Assassinato no Submarino
3 O Começo das Investigações
Me agachei ao lado de Tiffany e chequei seu pulso. Estava viva. Sacudi seu corpo tentando acordá-la.
— Oh! – disse ao se despertar do desmaio – Horrível, foi horrível!
Ajudei Tiffany a se levantar. Tentei perguntar se sentia melhor, mas fui interrompida.
— O que está acontecendo? – uma voz atrás de nós perguntou, era John.
— O Capitão... – alguém disse.
— O que tem o Capitão? – perguntou – Me deixam passar!
Nós abrimos espaço para que ele pudesse passar, e assim ele fez.
— Roger? – entrou na sala – O que você com o Roger?
— E- eu não fiz nada! – respondeu Joe – Eu juro!
— Como assim não fez nada? – gritou John.
— Quando eu cheguei ele já estava assim! – respondeu.
John foi em direção a Joe e o agarrou pelo pescoço.
— Diga a verdade! – gritou – Vamos, ou eu te mato!
Nesse momento, o comandante Pearson entrou na sala de comando e tirou John de cima de Joe.
— Chega! – disse Pearson. – Não vamos resolver isso assim. Alguém leve John daqui.
— Eu levo. – disse Charles entrando na sala e levando John com ele.
— E agora, o que fazemos com você? – perguntou Pearson enquanto olhava para Joe.
Ouvi passos em direção a mim.
— Se me permite, – disse Hans – eu posso ajudar. Sou inspetor da polícia belga.
— Ah, que conveniente. – respondeu Pearson – Já que o senhor oferece, o que sugere que façamos?
— Bom, — Hans começou a falar – primeiro leve este jovem para algum lugar que o segundo-capitão não saiba. Depois preciso que um médico examine o corpo do capitão. Temos um médico aqui, certo? – continuou – E Catherine, por favor, leve essa senhora para a enfermaria.
— Certo. – Respondi.
Fiz o que me foi pedido. Na enfermaria, fiz Tiffany se sentar na minha cama para receber o tratamento necessário. Aferi sua pressão e seus batimentos cardíacos. Puxei uma cadeira e me sentei em sua frente.
— O que aconteceu, Tiffany? – perguntei.
— Uma barbaridade, uma tremenda barbaridade. – respondeu.
— O que você viu quando chegou na sala de comando? – continuei com as perguntas.
— Ah, foi uma coisa horrível! – respondeu – O Capitão estirado no chão daquele jeito... E o Joe!
— Você viu quando ele foi morto? – perguntei.
A resposta demorou um pouco para aparecer.
— Ah, não. – respondeu — Não vi essa tragédia acontecer.
— Tudo bem. – Eu disse – Você precisa descansar.
Me levantei e fui olhar o soldado ferido. Por um segundo pensei tê-lo visto abrir os olhos. Mas foi só um engano. Então tive uma ideia.
— Tiffany, você tem alguma folha para que eu faça um chá para você? – perguntei.
— Ah, tenho sim meu bem. – respondeu – Mas não se preocupe com isso, mais tarde eu mesma faço.
— Não, eu insisto. – Respondi – E você precisa descansar.
— Tudo bem, elas estão no armário em cima da pia. – respondeu.
— Obrigada.
Saí da enfermaria e fui em direção ao refeitório. Minha verdadeira intenção não era fazer o chá, e sim ver se conseguia ouvir alguma coisa do que acontecia na sala de comando. Abri a porta do refeitório silenciosamente e entrei. Deixei-a semiaberta para que pudesse ouvir.
— Então, o doutor está certo disso? – era a voz de Hans.
— Sim, inspetor. Ele está morto há mais tempo que você pensa. – Ouvi Smith dizer.
“Interessante...” – pensei.
— Muito obrigado, doutor. – Dizia Hans – Seus serviços não são mais necessários.
— Como desejar, inspetor. – Smith agradeceu.
Consegui ver Smith atravessando o corredor e indo até seus aposentos. Fechei a porta e fui até o armário para fazer o chá. Encontrei folhas de erva cidreira. Coloquei a água para ferver e algum tempo depois já estava com a xícara na mão pronta para sair do refeitório. Ia em direção a porta quando fui surpreendida pelo inspetor Hans que a abriu parando em minha frente. Entrou e fechou a porta atrás dele.
— Diga-me senhorita Hill, sempre gostou de espionar as pessoas? – perguntou.
— Não sei do que está falando, vim fazer um chá para Tiffany. – Respondi.
Hans caminhou até uma cadeira e se sentou.
— Eu a vi ouvindo minha conversa com o Dr. Smith. – disse Hans – Não precisa se preocupar. Sente-se.
Me sentei em sua frente.
— A senhorita está aqui há quando tempo? – me perguntou.
— Cheguei ainda hoje. – Respondi.
— Entendo. – disse Hans. – E como chegou aqui?
Resumi a minha história a ele, que ouviu atentamente e logo voltou a falar.
— Mas agora me diga, por que veio aqui ouvir minha conversa?
— Eu não sei. – Respondi – Talvez eu só seja curiosa.
— Então a senhorita gosta de saber sobre os outros? – perguntou Hans.
— Não é bem isso, — comecei a explicar – é como um exercício. Eu observo como as pessoas se comportam e tiro conclusões a partir disso. Como disse, talvez seja só curiosidade.
— A curiosidade pode ser uma dádiva, dependendo do momento. – disse Hans – Talvez esse não seja o melhor, mas pode ser útil para o que eu pretendo fazer aqui.
— E o que pretende fazer? – perguntei.
— Solucionar esse crime. – respondeu – Posso confiar na senhorita?
— É claro. – Respondi.
— Então Catherine, pode começar me dizendo o que concluiu de cada um dos tripulantes desse submarino, na ordem que os conheceu.
— Tudo bem. – Comecei – Conheci o Dr. Smith enquanto estudava enfermagem na Universidade de Columbia. Ele era professor na faculdade de medicina da mesma universidade, nos conhecemos quando ele precisou de uma aluna para ajudá-lo em uma pesquisa. Como eu tinha uma das maiores notas e tempo disponível, eu fui convidada. Trabalhamos juntos durante todo um semestre, durante esse tempo nós ficamos muito amigos. Sempre me pareceu um homem equilibrado e dedicado ao trabalho. Sei que ele tem uma esposa e quatro filhos – ao menos na época era assim. Terminei a faculdade há pouco tempo, mas havia perdido o contato com ele há dois anos, quando ele se mudou para Washington. No entanto, me surpreendeu saber que ele havia se alistado para a guerra. Nunca pensei que ele deixaria a família para correr esse risco.
Hans tomava nota em sua caderneta.
— Prossiga. – disse ele.
— O próximo foi o próprio Capitão. – falei – Falei com ele por pouquíssimo tempo quando fui apresentada a ele por Dr. Smith. Me pareceu um homem difícil, mas outras atitudes me convenceram de que ele se importava bastante com os tripulantes. A princípio ele não aceitou minha vinda para cá, disse que não tinha espaço, nem comida para mais um tripulante. Em resposta em disse que se não me aceitassem, teria de levar os remédios que trouxe comigo. Não sei se surtiu efeito nele, mas após isso o segundo-capitão saiu em minha defesa e disse que poderiam economizar no consumo dos alimentos para que eu pudesse ficar. John, o segundo-capitãopelo o que eu fiquei sabendo dos demais tripulantes, é amigo do Capitão desde quando eram crianças. Os dois se casaram com a irmã do outro, mas passavam mais tempo juntos do que com elas e isso acabou dando fim ao casamento de ambos. Realmente pareciam íntimos, John chamava o Capitão pelo primeiro nome. Sendo assim, deduzi que ele mantinha um grande apreço pelo amigo.
— Agora sobre Joe – dei continuidade ao meu discurso – ele me pareceu um rapaz que não gosta muito de falar. Enquanto conversávamos ele costumava bater os dedos repetidamente na mesa, aprendi no campo de batalha que isso é um hábito comum de soldados que sofreram algum trauma durante a guerra. Quando você foi com o dono do submarino para seus aposentos ele teve uma pequena discussão com o Capitão que o pediu para acionar as turbinas, mas ele demonstrou não gostar de fazer isso. No fim, acabou indo. Pensei que talvez o trauma que ele sofreu tenha ocorrido lá. Me assustei ao ver ele segurando aquela chave de fenda, não pensei que ele seria capaz de fazer aquilo. Pareceu-me alguém que cresceu com grandes sonhos e expectativas, mas nenhum desses se realizou.
— Foi com ele que Charles foi me buscar no navio. Charles é um velho ranzinza que não gosta de da ideia de dividir as coisas, como você deve ter percebido. Pra mim ficou claro que ele não gostava do Capitão, por causa das decisões que ele tomava. Penso que ele seja um veterano da Grande Guerra, talvez seja por isso que tenha tanto rancor. Ele tem duas alianças na mão esquerda, provavelmente é viúvo. Não parece alguém que mataria, é apenas alguém que vive dizendo ameaças a solto.
— Depois conheci Tiffany, a cozinheira. Me pareceu uma pessoa amável, mas é estranho que ela saiba tanto sobre a vida das pessoas daqui. Até entendo ela saber sobre o dono do submarino, mas sobre o Capitão é estranho.Há pouco tempo conversando com ela, percebi que esconde algo. Demorou a responder uma pergunta que eu fiz, e a forma como ela despertou do desmaio me pareceu bastante suspeita... Não é a reação que se espera de quem fica desacordado. Depois de conhece-la foi a vez de você e seu amigo, mas penso que não será preciso que eu diga minhas impressões. Então vou direto para o comandante Pearson – continuei – só sei que ele veio da Sicília com o soldado ferido que estou cuidando na enfermaria. Aparentemente foi o que sobrou do batalhão dele. Parece ser um homem misterioso, saiu por horas e não disse onde havia ido. Charles não gosta dele. Penso que quando Clark — o soldado ferido -acordar poderei saber mais dele. Mas ele está desacordado desde que cheguei
— Além desses, há o prisioneiro nazista que não fala nossa língua. Portanto tudo que eu sei é o que foi me dito: o Capitão recebeu uma ordem de Washington para transportar o prisioneiro da Itália até lá.
Hans terminou de dar nota de tudo que eu disse e se pronunciou.
— Obrigado, senhorita Hill. Vai ser de grande ajuda essas informações. Pode ir agora.
Me levantei. Já estava saindo quando lembrei do que ouvi antes.
— Então o Capitão morreu há mais tempo do que pensamos? – perguntei.
— Ah, sobre isso? – respondeu – Não é com isso que você deveria se preocupar. Você não ouviu a parte importante. Mas eu te digo. O Capitão não morreu com a chave de fenda inglesa, ele foi envenenado.
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