Notas iniciais
A data lembra vocês de algo?

Lisboa 28 de novembro de 1807

Cinco dias haviam se passado desde o ataque. Rodolfo, junto do pai, havia lutado para proteger a casa de sequestradores. A batalha, porém, terminou com a morte do pai, Luís; a fuga dos gêmeos Ugo e Laura; o sequestro do bebê Raul e da mãe, Joana. Além de tudo, o jovem Rodolfo acordara preso por correntes num local subterrâneo.

Ele ficara preso todos os cinco dias, pendurado e amordaçado. As correntes que o prendiam á parede eram muito curtas. Estavam colocadas em seus pulsos e tornozelos. Ele tentara escapar diversas vezes, sem sucesso. Alguma coisa cobria sua cabeça. Uma mordaça o impedia de falar. Estava em condições terríveis.

Uma figura mascarada vinha alimentá-lo todos os dias. Graças á cabeça encoberta, o preso não podia vê-lo. O homem também não falava, simplesmente tirava-lhe a mordaça e colocava água e alimento em sua boca. Fazia isso uma única vez por dia, o que deixava Rodolfo fraco e sem maneiras de fugir. Queriam deixá-lo vivo por alguma razão.

Vários dias se passaram, e ele se deteriorava tanto mental quanto fisicamente. Estava quase sem forças, mas continuava a refletir. Ele havia matado. Aquilo, porém, era o que menos pesava em sua mente. Ele se sentia incapaz. Não conseguira proteger a tão amada família. Seu pai tão amado havia morrido. Sua querida mãe e o irmão foram levados. E ele sabia que não fizera absolutamente nada.

No quinto dia de cativeiro, porém, alguém abriu a porta. Rodolfo pensou que era o alimento do dia, mas ouviu o som de duas lâminas em conflito. Finalmente, o barulho acabou. Alguém se aproximou dele, que se preparou para morrer.

Ao contrário de suas expectativas, porém, o jovem teve a mordaça retirada. Tiraram-lhe as correntes e, por fim, o papel que lhe cobria a face. O que Rodolfo viu foi um homem na casa dos cinquenta anos. Tinha longos cabelos pretos que iam até o final da face. Os olhos eram cinzentos, como os do garoto. Tinha uma cicatriz nos lábios, que cortava sua barba rala. Era dono de um bom físico para a idade. Brandia uma espada ensanguentada numa mão. Da outra, surgiu uma lâmina de uma maneira familiar para Rodolfo. Seu pai tinha uma do mesmo tipo. Tinha usado a arma para salvar ele e os irmãos anos antes.

Enfim, o homem abriu a boca:

— Você não é Luís Aguiar. — disse, estranhando o jovem. O som de alguns homens chegando, porém, o fez dizer: — De qualquer maneira, siga-me, criança.

Rodolfo assim o fez. Com suas últimas reservas de força, seguiu o homem. Eles seguiram por um corredor mal-iluminado até chegarem numa ampla galeria. As paredes eram de pedra, sem nenhum revestimento. Era como uma caverna. Dessa vez, porém, era mais bem iluminada. A luz do sol vinha de um túnel metros acima. Uma escada em espiral levava até lá. Eles se preparam para subir, mas sete homens desciam-na.

— Achas que consegue lutar, garoto? — perguntou o homem. Ao olhar para o estado do mais novo naquele local mais iluminado, porém, tomou a própria conclusão. Como alternativa, entregou-lhe algumas facas de arremesso. — Arremesse-as enquanto eu luto, está bem?

Rodolfo assentiu. Estava com a boca seca para falar. Pegou as facas e se preparou. Quando o homem correu em direção aos soldados, ele mirou bem e arremessou. A primeira acertou o pescoço de um. Em seguida, acertou outro no olho. O velho que havia salvado Rodolfo entrou na batalha e matou um com sua espada, acertando o segundo ao mesmo tempo com a lâmina que se projetava do pulso. O mais novo arremessou a terceira faca, mas errou. A quarta matou outro homem, atingindo a testa. Os dois restantes fugiram.

Quando eles começaram a subir as escadas, mais homens desceram acompanhados dos dois fugitivos. Deviam ser mais ou menos uma dúzia.

— Corra, garoto! — gritou o outro. Eles desceram e correram para uma porta do lado oposto ao cativeiro de Rodolfo. Ao entrarem lá, se trancaram com a chave que estava na própria porta.

Por sorte, aquele era o depósito de armas. O jovem armou-se com um facão um tanto enferrujado, junto de duas pistolas com muita munição. O velho já brandia um mosquete, pronto para atirar. A porta tremia com as tentativas infrutíferas de arrombamento.

— Quando eu disser “agora”, você atira. Entendeu criança? — ordenou o velho. Apesar de ficar irritado pelo apelido, Rodolfo assentiu.

Três armas de fogo apontavam para a porta. Chegou um momento em que as trancas se romperam. A porta começou a cair, e o homem gritou:

— Agora! — com o sinal, os dois dispararam. O tiro de mosquete matou dois de uma vez. Os de pistola mataram um cada. O grupo de soldados se assustou com os tiros e recuou, dando tempo de Rodolfo pegar outras duas armas e atirar novamente. Faltavam apenas quatro homens, mas apenas o velho tinha condições de lutar no corpo-a-corpo. E foi o que ele fez.

Com um salto, o velho girou no ar e cortou a garganta do primeiro. O segundo avançou com um sabre, numa estocada. O alvo, porém, abaixou-se, perfurando sua barriga em seguida. O terceiro atacou, aproveitando a desvantagem do outro. Rodolfo, porém, fez seu máximo esforço para protegê-lo, usando a faca para golpear em forma de arco o pescoço do agressor. Faltava apenas um homem, do qual os dois se livraram facilmente.

Eles se armaram e correram em seguida. Driblaram dois guardas na escada e correram pelo túnel. Havia uma saída em forma de semicírculo que dava para a luz do sol. Ela foi, porém, barrada em seguida. O túnel estava dividido em dois, e os fugitivos foram para o lado contrário aos guardas. Subiram mais escadas, chegando num local muito alto. Durante a fuga, Rodolfo olhou por uma janela, percebendo que estava dentro de uma igreja. As escadas que eles subiam ficavam num local separado por uma parede. Chegando ao último degrau, havia uma escada de mão seguida de um alçapão. Eles subiram e o abriram.

No outro andar, a dupla surgiu abaixo do sino. Eles escalaram mais, chegando ao telhado. Estavam realmente altos. Mais de quinze metros os separavam do chão. Enfim, os soldados abriram o alçapão e começaram a subir. O velho, ao ouvir o barulho, disse:

— Não tenha medo, garoto! — e subiu num apoio de madeira que havia, surgindo do telhado. De lá, ele olhou para baixo e pulou.

— O quê? Ele se matou? — estranhou o jovem. Ele também subiu no suporte. Olhou para baixo e viu uma carroça de feno. Virou a cabeça e notou que os soldados já estavam no mesmo andar que ele. — Devo estar ficando maluco! — gritou, e saltou em seguida.

O jovem Rodolfo não sabia, mas naquele momento ele renascia. O seu antigo “eu” já havia sumido. Quem existia agora era um novo Rodolfo Aguiar. Um Assassino.

Notas finais
Calma! Estamos quase lá! Provavelmente teremos a introdução de Assassinos e Templários no próximo capítulo.