Ascensão Infernal
20 A direção que devemos seguir
Notas iniciais
Era madrugada e vários relâmpagos iluminavam o céu, anunciando que em breve uma forte tempestade começaria a cair em Newberry, na Carolina do Sul, onde Sam e Claire estavam, há cerca de três dias, trabalhando em um caso.
Depois de descobrirem que o responsável por três mortes bizarras ocorridas na região, em menos de duas semanas, era o espírito de um antigo morador do lugar, que teve as circunstâncias de sua morte criminosa e brutal ocultada pela polícia na época, o casal se dirigiu ao cemitério local a fim de salgar e queimar os ossos de Joseph Eaton, lhe dando não justiça, mas descanso e libertação. E evitando assim que ele causasse mais mortes.
No entanto, naquele momento, apenas Sam trabalhava em tal tarefa, já que como Claire havia se sentido muito mal na manhã do dia anterior, o caçador resolveu poupá-la. Na verdade, Sam praticamente impôs isso. E, obviamente, a filha de Bobby não gostou nem um pouco de ser colocada de lado e ter a sua capacidade de lidar com aquela caçada questionada.
Claire sabia que não estava cem por cento bem, mas odiava ser tratada como uma inválida, como o marido havia fazendo na última semana, desde que Mia contou para todos sobre o feitiço que Crowley havia lançado através do exército de demônios.
Enquanto pensava nisso, Claire observava o cemitério pela janela do carro. Em meio à escuridão, ela tentava distinguir a luz da lanterna de Sam ou qualquer sombra ou movimentação que pudesse indicar onde ele estava exatamente. Porém, do lugar onde a Pajero estava estacionada era impossível ver o caçador.
Ele, por sua vez, continuava cavando o túmulo de Joseph Eaton em um ritmo contínuo e rápido, quase raivoso. A cada pá de terra que retirava da sepultura embaixo dos seus pés, Sam tentava engolir a sensação frustrante que o atingiu e se alastrou dentro de si naquela semana. Naquela semana de pesquisas infrutíferas em que nem ele, nem Bobby, nem ninguém no bunker conseguiram encontrar uma forma de quebrar o feitiço que debilitava Claire a cada dia.
Aparentemente, a única forma de parar aquilo era destruindo o exército de demônios de uma vez por todas. Mas, mesmo que eles conseguissem fazer isso, ainda havia o fantasma das possíveis consequências que a dizimação do exército podia trazer para a caçadora.
Em outras palavras, Sam sentia que estava em um beco sem saída. E o pior era que ele tinha que manter a calma perto de Claire, e suportar a dor e a sensação de impotência ao vê-la passando mal cada vez com mais frequência.
De repente, a pá atingiu uma superfície dura e Sam parou de pensar em tudo que o afligia. Então, ele abriu a tampa do caixão, utilizando a pá, e observou o esqueleto embaixo de si por alguns instantes. Por um momento, Sam enxergou Claire ali dentro. Completamente inerte e pálida. Sem vida.
Piscando algumas vezes, o caçador conseguiu afastar tal pensamento. Em seguida, despejou uma boa quantidade de sal e querosene sobre os restos mortais e logo tudo estava crepitando sob o fogo intenso.
Enquanto observava as chamas se extinguirem aos poucos, Sam deu-se conta de que se no final de tudo Claire... Sucumbisse àquela guerra, ela não seria enterrada como Joseph Eaton ou como as pessoas que estavam sepultadas naquele cemitério. Claire era uma caçadora e, portanto, o seu funeral seria como o de uma caçadora deve ser.
Sentindo um arrepio, ao se imaginar acendendo a pira com o corpo dela, Sam engoliu em seco, ajeitou a sua mochila em um ombro e a pá no outro, virou-se e saiu do cemitério com um olhar perdido e passos hesitantes, enquanto pensava em como a vida de Claire poderia ter sido diferente se os dois nunca tivessem se conhecido.
Sam procurou se recompor e afastar aquela onda de pessimismo e culpa que o acometia, quando avistou o carro da esposa. Então, depois de guardar a mochila e a pá no porta-malas, ele entrou no veículo, colocou o cinto de segurança e, sem conseguir olhar para Claire no banco do passageiro, balbuciou:
— Está feito.
Um longo momento de silêncio se seguiu até que foi cortado por um estrondoso trovão. Quase no mesmo instante, a chuva começou a despencar. Forte e barulhenta. Se chocando continuamente com o veículo e escorrendo pelas janelas.
Sentindo-se desconfortável diante do silêncio e da imobilidade de Sam, que permanecia com o olhar fixo em um ponto qualquer daquela rua deserta e sombria, Claire sugeriu:
— Nós devíamos voltar para o hotel e pegar a estrada pela manhã. Não vai ser legal dirigir com essa chuva. E eu ouvi no rádio que está assim em toda região. É melhor passar esta noite por aqui mesmo.
Despertando de mais pensamentos pessimistas, Sam girou a chave na ignição, fazendo o ronco do motor se sobrepor ao da tempestade, e antes de dar partida, assentiu secamente:
— Tudo bem.
Algum tempo depois
Embaixo do chuveiro, Claire mantinha os olhos fechados, enquanto a água quente caía sobre o seu corpo, relaxando cada músculo pouco a pouco, mas sem conseguir dissipar a angústia que ela sentia por dentro, já que Sam estava diferente, distante e até um pouco frio com ela, desde que a causa das suas indisposições foi esclarecida por Mia.
Sam, que havia tomado banho um pouco antes da esposa, estava deitado na cama e com o notebook no colo, quando Claire finalmente saiu do banheiro, vestindo um short e uma camisa xadrez do caçador.
Ela gostava de usar as camisas de Sam para dormir de vez em quando. Além de largas, grandes e, portanto, bem confortáveis, as peças estavam impregnadas com o cheiro característico dele. Um cheiro que Claire não saberia descrever, mas que amava, como amava tudo em Sam.
Ao vê-la caminhando em direção à cama um tanto sem jeito, ele encerrou mais uma pesquisa infrutífera que estava fazendo pela Internet, colocou o notebook sobre o criado-mudo e se recostou melhor na cabeceira.
Enquanto se acomodava no outro lado da cama, Claire questionou:
— Nós reviramos todo o acervo do bunker e não encontramos nada. Você acha mesmo que vai encontrar uma solução para o meu problema nesses sites sobrenaturais duvidosos?
— Eu só estava lendo as últimas notícias. — desconversou o caçador.
— Claro que estava. — murmurou Claire, sem acreditar no que tinha ouvido.
Em seguida, o silêncio se instaurou no quarto, sendo cortado apenas pelo barulho estrondoso da tempestade que continuava caindo lá fora, até que Sam lembrou-se do ocorrido na manhã do dia anterior e teve que perguntar:
— O que você sentiu? Quando... Desmaiou de novo.
Claire engoliu em seco, enquanto estremecia ao relembrar a sensação agoniante de múltiplas agulhas ferroando o seu corpo e sua cabeça incessantemente, até ela perder os sentidos nos braços de Sam.
Incapaz de relatar isso e deixá-lo ainda mais preocupado, a morena decidiu amenizar a situação:
— Eu só fiquei um pouco zonza.
Depois de rir sem humor e soltar um suspiro incrédulo, o caçador contrapôs indignado:
— Claire... Você gritou, se debateu e...
— Schhhh. — ela disse, o interrompendo, se movendo na direção de Sam prontamente e se posicionando em volta do quadril dele.
Instintivamente, o caçador deixou que suas mãos encontrassem a cintura de Claire, as pontas dos seus dedos pressionando levemente o tecido que ocultava aquele corpo macio e convidativo, no qual ele adorava se perder.
Então Sam procurou manter-se calmo, relaxou um pouco, quando a esposa envolveu o seu rosto entre as mãos de um jeito carinhoso, e prestou muita atenção no que ela disse a seguir:
— Não importa o que eu senti ou o que ainda vou sentir. O que importa é que eu estou aqui, Sam. Então... Pare de me tratar como se eu já estivesse morta, porque eu não estou.
Uma ponta de culpa fez o Winchester unir as sobrancelhas, estreitar o seu olhar no de Claire e perceber que ela tinha toda a razão. Era assim que ele vinha a tratando nos últimos dias. E Sam começou a se sentir um idiota ao perceber que tinha a magoado por causa disso. Claire não estava nos seus melhores dias e, ao invés de ficar ao lado dela, ele tinha a afastado. Por medo e culpa.
Sendo assim e disposto a mudar aquela postura, Sam pediu com sinceridade:
— Desculpe.
Em resposta, Claire lhe lançou um discreto sorriso, se aproximou mais e uniu seus lábios aos dele de um jeito afetuoso, fazendo o caçador relaxar mais um pouco.
Em seguida, ela afastou o rosto e anunciou:
— Eu vou te fazer uma pergunta e eu quero que você seja honesto comigo. — assim que o Winchester assentiu brevemente, Claire expôs com cuidado: — Quando tudo isso acabar e eu sobreviver, sim porque eu vou sobreviver... Você não vai me mandar embora como o Dean fez com a Natalie, vai? Eu quero dizer... Por culpa ou algo assim?
Após pensar um pouco e enquanto mantinha seus olhares fixos um no outro, Sam admitiu:
— Eu confesso que isso passou pela minha cabeça nos últimos dias, mas... — depois de soltar a respiração com força, ele continuou: — Eu sou o irmão egoísta, Claire. Então, não. Eu não vou abrir mão de você. Eu não conseguiria.
Sem conseguir conter um novo e nem tão discreto sorriso, a morena ponderou:
— Que bom. Porque, do contrário, só para você saber, nosso divórcio teria que ser litigioso. Eu não iria largar o osso tão fácil.
Inevitavelmente, Sam soltou uma risada baixa. Depois coçou a nuca por um instante e confessou:
— Você me intriga, sabia? Toda essa confiança, calma, otimismo e até senso de humor em um momento como esse.
Ao ouvir aquilo, Claire deu de ombros e se explicou com naturalidade:
— Se eu me desesperar e entregar os pontos, então o Crowley terá vencido. E eu não vou dar esse gostinho para ele. Você devia fazer o mesmo.
— Eu vou tentar. — comprometeu-se o caçador, após um instante avaliando aqueles argumentos e percebendo, mais uma vez, que a esposa estava certa.
Sam ainda pensava nisso, quando Claire voltou a se aproximar, passou os braços em volta do seu pescoço e o beijou calorosamente, lhe roubando o fôlego a cada instante.
Atordoado pelo desejo que se acendia em seu corpo a cada investida da língua e dos lábios de Claire na sua boca, Sam deixou-se levar por algum tempo, segurando com mais força na cintura da esposa e trazendo-a para mais perto do seu corpo.
Porém, quando percebeu que a caçadora tentava, a todo custo, arrancar a camiseta do seu pijama, Sam se desvencilhou do seu beijo e balbuciou com certa dificuldade:
— Claire... O que você está fazendo...? Você não está em condições...
— Schhhh. — ela disse, cobrindo os lábios dele com o dedo indicador e o fitando com um brilho intenso no olhar. — Você fala e pensa demais, Sam Winchester. — criticou, segurando o riso, enquanto se reaproximava de sua boca novamente. — Relaxa. Eu estou aqui. Viva. E você também. Então, por que não? — murmurou entre um selinho e outro, até mergulhar na boca de Sam novamente, com mais paixão e urgência, sem encontrar qualquer resistência desta vez.
Ao invés disso, Sam correspondeu prontamente, abraçou Claire com força contra o seu corpo e logo suas mãos estavam se emaranhando aos cabelos dela, causando arrepios desconcertantes na caçadora toda vez que seus dedos roçavam na nuca dela.
Logo Claire tirou a camiseta de Sam. E logo as mãos dele estavam empenhadas em abrir a camisa que ela vestia.
A tempestade continuava caindo lá fora e o feitiço que Crowley lançou continuava existindo. Mas, naquele momento, só o que importava realmente era que Sam e Claire estavam vivos. Bem vivos.
Dias depois
Sam e Claire já haviam retornado ao bunker e, naquele momento, encontravam-se na sala principal com Dean, Natalie, Bobby e Mia. Todos concentrados em suas respectivas pesquisas sobre os portais do Inferno, com exceção de Mia, que havia encontrado um dossiê muito interessante e lia atentamente cada linha, sentada sobre uma pequena mesa e balançando os pés tranquilamente.
Em dado momento, um farfalhar de asas ecoou pelo lugar e todos, quase ao mesmo tempo, olharam para o centro da sala, onde Castiel havia surgido, segurando um papel ligeiramente amassado em uma das mãos e, no qual, Bobby havia escrito uma lista, de possíveis lugares onde o portal principal do Inferno, aquele que se aberto desencadearia a abertura dos demais, poderia estar localizado.
Mesmo percebendo o olhar desapontado do anjo, Dean arriscou:
— Então, nós já temos um destino para ir?
— Infelizmente, não. — respondeu Castiel, olhando para o amigo.
Após um breve momento de silêncio, durante o qual, todos absorveram aquela sensação frustrante, Sam afirmou resoluto:
— Então nós vamos continuar procurando. Nós ainda temos alguns dias até o tal eclipse acontecer.
— Sam está certo. — apoiou Bobby, um pouco distante do caçador e da filha, que estavam sentados à mesa principal, enquanto ele estava em uma mesa individual, em um dos cantos da sala. — Mãos à obra, idjits.
Imediatamente, todos se voltaram novamente para os livros e dossiês dos Homens das Letras. Exceto Mia, que olhava discretamente para o anjo de sobretudo, com uma sobrancelha levemente arqueada. Mas, assim que Castiel percebeu o seu olhar, a garota fechou a cara, fazendo um bico emburrado, e voltou a ler como se o anjo não estivesse ali.
Pacientemente, Castiel se aproximou, se apoiou na mesa, ficando ao lado de Mia, e questionou:
— Por acaso você ainda está com raiva por eu não ter te levado ao Egito?
Sem olhar para ele, a garota respondeu com sarcasmo:
— Você quer dizer para o lugar que sempre me fascinou, que eu sempre quis conhecer e que eu acho que deve ser simplesmente lindo? Não, nem um pouco.
Após observar o rosto dela de perfil e perceber que Mia respirava de um jeito um tanto acelerado, como alguém que está irritada, mas não quer dar o braço a torcer, Castiel resolveu explicar pela milésima vez e com calma:
— Você sabe que eu não fui até lá a passeio, Mia. Eu fiquei apenas alguns segundos por lá, apenas para me certificar de que não havia nenhuma energia suspeita que indicasse a localização do portal. Se você quer saber, eu mal reparei nas pirâmides, ou na esfinge ou... Na antiga cripta de Tutankamon...
— O quê?! — exclamou a garota, olhando para o anjo com uma mistura de incredulidade e inveja. — Você foi ao Vale dos Reis também?! — antes que ele pudesse responder, Mia fechou a cara de novo, voltou-se para o dossiê em suas mãos e resmungou magoada: — Não fale mais comigo, Bitch.
Castiel pensou em argumentar, mas prevendo que seria em vão e que era melhor dar um tempo para Mia aceitar aquilo por si só, ele permaneceu calado e pegou um dos livros, que estava em uma pilha atrás dela, o abriu e começou a folheá-lo.
De repente, sentindo que estava sendo observado, o anjo ergueu o olhar na direção de Bobby e dos outros e, automaticamente, todos pararam de olhar para ele e Mia naquele canto da sala, disfarçaram como puderam que tinham ouvido a pequena discussão e voltaram a se concentrar em suas respectivas leituras.
Instantes depois, Mia riu um pouco, fazendo o anjo e todos na sala olharem para ela com certa confusão.
— Fascinante! — ela deixou escapar junto com um riso, antes de dar um tapa na própria perna e jogar o corpo um pouco para trás.
Quando Bobby pigarreou para chamar a sua atenção, Mia olhou na direção dele e logo percebeu que todos a encaravam com expressões intrigadas.
Então, Natalie resolveu sondar:
— O que é tão fascinante nos arquivos dos Homens das Letras a ponto de te fazer rir, Mia?
— Alguma coisa engraçada que você queira compartilhar com a gente, coelha? — emendou Dean, estranhando aquela postura, já que pesquisas costumavam ser chatas e maçantes. Pelo menos para ele.
Um pouco constrangida, ela se recompôs, se endireitou sobre a mesa e tentou explicar:
— Não é algo propriamente engraçado, mas algo que me fez lembrar do meu professor de História no ginásio. Que era bem engraçado, diga-se. Ele tinha uma verdadeira adoração por esse assunto e, com certeza, ia amar esse compilado dos Homens das Letras. Se tivesse oportunidade de lê-lo, é claro.
— Que assunto? — indagou Claire, transmitindo o interesse dos demais, que encaravam Mia fixamente.
Depois de engolir em seco e esperando que eles não ficassem muito bravos por ela ter se desviado um pouco da pesquisa inicial, Mia levantou da mesa e, enquanto caminhava pela sala, propôs:
— Tudo bem, eu vou ler alguns trechos e vocês vão me dizer do que isso se trata, okay? — antes que alguém concordasse ou não, ela fixou o olhar na página que tinha lido, há alguns instantes, e leu novamente para todos eles: — No dia 5 de dezembro de 1945, cinco aviões torpedeiros, que formavam o Voo 19, saíram da base aeronaval de Fort Lauderdale, na Flórida, em uma missão de rotina. Uma hora e meia depois, o Tenente Charles G. Taylor, muito nervoso, informou a torre de controle que eles tinham se perdido. Então, a torre deu instruções para que as aeronaves seguissem rumo a oeste, mas a resposta do tenente foi desconcertante. — Mia fez uma pausa e anunciou: — Abram aspas, pessoal. — e logo depois leu: — "Nós não sabemos onde fica o oeste. Tudo é falso e estranho. Não temos certeza de nenhuma direção. Nem mesmo o oceano está como de costume." Fecha aspas. — após pigarrear um pouco, ela continuou a leitura, fazendo certo suspense: — Depois disso, o contato por rádio foi interrompido e um hidroavião foi enviado para socorrer o Voo 19, mas... Também desapareceu do mapa. Corpos e destroços... Nunca foram encontrados. — e olhando para todos na sala, perguntou por fim: — Então, do que eu estou falando?
Quase no mesmo instante, Sam e Claire responderam juntos:
— Triângulo das Bermudas.
Enquanto Mia sorria largamente, confirmando aquilo, Dean e Natalie fitaram Sam e Claire um tanto surpresos, já que ainda estavam processando tudo o que a garota tinha lido. Na sequência, os dois resmungaram juntos e com certo despeito:
— Nerds.
Sam riu um pouco e argumentou:
— Qual é? Todo mundo já ouviu falar do Triângulo das Bermudas alguma vez na vida. O lugar é cercado de mistérios e desaparecimentos inexplicáveis. Muitas coisas parecem histórias de pescador, mas outras... Sei lá. O lugar é estranho.
— Bota estranho nisso. — ratificou Claire, e em seguida completou: — Entre 1945 e 1975, dezenas de aviões, embarcações e até um submarino atômico sumiram na região sem explicação aparente.
Dean e Natalie se entreolharam, depois abriram a boca e colocaram o dedo indicador dentro, fazendo uma careta e revirando os olhos, como se fossem vomitar a qualquer momento.
Logo depois, a loira olhou o marido de soslaio e perguntou com deboche:
— Como esses dois se aguentam, hein?
— Eu não tenho ideia, Baby. Acho que é um mistério maior do que o Triângulo das Bermudas. — respondeu Dean, antes de olhar para o irmão e para a cunhada, e articular um pouco ofendido: — Por falar nisso, é claro que eu e a Naty já tínhamos ouvido falar desse lugar. — em seguida, frisou algo que Sam havia dito antes: — Todo mundo já ouviu falar do Triângulo das Bermudas alguma vez na vida.
Veladamente, Natalie criticou a amiga e Sam dizendo:
— A única diferença é que nós não decoramos dados e informações desnecessárias só para mostrarmos o quão inteligentes somos. Eu e o Sr. Awesome temos coisas mais importantes para fazer com as nossas efêmeras vidas.
— Jura? O que, por exemplo? — desafiou Claire e, em seguida, arqueou as sobrancelhas e arriscou: — Se agarrarem embaixo das mesas do bunker?
Extremamente surpresos e constrangidos, já que aparentemente tinham sido flagrados em algum momento por Claire, Dean e Natalie trocaram um olhar cúmplice, enquanto Sam ria dos dois.
Mia, por sua vez, arregalou os olhos, deu as costas para aquela cena e murmurou baixinho:
— E depois eu que sou a coelha da história.
Logo ela parou de pensar nisso, já que notou que Castiel e Bobby se olhavam mutuamente, completamente alheios ao assunto constrangedor que Claire havia jogado na cara de Dean e Natalie, que tentavam, a todo custo, contornar.
Bobby e Castiel se entreolhavam como se estivessem pensando a mesma coisa, como se estivessem chegando à uma mesma conclusão, como se tivessem entendido algo que as demais pessoas ali não tinham compreendido ainda.
Intrigada, Mia deu alguns passos, parando entre os dois, e questionou:
— Certo, o que que está pegando?
Com uma expressão iluminada, o que comprovava a teoria de que ele havia percebido algo importante naquela história, Bobby se levantou, aproximou-se da garota, lhe deu um beijo estalado na testa, segurou em seus ombros e elogiou:
— Mia, você é uma gênia!
Tal cena chamou a atenção de Sam, Dean e suas esposas, que olharam naquela direção automaticamente e com certa confusão.
Mia, por sua vez, ficou um tanto sem graça, mas profundamente lisonjeada com a atitude de Bobby, mesmo que não tivesse entendido por que ele disse aquilo.
Então, sorrindo largamente, a garota deu um leve soco no ombro do velho caçador e agradeceu:
— Valeu! São seus olhos, Sr. Singer.
Percebendo que apenas Castiel tinha entendido o X da questão, Bobby resolveu explicar:
— Mia, a ciência já provou que o Triângulo das Bermudas possui poderosos campos eletromagnéticos. O clima por lá é mais instável e maluco do que em qualquer outro lugar do planeta. A ocorrência de redemoinhos, ondas gigantes e a incidência de raios é absurda. Há relatos de luzes misteriosas também, tanto no céu como no oceano. Alguns teóricos afirmam até que o lugar é o centro de uma distorção espaço-temporal.
Enquanto Sam e Claire compreendiam imediatamente aonde Bobby queria chegar com aquele discurso, Mia sorriu novamente, deu mais um soco no ombro dele e brincou:
— Então o senhor faz parte do time nerd também, não é? — e depois de revirar os olhos, completou: — Como se ninguém soubesse disso...
Olhando rapidamente para o anjo atrás da garota, Bobby pediu veladamente:
— Cas.
Prontamente, Mia voltou-se na direção do anjo e, embora ainda estivesse com raiva por ele ter ido ao Egito sozinho, ela o ouviu atentamente:
— Muitos historiadores acreditam que o Triângulo das Bermudas se abre para outros mundos. Inclusive, alguns o chamavam de Triângulo do Diabo. Então, se tem um lugar onde o portal principal para o Inferno deve estar, é lá. Esse é o nosso destino. A direção que devemos seguir.
— Oh, oh! Espera aí! — exclamou Dean, enquanto se aproximava do trio, seguido por Natalie, Sam e Claire. Todos assimilando aquela possibilidade. — Como assim é o nosso destino? Você quer dizer que para arruinar os planos do Crowley e salvar o mundo de novo, nós vamos ter que ir para o Triângulo das Bermudas? É lá que fica o portal?
— Aparentemente, sim. — assentiu Castiel com sua tranquilidade angelical que, às vezes, irritava um pouco o Winchester mais velho.
— Eu vou fazer as minhas malas! — anunciou Mia, visivelmente empolgada, antes de sair em disparada em direção à escada para o andar superior.
— Aparentemente? — repetiu Sam, encarando o anjo, assim que a garota sumiu do alcance de visão de todos eles.
— Eu terei que ir até lá primeiro, é claro. — explicou Castiel. — O Triângulo possui várias ilhas, o portal deve ficar em uma delas e eu preciso descobrir em qual, antes de nós irmos todos juntos.
Sam abriu a boca para perguntar mais alguma coisa, no entanto, antes que ele pudesse fazer isso, Dean questionou um tanto aflito:
— Supondo que o portal fique mesmo no Triângulo das Bermudas, como que nós vamos chegar até... Lá?
Todos se entreolharam, como se a resposta fosse óbvia, o que deixou Dean ainda mais aflito. Visivelmente assustado e tenso.
— Eu não preciso lembrá-los que eu tenho uma certa... Antipatia por aviões, preciso? — indagou com a garganta estranhamente seca. — E que seria loucura, e até maldade... Uma tremenda maldade me obrigar a pegar um avião para ir a um lugar onde aviões costumam desaparecer sem deixar rastros, certo?
Compadecida, Natalie tocou o ombro de Dean com cuidado e disse calmamente:
— Vai ficar tudo bem, Sr. Awesome. Você pode segurar a minha mão, se ficar com medo. Ou eu posso sussurrar Metallica no seu ouvido, até você se acalmar.
— Eu não sei se será o suficiente, Baby. — retorquiu ele, tentando não entrar em pânico e não demonstrar ainda mais a sua fobia.
Depois de fazer um sinal para que os outros retomassem a conversa, Natalie segurou no braço de Dean e praticamente o arrastou para um canto afastado da sala. Em seguida, ela soltou o braço dele e anunciou:
— Nós podemos tentar outra coisa então.
— O quê...? — gaguejou Dean, tentando controlar a sua respiração desritmada.
Depois de cruzar os braços contra o peito, percorrer o corpo dele com um olhar sugestivo, enquanto mordia o lábio inferior e sorria levemente, Natalie se aproximou do caçador e sussurrou algo no ouvido dele.
Algo que fez Dean arregalar os olhos até o limite e a tensão se dissipar automaticamente do seu rosto, dando lugar a outra coisa.
Então, depois que Natalie recuou um pouco, ele a mediu da cabeça aos pés com um interesse palpável e, definitivamente, libertino, e anunciou empolgado:
— Eu vou fazer a minha mala, Baby!
Natalie sorriu e o seguiu com o olhar, quando Dean correu em direção à escada.
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