Assassin's Creed - Aurum Opus

1 Aurum Opus - Capítulo Único


Notas iniciais
One Shot - Esta mesma fanfic pode ser lida em: http://socialspirit.com.br/gautama

29 de janeiro — 1712
Vila Rica — Brasil

Basílica Menor de Nsª do Pilar

O sino badalou, duas, três, quatro vezes, quando o primeiro fiel saíra e descera as escadas da basílica, na entrada, o Padre Jesuíta como de costume habitual, abençoava seus fiéis da irmandade ao fim da missa.A chuva começava a cair, lentamente, e em ligeiros passos via-se pequenos aglomerados se dispersando, aquela fina garoa sequer atrapalhara o intenso e amagentado por do sol que se seguira. Do alto, o pombo correio pousava sutilmente sob os braços do homem de capuz, este que situava-se no telhado da Igreja, ocultado pela torre do sino e as enormes palmeiras que nascera rente a parede do santuário, deixando-o quase invisível à quem tentara observar, da praça. Enquanto calmamente desenrolava o contrato das garras da ave, seus olhos obtiveram uma visão panorâmica de Vila Rica, memorizando ao longe um antigo Casarão da Corte Portuguesa, localizado há alguns quarteirões à sua frente.

Na carta haviam informações sobre André João Antonil, nome abrasileirado de Giovanni Antonio Andreoni, um jesuíta Italiano residente em Salvador que estaria visitando Minas Gerais "ás sombras"!

De meus próprios olhos quero presenciar a louca e insana corrida do Ouro destas terras, vida e riquezas sugadas pela cobiça do homem – dizia ele em carta interceptada pela Ordem.

No contrato enviado pela Ordem dos Assassinos, relatava que Antonil recebera um estranho convite de um grupo de religiosos portugueses, habitantes de Vila Rica, tendo o intuito de convida-lo á uma expedição missionária indígena.

Antonil era formado em direito, atuando em cargos como, professor, diretor e atualmente reitor de um Colégio Baiano. "Estranho" certamente era a colocação ideal, dado que há pouco menos de um ano, este jesuíta publicara uma obra, cujo nome Cultura e Opulência do Brasil, tivera tamanho destaque em Lisboa. Diante disso, a Coroa, que recebeu de forma indigesta tal conteúdo, advertia que o livro continha detalhadas informações sobre o atual momento econômico de sua Colônia, seus exemplares foram confiscados tornando assim, proibida sua comercialização.

No contrato, era mencionado que este grupo missionário teriam templários espanhóis infiltrados, e estariam trabalhando em algum golpe político. A carta ainda frisava, que entre eles haviam um nome de grande influência, Berenguer Gaston, ou mais conhecido como Berenguer de Aragão. Capitão Templário, que participou de diversas conspirações em seu país de origem, inclusive na Guerra da Sucessão Espanhola, que já perdura por dez anos. Seu "novo" e atual sobrenome, dizem, que fora dado não por ser da realeza Espanhola, mas sim por ser leal a Coroa de Aragão, hoje extinta, e braço direito de Felipe IV de Aragão. Do mesmo modo, na carta dizia que Berenguer planejava de alguma forma, persuadir o reitor Antonil, cabendo ao Assassino buscar pistas e veracidade nestas informações.

Após compreender o comunicado, dobrou o contrato, colocando dentro de seu traje da irmandade, este em tons de um escuro marrom e dourado, de proteções em couro, acompanhado de um sabre, uma discreta algibeira e uma Pistola de Pederneira modelo inglesa.

Filho de pais Assassinos do Credo, Gabriel Orlen, agora saltava entre telhas e árvores, pensando de que forma executaria sua missão, datada para esta noite, porém entre vários pensamentos, um ele tivera certeza, a velha e podre semente templária queria fincar suas raízes em Terra Brasilis.

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A noite, Gabriel Orlen chegara minutos antes para averiguação, e analisando, notou-se que:
A rua estava deserta, pouca iluminação, a entrada principal, não havia ninguém, nem mesmo um único sentinela sob vigia, todavia, o portão estava sob correntes junto de um grande cadeado! Uma pequena vegetação seguido de um barranco se encontravam na parte posterior da casa, os muros eram altos, evidentemente para evitar ladrões e saqueadores, mas facilmente escaláveis caso fosse por um Assassino. Na parte superior, todas as janelas fortemente cerradas, Gabriel no entanto conseguira destrancar uma delas, a que dava acesso há um pequeno quarto, localizado no segundo andar, do lado de dentro, o aposento parecia bastante conservado.

Possivelmente, aqui estariam acontecendo reuniões secretas?!– imaginou Gabriel, retornando agora para os telhados do Casarão.

Do telhado, podia-se ouvir o trotar dos Cavalos, de sua algibeira, retirara um relógio de bolso, seus ornamentos em ouro e bronze, estilo romano e com detalhes em relevo ao que parecia ser um desenho de uma montanha, o tornava um item único, herança de família. Os ponteiros marcavam exatos oito da noite, e em seguida uma carruagem dobrara a esquina, estacionando um pouco mais à frente do portão. Desceram quatro pessoas, três delas encapuzadas, e o italiano Antonil, que foi o último a sair.

Observando sua aparência, já era um homem de cabelos brancos, ainda em grande volume, barbas do mesmo tom, de pequena estatura, sua velhice era visível, arriscaria dizer que tenha mais de sessenta anos. Um dos homens fizera um breve sinal para o cocheiro, que partira em seguida, outro retirava de seu manto religioso o que aparentava ser uma chave, no entanto o cadeado não fora destrancado pela mesma, então o terceiro de capuz tirou algo de sua cintura que fizera o jesuíta dar alguns passos para trás, e de cima do telhado, Gabriel observava aquela maça medieval arrebentar em dois movimentos o cadeado!

Todos entraram.

Via-se uma pequena chama, subindo lentamente, do primeiro para o segundo andar, da janela, podiam-se ver três silhuetas também de encontro ao piso superior do antigo Casarão. A priori, Antonil prosseguira para um cômodo onde não haviam janelas externas, sua sala era a mais próxima do vão de escadas. Um dos três missionários acendera outra lamparina, com a iluminação, notava-se que no aposento, haviam cadeiras, uma mesinha, diversas pratarias e que ainda permaneciam inalteradas, garrafas de vinho espanhol e quadros de artes na parede, um em destaque de Dom João V, sucessor de Pedro II.

A reunião começara.

Para ouvir o máximo da conversa, o Assassino tivera que se posicionar no cômodo ao lado, a primeira coisa a perceber era o dialeto. Ora, se eram portugueses porque não falavam como tal?! Claramente ouvia-se castelhano, e eis que o velho Antonil repreendera:

Cielo, che cosa sta succedendo qui? Onde estão o grupo missionário, e os padres que vieram comigo? Deveria ter desconfiado por vocês nada dizerem na carruagem, o queres de mim?!

Durante o conciliábulo, Orlen confirmara as informações do contrato da Ordem:
Os pseudo-missionários advertiram o reitor italiano, para facilitarem a entrada de hispânicos para a Companhia de Jesus, ou seja, tornando-se jesuítas eram o meio mais prático e "invisível" para uma infiltração templária no país, através de Minas. Com o tempo, ganhariam afeição e posições importantes no estado, tornando-se "amigo do povo", conquistando respeito.

Houvera um momento em que o Assassino escutara sons de papeis, ouvindo Antonil responder, "Não conheço nada sobre isso", minutos depois, todos estavam se levantando, descendo as escadas novamente

Deveis agir nesse momento?- Não! ireis aguardar um pouco mais!– pensou Orlen.

O cocheiro retornou, era hora de agir! No entanto, apenas o velho italiano entrou na carroça, partindo imediatamente! Outra carruagem surgiu, levando os outros três, porém em direção oposta.

– Isto não estava nos planos, devo seguir o padre, e logo!– Exclamou o Assassino, que agora atirava-se entre as telhas agilmente, localizando a carroça à três quarteirões a sua frente, saltando, do telhado para o muro, para a árvore, e dos galhos para a carruagem.

Então preparou-se para abrir a porta, porém foi recebido por uma estocada que atravessou o teto criando um pequeno corte em sua cintura. Mesmo com bons reflexos, tivera sorte, mas não tanta a ponto de deixar cair sua algibeira e relógio.

Havia outra pessoa além do padre, e a mesma puxara o braço do Assassino para dentro, chutando-o em seguida, e tombando sobre a rua.

A carruagem parou;
Dele, um homem alto de cabelos curtos, castanhos e grossas costeletas descia, trajando o que poderia ser um traje de oficial. Perguntou ao Assassino, se tinha assuntos a tratar com o padre, pois ele tinha muito o que conversar. Da pequena janela da carruagem, o próprio jesuíta apenas observava, assutado.

O oficial se apresentara, era Berenguer de Aragão, Grão-Mestre Templário, e o alvo a ser eliminado de acordo com o contrato da Ordem.

Gabriel ainda no chão, estava com a mão sobre o ferimento, mas nada preocupante.
O oficial retirou de seu casaco a Fera Leão, incrível pistola espanhola de três canos, ligeiramente, adicionou pólvora puxando o cão, apontando para o Assassino em seguida.

– Ustedes Asesinos, sempre dificultastes nossos planos, nuestros proyetos! Pero hoy, terei a honra de liquidar esta escória que nos aflige!

Pelas palavras do oficial, Gabriel captara que realmente seria morto caso não tomasse uma atitude drástica e imediata, o templário por sua vez dera três passos a frente, mirando no rosto do Assassino. O disparo é feito, a potência do tiro fizera a poça d'agua subir numa altura considerável, mas errara, ou melhor, Gabriel rolara para trás. Levantou-se, preparando-se para a investida, deslizou sua lâmina oculta e foi em direção ao templário antes que pudesse recarregar sua pistola. Entretanto, para confundi-lo, Berenguer jogara sua arma em direção a Orlen, dando tempo de sacar-lhe sua espada, e iniciando um breve confronto onde ambos, ficaram cautelosos um com o outro.

Apesar de sua missão exigir a morte deste ser, o Assassino reconhecera que as habilidades do homem à sua frente eram melhores e pensou que o combate aberto não era a opção correta. Mas Berenguer, não lutava para vencer e sim ganhar tempo suficiente para uma outra carruagem cruzar a esquina.
Aqueles três pseudos-religiosos se revelaram, agora vestindo trajes de capitães. O Assassino agora entendera tudo, os espanhóis sabiam de sua infiltração no casarão e armaram esta arapuca!

– Deixo este pequeno peixe con ustedes ahora!– disse Berenguer de Aragão, embainhando sua espada e retornando para a carruagem.
O Assassino Orlen correra em sua direção, mas uma flecha cruzara seu caminho. Observando à sua direita, percebera que aqueles três não lhe dariam liberdade.

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Sua única missão esta noite, era estritamente eliminar Berenguer de Aragão, na qual neste instante, estava longe o bastante para uma segunda investida.
Era noite de lua minguante, pouco se via, fruto da mínima iluminaçao, e entre a ruela e calçada, se encaravam templários e Assassino, que agora recostando-se sobre o muro, pensava em algo.

Ante ao inevitável ato, o trio se apresentou: O mais próximo ao Assassino e portando uma spatha era Absaín Mendiz. O outro, mais calvo, que cercava Gabriel a esquerda era Gilbert Garrido, dono daquela mortal Maça Medieval, e mais distante o besteiro, que gostava ser chamado apenas de Carvalhal!

Gilbert correra de encontro ao Assassino, que desviou em milímetros de sua cabeça ser esmagada pela maça, causando rachaduras na parede. Gabriel lançou um chute em suas costas deixando-o irritado, ao virar-se começou a defrontar contra o Assassino, que apenas esquivava. Seu sentido atento, o fez desembainhar seu sabre e defender da longa espada de Absaín, que não fosse forjada por um ótimo ferreiro teria se quebrado na primeira arremetida!

Ao longo do combate, claramente se via que a vantagem era do Assassino, em virtude do uso das armas pesadas de seus inimigos, desse modo, Gabriel pensara manter um deles vivo, ou pelo menos até falarem o paradeiro do Capitão Templário.

Escolhera o besteiro, que há um tempo tentava flecha-lo, em vão, graças a estratégia do Assassino em mantê-lo fora de sua visão e angulo, trazendo a batalha cada vez mais próxima a ele.

Em rápidos, mas precisos movimentos, Gabriel chutara o queixo de Gilbert, sabendo que iria lhe revidar, nesse caso então, agarrou os ombros de Absaín fazendo-o de escudo, no mesmo instante em que a maça de seu companheiro atingisse seu peito. O próprio Assassino sentiu três ou quatro ossos de Absaín se quebrando com o impacto, talvez o esterno e o torax foram atingidos. Ouvia-se um grito seco, antes de desmoronar-se nos braços de Gabriel, mas não antes de ativar sua lâmina oculta e enterra-la em seu pescoço, dando-lhe uma morte rápida. Gilbert não acreditando na cena que vira, apenas tentava acerta-lo de qualquer forma, mas já perdera o instinto e a razão.

Eis que vacilante, fora desarmado por Gabriel, que contra-atacou, cravando a ponta de seu sabre na mandíbula de seu adversário, varando pela nuca.

Com dois de seus companheiros, prostrados inertes na rua, Carvalhal revelara uma face de espanto, no entanto, viu uma oportunidade enquanto o Assassino limpava o sangue de seu sabre. Recolou a flecha com rapidez, então mirou a besta em sua cabeça e...errou! O frio suor escorrendo pelo canto do rosto e as mão trêmulas somente reforçava ser incapaz de faze-lo, agora observara Gabriel caminhar lentamente ao seu encontro. O que restou era apenas usar sua pistola portada na cintura e torcer para não errar o alvo novamente, mas hoje, a sorte não o favorecia, e ao puxar do gatilho viu Gabriel rolar para frente lançando uma faca de arremesso retirada de seu coturno.

O templário sentira uma quente sensação e em seguida fria como a névoa que começara a se formar na cidade, sobrepondo a mão abaixo do queixo, sentiu a faca em seu pescoço, com o sangue esvaindo de seu corpo, neste instante percebera que lhe restava pouco tempo de vida.
Gabriel ajoelhou-se segurando a nuca de Carvalhal, dizendo:

Diga-me, para onde foram Berenguer e o sarcedote?

Assesino, achastes mesmo que livrando-se de Aragão mudaras algo? dissera Carvalhal, quase afônico

Prezo pela proteção e a liberdade deste sofrido povo, já não vê o quanto é amargo viver nas mãos da Coroa?!– respondeu Gabriel.

Haha..ha, usted já tens a resposta, se não for por nós, será por eles... disse o templário engasgando com o próprio sangue! — Per..dão, mas não lhe dareis informação alguma– O que restou de forças, foi o suficiente para puxar o gatilho contra a própria têmpora! Jazendo nos braços do Assassino.

Gabriel revistara o corpo dos moribundos, mas não obteve qualquer informação de seu principal alvo, no entanto, localizou no bolso interno do traje templário de Absáin, uma folha de papiro com dizeres em latim, no qual ele próprio não soube predizer seu significado. Em seu redor, olhou atento, notando possíveis transeuntes se aproximarem. Agora teria que fugir, pois em pouco tempo a milicia estaria no local.

No final da rua, uma voz ecoava chamando pelo Assassino, que mesmo apreensivo, se dirigiu até lá. Na esquina, o mesmo se deparou com outra carruagem, porém retomando a memória, relembrou que era o veículo de outrora, o mesmo que trouxeram aqueles três. A pessoa á sua frente era o cocheiro, advertindo saber o local onde Berenguer estaria. Surpreso pela informação, Gabriel indubitavelmente indagou se não era alguma cilada criada pelos templários. Mas seus instintos dissera o contrário, algo dizia que este homem falava a verdade. Com leve toque, desativou o dispositivo em seu braço esquerdo, retraindo sua lâmina, agora mais fleumático, deixou que o homem falasse.

Se apresentou pelo nome de Adonias, dissera que presenciou toda a luta, e sentiu que aqueles homens não eram boa gente. Explicando em mais detalhes, alegou ser proprietário de uma rede de carruagens, com homens trabalhando para ele por toda a cidade, antigamente era um Emboada, chegando a participar da guerra homônima contra os destemidos Vicentinos.

Gabriel, recebera de sua mão, um bilhete com o local onde estaria o Capitão Berenguer, dizendo que os templários partiriam pela manhã, rumo a uma mina. Após isso, sem mais delongas, ambos partiram.
Segundo o conhecimento do Assassino, o lugar era de fácil localização além de ser próximo da cidade, portanto, resolveu retornar para seus aposentos, em mente, deduziu que Berenguer não faria nada contra o Padre, por enquanto.

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Acima da cidade, no cerrado, entre cachoeiras e regiões montanhosas, situava-se um casarão, ou melhor, a Residência dos Orlen, morada e um dos esconderijos da Irmandade. No salão principal, ouvia-se tocar uma sombria mas harmoniosa melodia, ao som de uma Harpa Sinfônica. Sentando de costas, uma mulher de cabelos avermelhados, tocava majestosamente o instrumento, até que seu filho Gabriel a interrompera.

Estela Avis Orlen, mulher letrada, conhecedora de diversas línguas antigas, Harpista, professora, esposa e mãe. Ser de conhecimento invejável, em sua época, mulheres e escravos sofriam do mesmo mal, conhecimento e estudos eram lhe negados. Mas não para ela, afortunadamente criada em família nobre, mas que por divergências ideológicas com seu pai, saíra de casa na adolescência, sendo apadrinhada pela Ordem dos Assassinos.
Sua posição na irmandade era a de informante e estrategista, nunca chegando a exercer a função de Assassina, embora tivera treinamento e maestria como tal.

– Você completou sua missão? - disse Estela em calmo tom.

– Perdoe-me, minha mãe, embora luteis contra todos eles, nosso principal alvo escapastes de minhas mãos! - respondeu Gabriel, cabisbaixo.

Nesse instante Estela parou de tocar sua Harpa, e virando-se para seu filho respondeu:

– Não, você não se deixa abater pelas missões da Ordem com facilidade! Certamente também, não veio para escutar meus sermões, diga-me, o que o aflige!

Gabriel agora, retirava de seu traje, aquele papiro roubado de um dos bolsos do primeiro templário que matou. Para ele, a necessidade de decifrar aquela frase em Latim, era o motivo maior do seu regresso.
No papel havia a seguinte escrita: A limine, a fructibus eorum cognoscetis eos, a magnis maxima, e mostrando para sua mãe, que embora facilmente traduziu seu conteúdo, a tradução literal não fazia sentido algum.

Talvez, algo mais relevante estaria por traz disso– pensou consigo Estela, que solicitou a seu filho, um tempo maior para pesquisar a fundo.

30 de janeiro
Farol dos Bandeirantes

Grande névoa habitava a área, podiam-se ouvir o som das corujas enquanto vagarosamente os primeiros raios de sol nasciam. Em velocidade constante, o galopante Axia, um cavalo puro sangue de Gabriel Orlen, seguia rumo ao farol dos bandeirantes, região que há poucos anos foi o local das primeiras descobertas de ouro no estado.

Já era dia, quando o Assassino chegou a região indicada, tivera que deixar seu cavalo, pois a subida íngreme o incapacitava seguir montanha acima. Uma vasta mata predominava o ambiente, pequenas grutas, declives, nascentes, vegetação densa e diversificada, além de ilustres presenças de Onças, gatos-mouriscos, Lobos guarás, Macacos, entre outros. Gabriel que mesmo para um habilidoso Assassino, estava tendo dificuldades em chegar ao local descrito pelo cocheiro.

Por sorte, um céu azul surgia, saindo do clima acinzentado de horas mais cedo, eliminando a presença das densas névoas, características da região. Com o ambiente mais visível, ajudou Gabriel a avistar fumaça e seguir naquela direção.

Mais acima, suspendeu-se a uma grande rocha e ali se firmou, localizou algumas barracas e homens de sentinela, possíveis pessoas contratadas para escoltar o capitão templário. Este, que à poucos metros estava junto ao padre, sentados sobre uma mesa improvisada saboreando a um café da manhã, pelo menos para Berenguer, o velho, sóbrio, se contentava com um pedaço de pão.

Logo após, seguiram em marcha, subindo para um pico mais alto.

O templário fez uma nova parada, encheu seu cantil de água, botou uma corda no ombros e pediu ao padre que o acompanhasse mais a frente. O velho reitor visivelmente fadigado, presenciou um belo cenário da incrível paisagem de matas e montanhas que o cercava, porém, para Berenguer, o breve vislumbre mostrava-se em um só lugar. Solicitou à um de seus homens que lhe trouxesse sua luneta, o mesmo passou para seu convidado, e apontando para o norte, pediu que o velho olhasse naquela direção.

Mas é claro, Ouro!

Gabriel instintivamente sabia que naquele ponto, havia bastante desse minério valioso ainda não descoberto pelos garimpeiros. Ao seu lado estava um dos homens do capitão, desmaiado por asfixia pelo próprio Assassino, tivera que agir rápido, pois o capanga rondava o lugar. Daqui a pouco, outros irão notar sua falta, e ele terá que entrar em ação, por definitivo.

O templário dissera à Antonil que minas de ouro como aquela, estariam em posse da Coroa Espanhola e em breve muitas outras, e reforçou para o padre, que a solicitação de facilitar a entrada de missionários hispânicos em Minas, não era um pedido grandioso. Por sua vez, o jesuíta repudiava fortemente qualquer tipo de cobiça, dizendo que preferia ser jogado deste pico do que se ater a chantagem de templários.

– Bien! Hombres, tragam eles aqui – disse Berenguer fazendo sinal para um de seus homens.
– Trazer quem? — questionou o jesuíta.

Eles! – respondeu o templário apontando para outros cinco missionários que vieram junto com o padre para Minas, todos amarrados e vendados!

Oh mio Dio! Então vocês raptaram meus companheiros e fizeram mudar minha rota ontem! Seus Bastardos! — Esbravejou o jesuíta.

O que você tem que fazer é apenas assinar este termo e envia-lo ao Papa. — respondeu o templário

O jesuíta negou mais uma vez, e para sua surpresa, friamente o templário ameaçou joga-los de cima do pico, mas não antes, sem tortura-los.

Com um simples assobio, dois de seus homens tomaram a linha de frente, tiraram os missionários da fila indiana e os posicionaram lado a lado. O primeiro grito foi de um dos padres, o francês, tendo o dedo anelar quebrado, o segundo, um italiano, estava com o rosto marcado por dezenas de pontas de cigarro acessas, logo após, um outro jesuíta inclinava-se para frente depois de um chute dado pelas costas, ajoelhado, começou a receber golpes de chicotes, mas este, resistiu bravamente, era um alemão.

Os demais homens de Berenguer, que na verdade eram mercenários contratados nos arredores de Vila Rica, começaram a duvidar das ações do seu contratante, podia-se ouvir pequenos murmúrios, uns sobre a diferença de matar homens e matar servos de Deus, outros para eles, torturar religiosos significaria trazer azar.

– Bando de covardes inúteis, não irão receber uma só moeda, pelo serviço incompleto de vocês.– esbaforiu o Templário.

Tal mensagem, soou muito boa, felicitando os dois torturadores, que nada temiam, e que continuavam as agressões. Entre os padres que ainda não receberam tortura, um deles tremia, como se estivesse em meio as gélidas névoas que habitavam as madrugadas de Vila Rica. O pobre homem, outro italiano, suava muito e a tensão aumentava ainda mais, devido aos olhos vendados, pois não sabia o que poderia vir. Em seguida, tivera a cabeça submersa sobre uma tina de madeira, agitado, de mãos atadas, nada podia fazer, a não ser se contorcer por falta de ar.

Isso foi o suficiente para o jesuíta Antonil clamar por misericórdia.

Aaaa, muy bien! Por favor, firme aquí– proferiu o Templário em dialeto hispânico, com nanquim e documentos em mãos.

Foi o estopim para Gabriel Orlen!

O Assassino escalou a grande rocha que o ocultava, com um grande salto, pulou sob os ombros dos mercenários e cravou sua lâmina na espinha dorsal de um dos torturadores. Rapidamente, Berenguer ordenou para que os demais o atacassem, mas sabiamente, Gabriel usou o lado psicológico da situação. Dizendo aos mercenários que destas circunstâncias, nada tiraria proveito.

– Queres que mais forasteiros mandem e desmandem em nosso solo?! Queres mesmo que continuem retirando o ouro de nossas terras?!
– Homens como vocês, se rebaixando a míseros capatazes enquanto lhe privam de um trabalho digno, por fazerem vocês acreditarem que não são aptos ou inteligentes o bastante para serem professores, chefes, e até lideres?!
– Até quando veremos os aristocratas terem acesso a estudos, boa moradia e riquezas em nossas custas? Preferes o marasmo e a submissão à uma liberdade?! Acho que não! — Proferiu o Assassino.

Um disparo foi feito! Todos se voltaram as mãos do templário, segurando novamente sua Fera Leão que ainda saía fumaça de seu cano. Um dos mercenários atingido na região peitoral. Gabriel ligeiramente retirou o cinto e lançou em direção aos outros mercenários, pediu para se afastarem e cuidar do companheiro ferido longe dali, pois havia medicamentos no cinturão que acabara de jogar.

Agora, era entre o Assassino, o Templário e o capanga restante, este, que lançara seu chicote em direção ao mesmo, no entanto Gabriel se protegera com o braço esquerdo, que ficou enroscado pelo açoite. O mercenário puxava a seu encontro, enquanto o Assassino tentava se desvencilhar da chibata. Vendo a desvantagem, o Capitão Templário retirou sua espada afim de não perder esta "oportunidade de ouro". Rapidamente Gabriel tivera tempo de sacar seu sabre e um breve confronto entre golpes de espada dava-se inicio.

Se quisesse, Berenguer poderia terminar com isto apenas disparando outro tiro de sua pistola, mas não, queria fincar sua lâmina nas entranhas de seu inimigo.

O momento de ouro veio de Gabriel, chutando a tina de madeira no joelho do templário, aplicando um chute certeiro nas partes baixas e finalizando com um golpe do cabo de seu sabre em seu queixo, Berenguer desabou!

O Assassino correu em sentido ao mercenário, parou e puxou o chicote em sua direção, fazendo o capanga vir a seu encontro. Correra novamente, e com uma rasteira perfeita, o fizera tropeçar subitamente. Não levantou, visto que uma lâmina oculta, estava atravessada em sua cabeça.

Logo;
Libertou os demais missionários, imaginando que o capitão templário ainda estaria no chão, mas Gabriel falhara, novamente em seguir sua intuição. Foi quando um dos padres apontou para o pico, e lá estava Berenguer, fazendo o jesuíta Antonil refém, apontando a arma para sua nuca.

Era visível, a dor acometida pelo maxilar quebrado, não obstante, arriscou-se a falar mesmo com sangue vertendo entre os dentes.

Assassino, não seras o único a ter... a ter uma missão...não...terminada!– Balbuciou o templário, arremessando Antonil, seu refém, montanha abaixo. Missionários e até os mercenários restantes, todos atônitos com a cena, inclusive Gabriel.

Em disparada ao pico, o Assassino sequer olhou para o templário, e em momento de extrema adrenalina, sua visão despertou a essência espiritual, um sentido latente capaz de distinguir entre corações puros, amigos e inimigos, dons ocultos e habilidades extraordinárias, vistos apenas em relatos de seus ancestrais. Este poder é chamado pela Ordem dos Assassinos de Visão Aquilina. E esta mesma habilidade ajudou Gabriel a localizar Antonil, ainda vivo, mas prestes a cair morro abaixo.

O templário, fechou os punhos nas costas do Assassino, desferindo mais socos e pontapés com o que restara de suas forças. Gabriel estava paralisado, péssima hora para despertar, para ele, tudo ao seu redor era quase uma total escuridão, reconhecendo o ambiente em tons azulados, distinguindo seres, apenas por manchas vermelhas e amarelas. Por mais que apanhasse, a adrenalina que tomava conta de seu corpo sobrepujava a dor. E no derradeiro clímax, reconhecera o braço de Berenguer, se aproximando com sua espada.

Esquivou instintivamente do fio da espada, e contra-atacando com a própria arma, decepara uma das mãos do templário, enfiando a lâmina diretamente em sua barriga, em seguida.
O desgraçado ainda tivera forças para se jogar do pico, levando Gabriel junto, mas antes de se estatelarem nas rochas abaixo, o Assassino saltou em último instante, se arremessando próximo ao velho Antonil. O templário ficara no caminho, pois a corda presa ao seu corpo se soltou, enroscando-o entre duas arvores, quebrando seu pescoço. Era o fim de Berenguer de Aragão.

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Gabriel sabia, que entre as pessoas, haviam aquelas de boa índole, os que restavam alguma dignidade, e aqueles que despertavam um forte sentimento de ajuda, à uma causa maior. Foi assim que o Assassino presenciou a cena, onde missionários e mercenários, juntos, erguendo o velho Antonil e a ele próprio, colina acima, sobre cordas amarradas umas as outras, ajudando-se, fazendo o bem. Nesse momento, não havia espaço para religião ou superstições, via-se apenas, o ajudar ao próximo!

Dois meses depois;

Gabriel Orlen recebera uma encomenda dias atrás na residência da Irmandade, porém apenas hoje, após três dias fora de seu esconderijo, devido uma importante missão em Sabará, pôde finalmente contempla-la.

Era uma caixa, dentro, havia uma carta manuscrita e um livro, envolto de um fino pano de seda.
Retirou o barbante que o prendia e começou a ler:

– Caro Assassino, sereis breve:

Por meio desta epístola, escrevo sobre fatos que durante toda minha vida, pensei, ter conhecimento suficiente. Como não percebi, tais homens que tentam ditar o mundo desde eras que não me recordo.
Meus compatriotas jesuítas, expulsos da Bahia e agora de Minas, meus estudos e obras confiscadas, os Bispos, a Coroa, Dom João V, como não percebi? Templários!
Sobre a Ordem que você segue, o chamado Credo, para mim, tudo ainda é muito nebuloso, sobre seus relatos e crenças, mas descobri recentemente que aqui em Salvador, também existe, uma sociedade chamada por vocês de, Irmandade.
Não prezo, mas seis que lutam por causas nobres e justas, no entanto a forma como lidam, deveras me intriga.
Deixo com você, este último exemplar de meu livro, espero que de alguma forma, seu conteúdo tenha alguma valia no futuro!

Certamente, não nos veremos novamente.

Anônimo Toscano – Bahia, Abril de 1712

Notas finais
Apesar de ser capítulo único, possivelmente será uma trilogia. Vila Rica > futura Ouro Preto Farol dos bandeirantes = Pico do Itacolomi Jesuítas: A Companhia de Jesus, cujos membros são conhecidos como jesuítas, é uma ordem religiosa fundada em 1534 por um grupo de estudantes da Universidade de Paris, liderados pelo basco Íñigo López de Loyola, conhecido posteriormente como Inácio de Loyola. A Congregação foi reconhecida por bula papal em 1540.1 É hoje conhecida principalmente por seu trabalho missionário e educacional. Wikipédia.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!