Aspectos da Humanidade

2 Acordo me sentindo paralizado (ninguém sai vivo do paraíso)


Oliver estava correndo o mais rápido que suas pernas permitiam, mas de alguma forma não era o suficiente. Seu inimigo não era físico, embora as árvores e o solo de Liànyù parecessem reais o suficiente para o transportarem de volta a aquela ilha maldita, onde tudo era no geral ruim e tudo doía.

Ele estava cansado da dor.

Os homens de Fyers o perseguiam, todos tentando ter um pedaço do ‘garoto Queen’. Distraidamente ele se perguntou o que fariam com ele caso o alcançassem. Eles o torturariam como Jonas Konnavar fizera na primeira fez em que foi capturado? Eles o dariam uma morte rápida? Logo sua mente mudou para questões mais objetivas: Billy e Slade iriam o alcançar a tempo? Yao Fei estava entre seus perseguidores? Sua filha conseguiu escapar, ou todo o trabalho que Oliver tivera para libertar Shado havia sido em vão?

Tão perdido em seus pensamentos e medos que demorou mais do que ele se orgulhava para perceber que ele não estava mais em Liànyù, mas sim em Hong Kong, derrapando no chão molhado daquele armazém em que manteve Tommy em cativeiro em seu falso sequestro. Seu melhor amigo estava lá, o encarando com olhos apavorados e acusatórios, e antes que ele pudesse dizer algo suas mãos tomaram vida própria e então havia uma flecha no meio de seu peito.

Oliver gritou, ou ao menos ele assume que sim. Ele se joga contra a parede atrás de si, fechando os olhos para afastar aquela imagem horrível. Enroscando-se em uma bola, tentando desesperadamente conter os tremores e fazer tudo aquilo parar, foi quando as vozes se fizeram presentes.

‘Monstro’ elas diziam ‘Você é a porra de um monstro’.

— Monstro, monstro – ele repetia, tentando se afastar da crescente poça de sangue que vinha do cadáver de seu melhor amigo. O melhor amigo que ele matou.

‘Você destrói tudo o que toca.’ Elas continuam, tomando o timbre da voz de todos os que ele amava.

‘Você me decepcionou, filho. Eu sempre soube que você não era capaz, seu viadinho de mer-‘

— Não, pai. – ele gemeu, agarrando ainda mais os cabelos.

‘Você matou meu melhor amigo, garoto.’ Slade rosnou perto demais de seu ouvido para ser seguro.

— Não, o Billy ele ia, ele ia machucar todos nós e-

‘Eu te peço uma coisa, uma única coisa, Oliver: que não seja a porra de um inútil que não se decide entre chupar um pau ou uma boceta, e o que você faz? Deixa que aqueles mercenários te fodam em troca de comida, seu covarde de merda.’

— Papai, não. – é aqui que ele começa a chorar, sentindo o peito doer conforme as palavras rasgam sua alma. Seu pai nunca aprovou nada sobre ele. E ele não entendia as coisas que Oliver teve que fazer para sobreviver ali, as partes de si mesmo que teve de sacrificar.

‘Eu sabia que não ter te matado quando tive chance foi um erro, eu deveria ter sido quem sobreviveu ao naufrágio.’

— Eu sei, eu sei. – ele funga exausto – Tudo o que eu quero é concertar seus erros. Meus erros.

‘É isso que você diz a si mesmo?’ Sara murmura ‘Você me levou para aquele barco, você me matou.’

— Sara. – ele choraminga – Me desculpa.

— Ollie? Ollie? – a voz dela se torna mais nítida, mais gentil – Ollie, acorde.

— Sara? – ele levanta a cabeça de onde a vinha a escondendo entre os braços e olha ao redor. Eles estão em seu quarto no Gambito da Rainha, e tudo isso não passou de um pesadelo – Sara. – ele choraminga, encolhendo-se contra sua melhor amiga, a única com quem ele conseguiu se abrir sobre a guerra fria entre ele e seus pais desde que eles o forçaram a desistir de seus sonhos de vida. A única que sabia sobre todas as coisas que aconteciam em sua casa quando as portas estavam fechadas, que sabia que a família Queen não era nem de longe tão perfeita quanto fingia ser. A mulher por quem ele lentamente se apaixonou nos últimos quase vinte anos, enquanto estava namorando outras pessoas e mesmo a irmã dela, assustado demais para admitir com quem realmente queria estar.

— Eu estou aqui Ollie, eu não vou te deixar. – ela faz garantias, passando a mão pelo seu cabelo conforme a tempestade lá fora aumenta.

— Eu estou com medo da chuva. – ele admite, cada vez mais exausto, conforme esconde o rosto em seu estômago. Se sentindo pequeno, se sentindo como uma criança assustada e desamparada. Mas ela poderia fazer isso passar. Tudo era melhor com Sara.

— Não há por que ter medo, Ollie. – então ela segura seu rosto entre as mãos e recitou a poesia ruim dela, aquela ridiculamente catártica que ela costumava escrever e mostrar somente para ele – Nós resistimos à tempestade, você e eu até o fim dos tempos.

Ele mal consegue começar a sorrir quando um estrondo mais alto do que um trovão chacoalha todo o iate e antes que ele perceba, Sara está do outro lado do quarto, jogada contra a parede.

— SARA!

— OLLIE!

— SEGURA MINHA MÃO! – ele tenta a alcançar, mas é inútil.

— EU NÃO POSSO, VOCÊ PRECISA SEGUIR EM- ela não consegue completar a frase, porque as ondas a sugam.

A tempestade continua, a água do mar enchendo seus pulmões e deixando um terrível gosto salgado em sua boca. O barco afunda e Oliver está sozinho.

— Oliver, Oliver querido, acorde. – uma mão gentil toca seu ombro, e antes que ele pudesse pensar duas vezes sobre isso ele tinha a pessoa jogada no chão, seu pescoço na rota de colisão com sua mão, que quebraria sua traqueia e a sufocaria, que estalaria seu pescoço.

— OLIVER!

Leva alguns segundos até que ele consiga se situar. Estou molhado, ele percebe, tentando manter dois pensamentos conexos na cabeça e falhando. Mãe? Quando ele finalmente percebe que a pessoa que ele estava prestes a matar era sua própria mãe, Oliver violentamente se joga contra a parede, tentando colocar a maior distância entre eles o possível e abraçando os joelhos contra o peito.

— Me desculpa, eu não... me desculpa, me desculpa. – ele resmunga, tentando frear as lágrimas.

Moira segura seu próprio pescoço enquanto engasga, tentando recuperar o ar. Ao lado dela, Walter a ajuda a se sentar conforme lança olhares desconfiados para o loiro, que se encolhe e esconde o rosto enquanto pede desculpas trêmulas. Passos suaves se aproximam dele, e antes que ele possa processar tudo aquilo, Raisa está agachada a sua frente, colocando uma toalha aquecida sobre seus ombros e gentilmente o pedindo para levantar.

Catatônico, ele se deixa ser conduzido até o banheiro, onde é incentivado a retirar a camisa molhada e se sentar na beirada da banheira. Para o crédito de Raisa, ela nem ao menos oscila quando vê as cicatrizes que cobrem seu tronco e braços, apenas o seca com outra toalha, ainda mais quente do que a primeira, e cantarola uma melodia russa da qual as palavras ele só conhece um pouco mais da metade. Isso o leva ao deslize do jantar, onde ele mesmo falou o idioma na frente de todos, denunciando uma habilidade que nenhum deles deveria saber que ele tinha.

Antes que ele tenha a oportunidade de entrar em pânico, a gentil russa o conduz para sua própria cama, que parece demais como deitar em um marshmellow gigante e desconfortável, e o cobre com cobertores leves que o fazem se sentir um pouco menos oprimido do que a enorme colcha que foi induzido a usar antes.

— Descanse Oliver. – ela diz, passando a mão por sua testa.

Ele não diz nada, mas sente quando ela vai embora e então a beirada de sua cama afunda levemente, um leve beijo sendo plantado em sua testa e a voz suave de sua mãe o garantindo de que ela estava bem, de que ele estava bem e que ele estava em casa.

Quando todos vão embora e ele fica sozinho naquele quarto gigante que lhe parece tão opressor, Oliver abre os olhos e os fixa no teto.

Ele não dorme naquela noite.

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Quando Oliver começa a ouvir sons que indicam movimento pela casa, ele se move pela primeira vez desde que sua mãe e Raisa saíram do quarto, calçando um antigo par de tênis que encontrou no armário e saindo do quarto pela janela. Era cedo, pouco mais de seis da manhã, então ele seriamente duvidava que alguém notaria caso ele saísse para correr ao redor do terreno. Ao passar do lado do grande espelho que ficava perto da janela, ele teve um vislumbre de seu reflexo, o que o fez contorcer as feições de desgosto. Ele odiava o que via.

Se ele lembrava corretamente a propriedade tinha, ao todo, dez quilômetros de área, seis caso ele não contornasse a orla da pequena floresta localizada na parte leste. Pelas suas contas – ele não costumava ser muito bom em matemática até precisar aprender para ajudar Akio com o dever de casa, embora o menino fosse quem mais ensinava do que o contrário – em duas horas ele conseguiria dar um pouco mais de três voltas.

Sem se preocupar em pegar água ou avisar ninguém, ele se alongou rapidamente e começou a correr.

Correr era bom e ajudava a manter sua mente limpa. Desde o naufrágio era como se sua cabeça estivesse constantemente a ponto de explodir, transbordando em pensamentos, dúvidas e flashbacks de suas inúmeras experiências traumáticas. A noite anterior havia sido especialmente difícil com os pesadelos e a situação com sua mãe, então ele achava que uma boa corrida ajudaria a lidar com o estresse.

Era de se esperar que estar em casa lhe trouxesse alguma esperança de paz, de conseguir dormir uma noite completa, mas talvez ele estivesse apenas sendo ingênuo. Enquanto ao seu redor as árvores balançavam e os carros passavam por perto na interestadual, e ele tentou – e falhou – em não pensar nas noites silenciosas e hostis de Liànyù, ele tentou não se lembrar da sensação avassaladora de fome e frio que o seguiram naqueles primeiros meses, do medo que corroía sua alma e da esperança de algum da estar de volta. Ele falha. Miseravelmente. Ele consegue muito bem se recordar da solidão que o seguira durante todos aqueles anos e ainda se esgueirava pelas extremidades de seus ossos.

Mais cedo, tinha se encarado no espelho pela primeira vez em muito tempo há o que poderia ter sido segundos ou horas atrás e ele odiou tudo o que viu. Não havia mais o corte de cabelo estilo boyband que costumava ser sua marca registrada ou o cabelo longo e malcuidado que o acompanhou durante grande parte daqueles cinco anos (agora era cortado o mais curto o possível, para que ninguém fosse capaz de agarra-lo e puxa-lo e, portanto, expô-lo), nem feições ligeiramente arredondadas e falsamente despreocupadas (ele só conseguia enxergar as bordas endurecidas e afiadas, a maneira como suas bochechas pareciam fundas e seus olhos tinham olheiras escuras em baixo e rugas em cima – todos os músculos faciais retraídos e nenhuma marca de expressão vinda de sorrisos, apenas de estresse), nem aquele sorriso malandro e fácil que costumava ser tão característico de Ollie Queen (ao invés disso havia aquela coisa cheia de dentes afiados, cheia de escárnio, raiva e ameaças veladas, sempre acompanhado de um rosnado ou grunhido, um aviso para se afastar antes que o monstro abaixo subisse a superfície – ele era decididamente perigoso). Ele parecia seu pai, de certa forma. Severo, taciturno, assombrado e cruel. E ele odiava isso. Odiava se tornar tão parecido justamente com quem jurou nunca parecer.

Ele parecia com o monstro que se escondia entre os espaços sobressalentes de suas costelas e os calos incontáveis de suas mãos.

(O mesmo que esfolou aquele homem na Rússia, que quebrou o pescoço de Vlad sem pensar duas vezes, que esfaqueou seu então amigo no olho, que torturou pessoas em troca de informações, que se deleitou do sangue em suas mãos, que gostava da dor, da violência, dos extremos, da punição — e que queria ver o mundo inteiro queimar, e que queria ser aquele que começaria o incêndio, e que tremia de excitação a cada nova morte em seu nome, a cada cadáver desfigurado que ele deixava para trás porque eles eram símbolos de sua vitória e, portanto, de sua sobrevivência – que queria liberdade e que queria justiça em nome de todos aqueles que nunca tiveram a chance apropriada de se defenderem)

Fazia oficialmente três dias que ele estava de volta a Starling City, uma semana desde que deixou Liànyù e ele ainda podia sentir os resquícios da morte de Kovar. Fazia com que seus ossos doessem mais do que o comum, aquele tornozelo ruim pulsar e tornar cada passo uma pequena explosão de agonia, mas era administrável. Desde o soro, ou talvez desde anos atrás, preso no acampamento dos mercenários e sendo obrigado a usar o que antes foi um meio de diversão e prazer como moeda de troca para a sobrevivência, a dor não importava mais. Não incomodava, era apenas um lembrete silencioso e facilmente ignorável de que ele ainda era em partes humano. E Kovar estava morto, o que tornava tudo aquilo duas vezes mais fácil de suportar.

Com o passar dos anos, matar e seguir em frente se tornou tão fácil quanto respirar, embora ele ainda mantenha o que disse para Sara alguns anos atrás, matar tira um pedaço da sua alma, muda você por dentro. Kapiushon era a prova viva disso, Oliver em sua forma mais violenta e sanguinária, um monstro capaz de atrocidades inimagináveis em nome de atingir seus objetivos. A casualidade e a facilidade não significava que era menos doloroso, no entanto.

Na maior parte do tempo, Oliver sentia que ele e Kapiushon eram duas entidades separadas dividindo o mesmo corpo. Talvez fosse mais fácil assim, afinal de ele pudesse se repartir do monstro, não correria o risco de se deixar ser consumido por completo.

Mas ele não estava mais na Rússia, ou em Hong Kong, no Rio de Janeiro, ou em Londres, ou em Tokyo, ou em Liànyù, ele nem ao menos estava em Coast City. Oliver estava em Starling, na casa de sua família, onde as paredes eram tão ou mais antigas quanto sua fortuna e ele precisava poderia ser apenas Oliver Queen, talvez algum tipo de vigilante se seus planos dessem certo, mas nunca quem fora naqueles cinco anos.

Ele estava correndo há algumas horas, se o sol cada vez mais brilhante fosse algum indicador. Naturalmente, ele sabia que precisava se ir para casa, colocar uma máscara, fingir que estava tudo bem, fazer o que tinha que fazer e ser forte, mas ele não conseguia. O vazio e a dor que se infiltraram nele desde os eventos da noite anterior eram muito insuportáveis para se aguentar sem um subterfugio, ele precisava de algo que o ancorasse a realidade e trouxesse aquela celestial sensação de dormência, algo que transpusesse uma barreira entre ele e seu passado.

Ao invés de ir pelo caminho fácil – ceder a seus impulsos homicidas, deixar a escuridão que ronronava em seus ombros tomar conta, destruir a porra do mundo – ele se virou e de alguma forma correu até o outro lado da propriedade e então escalou a parte de fora do prédio até a janela de seu quarto, grato que ainda era cedo demais pela manhã, se jogou na banheira vazia do banheiro luxuoso e deixou sua cabeça bater contra a porcelana com força o suficiente para ancora-lo ali pelo tempo necessário. Fazia-se uma semana desde Kovar e seu soro maldito, mas ele de alguma forma doentia já sentia falta da dor. Aquela sufocante sensação de injustiça e raiva contra o mundo estava nublando seu julgamento cada vez mais e ele sabia que não conseguiria respirar propriamente até ver sangue – o seu, o de outra pessoa, não importava. Ele precisou de um tempo para se recompor antes de se arrastar para debaixo do chuveiro e colocar a água na temperatura ideal. A pressão era celestial, mas não era a mesma coisa que as cachoeiras da ilha.

Ele sentia falta de... alguma coisa. Talvez do sexo triste e culpado com Sara, talvez de quando era violento e dolorosamente bom. Talvez fosse da ilha e do que vinha com a paz de ao menos reconhecer seus arredores, talvez fosse de ser quem ele costumava ser. Talvez ele sentisse falta de Bratva e Hong Kong e de ao menos ter uma desculpa para seus impulsos assassinos. Quando se é uma arma empunhada por outra pessoa, fica mais fácil perdoar a própria sede por destruição.

Mas ele não queria se perder. Ele não queria se afogar novamente naquela escuridão sem fim que ameaçava o consumir por completo. Ele queria voltar a ser alguém e não algo.

(Talvez ele pudesse encontrar alguém para fazer sexo triste e culpado, ou violento e doloroso – talvez ele fosse até a casa de Laurel e implorasse para que ela o amarrasse em uma cadeira e o fodesse de todas as maneiras mais odiosas o possível, assim como ele sabia que merecia)

(Talvez ele fosse atrás de Waller e então seria ele quem a amarraria em uma cadeira e a obrigasse a se tornar algo irreconhecível por prazer sádico e porque ele podia como ela uma vez fizera com ele – talvez ele a forçasse a dar um tiro na cabeça de alguém em frente aos seus filhos, talvez ele a forçasse a se submeter a meses de trabalho forçado e constante, sem tempo para descanso, talvez ele implantasse uma bomba em seu pescoço como ela fizera com Felicity)

(Talvez ele se entupisse de substâncias de procedência duvidosa e transasse com todo e qualquer desconhecido que cruzasse seu caminho, em uma fúria animalesca de luxúria e auto-ódio, onde ele acabaria jogado em um quarto nojento de motel, sentindo-se sujo e como o pior ser humano do planeta, assim como ele sempre se sentiria)

(Ele não queria nada disso)

Oliver se veste mecanicamente e mascara todos os resquícios de que algo estava errado, ignorando a forma como tudo parece borrado e a dor nos mais diversos pontos de seu corpo. Ele respira fundo. Ele finge estar bem.

Ele pula o café da manhã, alegando que o jet leg estava mexendo com seu relógio biológico, sentindo-se muito enjoado para ao menos pensar em tomar um copo de suco. Tommy chega exatamente vinte minutos depois que ele desce as escadas, quando ele e sua mãe, que aparentemente tinha notado sua ausência e estivera preocupada, discutiam na cozinha.

— Eu só saí para correr, mãe. Não sabia que não podia fazer isso.

— Você pode, desde que avise antes! – ela exclama, parecendo exaltada de uma maneira que não lhe era comum.

— Tudo bem então. – ele finaliza, sentindo a irritação crescer imensamente conforme tudo vai se acumulando. Ele sabia que quando estava se sentindo assim, era melhor escolher ficar quieto antes que fizesse algo do qual se arrependesse. E os flashes que obscureciam sua visão e o levavam de volta a lugares que sabia não estar (Liànyù, Hong Kong, Moscou) e que apareciam em intervalos de tempos impossíveis de catalogar apenas serviam para aumentar sua já crescente raiva.

(ele poderia empurrar toda aquela raiva para de trás da barreira segura e firme que erguera no fundo de sua mente anos atrás, mas sentir raiva era melhor do que não sentir nada)

— Uau, as coisas estão fervendo por aqui. – Tommy ri, entrando como se morasse ali e roubando um pedaço de bacon do prato de Thea.

— Ei idiota! – sua irmã tenta estapear o Merlyn, que desvia facilmente.

— Cuidado ai Speedy. – ele se esconde atrás de Raisa e termina de mastigar – A propósito, seu estágio começa amanhã na clínica, não se atrase.

— Não vou. – ela resmunga enquanto esfaqueava os outros pedaços de bacon em seu prato.

— Ollie! – ele se aproxima e coloca um braço ao redor de seus ombros, deixando o corpo do arqueiro tenso como a corda de um arco – Thea me disse que você deu uma camiseta do aeroporto de Hong Kong para ela, que fofo. Eu ganho algum souvenir do meu melhor amigo naufrago? Ou melhor, ex-naufrago?

— Sem souvenirs, Tommy. – ele diz, tentando esconder a irritação que sentia por ter seu espaço pessoal invadido. Ele não gostava de toques e o Merlyn deveria saber disso.

Exceto que ele não sabia, porque ele não era Shado ou Felicity ou Sara. Ele não era o melhor amigo de Oliver, e sim de Ollie, então era injusto esperar que ele soubesse como agir ao seu redor.

(Distraidamente, ele se perguntou como acabou acumulando tantas amizades femininas sem segundas intenções – bem, talvez com Sara, mas nem ela era capaz de despertar sua libido adormecida)

— Que pena. Pronto para nosso passeio? – ele se refere à promessa que fizera no dia anterior de reapresenta-lo a cidade – Temos que ser rápidos porque eu tenho uma cirurgia marcada para as quatro e preciso chegar à clínica mais cedo.

— Thomas Robert Merlyn o cirurgião geral. – Thea zomba – Soa pretensioso.

­- Doutor Thomas Robert Merlyn, muito obrigado. – o moreno retruca, afastando-se do amigo e dando um beijo rápido na bochecha de Moira.

Acenando para se despedir, Oliver segue Tommy até o lado de fora da mansão e entra na Maserati dele, que era de uma cor cinza discreta tão diferente do antigo Mustang cor de cereja que ele costumava dirigir por ai. Eles dirigem pela interestadual até a entrada da cidade enquanto o médico balbucia sobre as últimas novidades e o arqueiro permanecia em silêncio.

Não foi até que eles se encontraram perto dos Glades que ele finalmente fez uma pergunta direta ao loiro.

— Do que você sentiu mais falta? Chuveiros com água quente? Macarrão instantâneo? Papel higiênico?

— Tudo isso e um pouco mais. – ele resmunga. Em uma outra vida, talvez sua resposta tivesse sido ‘Laurel’, mas naquela foi seu amor por Sara que o manteve vivo por todos aqueles anos, e dizer o nome de sua irmã parecia um desrespeito muito maior do que bem, trair a irmã dela com ela (o que talvez fosse outra daquelas bandeiras vermelhas sobre o tipo de pessoa mesquinha e doentia que ele se tornara). Depois disso, ele se esforçou para esquecer de sua antiga vida e se concentrar em sobreviver e nos amigos e aliados que fizera no caminho – Senti falta de Thea. E de você. – ele completa.

Tommy sorri contente e Oliver é transportado para tempos mais simples, com seu corpo suave e flexível abaixo dele, Sara os apreciando na ponta da cama, aproximando-se e beijando o moreno enquanto passava a mão pelo peito do loiro. Um seio macio pressionado contra os lábios de Ollie e pernas musculosas e masculinas ao redor de seus quadris. Todos os três despreocupados e ignorantes, todos os três felizes. Mas Oliver não sabia se era mais capaz de se deitar com um homem daquela maneira, ou com qualquer um, para ser honesto.

— Nós também sentimos sua falta. – Tommy diz e então faz uma careta conflituosa, tentando decidir se contava ou não o que ele já sabia – Tem uma coisa que eu preciso te dizer.

— O que? – ele finalmente se vira para o amigo conforme eles começam a entrar no Glades.

— No início a Thea... ela lidou muito mal com sua morte. Ela e Moira.

— Compreensível.

— Sua mãe ficou distante. Se recusou a sair do quarto, não prestava atenção em Thea, não falava com ninguém. E com o passar dos anos a relação delas esfriou mais e mais, até que ela começou a buscar outras formas de lidar com tudo isso. – o médico respira fundo – Não estou dizendo isso para te chatear ou para te fazer se sentir mal, mas é que eu acho que você tem o direito de saber. – recebendo um ruído de incentivo de Oliver, ele continua – Thea começou a andar com pessoas perigosas. Ela começou a usar drogas, igual a-

— Igual a mim em 2005. – ele diz suavemente, mantendo todos os seus reais sentimentos sobre o assunto sob uma máscara indiferente.

— Isso. – ele diz incerto, o observando pelo canto dos olhos como se ele fosse uma bomba relógio – Quando ela tinha quinze anos ela teve uma overdose. Depois disso o juiz forçou sua mãe a coloca-la na reabilitação e na terapia até que ela melhorou. Desde então ela tem estado melhor.

— Obrigado por me contar. – ele mantém o tom neutro, virando o rosto para a janela para que seu amigo não visse o brilho de satisfação em seus olhos.

Não o entenda mal, Oliver não estava feliz por saber o quão longe sua irmãzinha tinha caído. O que realmente o divertia naquela situação era que ele já sabia disso, porque o advogado do governo que havia ‘gentilmente convencido’ (leia-se: ameaçado) o juiz de Starling a dar aquele ultimato havia sido um amigo seu da ARGUS, que estava pagando um favor que lhe devia.

Quando ele ficou sabendo da overdose de sua irmã por meio de Felicity – ele estava infiltrado em uma operação de drogas que mais tarde se tornou muito mais do que isso, na mesma ilha da qual lutara tanto para escapar – ele surtou. E não é com orgulho que ele admite que descontou tudo o que estava sentindo nos mercenários locais quando chegou a hora. Mas eventualmente, com a ajuda da agente Smoak, ele conseguiu fazer os arranjos para a recuperação de sua irmã, já que aparentemente sua mãe não estava fazendo um trabalho muito bom no departamento parentalidade. Ele só podia esperar que sua presença mudasse as coisas, ou ele teria que tomar as rédeas da situação ele mesmo. Mesmo que houvesse pouco o que um cara como ele soubesse sobre consertar coisas quebradas, já ele geralmente era quem as quebrava.

— O que você quer fazer aqui nos Glades? – Tommy pergunta de repente, tirando Oliver de seus pensamentos e o deixando tenso – Ver Laurel?

— Por que ela estaria aqui?

— Você não sabe? – ele encarou o amigo com uma sobrancelha levantada – É claro que não, desculpe. Laurel é advogada e trabalha em um escritório que presta atendimento a pessoas que não podem pagar nos Glades.

— Uau. – ele murmurou – Incrível. Então você é médico. Sempre soube que você conseguiria. – ele muda de assunto rapidamente, se sentindo desconfortável com o anterior.

Falar sobre Laurel doía. Porque o lembrava de Sara, e de quão longe de seus braços ela estava.

Isso faz Tommy se iluminar – Cara, eu nunca fui mais feliz por ter ignorado meu pai e seguido seu conselho. Obrigado por isso, a propósito.

— De nada. Eu sempre soube que você seria um bom médico.

— Você sempre acreditou em mim.

— Sempre soube que você tinha potencial. – ele dá levemente de ombros.

— Você também cara. Talvez só não tenha achado seu ninho ainda. – ele o cutuca no braço.

— Acho que você está certo. – ele sorri e é doloroso.

Ele costumava saber qual era seu ninho, até mesmo se entregava a fantasias ocasionais. Antropologia, uma carreira como professor, Sara Lance, Tommy Merlyn e alguns pestinhas loiros ou morenos correndo por ai. Os três juntos e felizes, sem precisarem recorrer a cumprirem as expectativas de seus pais ou da sociedade como um todo. Mas esses eram sonhos tolos, de alguém que não entendia como o mundo funcionava. E então veio a ilha, e a descoberta que ele era muito bom em coisas que no geral eram consideradas criminosas e imorais, e seus sonhos de um final feliz em uma cama king size e bebezinhos loiros e morenos se foram. Há muito ele aceitara que na vida dele não havia mais espaços para aquelas coisas.

Tudo aquilo apenas serviu para lembra-lo de que ele nunca teria seu final feliz.

— Então... o que você quer fazer agora?

— Faz anos que eu não tomo sorvete. – ele comenta levianamente, olhando para a antiga fábrica da empresa de sua família com olhos críticos, sentindo o resquício de satisfação que sentira escapulir pelos dedos, até que ele voltou a ver em tons ligeiramente avermelhados.

Verdade seja dita, ele estava irritado. Irritado com seu pai por ter fechado a maldita fábrica, ido naquela merda de viagem de barco e se matado na sua frente, deixando para trás alguém que era pouco mais do que uma criança com uma missão suicida. Irritado consigo mesmo por não ter tomado café da manhã e não ter dormido o suficiente. Irritado com Tommy pelas perguntas e pelas lembranças e também com o motorista da frente que era péssimo na direção. Irritado pela saudade imensa e irracional que ele sentia de filhos que nunca teve, de uma esposa e um marido que nunca foram e nunca seriam seus. Ele só se sentia irritado no geral, e se não fosse suficientemente cuidadoso, poderia acabar descontando em alguém inocente.

— Tem uma coisa que eu te prometo, meu velho amigo, nenhuma sorveteria dessa cidade supera o sabor do milk-shake de baunilha do Big Belly Burguer. – o moreno o tira de seus pensamentos com sua sugestão animada.

— Lidere o caminho.

Tommy dirige pelas ruas movimentadas do Glades até o BBB mais próximo, onde estaciona no beco ao lado. Eles saem em silencio e ao adentrarem na lanchonete e sentam-se à mesa mais discreta o possível. Um truque que aprenderam ao crescerem como filhos de bilionários famosos, mas que Oliver aperfeiçoou em seus anos fora.

— Então...

— Então... – o loiro gira os polegares em um tique nervoso. É quando são atendidos, gastando os próximos dois minutos escolhendo o que comer.

— Eu preciso admitir. – o moreno se inclina para frente após a garçonete anotar seus pedidos – É bom te ver dessa maneira. Responsável, centrado, sóbrio. – ele acrescenta essa última parte ao se lembrar de seus anos antes do acidente – Você não fez piadas sexuais, disse coisas maduras... é quase como uma pessoa completamente diferente.

— Olha só quem diz, senhor médico. – Oliver brinca, mas não sente diversão.

— Você tá meio caladão. – Tommy aponta após outro momento de silêncio desconfortável.

— Acho que destreinei. – ele comenta distraidamente, apertando os punhos por debaixo da mesa com força o suficiente para suas unhas curtas perfurarem sua pele. Ele mal começou a tentar fingir ser normal e já estava falhando.

— Acho que não tinha muito o que dizer na ilha, hein?

— Você ficaria surpreso. – o ex-naufrago murmura e então sorri em agradecimento para a garçonete que entrega seu pedido.

— Um milk-shake de baunilha e só? – Tommy levanta uma sobrancelha em surpresa, sabendo que o amigo costumava pedir sempre o maior hambúrguer do cardápio.

— Temperos fortes e comida gordurosa fazem mal para meu estômago. – ele dá de ombros, sabendo que sua dieta no último ano consistiu na comida sempre cozida e sem tempero nenhum da babooshka de Anatoli, isso quando ele comia, afinal era difícil ter apetite quando você trabalhava para a máfia russa – Não te ensinaram isso na escola de medicina?

— Eu sou cirurgião, não nutricionista. – seu amigo comenta enquanto dá uma grande mordida em seu hambúrguer. E sejamos honestos, era uma desculpa meio idiota. Não era preciso ser médico para saber disso.

Oliver teria respondido alguma coisa, caso naquele exato momento a última pessoa que ele planejava ver naquele dia não tivesse acabado de entrar pela porta principal da lanchonete. Laurel ainda era tão bonita quanto ele se lembrava, e ele sente que em outra vida poderia ter se apaixonado por ela tão profundamente que seria ela quem o visitaria em suas alucinações, ou com quem sonharia passar o resto de sua vida.

Mas naquela, ele só queria nunca mais ter que olhar na cara dela. Não que ele se sentisse particularmente culpado, é que chegou certo ponto, na ilha, onde Oliver deixou de ter a capacidade de sentir culpa, ou tristeza, ou qualquer coisa que não fosse uma espécie de clareza fria e implacável. Claro, ele sentia raiva e irritação, mas isso era fácil, era facilmente descartável, era como fumar cigarros para espantar a ansiedade – o resultado era superficial. Os outros sentimentos e emoções ainda estava lá, é claro. Você não pode simplesmente desliga-los para sempre, acredite ele tinha tentado, mas eram ecos que passavam despercebidos na maior parte do tempo.

O verdadeiro motivo de ele não querer ver Laurel era porque tudo nela o lembrava de tempos mais simples, quando para o bilionário o relacionamento deles era algo nascido do amor, é claro que era, mas não deixava de ser uma faxada para limpar sua barra com sua sexualidade para seus pais. E então quando passou a ser algo de segundo plano quando as coisas entre ele e seu passarinho se tornaram algo mais. (Quando Tommy passou a significar mais)

(Oliver não estava particularmente orgulhoso de suas ações nem nada do tipo, mas como mencionado anteriormente, ele apenas não se importava o suficiente; era egoísta e reconhecia isso)

— Hey Laurel! – Tommy acenou para a mulher, que rapidamente os localizou e, infelizmente, viu o bilionário que tentava passar despercebido.

Controlando seus impulsos de apunhalar seu amigo com o canudo de metal que estava usando por forçá-lo a uma situação em que não queria estar, Oliver voltou seu olhar firmemente para seu milk-shake já pela metade e resolveu dizer o mínimo possível.

— Oi Tommy. – ela diz e ele pode sentir o carinho em sua voz – Olá Oliver.

A diferença de tom aqui é gritante, e ele se sentiu acuado como um animal selvagem.

— Olá, Laurel. – ele se obriga a dizer, e sai mais seco do que ele pretendia, naquele tom de voz que Felicity rotulava como ‘estou muito desapontado com você, mas estou escondendo tudo isso e sendo taciturno’, e que ele costumava usar muito com Jamal, o companheiro de missões deles. Subindo relutantemente os olhos para encontrar os dela, ele tenta não ceder aos impulsos de ‘fuga ou luta’.

A forma que ele fala definitivamente a assusta, se a maneira como ela o encara com espanto, como se não acreditasse que ele tivesse falado com ela daquela maneira, era algum indicador. O que ele meio que entendia, porque Oliver costumava ser nada menos do que um cavalheiro com ela.

Mas bem, não era exatamente culpa dele se o mundo tirou o dia para minar sua calma.

Aparentemente alheio à tensão, Tommy a convida para sentar com eles. Suspirando, Oliver rouba uma batatinha coberta de molho cheddar do amigo e sente as papilas gustativas estalarem com o gosto. Ele não tinha dúvidas de que aquele brunch seria um pesadelo, mas pelo menos as batatas tinham um gosto incrível.

(E tudo bem, ele teria uma dor de barriga horrível no fim do dia, mas por aquelas batatas? Totalmente valia a pena)

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Laurel não tinha jantado na noite anterior porque esteve muito ocupada se afogando na papelada do caso em que estava trabalhando, e não teve tempo de tomar café da manhã porque estava atrasada, então quando seu chefe viu que ela estava quase arrancando a cabeça do inocente estagiário que falou alto demais perto dela, ele a mandou ir comer alguma coisa no BBB mais próximo.

O que foi uma ótima ideia, porque ela realmente sentia que seu estômago estava em modo autodestruição. Mas também foi uma péssima, porque ela deu de cara com a última pessoa que esperava ver em plena segunda-feira.

Oliver Queen seu ex-namorado infiel e assassino de irmãs.

‘Não’ ela pensou ‘Sara escolheu ir naquela viagem, ela teve tanta culpa quanto ele. E nenhum dos dois foi o responsável pela tempestade que afundou o iate.’

Pensamento racional não aliviava a raiva, no entanto.

Amaldiçoando até a quinta geração de Tommy, ela se aproximou da mesa de ambos em passos curtos e rápidos, notando como o loiro olhava firmemente para o próprio milk-shake. Ele parecia maior, ou ao menos seus ombros estavam muito mais largos e a barba curta que tomava conta de seu maxilar era tão diferente do rosto liso que ele costumava ter. Ela odiou constatar que ele parecia ainda mais atraente do que há cinco anos.

Ela cumprimenta ambos, tentando e falhando em manter a frieza longe de sua voz. Só porque ela não o culpava pela morte de Sara – ou ao menos estava tentando não o fazer – não significava que ele ainda não a tinha traído.

— Oi, Laurel. – ele responde, com uma aspereza em seu tom que a assustou um pouco.

— Sente-se conosco, Laurel. – Tommy diz animado e ela sorri para o médico.

As mudanças no Merlyn foram muito mais do que bem vindas. Ele tinha amadurecido imensamente desde a suposta morte do melhor amigo, a ponto de se tornar um excelente profissional e uma pessoa melhor ainda. Laurel gostava do novo Tommy, provavelmente mais do que deveria.

— Como está sendo sua volta à civilização, Oliver? – ela diz educadamente.

— Tão bom quanto se possa esperar. – ele responde ainda no mesmo tom de voz, rapidamente se voltando para as batatas que roubava do prato do amigo.

— Isso é... bom. – ela responde incerta.

— Estive pensando em levar Ollie para ver as mudanças que eu fiz na clínica. – Tommy diz animado, olhando de soslaio para o loiro, suas bochechas cheias de cor e seu tom cheio de esperança, e por algum motivo Laurel sentiu seu estômago afundar ainda mais com a adoração absoluta que Oliver não merecia, mas parecia receber abundantemente.

— Parece uma ótima ideia. O que você acha, Oliver?

Ambos estavam tentando conduzir uma conversa civilizada, deixando as coisas menos tensas. Algo a disse que o ex-náufrago percebeu e não gostou de todo aquele cuidado, porque ele se levantou bruscamente da mesa, suas mãos se fechando em punhos bem a tempo de ela notar a ponta de uma cicatriz sob a gola da camisa.

— Eu preciso ir tomar um ar, com licença.

Quando ele rapidamente se retirou de cena Tommy parece notar o desconforto de Laurel com a frieza do loiro, porque a cutuca com o ombro gentilmente.

— Não se preocupe com isso, Ollie não sorriu nenhuma vez desde que acordou essa manhã. Não é pessoal.

— Eu só fiquei preocupada com ele. Ele está tão diferente. – ela murmura.

— Mais forte, não é? Eu notei o tanto que ele ficou musculoso.

— Sim. – Laurel concorda distraidamente e franze a testa. Não eram as mudanças físicas em Oliver que a preocupavam.

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Oliver estava fervilhando, o que não era um bom sinal.

Antes da ilha ele não era estranho à raiva. Era uma coisa de família, ele achava. Seus pais poderiam parecer a imagem da calma e da polidez por fora, mas por trás das cortinas a raiva fria de sua mãe e a explosiva de seu pai lhe causaram grandes questões internas e externas. Ele costumava ser uma mistura de ambos, e isso somente se agravou conforme os anos se passaram. Sua raiva poderia ser explosiva como as bombas nas quais era perito, ou fria como os invernos de Liànyù.

O encontro com Laurel e Tommy o forçando a essa situação constrangedora foram o estopim para deixa-lo especialmente irritado. Ele havia notado durante suas missões para ARGUS e para Bratva que era cada vez mais comum que ele se estressasse com coisas pequenas e explodisse por raiva acumulada, o que sempre levava a duas opções: banhos de sangue ou isolação total.

A coisa é: ele mal havia chego a Starling como Oliver ao invés de Agente Queen, e a última coisa que queria era ter que passar por outra daquelas fases terríveis.

Foi preso nesses pensamentos que ele abaixou a guarda e foi sequestrado. Talvez fosse um indicador de que ele não estava no melhor estado mental quando tudo o que ele conseguiu pensar foi droga, Slade nunca me deixaria em paz por causa disso.

Quando ele retorna a consciência, é para ter os sequestradores – que seriam chamados de profissionais pela polícia, mas que ele considera amadores – fazendo perguntas sobre seu pai, se ele sobreviveu ao naufrágio e se ele tinha lhe passado alguma informação confidencial. Tudo o que ele consegue pensar é tenha calma e espere pela polícia e por que alguém se interessaria pelas palavras de um homem morto?

É quando a realização bate, no meio de um dos mascarados enfiar um teaser no seu peito. Quem quer que seja que tenha arquitetado aquele sequestro, tinha alguma coisa a ver com a lista. Isso ou seu pai tinha mais segredos do que se incomodou em compartilhar.

É preciso muita paz de espírito para aguentar o tédio de tudo aquilo, mas ele consegue esperar até que a polícia inevitavelmente o encontre. Nesse ponto, os mascarados já tinham começado a ir embora, e conseguiram evacuar com sucesso antes de serem pegos. Se não fosse por seus planos de só começar como vigilante alguns meses após sua volta aos mortos para que não haja muitas conexões para serem feitas, ele já teria no mínimo desacordado os idiotas.

Ou os policiais.

Honestamente, essa cidade estava infestada de incompetentes. Talvez esse fosse o maior problema de Starling.

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Quentin estava tendo uma semana particularmente difícil.

Primeiramente seu senhorio decidiu que iria aumentar o preço do aluguel em quase cem dólares, a torneira da pia de sua cozinha quebrou e um cara que ele e se parceiro trabalharam durantes meses juntando evidências contra conseguiu entrar com uma ação judicial para impedir as investigações, alegando ‘falsas acusações e invasão de privacidade’. Mas nenhuma dessas não foi, nem de longe, a pior parte da semana. Droga, do maldito ano inteiro.

Ah não, porque Oliver Maldito Queen estava vivo. O responsável pela morte de sua garotinha estava inteiro e respirando, tinha voltado para casa após cinco anos de reclusão em uma ilha paradisíaca no mar oriental para os braços sua família multibilionária e privilegiada, para viver a vida que sua Sara jamais poderia. Desgraçado, maldito desgraçado.

Quando a notícia de que a última pessoa que ele queria ver naquele dia havia sido sequestrado chegou à delegacia de polícia, ele não pode deixar de bufar. Porque é claro que o desgraçado tinha que chamar atenção o suficiente para ser sequestrado em sua primeira semana de volta a civilização. Rainhas do drama, ele e toda sua família.

Ele estava em frente àquela mansão ridiculamente pretensiosa, fingindo que se importava. Apenas faça seu trabalho, Quentin. Ele diz a si mesmo, tentando acreditar que não iria fazer nenhum comentário ácido e pouco profissional até o fim da noite e falhando espetacularmente. Mas ninguém ali estava em posição de culpa-lo, não após o que o garoto fez com sua família.

De acordo com os relatórios que seu parceiro havia lhe passado de antemão, os sequestradores já haviam ido embora quando a polícia chegou ao local, Queen ainda amarrado em uma cadeira e apenas parcialmente consciente. Ele foi útil para muito pouco, alegando estar ‘fora de si’ durante o sequestro quase que todo, e que as poucas lembranças que tinham estavam borradas e faziam pouco ou nenhum sentido.

Muito conveniente.

Respirando fundo para criar coragem de entrar na mansão, ele bateu na imensa porta e esperou ser atendido. Foi a governanta da casa quem o atendeu, com quem ele já estava ligeiramente familiarizado, gentilmente o conduzindo até a sala e anunciando sua presença.

Oliver era tão diferente quanto se podia esperar. Ele não parecia nada com o garotinho de seis anos brincava de boneca com Sara e que ajudava Laurel a ter coragem de subir no escorregador alto do parquinho. Não com o adolescente e despreocupado menino que veio conversar com ele, tão acanhado e desesperado por aprovação, sobre se deveria ir para Princeton e seguir seu sonho, ou para Harvard e cumprir as expectativas de seus pais. Essa linha de pensamento é perigosa, ele decidiu. Isso o faria começar a ver o Queen como algo além do monstro que matou sua filha mais nova, quebrou o coração da mais velha e destruiu sua família com seus egoísmos. O faria se lembrar do menino que amou como se fosse seu próprio filho, que acolheu em sua casa e de cujos filhos acreditou firmemente que seria avô algum dia.

Era difícil lembrar a si mesmo que seus motivos de estarem ali não eram pessoais, principalmente quando aqueles olhos odiosos e frios estavam o seguindo por ai.

— Oliver Queen, — ele diz com escarnio – mal voltou à civilização e já tem pessoas te sequestrando. Você deve ser muito popular. – as provocações do detetive são ignoradas, o que o deixa com ainda mais raiva.

— Detetive Lance, vamos fazer isso rapidamente, sim? Meu filho precisa descansar, afinal hoje foi um dia conturbado. – Moira diz naquele tom superior que ela sempre usava para se dirigir a qualquer um fora seu marido e filhos. Se bem que quando Oliver era mais jovem...

Pare, Quentin.

— Claro que sim. – ele bufa – Então Queen, conte sua versão dos fatos.

— Eu estava do lado de fora do BBB para tomar um ar quando fui atingido com o que imagino ser um tranquilizante. – ele se pronuncia pela primeira vez, a voz rouca e rígida – A última coisa que vi antes de desmaiar foi um dos sequestradores atirando em um homem que tentou intervir. Depois disso acordei em um galpão, ou ao menos assumo que fosse um, e eles me fizeram perguntas, mas eu estava muito grogue para responder.

— Você lembra que perguntas foram essas?

— Eu não tenho certeza. – ele diz calmamente e algo dentro de Quentin se incomoda com toda aquela calma, não era natural que alguém agisse tão blasé após ser sequestrado – Acho que a dose de tranquilizante que me deram era muito alta, porque eu não estava conseguindo raciocinar direito. Me lembro vagamente de perguntarem sobre meu pai, mas não lembro o que era.

— Hm. – o detetive murmura – Continue.

— Depois disso eu me lembro de ver uma comoção, os sequestradores pareciam agitados, acho que foi quando a polícia chegou.

— Acha é? – ele incentiva, ainda incomodado com toda aquela frieza. Aquilo era uma cicatriz na base de seu pescoço?

— Bem, porque eles sumiram, não é? E que outro motivo eles teriam para ir embora assim? A não ser que tivessem finalmente entendido que eu não sabia e nem conseguia responder nada do que eles estavam perguntando. Assumo que seus policiais não os tenham capturado?

— Não capturado.

— Então não tenho nada mais a adicionar.

— Hm. Então sua história é que pessoas que você foi sequestrado, interrogado, e eles te deixaram para trás?

— É tudo o que eu tenho.

— E eles te deixaram ileso?

— Exatamente. – ele acena.

— E não te disseram mais nada?

— Não. Depois disso eu só me lembro da polícia chegando e então eu estava no hospital.

— Hm.

— E então Detetive? – Moira questiona ansiosamente, ou o mais ansiosamente que a mulher estóica poderia agir.

— Bem, claramente eram pessoas atrás de dinheiro ou informação, que acharam que você pagaria o resgate de um rei para ter seu filho de volta, ou de uma rainha, no seu caso, Queen. – ele sorri desagradável e, para sua surpresa, recebe um olhar fortemente desaprovador do garoto, que não parece gostar nem um pouco da maneira como ele falou com sua mãe. Ou talvez não goste da maneira como foi referido.

— E o que você vai fazer sobre isso?

— Bem, os sequestradores se foram, não tem mais nada que possamos fazer. Devido a Oliver— ele se força a dizer o nome – estar ileso, não há nada além de acusações de sequestro contra eles. E francamente, a polícia tem mais o que se preocupar. Se eu fosse você, Moira, contrataria uma empresa particular. – provavelmente não era nem um pouco profissional de sua parte e aquelas palavras o colocariam em sérios apuros com seu chefe caso os Queen o denunciassem por ‘comportamento inadequado’, mas ele tinha outros problemas em mente. Como Oliver estar tão calmo e inexpressível em um momento como aqueles, o que poderia ser classificado como choque, mas os instintos de Lance o diziam que era algo mais.

Havia algo de errado com aqueles olhos.

— Obrigado por sua ajuda, Detetive Lance. Estou liberado? – Oliver diz suavemente, interrompendo o que seriam reclamações de sua mãe com um breve aceno esnobe, mas igualmente educado, de sua mãe.

Ricos esnobes e com complexos de superioridade do tamanho de suas contas bancárias.

Ele apenas resmunga em concordância em resposta, sentindo a raiva crescer com a aparente falta de remorso dele. Lance nem ao menos recebeu um pedido de desculpas. Um breve reconhecimento de seus crimes.

— Oliver-

— Não mãe, eu estou bem. Se me deem licencia, eu quero ir me deitar.

— Claro querido.

Observando-o ir embora, Quentin sente que vai explodir de ódio. O assassino de sua menininha estava bem na sua frente e ele não pôde fazer nada.

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Thea estava sentada na ponta de sua cama, tentando decidir se iria ligar ou não para Tommy.

Acontece que o cirurgião estava planejando dar uma festa de boas vindas a Oliver, ou ao menos foi o que ela ouviu de sua secretária que a chamou no escritório para assinar algumas papeladas do estágio, e seu único pensamento a respeito era um grande e em letras vermelhas MÁ IDEIA, REGRESSE DUAS CASAS.

Ollie não precisava de uma festa. Ela não precisava de uma festa. Droga, nem Tommy precisava disso. Na verdade, se havia alguma coisa que os três irmãos Merlyn-Queen (sim, ela gostava de ver os três como irmãos, que se danem as relações sanguíneas e a quedinha esquisita que o moreno teve pelo loiro durante algum tempo e talvez ainda tenha) precisavam era de estabilidade e tempo para se curarem.

Ela não era idiota. Era claro que seu irmão mais velho – Ollie era mais velho por exatos cinco meses, tornando Tommy o do meio e ela a mais nova – estava tendo problemas em se reajustar. Qualquer um com olhos, ou pelo menos um pouco de senso comum, e ela tinha certeza que nem mesmo um cego perderia isso, podia notar seu desconforto e cansaço. E isso porque só faziam dois dias desde que ele estava oficialmente de volta ao lar.

Tommy ainda estava se recuperando de seu último episódio depressivo, no qual foram necessários os esforços combinados dela, Laurel e o próprio Tommy para ser superado, e não estava preparado para algo tão drástico. Toda aquela empolgação era momentânea e fruto da volta de Ollie aos mortos. O Merlyn tinha tendência em ficar super-empolgado sobre algo, mas abandonar a ideia na hora da execução, suas grandes habilidades de auto-sabotação apenas servindo para piorar sua síndrome do impostor.

E quanto à própria Thea, bem... ela gostava de evitar qualquer indícios na antiga vida que levava. Principalmente agora que Ollie estava em casa, afinal ele era a única pessoa da sua vida que não estava desapontada com ela de alguma forma, embora ela soubesse que havia grandes probabilidades de ele ficar fortemente chateado caso descobrisse de sua overdose e demais delitos passados, mas ela também gostava de pensar que seu irmão mais velho sentia falta dela o suficiente para não se ressentir imediatamente de seu passado nem um pouco orgulhoso.

E ele havia acabado de ser sequestrado, pelo amor de Deus! Oliver não precisava de uma festa, nem Tommy ou Thea. Eles precisavam de tempo, espaço e talvez uma sessão de filmes do Harry Potter.

Pensando nisso, antes de ir dormir, ela pegou o telefone na mesa de cabeceira e foi até seu primeiro contato de emergência. O telefone tocou duas vezes até ser atendido.

— Thea?

— Tommy? Oi, eu te acordei?

— Não, eu... não consegui ir dormir. Com toda a adrenalina da cirurgia e o sequestro do Ollie e- ele se interrompe e ela tem a impressão que ele está passando a mão pelo rosto e cabelo daquela forma que fazia quando estava excepcionalmente frustrado – Droga, Ollie está bem? Eu tentei fazer o que pude para ajudar a polícia, mas minha paciente tinha seis anos e precisava de mim e-

— Hey, respira. – ela tenta o acalmar – Ollie está bem. Ele foi dormir mais cedo, mas fora isso está bem. Nem mesmo um arranhão.

— Eu fiquei tão assustado. – ele confessa e ela sente o coração apertar.

— Eu também Tommy. – Thea hesita por um momento antes de continuar – Mas as coisas vão ficar melhores. Eventualmente.

— É um caminho, não um destino. – ele resmunga aquilo que sempre diziam um ao outro sobre toda a questão da ‘saúde mental’ e ‘felicidade’.

— E precisamos continuar caminhando. – ela completa e sorri antes de se lembrar do motivo original da ligação – Eu te liguei para falar sobre a festa.

— Ugh. – ele geme de descontentamento, já parecendo bravo consigo mesmo pela ideia – Foi uma ideia estúpida. Eu já voltei atrás antes de começar.

— Bom. Bom mesmo. Não acho que seja o momento certo. Talvez em algumas semanas e... algo mais intimo? Só a família e os amigos mais próximos?

— Parece uma ótima ideia, Speedy. Quando foi que você ficou tão inteligente? – ele brinca.

— Não sei, deve ser quando você estava em Stanford se preparando para a faculdade de medicina e ficava me dizendo que como doutor iria me dar atestados falsos quando eu quisesse. O que é mentira, a propósito. Eu nunca vi nenhum desses atestados.

— Nem vai ver. – ele diz e Thea ri.

Era bom ter seus irmãos de volta.

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Sara sentia saudade de seu Ollie.

Fazia poucos dias desde que eles se viram pela última vez, no aeroporto lotado de NY quando ela o jogou em uma sala vazia e sem câmeras e pulou em cima dele, escondeu o rosto em seu pescoço, tentando memorizar mais uma vez os contornos de seu corpo firme e musculoso contra o seu, suas mãos passeando desesperadamente por suas costas e suas pernas firmemente presas ao redor de sua cintura. Ele, que não perdeu tempo em se agarrar a ela como um polvo, seus braços fortes a circundando e a protegendo do mundo.

A Canário e o Arqueiro. (E o Mago, que já não era mais parte da equação)

— Faz aquela coisa de novo. – ela murmura contra seu pescoço, os dedos dele correndo por seus cabelos e seus lábios deixando impressões de beijos por todo seu ombro – Me chame de Passarinho mais uma vez.

Deus, ela precisava ouvir. Precisava do apelido da adolescência sendo proferido mais uma vez. Seu som favorito no mundo, sua pessoa favorita no mundo.

— Eu senti tanta sua falta, Passarinho. – ele responde e a aperta contra si ainda mais, tentando guarda-la no peito.

— OJ... Ollie... – Sara Lance não é fraca. Ela é Ta-er Al-safer, ela é uma assassina fodona que matou dezenas de pessoas. Oliver Queen é tão durão quanto. No entanto, quando nos braços um do outro, eles se tornam pouco mais do que gelatina.

— Sara. – ele responde com reverência, acariciando os sons de seu nome como se fossem algo sagrado – Sara-Bird.

Não importava a história conturbada que eles tinham, a maneira como eles machucaram as pessoas com quem se importavam para estarem juntos, a verdade é que independentemente da natureza de sua relação, o amor que Sara sentia por Oliver era puro. O amor deles – e ela sabia, ela sabia desde Liànyù quando ele matou uma pessoa a sangue frio para que ela não precisasse, desde que ele passou horas cuidadosas a ensinando a lutar e se defender, desde que ambos eram crianças e Ollie afirmou que ela era ‘linda como um Beija-Flor’, ela sabia que ele a amava – era puro e era bom. Não importava que eles não fossem nada disso.

Ela sabia que tudo começou de maneira egoísta. Sara tinha dezesseis e queria perder a virgindade, Oliver tinha dezoito e queria mais do que tudo – e isso não era vulgar e ainda sim tão malditamente eles? – a irmãzinha de sua namorada de escola sentada em seu rosto. Continuou com o coração quebrado de um menino rico cujos pais jamais aceitariam a sexualidade, com sexo de conforto no carro enquanto a irmã dela estudava para seus exames finais. E continuou com outro menino perdido que eles amavam tanto quanto, que não era um incômodo, que tornava tudo completo e suficiente. E continuou com o peso na consciência de estarem enganando Laurel, que era uma boa pessoa embora gastasse tempo demais com sua vida acadêmica para perceber que seu amigo, namorado e irmãzinha estavam se desfazendo aos pedaços; e continuou com os problemas com drogas de Ollie quando ele descobriu sobre o aborto espontâneo de Samantha e então com suas tentativas inconscientes e conscientes de suicídio; e continuou com a anorexia e o problema com bebida dela; continuou com Malcolm sendo um bastardo e Tommy tendo mais crises depressivas do que alguém de sua idade deveria ter; e continuou, continuou e continuou, até que ambos os loiros se vissem longe demais de casa, memorizando as estrelas de Liànyù e se tornando cascas de quem costumavam ser.

(Ela sabia o que todos pensavam, que os dois eram tremendos egoístas; em seu intimo, Sara se pergunta se eles não gostavam um pouco disso – serem egoístas)

(Ela sabe que o que fizeram foi horrível; que eles desperdiçaram potenciais e traíram de várias maneiras uma das pessoas mais importante de suas vidas; que eles eram pessoas horríveis e se tornaram coisas ainda piores, se tornaram monstros)

(Sara não encontra muito dentro de si para se importar)

— Não importa o quanto eu tente, ou o quanto eu queira. – a voz suave de Nyssa diz atrás de si, mas Ta-er Al-safer não se move, não faz nada em reconhecimento – Eu nunca vou significar tanto para você quanto ele significa, certo habib?

Há resignação vazando de seu tom, e os poucos pedaços de seu coração que ainda possuem um pouco de prezar aos outros doem. (Todas as partes que pertencem a Ollie doem)

(As de Tommy também, mas suas memórias dele já começaram a esmaecer)

— Eu sinto muito por não poder retornar seus sentimentos da maneira como você deseja, Nyssa. – ela diz e finalmente se vira, encarando a outra assassina com o que ela espera ser uma expressão que demonstre que ela realmente lamenta toda a situação. Embora não seja verdade.

— Não minta para mim. – sua repreensão é gentil – Posso ver em seus olhos que você não se arrepende de seus sentimentos por Al-sah-him.

Al-sah-him. O nome ecoa por sua mente. Caso ele tivesse sido resgatado pela liga como ela, seria esse seu nome. Al-sah-him e Ta-er Al-safer. O Arqueiro e A Canário. Como tinha que ser.

— Sinto por te magoar. – ela esclarece – Talvez em uma outra vida.

— Sim, em uma outra vida. – Nyssa concorda – Mas até lá, minha querida. – ela se aproxima ainda mais – Eu, Nyssa Al Ghul, Herdeira do Demônio, te liberto de seus laços e obrigações para com a Liga dos Assassinos em nome de meu pai, Ra’s Al Ghul.

Sara sente o choque se instalar em seus ossos. Claro, isso não significava que ela estava realmente liberta – ninguém escapava da Liga ou de Ra’s, não realmente –, mas era muito mais do que ela jamais esperou receber. Uma gratidão intensa que há muito ela se julgou incapaz de sentir se apoderou dela.

— Obrigada, Nyssa. Nunca poderei demonstrar propriamente minha gratidão diante de tal presente. – ela agradece, sabendo que sentenças melodramáticas e românticas eram a chave para o coração dos Al Ghul.

— Expressa-a ao retornar para seu amado e para sua família. Espero que ele a faça tão feliz quanto sua pera existência me fez, habib. – ela murmura e vai embora sem esperar mais nada dela.

Sara estava livre.

Mas porque isso ainda soava como uma mentira?

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No fim do dia, Oliver tem sua premeditada dor de barriga por conta das batatinhas fritas com queijo.

(Vale totalmente a pena)

Do outro lado do mundo, Sara pede ajuda a uma antiga amiga para voltar para casa.

(Shado ainda cheira como um lar)

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.