Assassin's Creed: Aftermath
57 Não Mais À Sete Chaves
Notas iniciais
A diligência dos Kenway vagava tranquilamente pelas ruas largas e já mais esvaziadas de Nova York. Haytham e Connor estavam sentados, como passageiros. Apesar da inquietude daquela noite do lado de fora da carruagem, o mesmo não se podia dizer de pai e filho, que pareciam discutir.
–Eu fiz tudo errado, pai. Não deveria ter mentido para Amália por tanto tempo. E agora, eu pago pelo meu erro. Duvido muito que ela vá me perdoar depois de tudo que fiz. – lamentava Connor.
–Pare de se lamuriar, filho. Você fez o que era necessário. Seu único erro foi ter dito tal coisa durante uma discussão, no calor do momento.
–Ela não me deu escolha.
–Tudo tem escolha, Connor. Mas ao menos, fizeste bem em não segui-la. Creio que ela precisa de tempo para absorver o impacto da notícia. Não deve ser fácil descobrir que seu pai está do lado oposto de uma Guerra que ela tomou para si. Uma Guerra vã e cansada, sem dúvida, mas ainda assim uma guerra.
Connor bufou.
–Pensei que tinha dito que partiríamos de volta para casa hoje à noite.
–Na verdade, eu tencionava faze-lo antes de te procurar, ainda de tarde. Mas, diante das... Circunstâncias excepcionais... – disse Haytham, com um sorriso no rosto. – Não vi mal em atrasar um pouco o meu retorno em prol de minha... Continuidade.
–Continuidade?! – repetiu Connor a palavra, com desgosto.
Haytham desviou seus olhos para a janela, com aparente tranquilidade.
–Bom, quem sou eu para pôr-me no meio dos cursos da Mãe Natureza? Pelo contrário, acho que devo incentivar que a mesma siga seu curso, em prol da reprodução e...
–Pai... – pedia Connor, sentindo suas bochechas vermelhas. – Sei que quer um neto, mas isso... Isso é um completo absurdo!
–Absurdo, filho?! – fez-se de ofendido Haytham.
–O senhor deve ser o primeiro britânico da face da Terra que incentiva tais coisas sem a existência de casamentos.
Haytham riu levemente.
–Convenhamos, Connor, que eu e sua mãe não somos um exemplo ortodoxo de casamento, e isso se aplica também ao que vier a acontecer a você, tenho certeza. Mas espere, aquele ali não é o pub de sua namoradinha?
Ao avistar a janela, Connor percebeu que o lugar estava fechado. Justamente à noite, horário que ele sabia que era o mais movimentado. E como se não bastasse, havia um homem lacrando a porta com tábuas.
A diligência parou após solicitação de Haytham, e os Kenway desceram para averiguar. Quando próximos o bastante, Haytham impediu seu filho de se aproximar do sujeito que parecia fazer seu serviço tranquilamente.
–O que foi? – questionou Connor, impaciente.
–Eu sei quem é aquele homem. Mestre Clinton é o nome dele. Trabalha no governo, com licenciamentos de estabelecimentos.
–Se você sabe quem ele é, então ele é um...
–Templário? Não. Eu proibi sua entrada na Ordem quando soube que ele batia na esposa e que não mudaria tal comportamento. Mas... As coisas podem ter mudado, desde a minha saída... Incluindo a entrada de gente como ele. – disse Haytham, com desgosto. – Vamos nos aproximar com cuidado. Dê a volta e tente cerca-lo. Irei tentar puxar assunto, mas sei que não conseguirei por muito tempo porque ele sabe que eu o detesto.
Connor fez conforme seu pai disse, andando entre os pedestres com aparente calma. Ao ver Haytham, o homem deixou seu martelo e tábua caírem no chão, e quando este pensava em fugir, Connor o deteve. Os dois arrastaram o sujeito medroso até um beco, afastado de olhares curiosos.
–O que vocês querem? Por favor, eu sou inocente! – dizia, trêmulo.
Foi Haytham quem tomou a palavra.
–A princípio nada de muito complicado, Mestre Clinton. Gostaria apenas de entender por que este estabelecimento está sendo fechado. Duvido muito que seja por falta de pagamento de impostos ou qualquer ilegalidade.
Parecendo hesitante, o sujeito demorou a responder.
–Charles Lee, sir. Ele me pediu para lacrar o estabelecimento, devido à prisão da proprietária.
–Prisão?! – questionou os Kenway, em uníssono.
–Escutem, eu não sei de mais nada. Estou apenas obedecendo ordens. Foi só o que ele me pediu para colocar nos autos. A proprietária está detida. É tudo que sei. Por favor... Me soltem... – choramingava.
Seu choramingo foi interrompido, entretanto, quando a lâmina oculta de Connor atingiu sua garganta, fazendo o soltar um gorgolejo dolorido, seguido por sua queda no chão.
–Maldição, Connor! Por que fez isso? – disse Haytham, que ficara abismado com a frieza do filho.
–Foi necessário.
–Necessário?! Clinton era um bastardo nojento, mas ainda assim não precisava morrer desta forma.
Haytham se agachou, revistando o corpo. Enquanto era observado pelo filho, o ex-Templário deu seu veredicto.
–Sem anel, sem pingente... Ele não era um Templário, filho.
Connor engoliu em seco, desviando seu olhar do corpo do homem – agora, de seu conhecimento, um civil inocente –, caído recostado ao muro do beco. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, um grito feminino de horror irrompeu pelo beco. Atraído pelo grito, Connor virou seus olhos para uma mulher, que apavorada ao ver o sangue de Clinton avançar pelo chão, pôs-se a correr dali, chamando a atenção de uma patrulha de guardas.
Haytham rolou os olhos.
–Ótimo. Era tudo que precisávamos. – disse, sendo acompanhado por seu filho em uma escalada para longe dali.
Haytham e Connor começaram a escalar, usando os telhados como rota de fuga, desviando de patrulhas de soldados. Após quase meia hora saltando de telhado em telhado para longe do tumulto, os dois pararam em um telhado próximo ao cais de Nova York. Longe de ouvidos alheios, os dois se sentiram mais à vontade para conversar.
–“Afaste sua lâmina da carne dos inocentes.” Já se esqueceu de seu juramento?
Connor endureceu seu semblante. – Pensei que estivesse satisfeito com isso.
–Satisfeito? O que te faz pensar que estaria satisfeito em te ver matar civis sem hesitar? – questionou Haytham, braços abertos diante de Connor, em indagação.
Após uma longa pausa, Haytham deu um suspiro pesado.
–Ou, melhor dizendo, o que você testemunhou para saber que eu estaria satisfeito com suas atitudes?
Connor arregalou os olhos em pavor. Sabia que seria impossível para o Connor daquela realidade testemunhar os mesmos atos de violência e barbárie que ele viu seu pai cometer quando lidava com testemunhas e informantes. Aquele era um Haytham Kenway solitário e amargurado, já cansado da Guerra entre Assassinos e Templários. Mas agora, quem estava diante de si era um outro tipo de Haytham Kenway: um homem casado, pai de três filhos e que já estava afastado dessa Guerra há anos. Ele não era a mesma pessoa que ele conhecera, que colocara uma lâmina em seu pescoço quando se conheceram. Não era mais capaz de ser impiedoso como antes, pois a vida pacífica e tranquila que levara com sua família por anos o havia amolecido.
Mas como ele sabia dos atos de sua outra realidade?
Para pavor de Connor, Haytham deu alguns passos, distante de si. De costas para ele, contemplando toda a cidade de Nova York pela vista daquele telhado, Haytham deixou escapar as palavras que mais trariam dor e vergonha a Connor. Palavras que desenhavam um fato que ele não desejava saber de seu pai.
–Eu li o seu Diário, filho.
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Davenport Homestead. 03 de Janeiro de 1779.
Alguns dias antes...
A cabeça de Haytham Kenway fervilhava. Após ouvir inúmeras reclamações de sua égua, o ex-Templário percebeu que estava descontando sua raiva no pobre animal, algo que ele detestava fazer. Maltratar animais nunca foi de seu feitio, mas os recentes acontecimentos realmente o tiravam de seu brio.
Os últimos dias foram de intensa agitação em sua casa. Connor tinha desaparecido na manhã de Ano-Novo. No início, não havia preocupação. “Deve ter ido à Lexington ou a Concord visitar alguns amigos”, ele dizia a Tessa e Ziio. O problema é que os dias se passaram, e nenhuma notícia de Connor chegou à Herdade dos Kenway.
–Ele não é mais um Assassino, Haytham. – disse Ziio, após três dias. – Nada justifica seu sumiço prolongado. As armas dele estão lá em cima. Temo pelo pior.
–Ele não está completamente desarmado, meu amor. Ele está usando a lâmina, e por favor, acredite em mim quando digo que nosso filho é bem-treinado, tão capaz de se defender quanto eu ou você.
Haytham afagou sua esposa nos ombros, dando-lhe um beijo casto na testa.
–Eu não vejo convicção em seus olhos, Haytham. – disse Ziio, irritada. – E você só me chama de “meu amor” quando está encrencado, ou tentando me convencer quando está sem argumentos.
–Mas meu am... Ziio – corrigiu-se Haytham, rapidamente, mas não rápido o bastante para deixar de receber um olhar acusador de Ziio. Essa mulher conhece mesmo todas as minhas fraquezas.
–Será que ele retornou aos Assassinos?
Haytham riu. – Duvido muito.
–Você duvida, ou você deseja que não?
–As duas coisas. Mas por que está levantando essa hipótese?
–Achilles pode ter notícias de nosso filho.
Haytham suspirou fundo. Odiava Achilles, mas odiava ainda mais saber que sua esposa tinha razão. O velhote parecia ser o único capaz de saber o paradeiro de seu filho.
–Não Ziio. Não vou procurar mais aquele velho caduco.
Ziio endureceu o rosto.
–Pare de chama-lo assim. Vocês não são mais inimigos, custa ir até a Herdade dele para saber notícias?
Haytham cruzou os braços, parecendo irredutível. Ao notar o comportamento do marido, Ziio se aproximou e recostou sua cabeça próximo ao ombro de Haytham – próximo, porque Haytham era tão alto que ela era incapaz de recostar-se ao ombro dele, nem mesmo na ponta dos pés.
Haytham observou a aproximação de sua esposa. Seu lábio, antes endurecido, se curvou levemente, mas ele permaneceu na mesma posição emburrada de antes.
–Tessa está lá em cima, chorando, sentindo falta do irmão. – disse Ziio, quase em cochicho, tocando agora nos dedos de Haytham. – Seria bom se ela soubesse que o pai dela está fazendo tudo que pode para trazer o irmão são e salvo para casa.
Haytham suspirou, derrotado.
–Está bem, mulher. Vou procurar Achilles.
E agora, lá estava ele, acariciando a pobre égua que recebera sua irritação anterior, cavalgando em direção à Herdade de Achilles, que ficava ao menos próxima da sua.
Haytham desmontou do cavalo e caminhou até a Mansão. Não havia ninguém, o que era de se esperar desde a morte de Minowhaa. Haytham deu algumas batidas na porta. Nada. Bateu outra vez, nada. Impaciente, Haytham deu alguns passos para trás. Notou que as janelas estavam abertas, sinal de que havia alguém em casa.
–Mestre Davenport! – ele gritou, chamando.
Haytham permaneceu gritando, chamando por Achilles, até que finalmente, a porta se abriu. Era o próprio, em pessoa.
–O que veio fazer aqui, Haytham Kenway? Tirar satisfações do porquê seu querido filho foi expulso, ou apenas me irritar com seus gritos impertinentes?
–Bom dia para o senhor também, Mestre Davenport. – debochou Haytham – Será que podemos conversar civilizadamente?
–Quem começou com a selvageria foi você, gritando igual um feirante na porta de minha casa. Mas queira me seguir. Tenho educação o bastante para não conversar no limiar da porta.
Levemente ofendido com o comentário anterior, Haytham se limitou a apenas seguir o velho. Darei um crédito, porque a julgar pela idade, ele deve estar ficando surdo e não deve ter escutado as batidas na porta, pensou o ex-Templário.
–Diga logo do que se trata, Kenway. – disse Achilles, se sentando.
–Connor. Eu não sei onde ele está e julguei que o senhor tivesse notícias.
O idoso pareceu ponderar.
–Não, eu realmente não sei sobre o paradeiro de seu filho, mas... Há algo mais a respeito de Connor que eu quero conversar com você.
Haytham franziu o cenho, desconfiado.
–O que teríamos a conversar a respeito de Connor? Pelo que sei, ele foi expulso de sua Ordem. – disse Kenway, cruzando os braços.
–De fato, foi. –concordou Achilles, enquanto abria uma gaveta trancafiada de sua mesa. – Mas a natureza dessa conversa é pessoal, de certa forma.
Quando Achilles lançou sobre a mesa um pequeno livreto, Haytham empalideceu momentaneamente, mas logo adquiriu uma postura raivosa.
–Agora entendo porquê Connor foi expulso. O senhor é mesmo sórdido, Davenport!
Achilles estranhou o tom de Haytham. – Como é?
–Lendo o diário de meu filho, seu velho fofoqueiro?! Como ousa?!
Achilles deixou escapar um leve sorriso, sem se preocupar com a irritação de Haytham. – Então, você reconhece o Diário. Posso julgar que já o leu, então?
Haytham já estava vermelho de tanta fúria.
–Claro que não! Um Diário é algo pessoal demais! Eu jamais li o Diário de nenhum de meus filhos. Eu só o reconheço porque o encontrei no bolso do Manto dele, quando o vesti para resgatar Tessa. Mas não o li, não mesmo. Meu filho merece privacidade.
Achilles negativou com a cabeça.
–Você deveria ter sido mais invasivo, Kenway. Muita desgraça poderia ter sido evitada se não fosse por esse seu excesso de liberdade para com Connor.
–Um Assassino criticando um Templário por “excesso de liberdade”. Realmente, Davenport, você me surpreende a cada dia que se passa com suas asneiras.
Achilles franziu o cenho.
–Não está nem um pouco curioso para lê-lo agora? – questionou o idoso.
–Não. Provavelmente o que deve ter neste Diário para causar a expulsão de Connor são críticas a você. A leitura seria prazerosa, mas infelizmente tenho maiores afazeres me aguardando na Herdade.
Percebendo que Haytham estava dando lentos passos em direção à porta principal, Achilles começou a ler o Diário, em voz alta.
–“De todos os feitos dolorosos que carrego, nenhum deles pode superar a dor que senti, depois que matei meu pai.”
Haytham estava prestes a dar meia volta e sair dali, quando parou. Percebendo a reação de seu rival, Achilles continuou.
–“Não pretendo repetir a façanha, que hoje vejo que trouxe mais malefício que benefício a mim. Sempre que o vejo, a tratar-me bem, ser carinhoso, a dar-me conselhos ou mesmo reprovações por minhas atitudes, eu sinto mais pesar pelo que fiz no Forte George, em 1781. No momento, pensei que não havia escolha senão cravar em seu pescoço minha lâmina, mas hoje vejo que deveríamos ter conversado, chegado a um consenso. Arrependo-me de nosso penúltimo encontro, quando ele revelou o verdadeiro autor do incêndio que matou a minha mãe e que me colocou no rumo dos Assassinos. Penso que deveria ter sido mais compreensivo, e hoje vejo que meu desejo por vingança, e também meu ódio pessoal por Charles Lee, fez com que eu me afastasse do único laço de sangue que me restava neste mundo. Hoje, com um pouco da sabedoria que recebi ao final de minha jornada, concluo que o meu pai poderia ter me contado toda a verdade sobre Washington desde o princípio, mas eu não teria dado ouvidos. Não o jovem, ingênuo Ratonhnhaké:ton teria, porque eu queria destruir os Templários. Não teria, porque eu queria matar Charles Lee com minhas mãos. E eu o odiava por ser um Templário, por ser um de meus alvos. E eu queria destruir qualquer coisa que me colocasse em meu caminho até Charles Lee. Incluindo ele. E foi o que fiz. Pensei que não teria qualquer satisfação com sua morte, mas nem em minha mais pessimista noção eu poderia prever que sentiria desgosto, ou mesmo arrependimento por ter tirado sua vida. Mas agora, eu estou aqui, outra vez, próximo d fazê-lo se unir à minha mãe, de vê-lo formar a família que jamais imaginei que tivesse. E ter meu pai assumindo seu verdadeiro papel de pai é uma das razões pela qual eu não me arrependo de ter utilizado a Maçã.”
Um estranho silêncio se formou na sala. Apreensivo, por ser incapaz de ver o semblante de Haytham, uma vez que ele ficara de costas o tempo todo durante a leitura do Diário, Achilles decidiu começar.
–Kenway?
–Que porra é essa? – questionou Haytham, perdendo completamente a compostura e os bons modos britânicos. Achilles percebeu seu punho fechado e braço trêmulo de raiva, mas continuou.
–O Diário de seu filho.
Haytham riu, numa risada que causou estranheza a Achilles. Logo, a risada de Haytham se tornou uma gargalhada, repleta de dor.
–Acha mesmo que vou acreditar em você, velhote?
–Se quiser, verifique a caligrafia.
Quando Haytham voltou para a mesa, Achilles notou que seus olhos estavam marejados. Há muito tempo atrás, ele pensara que trazer lágrimas ao Grão-Mestre lhe daria satisfação, mas naquele momento, estranhamente, ele não sentia coisa alguma. Apenas pesar.
Depois de abrir e analisar as páginas, Achilles pôde ver o semblante de Haytham se horrorizar, e o ex-Templário sussurrar um “não pode ser”. Sem dúvida, ele reconhecera a letra de seu filho. Sem dizer qualquer palavra, Haytham tomou o diário, levando-o consigo e saindo dali, sendo apenas observado por um pesaroso Achilles.
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Nova York, 08 de Janeiro de 1779.
Dias depois...
–Claro. Aquele velho desgraçado não poderia perder a oportunidade me humilhar de alguma forma. E para meu desgosto... Ele conseguiu.
Engoli em seco, ao sentir os olhos de meu pai marejados. Notei que ele desviara o olhar de mim, subitamente. Não sei de que forma o meu Mentor contou-lhe sobre o Diário e minhas ações alteradas pela Maçã, mas certamente trouxe grande desagrado a ele. Diria que vergonha, propriamente.
–Eu li seu Diário. Depois, reli. E então, li de novo. Passei duas noites em claro lendo, quase não acreditando em seu conteúdo.
Eu escutei a tudo com terrível desgosto. Por vezes, me vi olhando para o chão, envergonhado. Não queria que ele soubesse da verdade desta forma. Melhor, eu não queria que ele soubesse da verdade, em primeiro lugar.
–Sabe, quando terminei de ler seu Diário, senti uma forte culpa. Penso que vida horrível eu devo ter propiciado a você para fazê-lo tomar tal atitude precipitada de recorrer á uma Maçã para amenizá-la e...
–Não é culpa sua, pai. Jamais foi. Nem mesmo da sua Ordem. Eu é que sou culpado por minha própria desgraça. Foi minha ingenuidade e teimosia que forjaram este destino. Escolhas que fiz por toda a minha vida.
Houve um silêncio desconfortável. Desviei meus olhos, e notei que ele fez o mesmo. Apenas voltei a encará-lo quando escutei um suspiro triste, que jamais escutei dele. Um suspiro que trouxe aperto e dor ao meu coração.
–Não posso acreditar que tentei matar você, meu filho. – disse, envergonhado, com a voz levemente embargada.
–Você não o faria. – respondi, tentando amenizar sua dor. No entanto, ver uma lágrima tímida escorrer por seu rosto não ajudava. – Eu li em seu Diário também, pai, depois que... Depois que te matei. Você sabia que iria morrer naquela noite. E por minhas mãos. Porque sabia que jamais teria coragem de me matar.
–Sim, você mencionou que leu o meu Diário. – disse meu pai, percebendo-o se corar, levemente. Ele deu mais alguns passos, ficando de costas para mim, talvez para esconder seu semblante tímido. – Mas mesmo não sendo mais um Templário agora, penso que poderíamos ter contornado aquela situação... Conversando, quem sabe realizar um velho sonho de minha juventude, de unir as duas Ordens em prol da paz...
Notei sinceridade em sua voz, mas senti que precisava ser firme. Não era justo iludi-lo.
–Isso é apenas um sonho, pai. Por mais que eu e você estivéssemos dispostos a uma trégua, a reunir nossas forças em prol de algo melhor, o restante não estaria. Essa batalha dura séculos, e precisa mais do que um Grão-Mestre e um Assassino para se dissipar.
Após uma grande pausa, meu pai voltou a falar.
–Você sabe por que eu estava nos arredores da Aldeia, na época em que soube de sua existência?
Eu permaneci em silêncio, desejando escutar. Ele continuou.
–Depois que estive no Local Precursor com Shay, findada a Guerra dos Sete Anos, eu fui acometido por pesadelos diários. Nestes pesadelos, eu era morto por um Assassino, com um golpe em minha garganta.
Eu engoli em seco, com o relato que ouvi a seguir. Ele estava contando, com detalhes, sobre sua própria morte. Isso não deveria ter acontecido. O que era isso, afinal? Mais uma brincadeira da Maçã para com ele?
–Eu não me lembro do rosto deste Assassino, mas me lembro da sensação de aborrecimento e desgosto, à medida que eu o estrangulava. Estrangular um Assassino... Maneira ingênua de matar um deles quando se tem uma lâmina oculta, não é? – ele disse, observando a sua própria – Sem duvida, eu realmente não queria matar o desgraçado...
–Pai. – senti o dever de interrompe-lo. – Você sabe que este Assassino...?
–Sim, eu sei que ele era você. Desde que soube de sua existência, eu soube que aquele Assassino de meus sonhos era você. Por isso, criei você completamente ignorante a respeito da Ordem dos Assassinos, ou da Ordem dos Templários. Eu temia que você se tornasse um Assassino, eventualmente. E isso aconteceu, para meu desgosto. Eu queria uma vida para você longe desta guerra.
–Por isso você abandonou os Templários? Porque sabia que seria morto por seu próprio filho se permanecesse nessa vida?
Ele pareceu corado, para minha estranheza.
–Nos sonhos, eu sentia que aquele Assassino era meu filho, muito embora eu não tivesse visto bem o seu rosto. Então eu... Comecei a pensar na possibilidade de Ziio ter engravidado. No entanto, havia um agente de Howard na tripulação de Shay. Ele me seguiu, para furtar alguma coisa, penso eu, e acabou vendo minhas anotações sobre o sonho. Eu sabia que aquilo serviria para Howard me taxar de lunático ou traidor, por isso matei o espião. Só que acabei me ferindo.
–Eu lembro que você estava ferido quando apareceu na Aldeia.
–Exatamente. Mas isso não me impediu de ir até lá atrás da sua mãe. Fazia pouco tempo que eu tinha retornado da Europa devido a... Bem, problema pessoais que eu tratei por lá.
–Sim, eu sei. O senhor resgatou minha tia e ajudou a matar Reginald Birch, seu tutor Templário.
Percebi que dizer tais palavras tiveram o mesmo efeito que despi-lo em plena avenida movimentada de Boston, pois seu semblante tornou-se vermelho e gravemente ofendido.
–Adoraria, meu filho, que você parasse de me lembrar o tempo todo que leu o meu maldito Diário! – disse, num tom que aparentemente, não permitia brincadeiras.
–Mas e daí? Você também leu o meu. – disse, tentando ficar sério, mas fracassando, obviamente. Meu lábio estava entortando e eu me sentia incapaz de impedi-lo.
–Sob circunstâncias claramente diferentes. Pelo que soube, eu já estava morto quando você o leu!
O tom dele usado foi tão mórbido que me fez engolir em seco, sumindo com a diversão que eu sentia da situação. Por fim, ele suspirou profundamente.
–Desculpe. Tudo isso é tão... É tão... Estranho. Quero dizer, você me conheceu já adulto, e no entanto, nós nos conhecemos desde que você tinha cinco anos. E é estranho saber que estarei morto daqui a três anos.
Rolei os olhos.
–Você não irá morrer, pai. Eu não pretendo te matar. Nem eu, nem ninguém. E está bem, não farei mais qualquer comentário a respeito do seu Diário, especialmente...
Me contive. Queria fazer uma última piada, mas resisti. Por mais que fosse doce tortura-lo, alfinetando sua sensação de privacidade e segurança, eu sabia que minha brincadeira de última hora realmente era inapropriada.
–Especialmente...? – meu pai insistiu, para meu desgosto.
Oh, pai. Você não deveria ter insistido em saber.
–Especialmente as partes sobre a minha mãe.
Ele torceu o rosto, assustadoramente. Sua tez voltou a se avermelhar. Quando ia começar a rir de sua reação, ele me jogou inesperadamente contra uma parede próxima, segurando-me pelo pescoço. Realmente, ele não estava brincando.
–Connor, se você disser mais alguma coisa a respeito do meu Diário, eu garanto que farei o que o Haytham Kenway que você conhecera não tivera coragem e irei te matar, você sendo meu filho ou não. Ficou claro?
–Como água. – disse, engolindo em seco.
Ele me soltou, claramente satisfeito. – Ótimo. Agora, vamos embora. Ainda temos uma investigação a conduzir.
–Sim, temos. Enquanto estamos aqui, rindo um do outro, Amália está com os Templários. Alguma idéia?
–Sim. – disse meu pai, apontando para o horizonte. – Forte Arsenal. É o mais resistente forte de Nova York. Era o nosso local preferido para... Conversar com Assassinos. Creio que ela está lá. Vamos investigar nos arredores.
–Quando tivermos evidências o bastante de onde ela está, irei procurar Achilles. Ele terá de me escutar.
Ele assentiu, quando nosso olhar se cruzou.
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