Sieghart olhou ao redor, a cena de destruição estava instalada na sala, mas ele permanecia inabalável em seu lugar, indiferente a falta de criaturas ao seu redor.

Ele existia, reinava e vivia. O moreno era o vencedor de inúmeras maneiras, mesmo atiçando o monstro que vivia dentro de si ou infringindo diversas das regras que se auto instituíra, mas nada mais importava.

Ele, simplesmente, deixou com que sua espada escorresse por seus dedos e encontrasse o chão, em um retinir metálico e rude, continuando seus passos em direção à escadaria e parou frente aos seus degraus, analisando-os.

O longo caminho se erguia parecendo enfrentar a sua presença, a sua soberania, e tudo o que ele fez foi erguer os ombros de maneira altiva, avançando seus passos de maneira nobre.

Seu corpo estava fervente, suas chamas negras o vestiam como uma segunda pele, uma armadura forjada em seu nascimento. Lambiam o chão com uma voracidade sem igual, enegrecendo o mármore elegante das escadarias amplas.

Sieghart, agora, dominava.

Abaixou-se frente ao corpo caído de seu adversário, notando a falta da respiração e movimentos, mas aquilo não o incomodou, muito pelo contrário, o fez abrir um longo sorriso, mostrando todos os dentes, mas repleto de escárnio. E, depois de analisa-lo, apenas tomou sua máscara, chutando o cadáver escadaria abaixo.

Ele era o soberano, mais ninguém. Não agora que finalmente atingiu seu objetivo. Que percebeu que lutar contra a natureza era burrice. Por que lutar contra um poder latente que só lhe trouxe glória?

Encarou a superfície branca com poucos detalhes em um dourado delicado. O barulho do corpo atingindo o chão finalmente soou em seus ouvidos e ele, meramente, virou os olhos, fitando a pose desconfortável do morto e, ao seu lado, a highlander.

A temível espada lendária que, agora, não lhe era mais útil em nada.

Ele achava que esse dia nunca chegaria. Um dia em que até mesmo sua aliada lhe era inútil. Que a sua grandeza superaria até mesmo a arte pródiga das Deusas Criadoras. Mas ele estava enganado. Aparentemente era muito melhor que qualquer outro.

E com seu sorriso ainda no rosto, vestiu a máscara, deixando com que ela tampasse do meio de sua testa até abaixo de suas maçãs do rosto. O maior tesouro do maior dos Deuses lhe pertencia agora.

Ele era Sieghart, não só o imortal, mas também o destruidor de Thanatos.

Aquele fato gerou uma risada maníaca, que brotava de seu âmago e subia por sua garganta, em um sentimento tão único que seus pelos se ouriçavam ante a sensação. Quando se acalmou, tocou a máscara em seu rosto com a ponta dos dedos, escorrendo-os pela superfície fria.

Ele seria um Deus melhor que qualquer outro! Ele sabia das necessidades dos mortais, ele compreendia seus sentimentos. E o melhor de tudo? Ele não se importava em nada. Destruiria toda a esperança da humanidade sem pensar duas vezes. Sentenciara-os a passar por perdas tão grandes quando ele próprio, para poder criar seres tão grandiosos quanto.

Riu outra vez, ouvindo sua voz ressoar entre as colunas altas. Nada ali o acompanhava, senão suas chamas e sua insanidade. Nada até o ruído baixo dos passos, causando a súbita pausa em sua gargalhada. Sim, lá estava a outra pessoa que se ofereceu para ajuda-lo.

Parou para se perguntar, então, em que ele teria lhe ajudado, sendo que, sozinho, havia derrotado o grandioso Deus. A silhueta caminhou, parando alguns passos distantes do cadáver, seus olhos caídos sobre a espada deixada no chão de qualquer maneira.

-Sieghart? — Ele chamou, erguendo finalmente o olhar, era como se tentasse enfrentar tudo o que o moreno representava no momento. Por algum motivo estava tentando ocultar toda a dúvida que sentia sobre a situação em si. — O que está fazendo?

O outro riu, virando-se para descer as escadas. As chamas ao seu redor oscilavam conforme seus passos, as sombras bruxuleantes das colunas deixam aquele local com um aspecto assustador. Intimidante.

Por mais que os olhos pratas, por trás da máscara elegante, estivesse o assombrando muito mais. Notando que o outro não parava de avançar, o arcano não pode deixar de recuar um passo, instintivamente.

Sim, Ronan estava assustado. O imortal estava muito diferente do habitual, suas ações não condiziam ao que estava acostumado e o afronto que mantinha parecia enxergar sua alma. Ele ergueu o gládio. — Responda, imortal! — Clamou.

Sieghart interrompeu seus passos no meio da escadaria. -O que estou fazendo? — Ele soltou uma gargalhada. — Estou tomando meu lugar por direito. — Seu tom passou, então, para um monocórdico terrífico, voltando a descer os degraus. — Estou tomando meu lugar como Deus.

Subitamente ele compreendeu o que houvera com o avatar. Estava enlouquecido com o poder e sem a highlander para filtrar toda essa "escuridão" que a fúria gerava em si. — Recue ou terei que abatê-lo! — Bradou, mantendo a voz firme apesar do medo correr em suas veias.

Ele apenas riu. — Abater-me? — Finalmente seus pés tocaram o piso inferior, ele agora se encontrava a, pequenos, cinco passos. — Quem é você, um mero arcano, para abater um Deus em ascensão? — Ronan não respondeu. Ele não tinha certeza se poderia abater Sieghart. Para falar bem a verdade, desconfiava se não seria morto em um toque. Ele estava inconstante e furioso, temível. Apertou a empunhadura do gládio, apontando-o para o peito do imortal. — Abaixe isso, criança.

-Sieghart, por favor, recobre seu senso. — Ele apelou, sem se mover. O moreno empurrou o gládio, por mais que o arcano ainda fizesse força, e isso feriu sua mão, fazendo uma longa trilha de sangue escorrer por seu braço e pela arma azulada. — Eu não posso recuar. Não com você dessa maneira. — Pausou. — Deveria ter me esperado para enfrentar Thanatos.

O moreno fechou o punho ao redor da lâmina, parecendo que a dor não o afligia, e avançou na direção do arcano, deixando com que os olhos pratas invadissem toda a defesa que ele fizera ao redor de seu medo. Ronan afastou-se. — Eu estou perfeito em meu senso. — Sua voz tinha uma pitada de sátira por cima das palavras. — E se você não recuar o farei como um exemplo, para os outros mortais, de jamais enfrentar seu Deus.

O azulado não respondeu, os músculos de seu braço espasmavam e ele se viu, pela primeira vez em muito tempo, completamente dominado pelo medo.

-Solte o gládio, criança. — Ele voltou a mandar, Ronan não teve outra opção se não fazê-lo. O imortal atirou a arma longe e analisou sua mão em regeneração acelerada, fechando o machucado, logo depois voltou seus olhos para o arcano. — Muito melhor quando me obedece, não acha? — Novamente sem resposta. Aquilo não pareceu incomodar o mais velho. — Agora vá embora, não tenho tempo para gastar com mortais como você.

Ele virou-se de costas, planejando voltar para seu trono ao topo das escadarias, tomar o lugar que agora ele dizia seu. — Sabe. — A curta sentença o fez parar de avançar, mas não virar-se para fitar quem a pronunciou. — Sempre me disseram que ou se morre como herói, ou vive-se o bastante para se tornar o vilão. — A contestação fez o imortal rir, mas o arcano não abalou-se. Não dessa vez. — Foi um erro você não ter padecido em seu tempo, Sieghart.

Ele virou-se raivoso. Chamas escapavam pelo olho esquerdo da máscara, mas Ronan já tinha certeza que sua sentença estava escrita. Ele ergueu os ombros para enfrentar seu novo Deus, mesmo sabendo que estaria morto depois. Ergueu levemente o queixo, mantendo uma postura altiva, típica de sua honra.

-Não tem medo de enfrentar um Deus, criança? — Seu tom era gutural, amedrontador.

-Não se o Deus em questão é você. — Assumiu, por mais que não fosse, em todo, verdade. O moreno avançou contra ele, enfiando sua mão através do tórax do arcano. Este cuspiu sangue. — Você é um péssimo Deus, Sieghart.

Ele empurrou o corpo do antigo parceiro de equipe para o chão, deixando-o agonizar em sua própria poça de sangue. O que ele queria dizer com aquelas palavras? Qual era o significado para tanta incongruência em seus pensamentos? Ainda voltou seus olhos para o arcano, caído, em um último ato de compaixão. Mas tudo o que encontrou foi um sorriso de escárnio.

-Eu tenho... — Tossiu mais um pouco de sangue, praticamente sem vida. — Pena de você, imortal.

Sieghart sentiu ódio. Um ódio tamanho que não poderia ser calculado. As chamas espalharam-se pelo local conforme o mais velho urrava de raiva. Não havia o que fazer. Não tinha como mandá-lo engolir suas palavras. Ronan estava morto. E morrer era somente uma tranquilidade, uma facilidade, não mais que isso.

Não havia mais, naquela sala, um arcano caído, ou uma espada e um gládio desprezados, ou até mesmo um Deus caído. Não havia mais, nem mesmo, um Sieghart.

As chamas arroxeadas destruíam tudo, conforme as palavras ainda vagavam na sua mente de maneira incólume, conforme a imagem do que um dia fora a perfeição para a batalha se esvaía em suas prórpias labaredas.

"Ou se morre como herói, ou vive-se o bastante para se tornar o vilão", as palavras ainda judiavam, quase obcenas para sua mente.

E, daquele local de Xênia, que um dia representou o maior dos perigos dentre os Deuses, nada além de cinzas e mármore queimado restou, se não a espada encravada no chão, à espera de seu próximo highlander. Imodesta em sua grandiosidade.

E pronta para a loucura do próximo que viria a ser o imortal daquela era.

Notas finais
Hã, espero que gostem ♥
Qualquer erro, desculpem. Eu acabei escrevendo sem um revisor de texto então é... Tudo é possível.
Enfim, reviews? ♥
Beijos, Teffy~
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!