Ascensão e Queda
1 Da Rainha dos Mentirosos
Notas iniciais
Tu sempre foste uma menina de imaginação fértil, e os amigos imaginários sempre se fizeram presentes em tua vida. Eram efêmeros como as flores da cerejeira, no entanto: nunca estavam lá por mais que algumas semanas. Mas uma, em particular, sempre esteve contigo, desde quando tu te entendias por gente.
(Deleitada em conhecer-te. Meu nome é Celestia Ludenberg.)
Tinha cachos feitos com o negrume da noite e olhos rubros como o sangue de virgens. Trajava belíssimos vestidos rendados e calçava adoráveis sapatos de boneca.
Era viciada em chá e dotada de uma personalidade ímpar. Sonhava em morar num castelo europeu e ser eternamente servida por belos rapazes vestidos de vampiros.
Celestia te envolvera com suas palavras doces e sua voz melodiosa.
E em todos os sonhos que tu tinhas à noite, tu eras Celestia Ludenberg.
***
O espelho quebrado ainda mostrava tua imagem sem brilho e sem graça, e isso te irrita. Teu cabelo curto e desbotado te irrita. Teus olhos muito grandes para seu rosto te irritam. Teus cílios pequenos também te irritam, assim como seus lábios ressecados e os cortes que tua bêbada mãe deixava em tua pele com alguma maldita garrafa de cerveja.
— Taeko.
Tu escutas tua mãe chamar-te e ficas alarmada.
Tu sabes que ela ouvira o vidro quebrando e sabes as consequências.
Tu escutas o claudicar dos saltos dela nas escadas e o rangido que eles provocam.
E tu fechas os olhos com força, esperando que tudo seja apenas um sonho.
A dor é mais real do que tu gostarias, no entanto.
(Apenas ignore-a, Taeko. Se tu acreditares que nada sentes, nada tu sentirás.)
***
Tua mãe gastava tudo que tinha na maldita cerveja, e se tu quisesses algo de comer, teria que arrumar dinheiro. Fora assim que descobristes o mundo das apostas, e tu acreditas que essa é a única coisa que tua molesta mãe fez de bom para ti.
Porque tu eras a melhor. Um Royal Straight Flush aqui, outro ali, e tu ias levando a vida. Tu tinhas a sorte e a habilidade. Não havia possibilidades de derrota.
— Dois pares. — A garota sorriu presunçosamente, apoiando os óculos tirados de sabe-se-lá-onde no rosto com o dedo delgado, mostrando seu Dez de Ouros e seu Ás de Espadas.
Tu mostras teu Rei Suicida e tua Dama de Copas, combinando com o Valete, o Dez e o Ás — todos adornados por aqueles adoráveis corações da vitória — e sorris friamente para a garota derrotada a sua frente. Ela era bonita e te causava inveja. Tu, no entanto, resignas-te em pegar as notas perfeitamente amarradas e os brincos irritantemente dourados que a mulher perdera.
(Há! Mais um ponto para a Rainha dos Mentirosos!)
— Então és tu a tal Yasuhiro Taeko? — A garota tinha voz de patricinha mimada, mas seu timbre era bonito o suficiente para prestares o mínimo de atenção no que ela tinha dizer. Ela não aparentava estar triste ou mesmo irritada por ter perdido. — Falam muito bem de ti.
Tu não respondes, ocupando-se em contar as notas e em colocar os brincos recém-adquiridos em teus lóbulos delicados, ainda que um rastro de sorriso brincasse em seus lábios.
— Ei, ei, compre um belo vestido e uma bela maquiagem com esse dinheiro. — A cada palavra, a voz parecia mais infantil e os olhos pareciam aumentar três vezes de tamanho. Assustas-te com a velocidade que a garota mudara seus trejeitos, mas mantem tua expressão neutra. — Vá a um cabeleireiro, também. E não se esqueça de pintar as unhas.
Mesmo sem saber muito bem o porquê de tê-lo feito, tu sorris e sussurras um pequeno sim, enquanto assiste a estranha garota de presilhas de urso sumir pelas portas do cassino.
***
Pela primeira vez, o ato de ver-se num espelho não te é doloroso.
Os cachos tingidos com o negrume da noite e as lentes coloridas com sangue de virgens somavam-se ao belíssimo vestido rendado e os adoráveis sapatos de boneca para deixar-te com um sentimento desconhecido de esperança. Maquiagem branco-doentia cobre tuas marcas, e tu percebes que nunca mais quer deixá-las a mostra.
Decides que precisas de um novo nome, pois Yasuhiro Taeko não combina com essa nova pessoa que surge a tua frente. Encaras teus olhos, não demorando em aceitá-los como seus. Arqueias as sobrancelhas bem-feitas e sorris.
— Meu nome é Celestia Ludenberg.
(Sim, sim. Tu não és outra senão Celestia Ludenberg.)
E pela primeira vez, encontras a felicidade.
***
Tu detestaras desde o princípio a ideia de ir para o ensino médio. Soava estúpido ter que aprender Física ou Química ou Biologia, quando tinhas uma ótima carreira nos cassinos, e podia muito bem sustentar-se por ali.
Mas apesar de nutrires certo desgosto pelas Ciências Exatas, conhecias o suficiente de Aritmética para saber que demoraria tempo demais para conseguires o dinheiro que necessitavas para cumprir teu sonho, e foi por isso que tu aceitaras ir para Hope’s Peak Academy. Uma vez que se graduasse, tua vida estava feita, era o que diziam. Ultimate Gambler era um título que não te soava mal, de todo modo.
Mas então, chegou aquele maldito urso de voz irritante. O maldito urso que destruíra todos os teus sonhos.
Tudo que tu mais querias naquele momento era amarrar aquele urso numa fogueira e queimá-lo vivo, mas se a tal Enoshima Junko tivera seu corpo atravessado por algo clamado como as Lanças de Gungnir por muito menos, tu não vias outra escolha senão acatar as ordens daquele boneco insano.
Porque tu não aceitarias ficar presa ali, e farias o que fosse necessário para sair.
Cometer um assassinato seria o menor dos problemas.
(No fim, a vida é apenas um jogo de soma-zero, não é?)
***
Kuwata Leon — oh, não, espera, a culpada daquilo era claramente Maizono Sayaka — e Owada Mondo eram uns tolos se pensavam que tinham a esperteza necessária para sair dali. Apenas tu eras inteligente nesse nível.
No entanto, Naegi Makoto e Kirigiri Kyoko formavam uma dupla formidável, e Togami Byakuya também era deveras inteligente. Não seria fácil enganá-los.
(Não se preocupe. És a Rainha dos Mentirosos, e estes dois não terão escolha senão aceitar a derrota.)
Porque a vida é apenas um jogo de soma-zero, e a derrota não é tua conhecida.
***
Alter Ego já residia pacificamente no armário ao lado, e enganar Yamada Hifumi fora tão fácil que tu precisaras controlar-se mais que o necessário para não rir histericamente.
Tudo fora realmente simples. Tu acreditavas que seria mais difícil.
Ishimaru Kiyotaka já estava morto e tudo que precisavas fazer agora era dar um fim Hifumi.
Tua falta de hesitação te deixa um tanto preocupada com a tua sanidade.
Estaria tu enlouquecendo?
(Não, tu não estás louca. Apenas quer realizar teus sonhos. Não há nenhum mal nisso.)
Hifumi está caído no chão agora, e tudo que precisas fazer agora é esperar.
***
Tu sempre foste uma menina controladora, e apesar de ser a Ultimate Gambler, sua sorte é limitada apenas aos jogos de azar. Então você tinha que manter o controle sobre tudo. Mas ainda assim, confiara em Hifumi para por em prática grande parte de seu plano.
(Ah, não custaria nada deixá-lo e ser o herói uma vez na vida, certo? Apenas todo teu plano, querida.)
E tu meio que sabias que confiar num tolo como Hifumi acabaria por destruir com teu plano.
E agora tu irias arcar com as consequências da tolice. Tanto a tua quanto a dele.
— Então diga teu nome verdadeiro, Celeste.
Os olhos de Makoto são doces e preocupados — ele sinceramente queria declarar-te inocente —, mas tu não podes ficar mais irritada.
Teu nome é Celestia.
Celestia Ludenberg.
E é simplesmente inaceitável que te digam o contrário.
***
(Tu não podes desistir!)
— Vocês estão absolutamente certos!
(Não desista!)
— A culpada pelas mortes de Ishimaru Kiyotaka e Yamada Hifumi é Celestia Ludenberg!
(Não desista, não desista, não desista, não desista...!)
— É hora da punição!
(Não, não, não, não, não, não, não, não...!)
CELESTE HAS BEEN FOUND GUILTY. TIME FOR PUNISHMENT.
THE BURNING OF THE VERSAILLES WITCH
Tu sempre foste boa em mentir.
Tão boa que conseguia até enganar a si mesma, ou ao menos assim gostarias de acreditar.
Não serve de muita coisa, agora.
Já atearam o fogo, e agora tu vais queimar, queimar e queimar, como uma bruxa na Idade Média.
Está mais e mais quente, e o suor destrói mais e mais a tua maquiagem, revelando mais e mais cicatrizes na tua pele.
Não importa mais, agora.
Sorris, enxergando finalmente a tolice de tudo aquilo.
Tu sequer sabes mais quem tu és.
Mas simplesmente não te importas mais, agora.
Não se importa de não ser Taeko ou tampouco Celestia. Ambas nunca existiram de verdade.
Porque tu és uma men-ti-ra.
Mas, agora, quem liga?
As chamas estão mais e mais perto, e sentes teus pés queimarem.
Tu fechas teus olhos, e tudo que tu ouves são as sirenes do desespero.
Mas, cá entre nós, já te disseram que, agora, quando já estás morta, mais nada importa?
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