Assassins
29 Nanda Parbat || 2018
Notas iniciais
Nanda Parbat
Julho de 2018
― Em nome de todos os anos de serviço, vou deixar vocês se despedirem. ― Ra's falou andando até a saída com as mãos presas às costas. ― Preparar uma execução pública não é algo que se faça do dia para a noite. ― Eu iria vomitar de nervoso. Eu que nunca vomitei nessas semanas de gravidez ia colocar o quase nada (que se resumia a uma fruta que Tommy me obrigou a comer no avião) que tinha no estômago para fora bem agora.
Abracei forte Oliver. Eu simplesmente não admitia perder assim, perdê-lo assim.
― Oliver, não.
― Calma, amor. Não chora.
Era mesmo isso? Ele era o que estava enfrentando uma morte iminente e eu era a chorona? Eu não nunca era a chorona, merda de hormônios de grávida!
― Onde está Tommy? ― perguntou depois de um tempo. Ele parecia tranquilo, havia aceitado aquilo. Mas eu não.
― Meu Deus, Tommy, ele está lá fora! Ele e Sara, todos vão morrer por minha causa, não tem jeito deles apenas não fazerem nada! Eu sou tão teimosa, não deveria... ― me interrompi, quase entrando em desespero. ― Mas eu te amo tanto, não poderia desistir sem ao menos tentar!
― E eu te amo ainda mais por isso, mas você precisa ser forte agora ― falou enxugando as lágrimas que escorriam ainda mais por meu rosto. ― Felicity, você precisa ser forte para escapar daqui e salvar nosso filho do destino na Liga.
― Não dá, não sem você, Oliver! Vamos tentar sair daqui, ainda dá tempo, e...
― Eu mal consigo andar, amor ― falou com calma. ― Está tudo bem, você vai usar minha... Cerimônia. ― Execução. A palavra que ficou suspensa no ar, meu coração acelerou ainda mais apenas em pensar. ― Você vai usar isso para fugir com a ajuda de Tommy. Vai ficar tudo bem, você consegue, já conseguiu duas vezes.
― Porra, não vai ficar tudo bem sem você! ― gritei. ― Nada vai ficar bem sem você, para mim e para essa criança, caralho!
― Só tente dosar os palavrões perto do meu filho, tá bem? ― pediu com um sorriso gentil. ― Com o meu e o seu temperamento, ele vai conseguir muitos problemas na escola.
― Não fala assim. ― O abracei novamente.
Dane-se vingança contra Ra's, dane-se a vadia da Talia, dane-se essa maldita seita, eu só queria minha família. Queria sair dali com Oliver, meus amigos e a Liga que se foda, minhas prioridades mudaram quando aquele palito anunciou que eu seria mãe.
― Tão bonitinhos! ― a exclamação veio da porta de entrada.
― Eu sei, shippo muito.
Tommy me surpreendeu quando baixou o capuz. Ele havia trocado seu traje de couro pelo manto tradicional da Liga. Sara era a outra pessoa na sala, fechando a porta.
― Vocês dois não conseguem ter um relacionamento normal, hein? ― Tommy se aproximou, um sorriso otimista no rosto. ― Agora me deixa ver essas algemas.
― Não abrem, precisa de senha biométrica, sequer sabemos a de quem ― expliquei.
― Desde quando a Liga usa coisa tão modernas? ― questionou com o cenho franzido.
― Desde Felicity ― Oliver falou simplesmente. ― Tira ela daqui, Tommy. Rápido.
― Não escuta ele, Tommy ― refutei e ideia na hora. Eu podia sentir a esperança crescer em meu peito desde o segundo que percebi meus dois amigos na sala. ― Provavelmente precisamos de Ra's, ou Talia para abrir, ou talvez de quem...
― Quem projetou. Foi Curtis que as fechou ― foi Oliver a explicar.
― Quem é esse? ― Tommy desistiu de tentar abrir as algemas com uma ponta de flecha e perguntou confuso.
― Caramba, eu sou tão inteligente. Meio que já tinha previsto isso, então... ― Sara disse, um sorriso convencido no rosto. ― Na verdade você tinha me dito, Fel.
Como se esperasse seu momento, um gigante negro entrou arrastando Curtis. Eu não havia o visto pessoalmente, mas sabia reconhecer que aquele era John Diggle. Ele estava em missão quando eu estava por aqui e havia voltado ano passado depois que saí. Sabia que era amigo próximo de Oliver.
― Vai, solta eles. ― Diggle empurrou as costas de Curtis em nossa direção.
― Mas Ra's vai nos mat... ― ele começou temeroso.
― Prazer, Tommy Merlyn. Lindo, rico, não muito paciente. ― Tommy sacou a espada e colocou no pescoço do meu amigo. Ou ex amigo? ― Agora solta eles.
― Nem deu tempo de sentir sua falta, Merlyn.
― Já já você ganha seu abraço, Big-D.
― Odeio esse apelido ― o outro retrucou de cara amarrada. Fato comprovado, Tommy era um peste desde sempre e com quer que fosse.
― Por isso que eu uso. ― Deu uma piscadela descarada.
Curtis parou de resistir e se ocupou em abrir nossas algemas, primeiro as minhas, então as de Oliver.
― Obrigado pelos serviços ― Tommy ironizou antes de usar o cabo da espada e o nocautear.
― Com os cumprimentos de Nyssa Al Ghul. ― Sara entregou um frasco com líquido transparente para Oliver, que se mantinha sentado no chão, a cabeça entre os joelhos. ― Talvez deva tomar uns goles, Fel, precisamos dos dois cem por cento.
Oliver pegou o frasco entre os dedos, analisando-o antes de abrir. Era água do Poço de Lázaro, o ajudaria a se recuperar em minutos. Tommy, Sara e Diggle foram até a porta de entrada, conversando/planejando entre si e nos deixando a sós no fundo da sala.
― Melhor? ― Alisei suas costas, me agachando ao seu lado.
― Você devia tomar alguns goles também. ― Me estendeu o frasco.
― Acho que vou passar, não sei o que isso pode fazer com o coisinha. ― Indiquei minha barriga. ― Você sabe.
― Tem razão, mas você não vai ficar chamando ele assim. ― Entornou o resto que sobrou. Sua respiração já estava bem melhor, e eu assistia como um milagre seus cortes se fechando e seu olho desinchando.
― Oliver... O que acha de cancelarmos tudo? Estamos bem, todos vivos, vamos só sair daqui, cuidar da nossa família o mais longe possível.
― Eu adoraria isso ― falou fazendo carinho em minha barriga. Opa, aquilo era inédito, mas igualmente bom. ― Mas ele ainda vai querer nosso filho, Felicity, temos que acabar com isso. ― Ele ficou de pé. ― Termina essa noite. ― Assenti. Por mais que eu quisesse correr para longe dali, sei que só teríamos paz com Ra's morto.
― Qual o plano? ― Tommy esfregou as mãos, alternando o olhar de Oliver para mim. ― Aliás, quem dos dois vai estar no comando? Preciso saber qual o tamanho da mão que vai tentar me bater quando eu desobedecer a coisa toda. ― Girou os indicadores em um gesto amplo. Os outros também pareciam apreensivos nos olhando. Olhei para meu namorado e apertei sua mão, fazia parte do treinamento de um guerreiro saber reconhecer quando não estava totalmente pronto.
― Ele. ― Oliver sorriu para mim e retribuiu ao aperto.
― Eu sei que não temos muito tempo, mas preciso falar algumas palavras.
― Hora do discurso motivador. ― Tommy cutucou Diggle com o cotovelo e Sara rolou olhos.
― Nenhum de nós aqui teve uma vida fácil, mesmo antes de entrarmos na Liga. Os motivos que nos colocaram aqui não foram bons, mas precisamos fazer com que os motivos que terminemos isso sejam ― começou. ― Pode parecer hipocrisia, cada um aqui já tem muito sangue nas mãos, mas pode ser pelas nossas mãos que tudo acabe, mas não podemos fazer isso sem que eu dê uma alternativa a vocês. Isso está acontecendo por minha causa, e a vida de vocês está em risco, mais do que vocês parecem levar em conta, então aqui vai: eu e Felicity agradecemos por ajudar, mas ninguém é obrigado a ficar a partir de agora.
― A gente não quer ninguém perdendo a vida por nossa causa ― completei.
― Isso não é só por causa de vocês, seus metidos ― Tommy gracejou e Sara concordou. Ela havia me dito algo semelhante mais cedo.
― Ele está certo ― Diggle confirmou. ― Todo mundo aqui tem os próprios motivos para estar com vocês nessa, e ajudar você é só uma parte deles. Somos uma família, sua família é a nossa. ― Ele sorriu para mim, me despertando o raro sentimento de confiança à primeira vista. Eu poderia ser amiga de John Diggle.
― Última chance.
― Pare de tentar nos fazer fugir, Al Sah-Him, apenas nos diga o que fazer.
― Obrigado por isso. A todos. ― O olhar dele pousou em todos, então em mim. Ele não precisou usar as palavras para eu saber que me estava me mandando mais um “eu te amo”. Sorri em retribuição, abraçando seu braço e lhe beijando o ombro.
Eu também o amava tanto!
― Ok, precisamos usar o elemento surpresa ao nosso favor. Alguém te viu entrar? ― perguntou a Tommy, que negou com a cabeça. Oliver tinha entrado em seu modo batalha. ― Ótimo. Dig, acha que conseguimos alguns aliados aqui dentro?
― Tenho reunido uma boa quantidade esses dias que esteve preso. Há muita gente que você treinou e cuidou por aqui, Al Sah-Him, muitos leais a você e ao seu filho por vir.
― Consegue reuni-los rápido?
― Sim.
― O bastante para barrar os fiéis a Ra’s? ― Ele novamente confirmou. ― Lidere-os quando tudo começar. Mantenha-os bem longe das salas principais do castelo.
― Pode deixar.
― Sara, você mantém Talia ocupada. ― Droga, estava torcendo pra pegar essa função.
― Oh, vai ser um prazer chutar aquela bunda magra. Conta comigo.
― Tommy, você vem comigo contra Ra’s.
― Estamos prontos para admitir que precisa de mim, mano?
― Só vamos acabar logo com isso. ― Oliver começo a recolocar o manto da Liga e se carregar de armas.
― Ei, você não vai me deixar fora disso não, Oliver! ― esbravejei quando percebi que ele tinha encerrado a divisão das funções e completamente me excluído da coisa toda.
― Felicity... ― começou em tom condescendente.
― Não, eu não vou ficar parada e escondida aqui enquanto todos se arriscam lá fora. Eu posso fazer coisas...
― Uh, DR. ― Desviei meu olhar rapidamente de Oliver para Tommy, que fez uma careta e chamou os outros para nos dar espaço.
― Você precisa ficar aqui, segura ― argumentou, segurando meus ombros.
― Não, o que eu preciso é estar com os outros lá fora, não segura ― rebati. Se soubesse dessa racinha, jamais teria concordado em deixá-lo sozinho no comando.
― Felicity, isso não é discutível aqui.
― Claro que é, seu... ― Fechei as mãos em punho. ― Maldito macho alfa ― grunhi e ele também, então tomei uma respiração profunda. ― Olha, eu conheço meus limites, e não vou fazer nada que prejudique nosso filho, mas já disse, não vou ficar parada enquanto todos estão lutando. Parece que não me conhece, parece que não me treinou para ser assim. ― Foi a vez dele respirar profundamente, olhando para o teto, demorando alguns segundos para baixar o olhar para mim.
― Ok ― se rendeu. ― Mas nem pense que vou te colocar com Diggle ou na função contra Talia. Quando voltei de Smallville, trouxe uma coisa comigo que não tive tempo de usar, você cuida disso.
― O que é?
― Tommy me disse que o composto que vocês tinham, não conseguiria destruir o Poço de Nanda Parbat, que foi o mais usado durante todos esses anos. Então consegui algo que o fizesse.
― Sério? Era disso que estava falando quando nos despedimos?
― Sim. Eu ia destruir o Poço, mas você foi capturada, não tive tempo. Está escondido no cabo falso de uma espada na parede, em cima da cabeceira da minha cama. Pegue a coisa, destrua o poço, não seja pega. É não seguro o bastante pra você? ― Rolei olhos.
― Eu faço.
― Excelente. ― Ele pegou minha mão e nos levou até onde os outros estavam, na saída. ― Melhor irmos, todos cientes do que devem fazer?
― E ele? ― Tommy apontou com o queixo onde Curtis ainda estava desmaiado. ― Posso cuidar disso.
― Não, ele só estava tentando proteger Felicity. Deixe ele aí. ― Meu queixo quase foi ao chão quando o ato de misericórdia veio justo de Oliver. Por isso eu amo esse homem! ― Vai com ela, tá? ― pediu ao amigo.
― Você vai ficar bem sozinho contra Ra’s Al Ghul?
― Protege ela, eu me viro. Não quero Felicity tendo que lidar sozinha contra imprevistos.
― Tá presa comigo, loirinha. ― Tommy passou o braço por meus ombros, me afastando de Oliver, antes que eu sequer argumentasse.
O loiro saiu após Diggle, não antes de me dar uma última longa olhada e gesticular um silencioso eu te amo, os dois seguindo em direções opostas fora da sala.
― E eu vou fazer churrasquinho de vaca ― Sara falou animada, pegando mais uma porção de armas. ― Quer que eu te traga um pedaço, Fê?
― Eca, Deus me livre. ― Fiz careta de nojo, saindo com ela da sala depois de pegar minhas próprias munições, com Tommy em nosso encalço, já que íamos na mesma direção. ― Nyssa vai ficar bem com isso, Sara? Tenha cuidado.
― Fica de boa, gata. ― Abanou as mãos, não dando importância nenhuma à minha preocupação. ― Eu vou só derrubá-la e amarrá-la, Al Sah-Him decide depois o que fazer com ela, e...
Ela parou de repente como se sentisse alguém por perto, olhando ao redor de modo cauteloso e estendendo o braço para que ninguém avançasse.
― O que foi?
― Abaixa! ― o grito veio de Tommy, quando ele empurrou nós duas para trás dele e puxou uma flecha da aljava, atirando na direção do arqueiro que surgiu na nossa frente sem que eu percebesse. O empurrão violento, fez com que eu me desequilibrasse e batesse com as costas na parede antes de cair no chão, Sara mantendo-se em pé por pouco.
― Essa foi perto ― assumi reestabelecendo meu equilíbrio, mesmo ainda no chão. Sara correu até o oponente surpresa e o desarmou chutando a espada e o arco para longe, mesmo que a flecha de Tommy já o tivesse feito cair.
― Perto demais até ― Tommy falou com a voz fraca, antes de cair de joelhos na minha frente.
― Merda, Merlyn! ― Engatinhei o mais rápido que pude até estar ao seu lado, olhando em desespero a flecha enfiada em seu coração. ― Espera, não pega! ― Afastei as mãos dele que estavam quase puxando o cabo para fora, e pressionei o tecido tentando estancar o sangue que jorrava.
― Mas o quê... ― Sara olhou de relance para trás e correu até nós.
― Eu não sei. ― Minha visão foi embaçada com lágrimas enquanto eu me debruçava sobre o corpo dele, entedendo aos poucos o que aquilo significava. ― Tommy, aguenta, você vai ficar bem ― pedi quase implorando.
― Vou ter que discordar disso, loirinha ― respondeu fraco, quase fechando os olhos.
― Não, não ― neguei fortemente com a cabeça. ― Você também não.
― Felicity, o Poço! Podemos ajudá-lo com a água e...
― Isso, o Poço de Lázaro! ― Sara assumiu minha posição de tentar parar a hemorragia, e eu segurei seu rosto entre as mãos, sujando-o de sangue. ― Olha para mim, só aguenta mais alguns minutos, eu volto.
Passei pelo outro cara de máscara, ele já estava morto com a flecha certeira e corri até a sala onde ficava Poço de Lázaro, pensando em como segundos podiam mudar sua perspectiva das coisas. Demorou segundos desde que eu descobri que estava grávida para tudo mudar. E agora, em apenas alguns segundos, as águas que eu planejava destruir, eram tudo que eu queria para salvar meu amigo, meu irmão.
Freei a corrida, meus pés fazendo um barulho irritante no chão quando percebi que não estava sozinha no meu destino. Eu queria que fossem os assassinos treinados da Liga, mas não era. Sentada na beira do Poço estava Talia Al Ghul.
― Bonequinha.
― Talia, sai da minha frente ― ameacei entredentes. ― Podemos resolver nossos problemas depois. ― Ela sorriu. Aquela maldito sorriso diabólico que me fazia enxergar vermelho.
― Qual a pressa, querida? Quer correr para longe daqui com esse seu bastardinho que não vai mesmo herdar minha Liga?
― Eu não me importo com essa herança!
― Ah, ok. ― Ela ficou em pé, analisando as unhas em um gesto comum, como se eu não tivesse me acabando de chorar na frente dela. ― Então quer correr para me dar a briga que me prometeu há mais de um ano atrás? ― Piscou para mim.
Eu não tinha tempo para isso.
― Sai! ― Avancei na direção dela, as mãos fechadas em punho.
― Ou só quer um pouco dessa água para salvar seu amigo? ― Estaquei no lugar, a olhando assustada. ― Oh, sim. Tommy Merlyn. Mundo pequeno, não?
― Como você...
― Eu sei de tudo, bonequinha, inclusive sobre isso. ― Ela tirou um frasco do bolso e mostrou para mim. ― Al Sah-Him considerava isso muito importante para esconder no cabo de uma das suas espadas de estimação, resolvi pegar para mim.
Não. Aquilo era o que deveria buscar.
― Você sabe o que é.
― Talia, eu juro por Deus que...
― Sabe de uma coisa, Felicity? Você estava errada ― me ignorou. ― Eu não te odeio por causa de Oliver, meu ódio por você é só culpa sua. Consegue as coisas muito fácil, sabia? Tem todas essas pessoas dispostas a matar e morrer por você.
― E como isso é culpa minha? ― gritei em desespero. ― Eu faço o que quiser, convenço Oliver a te dar o anel de líder da Liga, você seria a próxima Ra’s, só me dá um pouco da água. Nunca mais vai me ver. ― O sorriso dela se ampliou como se a maior diversão da vida foi me ver implorar para ela depois de tantos anos de rebeldia.
― É pouco. Quero ver você destruída quando ver todos os idiotas que entraram nessa revolução com você mortos. Você não cansa de matar as pessoas que alega amar, Felicity? ― me questionou. ― Primeiro sua mãe, que adoeceu de tanto trabalhar para cuidar da filhinha gênio que queria mais do que podia ter. Então Ray que, bem, você lembra da história. Agora Tommy Merlyn. Sara e Oliver serão os próximos.
― Cala a boca, cala a boca! ― Avancei na direção dela, pronta para o ataque. Ela queria tanto uma briga, tinha conseguido.
Minhas mãos fechadas em punho foram direto para o rosto dela, que se desviou, rebatendo com um ataque certeiro bem acima da minha sobracelha, me fazendo pender um pouco para trás.
― Tá lentinha, menina? Ataca de verdade.
Para e concentra, Felicity. Você precisa ganhar dela para salvar Tommy, precisa parar de chorar, respirar fundo e ganhar essa merda.
Segui meus próprios conselhos antes de estabilizar minha posição, colando as duas mãos na frente do rosto, afastando as pernas para ter mais equilíbio.
― Vem.
Desviei da sequência de golpes que Talia tentou em meu rosto, em um golpe rápido, girei meu corpo, atingindo suas costelas com um chute. Aproveitei seu desequilíbrio, para desferir mais uma sequência de golpes que a derrubaram no chão. Flexionei as articulações dos meus dedos das mãos, e não notei a rasteira que ele me deu, me derrubando também no chão.
― E agora, bonequinha? ― Por questão de milímetros a pequena faca que ela tirou não sei de onde atingiu meu pescoço, sendo barrada apenas por minhas mãos que seguraram as dela, com a gravidade contra mim.
Eu não iria morrer ali. Talia tentava me deixar fraca pelas pessoas que lutavam por mim e comigo, mas ela estava enganada, eram esses que me davam força. E seria por eles que eu não seria derrotada ali. Com um impulso nas pernas, a joguei para cima e longe de mim, conseguindo voltar a ficar de pé.
Ela também se ergueu, e quando fui para dar meus golpes finais naquela vaca, ela tirou o maldito frasco do bolso, destampou e estendeu para cima do Poço.
― Mais um passo e Tommy já era.
― Você não faria.
― Oh, bonequinha... Realmente não me conhece.
Como em câmera lenta vi o frasco ser jogado das mãos dela, até cair dentro do Poço de Lázaro antes que eu sequer chegasse neles. A reação foi instantânea, tudo começou a borbulhar e mudar de transparente para um tom rósea, escapando pelas beiradas.
― Não ― minha voz saiu mais como um murmúrio choroso.
― Feito. ― A mulher à minha frente sorriu satisfeita.
Me agchei para lhe chutar os joelhos e ela caiu ajoelhada na minha frente. Puxei a espada que tinha nas costas e apontei direto para o peito dela.
― Vai, me mata. Eu te fiz uma coisa assassina e sem piedade, do mesmo modo que meu pai fez isso com Oliver. Imagino o lar saudável esse seu filhotinho vai crescer.
― Essa criança vai ser a mais o amada possível e você vai viver com a certeza que falhou em sua missão de acabar com minha família.
― Fraca.
― Calada! ― Usei o cabo da espada para a nocautear.
Não, Talia, você não estava certa. Vingança não era mais o que me movia, eu tinha um amor maior dentro de mim, que precisava que eu fosse uma pessoa melhor, mesmo que isso tivesse consequências horríveis.
― Oliver ― falei quase que para mim mesma. Eu me recusava a perdê-lo também.
Amarrei Talia e corri até a sala de Ra’s Al Ghul. Ainda não tinha nem entrado e já ouvi o tintilar das espadas chocando-se uma contra a outra. Entrei de súbito, levando as duas mãos à boca quando vi a que ponto a luta estava.
Ra’s encurralava Oliver contra uma das grades de lugar, os dois tinham espadas em mãos apontadas para o pescoço do outro.
― Você não vai conseguir me derrotar, Al Sah-Him, mesmo com essa postura de pai do ano.
Em um movimento rápido, Ra’s jogou Oliver por cima do ombro no chão, dando três passos para longe enquanto o outro se arrastava tentando ficar de pé, então ele chutou o braço do loiro, deu uma joelhada em seu rosto e quebrou a espada dele bem no cabo como se não fosse mais do que uma fruta madura.
Não segurei um suspiro alto e preocupado. Ra’s olhou rapidamente para mim na porta, assim como Oliver.
― Poder não interessa a você, prefere amor. É triste.
― Você não entenderia ― Oliver respondeu.
― O que eu entendo é que se você morrer, ela vai lamentar sua morte. ― Indicou a espada para mim, a posicionando no pesçoco de Oliver em seguida. ― Milhares lamentariam a perda de Ra’s Al Ghul.
― Não ― Oliver negou com a cabeça, o olhando fixamente com determinação.
Quando Ra’s ergueu a espada para matá-lo, Oliver ficou em pé, segurando a lâmina, para em seguida dar um golpe na garganta de Ra’s, roubar a espada e desferir um corte nas costelas, então um no meio no peito. A cena de antes se inverteu, e agora era Ra’s Al Ghul ajoelhado diante de Oliver.
― Elas vão se ajoelhar diante do novo Ra’s Al Ghul. ― Ra’s olhava para cima e de repente sorriu. Sim, ele mandou um sorriso estando à beira da morte. ― Perdoe e tenha piedade dele. O proteja da punição do túmulo e do tormento do fogo. ― Oliver proferia a tradicional oração em árabe para os mortos.
― Eu sabia que tinha te escolhido bem, garoto. ― Ra’s tirou o anel da cabeça do demônio e colocou nas mãos de Oliver, dando o último suspiro em seguida, caindo no chão. Meu namorado por sua vez, soltou um suspiro aliviado, então veio até mim.
― Acabou, meu amor. ― Ele me abraçou com força e retribuí de pronto, mas nem pude aproveitar aquele abraço tão bom.
― Oliver, Tommy... ― Ele segurou meus ombros, só então percebeu os cortes e machucados que Talia fez em meu rosto.
― O que aconteceu? ― Ele seguiu a linha dos lugares doídos com a ponta dos dedos.
― Depois. ― Tirei sua mão dali, a envolvendo com a minha e o puxando para fora, ignorando seu olhar confuso. ― Tommy. ― Chegamos em segundos, ele ainda estava no mesmo lugar que o deixamos.
― Tommy! ― Oliver chegou se agachando ao seu lado.
― Ollie ― respondeu, a voz mais fraca de quando o deixei. Sara me encarou com interrogação no olhar, então apenas neguei com a cabeça, usando a parede como suporte para não desabar ali mesmo. ― Nós ganhamos? ― Diggle também chegou nesse momento, congelando pasmo ao ver a cena.
― Sim. ― Acenou energicamente com a cabeça. ― Vou te tirar daqui, nós vamos...
― Para. Tá tudo bem. ― Oliver balançava a cabeça em negação, parecendo mentir para si mesmo sobre o que via, seus olhos enchendo-se de lágrimas. Sara veio para meu lado e me abraçou. ― Me desculpa, Ollie. Eu não devia ter te deixado depois que Laurel...
― Não, não precisa. ― Ele segurou o rosto do amigo. ― Me desculpa por ter sido sempre tão... eu.
― Você... ― Quando ele começou a tossir, um pouco de sangue escorreu do canto de sua boca. ― Você pode ser feliz agora. Os dois merecem ― falou a última sentença olhando para mim. ― Você é meu irmão. ― E fechou os olhos.
― Não! Não, Tommy, não! ― Oliver tremia enquanto a abraçava o corpo já sem vida de Tommy, o rosto no peito dele. ― Devia ter sido eu ― lamentou, ainda mexendo a cabeça dele, tentando em vão o acordar. Poderia ter sido eu. Escondi meu rosto no abraço de Sara, também chorando copiosamente. ― Abra os olhos Tommy! ― Ouvi Oliver gritar. ― Abre os olhos ― pediu em uma súplica, baixinho dessa vez.
― Malcom Merlyn? ― Diggle chamou minha atenção, quando resolveu tirar o capuz do homem que havia atirado em Tommy. ― Ele era da Liga?
Isso era algo que eu suspeitava desde que me deparei com essa história pela primeira vez, e tudo só ficou mais forte quando Thea me disse quem a havia ensinado a lutar. A pobrezinha tinha acabado de perder o pai e o irmão e nem sabia disso. No fim , os Merlyn tinham acabado com a vida um do outro.
Depois disso, tudo foi um borrão para mim. Os corpos de Tommy e Malcom foram colocados na sala mais próxima, no caso a que eu e Oliver estivemos presos antes. Nós dois também não fizemos muito além de entrar na sala e ficar por lá, sem dizer uma palavra, apenas sentindo aquela dor gigantesca. E eu pensando que tudo que eu já tinha passado me tornaria melhor nisso. Clássico erro.
― Já estão todos reunidos lá fora aguardando você.
Nesse momento, estávamos sentados lado a lado em um dos bancos, ele segurava uma de minhas mãos entre as suas, olhando fixamente para o nada. O rastro das lágrimas de mais cedo ainda estava lá, assim como o rosto corado e nariz vermelho, mas ele não mais chorava, seus olhos na verdade estavam mortos, quase vazios. Eu, no entanto, não conseguia me conter, chorava baixinho, lágrimas silenciosas escorrendo por meu rosto, enquanto abraçava seu braço e deitava a cabeça em seu ombro.
― Não irei ― respondeu a Diggle, que soltou um suspiro de pesar.
― Você precisa.
― Eu não me importo.
― Olha, Al Sah... Oliver ― se corrigiu. ― Eu entendo, ok? Até quem não gostava dele, gostava dele, mas você precisa tomar as rédeas da coisa toda. Você derrotou Ra's, você é o herdeiro, a nova cabeça do demônio. ― Os olhos de Oliver foram direto para o anel em sua mão, que ele ainda não tinha posto, mas também não soltava.
― Tommy morreu por minha causa ― a voz dele quebrou novamente. ― Devia ter sido eu ― repetiu.
― Ou eu... ― falei fracamente. ― Ele estava me protegendo, quando nem queria que eu viesse aqui em primeiro lugar. Eu ferrei tudo, Oliver, me desculpa.
― Sim, poderia ter sido qualquer um dos dois, mas não foi. Não acham justo aproveitar mais essa chance? Ele pediu que fossem felizes.
― Não dá, Dig!
― Tem que dar, Oliver! Há milhares de assassinos internacionais com um super treinamento que agora ficaram sem um líder. Que lugar vai virar o planeta no qual seu filho vai nascer se essa situação não for resolvida? Então eu sugiro que vocês guardem o luto para mais tarde e venham comigo até lá fora colocar ordem na coisa toda.
Oliver ficou em pé. John Diggle tinha razão, aquilo tinha que ser contornado antes que ficasse de um modo que não teria mais jeito. Eu só não sabia como fazer isso.
Caminhamos em um silêncio sepulcral até o lado do fora. Aparentemente não havia uma alma viva dentro do castelo além de nós dois.
Quando colocamos os pés do lado de fora, não pude ficar mais impressionada. Uma multidão de guerreiros de preto estava em pé na frente da entrada principal, e ao ver Oliver sair, todos se ajoelharam, inclusive Dig, como uma onda quase sincronizada.
― Saúdem o novo Ra's Al Ghul! ― John Diggle gritou, e todos responderam com um grito uniforme.
― Salve Ra's! ― Uau!
― De pé. ― Todos se ergueram a apenas esse comando de Oliver. ― Como todos já estão cientes, Ra's está morto, e essa noite estamos iniciamos uma nova era na Liga dos Assassinos. Os que entraram nesses últimos anos, não conhecem o conceito de família e lealdade que a Liga representa, vamos recuperar isso. Mas primeiro, preciso agradecer a todos que lutaram por mim e minha família. Salvaram minha vida e do nosso filho essa noite, não teria conseguido sem vocês. ― Oliver passou o braço por minha cintura me trazendo mais para perto. ― E àqueles que lutaram pelo outro lado, admiro sua bravura e determinação. Não quero represálias, todos terão a oportunidade do recomeço. Todos perdemos alguém hoje, já morreu gente demais. ― Eu já disse como tinha orgulho desse homem? Sorri para ele. ― Mas não comigo, não serei o próximo Ra's.
A multidão que se mantinha silente até o momento, não conteve as perguntas e comentários, se entreolhando e questionando o que aquilo significava.
― Silêncio! ― ordenou, calando todos. ― Nyssa Al Ghul? Venha aqui à frente. ― A morena tinha confusão no rosto, mas se aproximou e fez uma pequena reverência quando estava perto o bastante dele. ― Como disse, estamos entrando em uma nova era, onde patriarcado e misoginia não serão pilares da Liga. Nyssa Al Ghul nasceu e cresceu em Nanda Parbat. É uma das melhores guerreiras que já conheci, inteligente, justa e para ela a Liga dos Assassinos é a família. Das filhas de Ra's, sempre foi de longe a mais apta a herdar seu legado, e não é justo tirar isso dela por não ser um homem. Por isso ela vai ficar com isso. ― Oliver elevou o anel da cabeça do demônio para que todos vissem, então colocou na palma de Nyssa.
― Eu não entendo.
― Laurel era ótima, mas impulsiva demais. Talia é uma psicopata.
Olhei de relance para a mulher, que ainda estava amarrada ao lado de Sara, parecendo quase tento uma convulsão de ódio. Não era mais problema meu. Mas ela devia estar ciente que um passo em direção à minha família novamente e nem eu ou Oliver teríamos misericórdia. Mas aquela noite não. Como Oliver disse, já havia morrido gente demais.
― Saúdem a nova Ra's Al Ghul! ― Oliver deu um passo para trás, indicando com a mão para Nyssa, que só então colocou o anel.
― Salve Ra's! ― mais uma vez o coro de milhares de vozes ecoou, e arrepiei todinha.
― E nós? ― Apertei a mão de Oliver, chamando a atenção dele pra mim.
― Nós vamos embora, homenagear Tommy apropriadamente, e construir nosso lar longe daqui. Vamos tentar fazer o que ele pediu, amor.
― Vamos ser felizes. ― Um sorriso pequeno e triste desenhou em seus lábios, até ele incliná-los em direção aos meus.
Fale com o autor