Ascensão Infernal
2 Livin' la vida loca
Notas iniciais
Começava a anoitecer e Sam dirigia um carro que havia roubado nos arredores de Lebanon, horas antes, enquanto Dean seguia com o Impala por outra estrada e ia atrás do maluco que havia sequestrado Natalie.
O tal sujeito exigiu que Dean fosse sozinho ao cativeiro e o caçador achou melhor não contrariá-lo, afinal ele não queria que Natalie corresse mais riscos do que já estava correndo por sua causa. Além disso, estava claro que Cole Trenton tinha alguma questão pessoal não resolvida com o Winchester mais velho, então o melhor era não envolver mais ninguém naquele assunto. A não ser que fosse extremamente necessário, é claro.
Sendo assim, ficou decidido que Dean iria tentar resolver aquela situação sozinho, enquanto Sam e Castiel iriam para Maine, atrás de Mia.
Naquele momento, o anjo estava no banco do passageiro, visivelmente impaciente e ansioso. O tempo parecia não passar, a viagem se arrastava, o carro não era muito rápido e Sam ainda fazia questão de respeitar o limite de velocidade. Tudo isso deixava o anjo ainda mais nervoso.
Por fim, Castiel não aguentou mais e reclamou um tanto contido:
— Se eu tivesse ido voando, já teria chegado em Maine há horas.
Sam teve que conter a vontade de rir daquela observação, antes de explicar pela milésima vez naquele dia:
— Cas, nós já conversamos sobre isso, ok? A Mia se rendeu ao Crowley e está desaparecida há meses. Nós não sabemos o que vamos encontrar quando chegarmos em Maine. Nós nem sabemos se o demônio que a Claire torturou disse mesmo a verdade. Pode ser uma pista? Pode. Pode ser uma armadilha? Com certeza, pode. Mas também pode ser absolutamente na...
— Não termine esta frase! — interrompeu o anjo abruptamente, presumindo que Sam diria a palavra "nada". E ouví-la só faria a saudade que Castiel sentia de Mia se intensificar ainda mais, até um ponto em que doía muito. Se bem que, mesmo Sam não tendo terminado a palavra, aquilo aconteceu de qualquer jeito e Castiel sentiu uma tristeza profunda.
O caçador ficou confuso por alguns segundos, mas logo entendeu o motivo da interrupção e então recomeçou pacientemente:
— Olha, Cas, quando nós encontrarmos a Mia, provavelmente o Crowley e outros demônios estarão por perto também. Isso significa que todo cuidado é pouco. Você não pode chegar lá e achar que vai ser fácil resgatá-la, porque não vai. É por isso que eu estou indo com você. Porque nós precisamos pensar, juntos, em uma forma de burlar a segurança do Crowley e trazer a Mia sã e salva para o bunker, entendeu?
— Eu não posso simplesmente bater as minhas asas, abraçá-la e tirá-la de lá? — questionou Castiel, com um misto de inocência e teimosia.
Sam suspirou profundamente e lembrou:
— Não, porque se o Crowley escondeu a Mia de você por meses, provavelmente ele está usando sigilos enoquianos para proteger o lugar onde está a mantendo presa. Então mesmo que você quisesse fazer algo heroico por ela, infelizmente, não seria possível. Pelo menos, não sem a ajuda de um humano e caçador, que no caso... Sou eu.
Depois de pensar um pouco sobre aquilo, Castiel percebeu que Sam tinha toda a razão. Sozinho, ele não iria conseguir localizar e resgatar Mia. O problema era que aquela pista era o mais próximo que ele chegou dela em meses. E, por isso, a vontade que Castiel tinha era de ir atrás de Mia imediatamente, sem medir qualquer consequência.
No entanto, o anjo sabia que as coisas não funcionavam assim. Se ele agisse impulsivamente, acabaria colocando a vida de Mia em risco. Crowley poderia desaparecer com ela de novo, e seria bem difícil conseguir uma nova pista do paradeiro da garota.
Pensando em tudo isso, Castiel propôs:
— Tudo bem, mas será que você pode dirigir mais rápido? Uma vez o Dean me disse que você dirige como uma mocinha. E eu não tinha entendido o que isso significava até hoje.
Ofendido com o comentário, Sam soltou um suspiro de irritação. Em seguida, acelerou o carro, causando um sobressalto no anjo, que foi lançado um pouco para a frente. E então o caçador resmungou entredentes:
— Como quiser, senhor.
Castiel se recompôs e conteve um riso. Ele não queria ter criticado a forma como o Winchester dirigia, mas estava feliz pela estratégia ter funcionado.
Algum tempo depois, e um tanto receoso, o anjo quebrou o silêncio novamente:
— Sam, o que você acha que o Crowley está fazendo com a Mia? Você acha que ela está... Bem? Será que ele a machucou de alguma forma? Será que ela está sendo... Você sabe.
O caçador entendeu o que o anjo quis dizer imediatamente. Castiel queria saber se Sam achava que Crowley estava torturando Mia para obrigá-la a contar sobre a tradução da última parte da Tábua dos Anjos, ou mesmo para ajudá-lo a romper o tal selo que faria o Inferno ascender.
Essa hipótese também atormentava Sam, bem como atormentou Dean durante todos aqueles meses. Mas, como uma resposta positiva era muito revoltante e dolorosa, Sam decidiu tranquilizar não só o anjo, mas a si mesmo também. E, por isso, disse:
— Vamos pensar positivo, ok? A Mia é esperta, eu tenho certeza que ela encontrou uma forma de ganhar tempo e enrolar o Crowley. Ela deve estar bem. Ela é a Mia, não é? Ela sempre fica bem.
Castiel sabia que Sam só estava dizendo aquelas coisas para acalmá-lo. Mas, querendo se agarrar àquela esperança também, o anjo se ouviu respondendo:
— Eu só espero que ela não esteja... Sofrendo.
Sam não disse mais nenhuma palavra. Apenas acelerou mais um pouco, afinal os dois precisavam chegar o quanto antes em Maine. Se Mia estava mesmo em Waterville, ela devia estar sofrendo sim, e eles tinham que colocar um fim naquilo e salvá-la do Rei do Inferno de uma vez por todas.
XXX
Enquanto isso, em um bar em Waterville, Mia estava em um pequeno palco que havia no lugar, segurando um microfone em uma das mãos e batendo a outra levemente em seu quadril.
A garota olhava para uma tela que reproduzia letras de músicas de um aparelho de karaokê, instalado no canto do palco, esperava o momento exato em que a música escolhida por ela começaria e batia um dos pés no chão de uma forma ritmada, enquanto apenas a introdução da melodia tocava.
No bar, que ficava perto de uma encruzilhada, várias pessoas estavam acomodadas nas mesas e no balcão, onde bebidas dos mais diversos tipos e níveis de álcool eram servidas aos montes.
De repente, Mia, — que tinha os cabelos loiros, soltos e caindo por seus ombros, uma maquiagem forte, que lhe dava um ar sexy e fatal, que vestia uma minissaia jeans, um par de botas de cano curto, deixando suas pernas torneadas à mostra, e usava uma blusinha preta de renda, deixando parte do seu sutiã à mostra também — sorriu e começou a cantar empolgada:
— She's into superstition, black cats and voodoo dolls! I feel a premonition, that girl's gonna make me fall! (Ela é supersticiosa, gatos pretos e bonecos de vudu! Eu sinto uma premonição, essa garota vai fazer eu me apaixonar!)
Imediatamente, as pessoas que ali se encontraram vibraram com a escolha da música e começaram a incentivar Mia, com palmas e assobios.
Crowley, que estava sentado de frente para o balcão, do outro lado do bar, olhou aquela performance de soslaio, tomou um gole de uísque, recém servido por uma garçonete do lugar, revirou os olhos e resmungou:
— Jovens...
Enquanto as pessoas no bar vibravam com o desempenho da garota e com a música contagiante, Crowley se endireitou no banco para avaliar melhor aquela cena. Mas, a sua expressão não era nem de longe a de alguém que estava gostando do que estava vendo. Mia andava muito dispersa ultimamente e o Rei do Inferno não estava gostando nenhum pouco disso.
Alheia ao olhar reprovador do demônio, Mia dançava e cantava empolgada:
— Upside, inside, out! She’s living la vida loca. She’ll push and pull you down! Livin' la vida loca. Her lips are devil red and her skins the color mocha. She will wear you out! Livin' la vida loca… (Para cima, dentro e fora! Ela está vivendo a vida loucamente. Ela vai empurrar e puxar você para baixo! Vivendo a vida loucamente. Os lábios dela são o demônio vermelho e a pele cor de chocolate. Ela vai te usar e te jogar fora! Vivendo a vida loucamente...)
Crowley ficou olhando fixamente para Mia, até que finalmente ela percebeu aquilo e encontrou o olhar dele no meio de todas as pessoas que ali estavam.
Sentindo-se repreendida, Mia interrompeu a apresentação depois do refrão e estreitou o olhar na direção do Rei do Inferno, com uma expressão visivelmente insatisfeita, que nem de longe lembrava o sorriso e a alegria que ela demonstrava anteriormente.
As pessoas no bar não entenderam o motivo da interrupção, mas, mesmo assim, aplaudiram quando Mia colocou o microfone em cima do aparelho de karaokê e desceu do palco, com um pulo leve, preciso e sem qualquer emoção, quase mecânico.
Então ela caminhou até onde Crowley estava, parou diante dele, cruzou os braços contra o peito e questionou com um resmungo impaciente:
— O que foi que eu fiz desta vez?
Depois de tomar um gole da bebida, arquear um pouco as sobrancelhas e sem olhar diretamente para ela, o demônio rebateu com uma crítica velada:
— Eu acho que a pergunta mais apropriada seria o que foi que você não fez. Ou o que você não tem feito ultimamente.
Ainda mais impaciente, Mia soltou um suspiro, puxou uma cadeira ao lado de Crowley, se sentou, apoiou os braços no balcão e recomeçou:
— Certo, então o que foi que eu não fiz ou o que eu não tenho feito ultimamente para você ficar com essa cara de limão azedo?
— Você sabe muito bem. — afirmou o Rei do Inferno seriamente e sem gostar do tom debochado da garota. Porém, quando Mia moveu os olhos de um lado para o outro, como alguém que não está entendendo aonde o outro quer chegar, ele esclareceu: — Você sabe por que eu te trouxe para cá, Sweetie. E por que nós passamos por tantos lugares como esse ultimamente. Você deveria sondar o terreno, conseguir certas... Prospecções e atrair alguns otários até a encruzilhada mais próxima, para que eles selem alguns pactos. Simples assim. Mas, ao invés disso, o que você tem feito? Curtido a vida e sensualizado como uma Pop Star.
— Isso não é justo! — protestou a garota com certa indignação. — Eu ajudei os seus demônios a fecharem dezenas de pactos nos últimos meses.
— O problema é que eu não preciso de dezenas, mas sim de centenas. Mais precisamente de 666 contratos fechados até o próximo eclipse, que por acaso é daqui a algumas semanas. — lembrou Crowley, e Mia respirou fundo, incomodada com aquela pressão sobre ela. — Você sabe que esta é a primeira coisa que nós precisamos para romper aquele selo. Então, se você quer mesmo liderar o Inferno ao meu lado algum dia, faça por onde.
— Eu só aceitei tudo isso porque pensei que seria divertido. — replicou Mia, sem levar o demônio muito à sério. — Mas se eu não posso me divertir um pouco e sensualizar às vezes, qual é a graça de conspirar contra o mundo, afinal? — acrescentou em tom divertido.
Crowley a fitou seriamente e, com isso, Mia foi desmanchando o sorriso aos poucos. Tudo bem, talvez ela não devesse falar com ele daquele jeito. Crowley tinha a libertado de uma vida medíocre, lhe dado poderes fenomenais e lhe prometido um futuro promissor na nova era que estava por vir.
Pensando desta forma, Mia se comprometeu:
— Tudo bem, eu vou tentar me focar mais nos negócios, chefinho. Feliz?
O Rei do Inferno a observou por um longo momento. Depois disso, tomou mais um gole do uísque, levantou do banco e respondeu:
— Eu só vou ficar feliz quando nós tivermos os 666 contratos. Até lá, trabalhe duro e se comporte, Sweetie.
Ao ver que Crowley fez menção de se afastar, Mia indagou:
— Ei! Aonde você vai?
O demônio voltou-se na direção dela e respondeu de uma forma evasiva:
— Procurar a segunda coisa que nós vamos precisar para romper o selo.
— Que seria? — perguntou a garota intrigada e curiosa.
Crowley lhe lançou um sorriso torto e, antes de caminhar em direção à saída do bar, respondeu simplesmente:
— Uma bruxa.
Mia franziu o cenho enquanto observava o Rei do Inferno deixando o bar e pensava sobre tudo o que ele havia dito, principalmente sobre aquela última revelação.
Por fim, ela deu de ombros, pegou o copo que ele deixou sobre o balcão, tomou o resto de uísque e levantou com um impulso.
Então Mia olhou tudo em volta até encontrar o olhar de um homem sobre ela. Ele sorriu levemente e, imediatamente, a garota se lembrou do que precisava fazer: conseguir mais pactos.
Porém, ao olhar na direção do palco, onde uma pessoa cantava uma música country qualquer, ela suspirou, tentada a continuar o que estava fazendo antes de Crowley ter a repreendido daquele jeito autoritário e intimidador.
Mia sorriu ao se convencer de que o Rei do Inferno já devia estar longe dali e que uma música a mais não iria fazer mal algum.
Sendo assim, ela caminhou resoluta na direção do palco.
Horas depois, longe dali...
Era madrugada e Dean dirigia o Impala à toda velocidade por uma estrada do Kansas, até que ele cruzou uma placa onde lia-se: Altamont — 1.209 habitantes.
Isso deixou o caçador pensativo e intrigado. Por um momento, pensou que talvez tivesse anotado as coordenadas erradas, porém, ao olhar para um pedaço de papel sobre o painel do veículo, ele confirmou que tinha anotado corretamente o que Cole Trenton havia lhe dito ao telefone, no começo do dia anterior.
Sendo tomado pouco a pouco pela preocupação e ansiedade, o Winchester se perguntava se Natalie estava naquele fim de mundo por algum motivo quando foi encontrada por Cole, ou se ele tinha a arrastado até ali de alguma forma.
De um jeito ou de outro, Dean só queria que aquilo acabasse. Queria achar o estábulo abandonado que Cole mencionou, queria encontrar Natalie e libertá-la, afinal não era justo que a caçadora pagasse por qualquer coisa que Cole tinha contra ele.
Isso era outra coisa que intrigava Dean. Quem era Cole Trenton, afinal? E o que aquele sujeito tinha contra ele? Por que estava fazendo aquilo? Estava claro que era algo pessoal, mas o problema é que Dean nem sequer se lembrava de ter conhecido alguém com este nome.
Alguns minutos depois, Dean virou em uma estrada secundária e seguiu por ela, ainda mais ansioso. A estrada era de terra, o que fez uma nuvem de poeira se erguer à medida que os pneus do Impala percorriam o caminho abruptamente.
Por fim, Dean cruzou a placa do que parecia ser uma antiga fazenda. A vegetação rasteira não estava mais tão rasteira assim, o que indicava que o lugar estava abandonado há anos.
— E a coisa só fica mais esquisita... — refletiu Dean, olhando seriamente para o caminho escuro e tortuoso à sua frente.
Em dado momento, o Impala não conseguiu mais prosseguir, já que o caminho estava repleto de pedras, lama e vegetação. Então Dean desceu do carro e, segurando uma arma em punho e uma lanterna na outra mão, caminhou com cautela em direção à um estábulo que ficava a cerca de cinquenta metros de onde o veículo havia ficado.
A tensão e a apreensão aumentavam a cada instante, fazendo o coração do caçador bater pesadamente. O lugar todo estava na mais completa penumbra e, novamente, Dean se perguntou se estava no local certo.
Logo ele se convenceu de que estava sim. Isso por que ao lado do estábulo tinha uma picape preta estacionada. Portanto, o lugar não estava tão abandonado assim. Havia alguém ali, com certeza.
Logo Dean deduziu que a picape devia pertencer ao tal Cole e que tinha sido com aquele veículo que ele havia levado Natalie até ali. A questão era: por quê?
Essa era a pergunta que atormentava Dean. O que Cole Trenton queria com ele?
Dean ainda não sabia, mas estava prestes a descobrir.
XXX
Do lado de dentro do estábulo, Natalie estava amarrada a uma cadeira, com a cabeça baixa, lutando para ficar acordada. Porém, o cansaço, a fome, a sede e a sensação desesperadora de estar ali contra a sua vontade foram mais fortes e a caçadora acabou fechando os olhos.
A loira já havia perdido a conta de quantas vezes gritou por socorro desde que Cole a prendeu naquele lugar. Infelizmente, ninguém a ouviu, já que aquela fazenda ficava, literalmente, no meio do nada. Cole Trenton havia pensado em tudo. Ele queria que Dean, e apenas Dean, fosse até ali com o intuito de resgatar a ex-mulher. E o sujeito havia conseguido o que queria.
Com cuidado, Dean empurrou uma enorme porta de madeira nos fundos do estábulo, iluminando o lugar com a lanterna e amaldiçoando o ruído estrondoso que a maldita porta fez.
Depois de respirar profundamente, o Winchester deu os primeiros passos em direção ao seu interior, que era um espaço grande, todo revestido por madeira, possuía uma espécie de segundo andar e tinha o chão coberto por feno.
Aquilo estava ficando cada vez mais estranho. Se Cole queria que Dean fosse até ali, onde diabos o sujeito estava?
Essa pergunta perdeu completamente a importância quando o caçador avistou Natalie a cerca de cinco metros, presa em uma cadeira e de costas para ele.
Por um momento, Dean hesitou e se deu conta de que não estava pronto para aquele reencontro. Seu coração, que até então estava tomado pela tensão, acelerou subitamente ao mesmo tempo em que ficava mais e mais apertado pela saudade que sentia da loira.
Um filme de tudo o que ele viveu com Natalie passava em sua mente, o deixando ainda mais desnorteado. A lembrança da última vez em que a viu, quando terminou com ela daquele jeito covarde, lhe causou uma dor profunda e uma sensação de vergonha.
Porém, a necessidade de tirar Natalie dali falou mais alto e, fazendo um esforço, Dean voltou a si e correu até ela, não se importando mais se Cole Trenton estava por perto, se o ouviria, se o veria, se ele estava colocando tudo a perder agindo daquele jeito impulsivo.
— Natalie! — chamou Dean, depois de se aproximar e se abaixar diante dela. — Natalie... Acorda. Fale comigo... — insistiu, segurando e erguendo o rosto da caçadora em sua direção.
Mais uma vez, Dean sentiu o seu coração ficar apertado. Natalie estava tão abatida. Estava com um pouco de olheiras e parecia mais magra. E por mais que quisesse acreditar que isso se devia ao fato dela ter sido sequestrada, uma parte de Dean sabia que ele tinha sua parcela de culpa naquilo também. Natalie estava péssima como ele. Mas, mesmo assim, ela continuava tão... Awesome.
Dean, que dizia todos os dias para si mesmo que estava conseguindo esquecer a caçadora, entendeu, naquele momento, que estava mentindo para si mesmo. Era impossível esquecer Natalie Jones. Era impossível não amá-la mais. Ele podia passar dias, meses ou anos longe dela, mas, de um jeito ou de outro, ela continuava ali, em seu coração e em seu pensamento. O tempo todo. Impregnada.
— Natalie... — murmurou ele, percebendo que as pálpebras dela haviam-se movido sutilmente.
Por fim, a loira abriu os olhos devagar e fitou o Winchester um tanto confusa, surpresa e até incrédula. Dean não poderia imaginar, mas ela também não estava pronta para aquele reencontro. E também estava sentindo um turbilhão de emoções acelerando o seu coração. Tudo isso misturado com a mágoa que ela sentia em relação ao caçador. Era uma sensação sufocante e desconfortável. Natalie estava com raiva de Dean, muita raiva, mas ao mesmo tempo, estava com raiva de si mesma porque, lá no fundo, não conseguia odiá-lo de verdade. O que ela odiava era a emoção que sentia por revê-lo e a saudade que sentia dele.

Nenhum dos dois conseguia pensar no que dizer naquele momento. O silêncio e aquela troca de olhares estavam começando a ficar constrangedores. Até que, finalmente, Dean se situou, começou a desamarrar uma corda que prendia os pés da caçadora na cadeira e anunciou:
— Eu vou te tirar daqui.
Antes que a loira pudesse dizer qualquer coisa, uma voz masculina e grave ecoou pelo estábulo:
— Não vai não.
— Cuidado! Atrás de você! — alertou ela aos gritos, mas já era tarde demais.
Quando Dean se virou rapidamente, Cole deu um chute certeiro na arma que o caçador apontou em sua direção, fazendo com que ele a soltasse imediatamente.
Dean até tentou se levantar e se defender de alguma forma, mas não houve tempo para isso. Cole foi mais rápido e antes que o caçador piscasse, ele acertou um forte soco em seu rosto, fazendo Dean cair para trás desacordado.
Natalie olhou para o caçador aos seus pés, tentando conter o desespero que sentia. Não importava o quanto Dean Winchester tivesse sido idiota com ela, ninguém podia bater nele. Talvez, somente ela.
Ao pensar nisso, Natalie se deu conta de que isso era exatamente o que Dean merecia. Que ela lhe desse uns bons tapas naquele rostinho lindo. Ele merecia isso não só por ter aberto mão da relação que eles tinham e a magoado muito, mas também por ter caído naquela armadilha estúpida, indo atrás dela sem medir as consequências.
Onde Dean estava com a cabeça, afinal? Eles tinham rompido, portanto, o caçador não tinha qualquer responsabilidade ou obrigação em relação à ela, certo?
Uma parte de Natalie queria acreditar que não fazia o menor sentido Dean ter ido até ali, mas, outra parte estava irracionalmente feliz por ele ter se arriscado por ela.
Enquanto tentava entender e conciliar o que estava sentindo, Natalie ergueu o olhar na direção de Cole Trenton, o encarando com ódio.
O homem, que era jovem, alto, tinha um bom preparo físico, possuía a pele clara, cabelos curtos e traços suaves, observava Dean caído no chão com certa satisfação.
Finalmente, Cole tinha conseguido localizar o homem que matou o seu pai, há doze anos. E agora ele teria a sua almejada vingança.
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