Assassino. Será?
1 Capítulo 1
A morte e a vida andam em uma linha tênue. Duas irmãs separadas pela gravidade, alma e espírito. Uma não pode existir sem a outra, e ninguém pode mudar isso. Você vai viver e morrer. O que tem depois? Cada igreja tem sua doutrina, mas nenhuma, digo e repito, NENHUMA tem certeza. Vai da sua criação, índole e mente perturbada, ou não, pensar na maneira mais bonita de partir, afinal, ninguém lembra das larvas e vermes que absorvem aos poucos nutrientes do ser copo enquanto você apodrece. Isso é a morte, mas e a vida? Acredite, não é tão diferente assim.
Trabalho em uma repartição de jornal a quinze anos. Faço exatamente as mesmas coisas todos os dias. Não sou escritor, nem corro atrás da notícia, simplesmente atendo as reclamações das pessoas em relação a tal matéria, e acredite, isso é muito chato. Quando trata-se de vida pessoal, sou casado a onze anos com a mesma mulher e nunca á trai. Vontade? È o que não me falta. Tenho 35 anos e a dois, não possuo vida sexual. Quando era um adolescente e me masturbava olhando para mulheres bonitas, imaginei que quando cresce estaria trepando com todas elas. Doce engano. Faço o mesmo de anos atrás. Masturbo-me todo dia.
Tenho dois filho. Carla e Luís. Ela de seis e ele de dois. Se eu os amo? Pode se dizer que sim, afinal eu os sustento, dou conselho quando necessário, separo as brigas e os coloco para dormir. Dou presentes de aniversário e outras datas representativas. È isso que um pai faz, não é? Sei que você deve estar pensando, e os abraços apertados? E os beijos de boa noite? E o amor? Sinceramente? Você não pode dar amor, se você não recebe amor. A vida é uma prostituição. Simples assim.
São duas e meia da manhã. Terminei de ler um livro que aluguei na biblioteca publica. A obra é tão interessante que nem me lembro o título. Coloco meu pijama e me dirijo ao quarto onde minha mulher gorda e sem apetite sexual está a dormir. Não estou com sono, mas não tenho nada para fazer, então resolvo deitar para ver se o dito cujo chega. Rolo de um lado para o outro, conto ovelhinhas e olho para o lado. 3: 17 da madrugada. Não estou com sono.
A gorda está a roncar, e me pego com raiva dela. Deitada encolhida, usando um pijama amarelo de mangas compridas me pergunto quando foi que ela deixou de se cuidar. Ah sim! Quando as crianças nasceram. Foi ai que tudo começou a desandar e hoje, nós não somos um casal e sim, dois sonâmbulos caminhando no meio da estrada, podendo ser atropelados a qualquer segundo. Se não já fomos.
Ela continua a roncar, e começo a imaginar o quão bom seria se ela morresse. Pensem comigo: Menos gastos, menos preocupações, poder comer a mulher que eu quiser sem dar satisfações a ninguém e nem me preocupar com sentimentos alheios, menos roncos e ah, essa seria a melhor parte. Separação? Ganho pouco demais para isso.Me pego imaginando formas de matar. Sufocamento? Gasta tempo demais e talvez não dê certo. Facadas? Não, ridículo demais. Já sei!
- Amor, acorda querida! Acorda!
Minha doce esposa abre os olhos devagar, meio que reclamando baixinho, meio que gemendo algo que não consigo entender.
- O que foi?
Dou uma risadinha ingênua. Se não fosse pela escuridão e o baixo QI da mulher com quem divido a cama, provavelmente ela teria desconfiado. Pobre burrice. Deliciosa idiotice.
- Podíamos tomar um banho de banheira, não é? Você me fez gastar tanto nela para nunca usarmos e você sabe..nunca mais fizemos...
Ela me olha incrédula.
- Qual é o seu problema? São três e meia da manhã, homem! Amanhã você tem trabalho. Trate de apagar seu fogo sozinho e durma.
Ela resmunga mais um pouco, vira de lado e dorme. Maldita porca gorda. Definitivamente preciso matar você e logo. Uma vaga lembranças das crianças chorando no enterro da mãe passa pela minha mente. As crianças! Como não pensei nelas antes?
Pulo da cama e vou até o quarto azul de bichinhos coloridos onde os pequenos dormem. Eu odeio essas coisas com cores demais. Antes de mais nada, tranqüilizem-se leitores, eu não irei matá-los. Posso não ser um exemplo de homem, mas não vou matar meus próprios espermatozóides. Essa coragem não me foi dada.
- O que foi papai?
Carla sempre teve o sono levíssimo. Puxou a mim. Espero que só tenha puxado isso e é claro, a inteligência.
- Filha, por que não vem até a cozinha comigo? Estou com vontade de brigadeiro, vamos fazer?
Ela amava doces. Não iria resistir independente da hora. Fomos a cozinha e ``sem querer´´ derrubei um litro de leite em cima dela. Molhou a roupa, o corpo e os cabelos lisos. Pobre criança. Minha filha começa a chorar e então, a porca gorda acorda. Explico para ela o que aconteceu e então ela sugere que eu limpe tudo, enquanto ela dá banho na pequena. Banho de banheira.
- Seu pai é um retardado! Que ideia essa de fazer brigadeiro a essas horas!
Lá está a mãe exemplar banhando sua cria. Entro no banheiro e ela pergunta se eu já limpei a bagunça. Na gaveta do lado esquerdo, pego o secador e ligo na tomada. Mandou Carla sair da banheira e ela n entende muito bem, mas sai. Empurro a minha esposa na banheira e fecho a porta para Carla não ver.
- A morte e a vida andam juntas. Você não pode impedi-las, meu bem.
Jogo o secador na banheira. Vejo ela morrer lentamente sendo eletrocutada. Remorso? Talvez amanhã eu sinta, mas agora o sono cai sobre mim. Este método é muito melhor que contar ovelhinhas. Vou dormir.
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