Ascensão Infernal
18 Tudo vai ficar bem
Notas iniciais
Era madrugada e o silêncio imperava em cada canto do bunker dos Homens das Letras, exceto pelo ruído sútil e constante dos pés descalços de Natalie em contato com o assoalho de um corredor do andar superior da fortaleza.
Vestindo um short cinza de um tecido bem macio e soltinho com uma blusa preta do Metallica que ficava mais justa em seu corpo, a loira seguia rumo ao quarto de Dean um tanto apressada e hesitante ao mesmo tempo.
Instantes depois, a caçadora parou diante da porta e esticou a mão na direção da maçaneta, porém não chegou a tocá-la. Só depois de se perguntar se aquilo era mesmo uma boa ideia, Natalie se convenceu a seguir em frente.
Então ela respirou fundo, girou a maçaneta e abriu a porta com extremo cuidado para não fazer muito barulho.
Com mais cuidado ainda, ela adentrou o quarto, fechou a porta atrás de si e caminhou sorrateiramente até a cama onde Dean dormia, evitando pensar na última vez em que esteve ali com ele, há meses, pouco antes da separação.
Desde que voltou definitivamente para o bunker, há cerca de uma semana, Natalie evitava pensar naquela conturbada fase. No fundo, já havia perdoado Dean e estava mesmo disposta a tentar de novo. E estaria mentindo para si mesma, se dissesse que não estava gostando da reaproximação entre eles.
Apesar disso e de já ter perdido as contas de quantas vezes, nos últimos dias, ela e Dean tinham caído em tentação em algum canto do bunker, Natalie insistia que queria ir com calma. E por isso, ela esperava que ele não acordasse e interpretasse aquilo errado.
Porém, assim que a loira ergueu um pouco o cobertor e se acomodou ao lado de Dean, ele despertou, estreitou o olhar diante daquela cena, reconheceu Natalie em meio a escuridão parcial do quarto, assimilou a surpresa e se moveu na direção dela comemorando:
— Uh, legal...
Porém, antes que Dean a envolvesse em seus braços, Natalie se esquivou com destreza, apoiou a mão no peito dele, mantendo uma distância segura entre eles, e esclareceu:
— Ei, ei! Vai com calma, Don Juan. Não é o que você está pensando.
Confuso, Dean olhou para um relógio sobre o criado-mudo atrás da loira, depois voltou a encará-la e argumentou enquanto tentava uma aproximação:
— Você, aqui, no meio da madrugada. Como não é o que eu estou pensando?
Mais uma vez, Natalie conseguiu se esquivar e então revelou o verdadeiro motivo para ter ido até ali:
— Eu tive um pesadelo. E eu sei que é ridículo que uma caçadora se deixe abalar por algo assim, mas eu também sou humana e foi um pesadelo assustador, okay? Mesmo. Então... Eu só pensei se... Por acaso eu poderia passar o resto da noite aqui?
Após um instante avaliando o que tinha ouvido, Dean passou um braço em volta da cintura de Natalie, a trazendo para perto de si, e respondeu cheio de segundas intenções:
— Claro que você pode ficar, Baby. Mas você sabe que tudo na vida tem um preço, não sabe?
Depois de dar um leve soco no ombro dele, Natalie riu e protestou:
— Você é inacreditável, sabia? Eu digo que tive um pesadelo e tudo o que você consegue pensar é em... Brincar? — e após desviar do olhar do caçador, ela concluiu: — Talvez seja melhor eu voltar para o meu quarto.
— Este é o seu quarto. — afirmou o Winchester, quando percebeu que Natalie pretendia se afastar. — Portanto, claro que você pode ficar. E claro que eu vou... — após respirar fundo, ele completou sem muita certeza: — Me comportar.
— Sério? — indagou ela, arqueando uma sobrancelha com um ar de dúvida.
Disposto a dizer qualquer coisa para que Natalie não saísse do quarto e, portanto, para que ele não perdesse a chance de fazê-la mudar de ideia sobre certas coisas, Dean deu de ombros e reafirmou:
— Claro. Eu consigo fazer isso, Natalie. Fique tranquila.
Após observá-lo por alguns instantes e pensar um pouco, a caçadora decidiu ficar. Então ela se acomodou melhor na cama, deitou de costas para Dean, mas bem perto do seu corpo, trouxe o braço dele para perto de si, o envolvendo em sua cintura, fechou os olhos e assentiu:
— Neste caso, boa noite, Sr. Awesome.
Dean ficou tenso por algum tempo, enquanto tentava não pensar na distância mínima que havia entre eles. E que ficou ainda menor, quando a loira se aconchegou mais no seu corpo, indo um pouco mais para trás e encaixando-se perfeitamente nele.
— Isso é golpe baixo, Natalie Jones. — protestou por fim, a fazendo rir contra o travesseiro.
Em seguida, ela se recompôs e defendeu-se:
— Você sabe que eu gosto de dormir de conchinha. Eu juro que não é provocação.
Alguns instantes se passaram até que Dean fechou os olhos e tentou, realmente tentou, não pensar que Natalie estava bem ali, bem perto dele, lhe causando uma onda de calor que se espalhava rapidamente pelo seu corpo.
Então, incapaz de se desligar e simplesmente voltar a dormir, o caçador abriu os olhos e resolveu puxar assunto:
— Com o que você sonhou?
Imediatamente, Natalie abriu os olhos também, estremeceu um pouco, mas acabou respondendo:
— Bonecas. — e depois de se lembrar dos detalhes do pesadelo e engolir em seco, ela relatou: — Dezenas de bonecas medonhas me perseguindo, surgindo de todos os cantos do bunker. Foi horrível.
Ao ouvir aquilo, Dean sentiu uma vontade irresistível de rir. Mas sabendo que Natalie não ia gostar se ele fizesse isso, tentou se conter.
Porém, não conseguiu abafar completamente um riso contido contra o pescoço da caçadora, que olhou na direção dele prontamente e protestou indignada:
— Por acaso você está rindo?
Dean respirou fundo, tentando se controlar, e mentiu:
— Não. — porém, logo depois, uma risada acabou escapando da sua garganta, o levando a se explicar ainda aos risos: — Desculpe, Baby... Mas você tem que concordar que isso é hilário. Você é uma caçadora e tem medo de bonecas! Como pode?
Enquanto Dean continuava rindo, Natalie o fuzilou com o olhar e rebateu:
— E você é um caçador que tem medo de avião. Como pode?
Diante disso, Dean parou de rir imediatamente e se defendeu:
— Aviões caem e, portanto, a minha fobia faz sentido. Já a sua...
Irritada e inconformada com o fato de Dean estar debochando dela, Natalie afastou o cobertor e começou a se levantar resmungando:
— Quer saber? Eu vou voltar para o meu quarto.
— Tem certeza que isso é uma boa ideia? — indagou o caçador rapidamente, fazendo-a hesitar no mesmo instante. — Vai que a Annabelle está escondida embaixo da cama? — debochou, voltando a rir.
Ainda mais irritada com a postura de Dean, Natalie pensou em sair dali de uma vez. Porém, embora não acreditasse que a macabra boneca Annabelle estivesse a esperando no outro quarto, ela estava com medo de ficar sozinha e ter outro pesadelo. Então, Natalie fechou a cara e resolveu se acomodar na cama de novo, mas desta vez, a uma distância segura de Dean.
Logo, ele parou de rir e ficou olhando para a nuca dela por alguns instantes, pensando em como era bom ter Natalie ali de novo e em como ele não queria estragar aquele momento.
Pensando assim, Dean se aproximou com cautela e sussurrou no ouvido da loira:
— Desculpe.
Disfarçando o arrepio que sentiu, Natalie resmungou:
— Por ter rido de mim?
— Por ter mentido quando disse que ia me comportar. — respondeu o Winchester sugestivamente, fazendo Natalie voltar-se na direção dele intrigada. — Eu não consigo. — admitiu, antes de se apoiar em um dos braços e fitá-la fixamente de um jeito ainda mais sugestivo.
— Não se atreva. — ordenou Natalie, com o dedo em riste enquanto se esquivava um pouco.
No entanto, de nada adiantou já que Dean se aproximou prontamente, envolveu a nuca dela com uma das mãos e, antes que a loira pudesse protestar de novo ou escapar de alguma forma, ele encaixou seus lábios nos dela suavemente, fazendo-a fechar os olhos e se esquecer de respirar por um instante.
Sem perceber, Natalie passou uma das mãos pela nuca do caçador também, enquanto as pontas dos seus dedos acariciavam a região, e permitiu que Dean envolvesse sua boca com mais avidez, correspondendo a cada investida de sua língua e de seus lábios.
Algum tempo depois, e sem fôlego, o caçador interrompeu o beijo e resolveu por um ponto final naquela discussão boba:
— Desculpe por ter rido de você.
— Como um idiota insensível? — retorquiu a loira, respirando profundamente algumas vezes a fim de recuperar o fôlego.
Depois de revirar os olhos, Dean assentiu:
— Que seja.
Em seguida, ele voltou a envolver os lábios de Natalie com um beijo intenso e apaixonado, enquanto sua mão subia pela perna dela embaixo do cobertor, até se fixar em sua cintura com certa força, a puxando para mais perto do seu corpo incrivelmente quente e ansioso pelo dela.
Desnorteada e sem conseguir conter um suspiro, Natalie interrompeu o beijo e antes de partir para cima de Dean, encerrou a discussão:
— Está desculpado, Sr. Awesome.
Aquilo não era o que Natalie pretendia quando foi até ali, muito menos o que Dean esperava que acontecesse naquela madrugada, mas, sem conseguirem resistir ao que sentiam e ao desejo de ficarem juntos de novo e de novo, os dois se livraram das peças de roupas às pressas e começaram a brincadeira de fato, espalhando suspiros e gemidos pelo quarto, enquanto a cama rangia consideravelmente embaixo de seus corpos.
No dia seguinte
Eram aproximadamente oito da manhã e Mia tinha levantado há pelo menos duas horas. Depois de não conseguir dormir naquela noite, ela resolveu levantar relativamente cedo e retomar a pesquisa sobre os portais do Inferno que tinha iniciado nos últimos dias.
Acomodada em uma pequena mesa, de uma sala do bunker, Mia folheava um enorme e empoeirado livro dos Homens das Letras, procurando qualquer pista sobre a localização do portal principal do Inferno. Porém, estava difícil manter a concentração, já que algo estava a incomodando desde que se livrou do feitiço de Crowley e voltou ao normal. Algo que Mia queria compartilhar com Castiel, mas que não sabia como contar.
Discretamente, a caçadora ergueu o olhar na direção do anjo, que estava sentado a sua frente, folheando outro livro.
Imediatamente, ele desviou a atenção da leitura e encontrou o olhar de Mia. Em resposta, ela lhe lançou um sorriso amarelo para disfarçar, tomou um pouco de café da sua garrafa térmica e voltou-se para a pesquisa. Porém, mais uma vez, não conseguiu se concentrar.
Então, inevitavelmente, Mia olhou de novo para o anjo, que não tinha se mexido e, portanto, continuava olhando para ela com uma expressão intrigada e interrogativa.
— Por acaso você quer me dizer alguma coisa? — perguntou Castiel por fim.
— Eu? — rebateu a garota no susto, mas acabou sentindo-se meio idiota, afinal só havia os dois ali. — Eu não. Por que você acha isso, anjo? — desconversou, um tanto nervosa.
Ainda mais intrigado com o comportamento de Mia, Castiel estreitou o olhar na direção dela e respondeu tranquilamente:
— Talvez porque você está estranha. E também porque não dormiu esta noite.
— Eu sou meio estranha mesmo. E sobre não ter dormido, eu não tenho culpa se você não deixou, coelho. — defendeu-se ela, arqueando as sobrancelhas e sorrindo levemente.
Após um instante, avaliando o último argumento, o anjo articulou:
— Isso é verdade. Mas em parte porque, em algum momento, nós paramos. E apesar disso e de ter ficado... Exausta, você não conseguiu pegar no sono.
Percebendo que não conseguiria fugir do assunto por muito tempo e no fundo não querendo fugir, Mia respirou fundo, se recostou na cadeira e decidiu começar pela parte mais fácil:
— Muitas coisas aconteceram, Cas. E por mais que eu repita para mim mesma que não tive culpa, ou toda a culpa, toda vez que eu fecho os olhos, eu me lembro das coisas que eu fiz nos últimos meses. Das pessoas que eu enganei, do sangue nojento que eu bebi, das coisas que eu te disse quando estava... Fora de mim.
Compadecido diante do que ouviu, mas desconfiado de que não era só a culpa que andava roubando o sono da garota, Castiel a fitou preocupado e indagou:
— Tem certeza que é só isso que está te incomodando, Mia? Tem certeza que você não quer me contar mais alguma coisa? Alguma coisa em específico?
Hesitante, a caçadora comprimiu os lábios e pensou um pouco sobre o sonho esquisito que teve dias antes de retomar a sua consciência e voltar para o bunker.
Sem saber como dizer e achando-se meio ridícula por ter ficado tão mexida com o tal sonho, Mia tentou desconversar para que Castiel perdesse o interesse no assunto:
— É uma coisa boba.
No entanto, isso o deixou mais curioso, o fazendo dizer com certa ironia:
— Com certeza deve ser algo bem bobo mesmo, para não te deixar dormir. — e diante da hesitação da garota, ele inquiriu de um jeito calmo, porém firme: — Conte.
Convencida de que o melhor era compartilhar aquilo logo, Mia respirou fundo novamente, pensou nas melhores palavras e começou a explicar de fato:
— Foi algo que eu... Sonhei durante o período de abstinência. Eu não sei se foi o meu dom de premonição voltando ou apenas uma alucinação, um sonho bobo e sem sentido.
— O que você viu? — interessou-se Castiel, unindo as sobrancelhas.
Depois de engolir em seco, Mia respondeu:
— Eu... Um pouco... Diferente.
— Você pode ser mais específica, por favor? — pediu o anjo, no fundo achando engraçada toda aquela dificuldade que a caçadora tinha em compartilhar o tal sonho.
Então Mia começou a responder:
— Eu estava... — e hesitou, incapaz de pronunciar uma certa palavra. Acabou optando por outra: — Inchada. — diante da confusão estampada no semblante de Castiel, ela tentou outra: — Gorda. — porém, como ele continuou confuso, Mia revirou os olhos e lhe deu uma última dica: — Barriguda.
Quase imediatamente, o anjo compreendeu o que ela queria dizer com tudo aquilo. E inevitavelmente, o seu semblante iluminou-se.
Em seguida, apenas querendo uma confirmação, ele indagou:
— Você quer dizer... Grávida?
— Schhh. Não diga essa palavra. — pediu Mia, visivelmente incomodada e se mexendo um pouco na cadeira, enquanto passava os olhos pela sala, tentando se acalmar.
— Por que não? Por acaso não é a palavra correta? — rebateu Castiel, tentando entender por que era tão difícil para Mia falar claramente sobre o sonho, ao mesmo tempo em que tentava não sorrir ao pensar no que o tal sonho significava.
Não conseguiu disfarçar muito bem, o que levou Mia a perguntar atônita:
— Por que você está sorrindo?
— E por que você está tão assustada? — retorquiu o anjo, não contendo uma leve risada.
Diante daquela cena, a garota soltou um suspiro incrédulo e afirmou um tanto confusa:
— Você está feliz.
— Eu vou ficar, — disse Castiel, com um certo brilho no olhar — quando acontecer.
— E eu vou ficar apavorada, se acontecer. — confessou Mia, querendo que o anjo enxergasse a gravidade do que aquele sonho podia significar.
Tentando conter mais um riso, Castiel arqueou as sobrancelhas e corrigiu:
— Você já está apavorada. — e depois de encará-la por alguns instantes, questionou intrigado: — Por quê? Do que você tem tanto medo, Mia?
— De tudo. — respondeu no susto, achando a pergunta óbvia demais. Porém, ao perceber que Castiel não pensava como ela, Mia tentou expor os seus motivos: — Sem ofensa, mas você é um anjo e eu uma humana com sangue de demônio. Isso, por si só, já seria motivo suficiente para nós nem tocarmos nesse assunto. Nunca! Mas o pior é que tem mais. O nosso mundo, a vida que nós levamos, os inimigos que temos... Ter um... Uma... Você sabe, nesse cenário, seria loucura. E, além disso tudo, eu não sirvo para ser mãe. Aliás, eu seria uma péssima mãe!
— Eu duvido. — retorquiu Castiel, atentando-se apenas ao último argumento, já que o resto, ele sabia que poderia contornar dia a dia, junto com ela. — Mas eu entendo que isso te assuste, Mia. — prosseguiu de um jeito compreensivo. — Mudanças, compromissos... Costumam provocar essa reação em você. Foi assim quando eu te pedi em casamento, lembra? Você ficou tão apavorada que desmaiou.
— Você não está ajudando, anjo. — cortou a garota, balançando os pés nervosamente embaixo da mesa, ao se lembrar daquela ocasião e do pavor irracional que sentiu diante daquele pedido.
Tentando acalmá-la, Castiel decidiu esconder a felicidade plena que sentiu, apenas pela possibilidade do sonho de Mia se concretizar algum dia, segurou a mão dela sobre a mesa, fazendo-a encará-lo no mesmo instante, e articulou:
— Se isso te deixa mais tranquila, você pode estar certa. Talvez tenha sido só uma alucinação, um sonho sem importância, talvez o seu inconsciente fazendo você se agarrar a alguma coisa para voltar para mim, para cá, eu não sei.
Um pouco mais calma, Mia respirou profundamente e perguntou:
— Mas e se não foi só isso? E se eu realmente tive... Uma visão do futuro?
Ao pensar naquela possiblidade novamente, Castiel sorriu, deu de ombros, lembrou de uma conversa que teve com Mia, há alguns meses, justamente sobre filhos, e respondeu tranquilamente:
— Neste caso, nós vamos ter que chegar a um consenso na escolha do nome, porque eu continuo querendo Abrahão para menino. Mas se for menina, eu deixo você escolher. Você mencionou Isabel uma vez, lembra? É um nome bonito. Eu gosto.
Tentando levar aquele assunto de um jeito mais leve também, Mia debochou baixinho:
— Pena que eu não posso dizer o mesmo de Abrahão. — e quando o anjo riu e acariciou a sua mão sobre a mesa, ela questionou intrigada: — Como você consegue ficar tão tranquilo?
— Alguém tem que ficar, afinal se você está nervosa assim por causa de um simples sonho, imagine quando ele se concretizar? — expôs Castiel, sorrindo levemente para ela.
— Se ele se concretizar. — salientou Mia.
Castiel sorriu em concordância e depois de pensar um pouco, decidiu encerrar aquela questão por ora. Então, mantendo o olhar fixo no olhar da caçadora, ele expôs:
— Mia, independente do que aconteça e de quando aconteça, a única coisa que realmente importa é que eu te amo. E isso não vai mudar nunca.
Qualquer resquício de nervosismo e medo que Mia ainda sentia dissipou-se naquele momento, ao se sentir profundamente amada.
O anjo estava certo, afinal. Independente daquele sonho se concretizar ou não, Castiel a amava. E aquele amor fazia Mia acreditar que eles podiam passar por qualquer coisa juntos, fosse boa ou ruim. E um filho ou filha, por mais que a assustasse um pouco e envolvesse uma série de riscos, era algo definitivamente bom. No fundo, Mia sabia disso, só não estava pronta para tal compromisso naquele momento. Mas quem sabe um dia?
Guardando aquela possibilidade com carinho em sua mente e disposta a viver o presente até que o futuro chegasse, Mia deixou escapar:
— Eu quero tirar a sua roupa. — mas quando Castiel franziu o cenho, um tanto assustado com a forma direta com que ela disse aquilo, Mia corrigiu-se rapidamente: — Digo! Eu também te amo! — e depois de sorrir para o anjo, que entrelaçou seus dedos nos dela suavemente, Mia não se conteve e admitiu: — Mas eu ainda quero tirar a sua roupa. Todo esse papo de... Gravidez me deixou com vontade.
— De ter um filho? — surpreendeu-se Castiel.
— Não! — negou Mia prontamente, rindo um pouco, pois aparentemente e apesar de disfarçar bem, aquilo também o assustava um pouco. — De viver o hoje. — esclareceu.
— Essa foi a desculpa mais esfarrapada que você já deu para tirar a minha roupa. — opinou Castiel, embora no fundo, tivesse gostado da ideia.
— Contanto que funcione. — insinuou Mia, embora no fundo, tivesse plena certeza de que funcionaria.
Ela teve a confirmação disso, instantes depois, quando o anjo a encarou fixamente e perguntou com um leve sorriso:
— Onde?
Querendo torturá-lo um pouco, Mia desviou do olhar do anjo e fez suspense:
— Eu não sei... Deixe-me pensar... Humm... Vejamos. — por fim, voltou a encará-lo e sugeriu: — Ah! Eu ainda não matei a saudade do Mustang. O que você me diz?
Ao invés de responder com palavras, Castiel se levantou devagar, sem desviar do olhar de Mia e sem soltar a sua mão, deu a volta na pequena mesa, fazendo a garota se levantar também, e parou diante dela a uma distância mínima.
Em seguida, ele envolveu a nuca de Mia com a outra mão, trazendo o rosto dela para junto do seu, fechou os olhos, a fazendo fechar os seus também, e a beijou calmamente. Sem pressa e com muito sentimento.
Logo o farfalhar de asas ecoou pela sala vazia. E Mia não saberia dizer se o frio que sentiu no estômago foi ocasionado por ter sido levada em um bater de asas para a garagem do bunker, onde o Mustang estava, ou se pelo beijo em si. Ou se pelas duas coisas.
XXX
Claire começou a despertar, respirou profundamente, aos poucos foi abrindo os olhos e se habituando gradativamente com a claridade que entrava no quarto por uma janela, a poucos metros da cama.
Por fim, ao abrir totalmente os olhos, ela deparou-se com Sam, que estava deitado ao seu lado, com o braço flexionado sobre o colchão e a mão servindo de apoio para o rosto, enquanto a observava com uma expressão serena.
Sem conseguir conter um sorriso, Claire sentiu o seu coração acelerar subitamente e murmurou com a voz sonolenta:
— Oi.
— Oi. — respondeu o caçador, mantendo seu olhar fixo no dela.
— O que foi? — indagou Claire, intrigada com a forma como Sam a olhava.
— Você é bem bonita, sabia? — explicou o caçador, com um certo brilho no olhar.
— Obrigada. — agradeceu a morena, sentindo o seu coração acelerar mais um pouco. — Você também não é de se jogar fora. — disse em tom divertido, deslizando a mão pelo peito nu de Sam e o fazendo sorrir.
Em seguida, ele se inclinou na direção de Claire. Ela, por sua vez, envolveu a nuca do marido, e então suas bocas se uniram em um selinho demorado e carinhoso.
Instantes depois, o Winchester afastou o rosto e indagou:
— Sério, como eu acabei ficando com você mesmo?
Claire fingiu que estava pensando em uma resposta e logo depois brincou:
— Humm... Eu não sei. Eu acho que não sou muito exigente.
Sam sorriu mais uma vez, antes de se reaproximar e beijá-la novamente, enquanto uma de suas mãos envolvia a cintura de Claire e a trazia para mais perto de si.
Aos poucos, os dois interromperam o beijo e se encararam mutuamente, até que o caçador perguntou um tanto preocupado:
— Como você está?
— Bem. — respondeu Claire prontamente.
Querendo confirmar se aquilo era mesmo verdade, Sam achou melhor sondar:
— E as dores de cabeça?
— Passaram. — afirmou a morena, enquanto acariciava o rosto dele, tentando dissipar aquela preocupação desnecessária que ele sentia em relação à ela.
— Tonturas? — prosseguiu o Winchester, estreitando o olhar na direção dela ainda preocupado.
Depois de respirar fundo e controlar a vontade de rir, Claire respondeu em tom divertido:
— Passaram também, Dr. House. — mas, percebendo que Sam não só não tinha achado graça naquilo, como continuava preocupado, ela resolveu acrescentar de um jeito mais sério: — Eu não sinto mais nenhum mal estar há dias. Não se preocupe, eu estou bem.
Depois de observá-la por algum tempo, Sam finalmente se convenceu de que as dores de cabeça e tonturas que Claire havia sentido nos últimos dias eram apenas indisposições passageiras. E, pensando desta forma, ele encerrou a questão:
— Que bom. — e enquanto se levantava da cama, mudou de assunto: — Neste caso, eu vou preparar o nosso café. Não se mexa, eu volto logo.
— Humm... Café na cama? — animou-se Claire, observando Sam enquanto ele vestia a calça do pijama, que ela havia tirado em algum momento daquela noite. — Isso é romântico. — reconheceu.
— Eu mereço mais um beijo por isso? — perguntou o caçador, enquanto procurava a camisa do pijama pelo chão.
— Você merece muito mais do que isso. — insinuou Claire, mordendo o lábio inferior enquanto o encarava de um jeito sugestivo.
Gostando do que ouviu, Sam retribuiu o olhar, depois vestiu a camisa, se reaproximou, beijou a esposa suavemente e orientou:
— Guarde essa disposição para daqui a pouco. Eu já volto.
— Okay. — assentiu a morena, sorrindo levemente enquanto ele se afastava. — Ei! — chamou em seguida, fazendo Sam parar diante da porta e olhar para trás. — Eu te amo. — declarou, o fitando de um jeito apaixonado.
Um leve sorriso se formou no rosto do Winchester quando ele retribuiu:
— Eu também te amo.
Logo depois, Sam deixou o quarto e Claire começou a procurar a sua camisola pela cama e pelo chão. Como não encontrou, ela se enrolou no lençol, levantou-se devagar e vestiu uma camisa xadrez de Sam que estava largada sobre a cômoda. Ao se olhar no espelho do guarda-roupa, constatou que a peça ficava enorme nela e riu um pouco disso, antes de dar as costas para o seu reflexo.
E foi ao fazer isso, que Claire sentiu o quarto girar a sua volta e apoiou-se na cômoda para não cair. Logo, uma forte enxaqueca a fez levar uma das mãos à têmpora, fechar os olhos por um instante e soltar um gemido baixo.
Logo, a enxaqueca evoluiu para um mal estar repentino e inexplicável. E logo o mal estar tornou-se desconcertante, insuportável.
— Sam... — chamou a caçadora, mas sua voz saiu muito baixa.
Então Claire olhou na direção da porta, pensando em se apoiar nos móveis para chegar até lá, mas a saída do quarto lhe pareceu estranhamente longe.
E tudo continuava girando.
Algum tempo depois
Sam caminhava na direção do quarto, segurando uma bandeja com o café da manhã que havia preparado para ele e Claire. Logo, ele empurrou a porta com as costas e adentrou o recinto, com a cabeça um tanto baixa e dizendo distraidamente:
— Ei, eu estava pensando. Eu posso trazer alguns livros para cá e nós continuamos a pesquisa sobre os portais do inferno aqui mesmo. O que você acha?
De repente, Sam parou de falar e deteve o passo. Isso porque, ao erguer a cabeça e procurar a esposa pelo quarto, ele a encontrou, mas não onde esperava. Ao invés de estar na cama, a caçadora estava no chão, próxima ao guarda-roupa. Desacordada.
Sentindo uma onda de pânico invadí-lo, Sam deixou a bandeja cair de suas mãos e correu até a esposa enquanto a chamava aflito:
— Claire!
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