nega desafios a ninguém. – Ela contestou para Sexta-feira.
— Não existe justiça para negros, Jenny. – Ele se aproximou da amiga com a expressão complacente.
Se uma resposta para dar ou melhores idéias para sugerir, Jenny permaneceu calada. A menina que há pouquíssimos minutos propunha com a empolgação de uma criança se apagou e deu lugar a alguém velho demais e decepcionado demais com o que tinha ouvido. — Seu amigo, John, ele não estaria interessado em uma vingança?
Jenny olhou de Sexta-feira para Bonny e por fim respondeu. – Irei falar com ele.
— Bom... – Concluiu Ane ao se levantar. — Melhor descansarmos por hora.
A Kenway e Sexta-feira deixaram a ruiva e foram para o convés inferior, onde estavam as redes usadas pela tripulação para dormirem. A maioria estava vazia, o que rendia silêncio para o casal descansar. O rapaz logo caiu em um sono profundo, mas a loira permaneceu com os olhos aberto. Estava descansada e sua mente não parava de pensar em Paul e em quão perto ela estava de um dos bandidos que invadiram sua antiga casa. Ela não podia culpar Sexta-feira e nem sua mentora, pois ela bem sabia que encontrar e alcançar os responsáveis pela morte do pai seria tarefa árdua e demorada.
De súbito ela levantou-se e confirmou se seu amigo estava mesmo dormindo, o ronco de Sexta-feira foi o suficiente para lhe confirmar isso. Com passos silenciosos ela deixou o convés, antes de partir deu uma espiada dentro da cabine mestra e viu Bonny adormecida. O velho Owel estava de pé na proa da fragata, um dos remanescentes da tripulação de Edward. Um homem do mar que tinha o respeito de todos a bordo, inclusive de Jenny e foi com uma desculpa fajuta dada ao velho que ela deixou o Gralha e voltou para as movimentadas ruas de Lisboa. Com uma chuva eminente ameaçando despencar, todos pareciam apressados em terminar seus assuntos a céu aberto.
Jenny que ainda estava vestida como James, caminhava sem pressa e sem rumo, observando e ouvindo o que podia. Chegando a uma praça que ela não havia estado antes, encontrou uma igreja. De arquitetura típica dessas construções, uma torre com um sino alto tentava perfurar as nuvens carregadas e com todos ocupados demais em suas próprias obrigações, ela seguiu para os fundos do local e sem maiores dificuldades içou-se pela parede até o telhado.
Como se fosse um castigo divino per perturbar local de tamanha santidade, a garoa surgiu fria e de mau humor. Fazendo as pessoas abrigarem-se sobre toldos, dentro de lojas ou onde mais pudessem obter um mínimo de proteção da água. Mas a Kenway estava acostumada a tempos ruins e continuou a escalar a torre, com mais cuidado, até chegar acima do sino velho. Alguns pombos abrigavam-se ali, mas não ela que permaneceu de cócoras no ponto mais alto das redondezas, observando fixamente o Palácio do alto da colina mais a leste. Lá estaria o Príncipe, estaria Marquês de Pombal, o Rei e Paul.
A chuva tornava-se mais forte à medida que entardecia, mas como as gárgulas que nasciam apenas para perpetuarem nos topos das igrejas, estava Jenny observando cada entrada do palácio, contando os soldados que faziam a rondam, contando o tempo entre cada ronda, contando os pontos cegos, os servos que iam e vinham, as carruagens que iam e vinham com mercadorias e deduzindo em qual arbusto ela poderia encontrar um bom esconderijo. Qual janela a levaria até seu alvo? Como, poderia ela encontrar um homem dentro daquele local grandioso?
Por meses ela se imaginou frente a frente com os lacaios templários que invadiram a mansão Kenway três anos atrás. Por horas ensaiou o que lhes diria, como jogaria todo seu ódio e rancor sobre eles e lhe diria que ela era filha de Edward James Kenway e que estava ali para cobrar o sangue de seu pai derramado. Quanto tempo perdeu ao se imaginar uma Assassina tal qual seu pai fora e agora, no limiar de encontrar apenas o primeiro deles, não tinha certeza se iria conseguir simplesmente lhe tirar a vida.
Foi a primeira vez que ela sentiu o peso do fracasso, o real fracasso, sobre suas costas. Estavam ela, Sexta-feira e Ane em Portugal sem um plano de ação. Tudo o que tinha conseguido fora uma bagunça na Cavé e uma noite em um bordel. Foi ali que Jenny concluiu que havia se iludido ao se imaginar uma Assassina. Ela era apenas uma menina que sabia escalar, correr, saltar e se esconder. Desiludida, a Kenway desceu da torre e depois desceu do telhado.
Estava encharcada, suas roupas já não escondiam bem os seios ou a cintura fina e os cabelos pesados escorreram para fora da boina, mas afogada mais em em suas aflições do que na água, nem percebera o ocorrido e simplesmente andou de olhos fixos no chão. Andou, andou e andou. Não sentia fome, cansaço, frio ou calor e ela poderia ter continuado assim até retornar ao Gralha se alguém não tivesse parado a sua frente e lhe bloqueado o caminho.
— James?
Jenny ergueu a face e para seu espanto viu John a observando dos pés a cabeça com o cenho franzido. A água da chuva havia lavado James e deixando apenas a menina. Poucas foram as vezes que a loira gaguejou na vida e aquele momento foi um destes.
— J-John... Oi.
Os olhos dele passaram de confusos para raivosos e tão logo Jenny notou que seu disfarce havia literalmente ido por água abaixo.
— Você me enganou. Mentiu pra mim.
— John, por favor, deixe-me explicar...
— Eu achei que você era um amigo. Um bom camarada e eu era grato a você porque me ajudou, mas você estava o tempo todo me enganando.
— Sou menos merecedora de sua gratidão por ser mulher?
— Não. Mas não é merecedora de minha confiança e nem do meu tempo. Passar bem!
John passou por ela a passos pesados, fazendo respingos de lama salpicarem sobre as pernas dela e antes que ele pudesse se afastar demais ela se virou.
— John! Espere! — Ele parou e se virou para encarar a farsante, com as gotas a lhes fustigar a pele e retinir nas pedras e poças que se formavam pelo chão. – Preciso da sua ajuda.
— Eu nem sei quem você é... Por que deveria te ajudar?
— Meu nome é Jennifer Scott Kenway, filha de Caroline e Edward James Kenway. Por favor, vamos conversar e eu lhe explicarei tudo.
John permaneceu parado, olhando para os olhos azuis dela. Mais pareciam um par de loucos parados sob a chuva e completamente molhados. Todo o seu ser gritava para não confiar nela e ir embora, acabar ali com qualquer amizade que ele nutriu por James, mas indiferente se era James ou Jennifer, ela o havia salvado e cuidado dele quando ela nada o devia e no fundo John ainda era um homem de coração mole.
— Ao menos saíamos dessa chuva, preciso de uma boa cerveja.
Ele sinalizou para que ela o seguisse e assim ela fez assim que virou-se de costas e caminhou por algumas ruas estreitas até achar uma taberna suja o suficiente para lhe conceder alguma privacidade. Atrás do balcão um velho português com seu bigode grosso e grisalho trazia da cozinha uma panela de guisado que o olfato de John identificou com prontidão como bacalhau. O marinheiro sentou-se em uma mesa afastada e pouco iluminada, fez a mensura de uma porção do ensopado para ele e para Jenny e assim que servidos ele começou.
— Espero que tenha dinheiro, porque não pago mais nada a você.
Jenny olhou ao seu redor e contou meia dúzia de almas vivas no recinto, todos distantes o suficiente para lhe dar liberdade. Ela limpou a garganta e o respondeu.
— Dinheiro não é o problema, John.
— Você engana estranhos para lhe roubar depois? – Ele levou uma colherada na boca e olhou de forma provocadora, não havia dúvidas que ainda estava chateado.
— Não vou negar que quase peguei as moedas do seu bolso naquela noite, mas não fariam muita diferença pra mim. – A Kenway sentiu o estômago apertar quando farejou o maravilhoso cheiro do ensopado e tratou de experimentar a iguaria. – Não estou em Portugal em busca de dinheiro.
— Então o que queres aqui?
— Vingança. – John arqueou a sobrancelha boa, pois de certo ele não a levava a sério. – Você tem pais John?
— Já os tive, quando mais jovem. Ambos morreram de febre. Por que a pergunta?
— Minha mãe também morreu doente, embora não fosse exagerado dizer que foi culpa do meu avô. Mas este jaz em Bristol. Então havia me restado apenas o meu pai, mas alguns homens invadiram sua casa há três anos e o assassinaram. – Ela levou mais uma colherada a boca e degustou da sopa. — Descobri que um deles está aqui e vim longe demais para voltar atrás.
— Desculpe se não me comoveu, mas homens não invadem casas a esmo. Por que um bando tão grande invadiu a cada do seu pai?
— Porque ele era um pirata, há uns quinze anos. Como eu disse, dinheiro não é exatamente um problema pra mim.
— E por que precisa da minha ajuda para a sua vingança particular?
— Porque o homem que procuro está no Palácio Real e o Príncipe José é meu caminho mais curto até lá. – John a olhou desconfiado por cima da colher embebida de caldo de bacalhau e para conquistar de uma vez por todas ela concluiu. – E porque isso irá te render lucros suficientes para levar Rosa até Gales.
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