Asas De Sangue

2 Capítulo um: O poder de um toque


Eu ergui meus olhos assustada. Estava perdida em meus próprios devaneios, completamente avulsa de onde me encontrava. Um segundo antes, estava em uma festa fantástica, dentro de um salão luxuoso e nobre que se encontrava em minha mansão imaginária. Eu estava linda. Com um vestido rosa pastel de cetim, que meses antes eu vira o esboço do vestido feito por um estilista famoso na televisão. Agora o vestido que antes estava inacabado em um desenho, modelava justamente minhas curvas graciosas e se alargava em meus quadris, caindo em pregas suaves, até a altura dos joelhos.

Todos os olhos se encontravam em mim, enquanto caminhava elegantemente em um tapete vermelho, colocado no meio do salão. Alguns olhos me olhavam maravilhados, outros com inveja, e a maior parte com fascínio. Eu sorri. Meus lábios cor de rosa eram como um convite sedutor, uma intimação para que se aproximassem.

Um garoto alto e de ombros largos, me encarava fixamente.

--- Que tal darmos uma volta lá fora? – O garoto alto e de olhos verdes, propôs segurando-me pelo pulso coberto com uma luva de cetim. Ele deu um sorriso de canto de boca, tentando me seduzir. Seus olhos verdes estavam pousados em meu decote em V.

Arqueei as sobrancelhas, observando enquanto o garoto umedecer os lábios e continuava a encarar fixamente o meu decote. Deslizei suavemente os dedos pelos meus pulsos, arrancando as luvas de cetim que iam até os cotovelos. Atirei-as no rosto do garoto, que surpreso deu um passo pra trás, deixando que as luvas caíssem suavemente no solo do tapete. O garoto me olhou incrédulo, como se não acreditasse que eu acabara de recusar seu convite.

Novamente eu sorri, um sorriso sedutoramente triunfante, e direcionei meu olhar para a porta gigantesca de bronze no exato momento em que a campainha soara. Meu sorriso se multiplicou e meu coração deu uma batida irregular. Eu já sabia quem era.

O meu sonho se dissipara assim que Mabi, — minha melhor amiga e prima – me dera um chute por debaixo da mesa, bem no meio da canela.

Eu ergui os olhos assustada. Procurei debilmente por algum vestígio da festa, do meu vestido deslumbrante, ou até mesmo do lindo garoto de olhos verdes que eu ignorara.Mas infelizmente tinha sido apenas um sonho longe de se tornar real. Por que a realidade era que eu estava sentada em uma mesa amarela plástica, junto á outras nove pessoas, em um almoço tradicional de domingo, no botequim do meu pai.

Mabi me deu outro chute na canela. Me abaixei e cocei minha canela, lançando um olhar furioso para a garota loura de olhos verdes. Mabi revirou os olhos e gesticulou com a ponta do queixo na direção do meu pai.

Uni o cenho sem entender absolutamente nada. Olhei para meu pai, no ponto oposto da mesa, com um copo de cerveja entre os dedos, paralisado no ar. Os olhos castanho-claros de Maurício, pareciam querer saltar pra fora das órbitas. Ele estava pálido.

--- Isso é ridículo!- Maurício protestou. Levantou o braço e passou os dedos trêmulos pela calvície avançada no topo da cabeça. – Quer dizer, isso não é possível, é?

Ele riu de nervoso. Seus olhos arregalados se direcionaram a Marília e seu marido Clayton, sentados á frente de Maurício. Eu os observei confusa. Marília e Clayton mantinham uma expressão pacifica e impaciente, contrária a expressão incrédula de meu pai. Eles pareciam entediados, como se estivessem explicando a mesma coisa dez vezes.

--- É difícil de acreditar. – Disse Clayton em uma voz distante e grossa. Ele fez uma pausa serena, passando o braço ao redor da cadeira, onde sua mulher estava sentada. – Mas é a mais pura verdade. O garoto está vivo.

Pisquei os olhos aturdida. Do que eles estavam falando? Quem estava vivo?Porque Mabi chamara minha atenção? Olhei para a minha prima e ergui as sobrancelhas dizendo á ela com os olhos, que não estava entendendo absolutamente nada. Mabi revirou os olhos e gesticulou novamente na direção do meu pai, para que eu continuasse prestando atenção. Suspirei fundo. Em outra ocasião, eu simplesmente puxaria Mabi pelos ombros e a faria sussurrar em meu ouvido. Mas não hoje. Por que a minha avó estava entre nós duas, atrapalhando qualquer método que nós pudéssemos tentar para nos comunicarem melhor.

O som das sandálias de couro de Walquíria preencheu o silêncio das palavras de Clayton. Ela surgiu de dentro do botequim, equilibrando uma bandeja de prata com o nosso almoço, caminhando graciosamente até nós. No seu rosto, uma expressão lívida.

--- Eu também não acreditei quando me disseram isso, tio Maurício. – Disse Walquíria com a voz estridente, para a surpresa de todos que estavam á mesa. Exceto eu, que estava mais perdida do que cego em tiro ao alvo. – Mas é a verdade. Você sabe, eu moro perto da casa deles. Eu o vi. – Walquíria fez uma pausa, para dar um tapa na mão nervosa de sua irmã que tentara beliscar um pedaço do frango. Mabi lhe mostrou uma careta, em resposta ao tapa. – E não só eu. Todos viram Cadú de Ocinatas em diferentes lugares. – Ela fez uma pausa enquanto passava os dedos dentro do seu copo de suco, e os levou aos lábios lambendo-os. Ela estreitou os olhos castanhos na minha direção. Estremeci – O irmão do Jatobá.

O meu coração disparou. Senti uma pequena vertigem e vi a cadeira amarela de plástico, oscilar com o peso do meu corpo. Pestanejei me restabelecendo no lugar. Vi os olhares de minhas três primas á mesa – Walquíria, Mabi e Suzana -, se focarem em mim.

Suzana mordeu o lábio inferior com força.Eu raspei o fundo da garganta buscando forças pra falar.

--- Vicktor? – Minha voz era um sussurro quase inaudível.Praguejei-me mentalmente por isso, e tentei fazer com que parecesse casual. Claro que não funcionou- Vicktor de Ocinatas?

Ninguém sequer prestara atenção em mim. O meu pai parecia ter entrado em um transe de choque. Seus olhos castanho-claros brilhavam desfocados. Até mesmo a minha avó , calada e quieta ao meu lado, parecia ter entrado em um devaneio profundo . Para a preocupação da minha mãe, e de Suzana minha prima.

Mas, mesmo sem me fitar, — como de costume — e com os olhos fixos em seu próprio prato de comida, Walquíria assentiu para mim, confirmando.

Provavelmente era por esse motivo que Mabi me chutara por debaixo da mesa. Ela queria que eu prestasse atenção no que estava acontecendo, e claro, acima de tudo por que envolvia Vicktor. Todos sabiam que eu odiava que o chamassem de Jatobá, mesmo que o próprio Vicktor, adorasse o apelido feito com o sobrenome de sua mãe. Mas, da mesma forma as minhas primas achavam que eu gostava intensamente do garoto de cabelos negros e sorriso de menino, que me beijara há bastante tempo atrás – claro que não gostava, é obvio. Mesmo que eu negasse qualquer indicio que comprovasse isso. Só que elas diziam que estava estampado em meus olhos negros, o brilho diferente que surgia toda vez que o nome dele saía dos lábios de algumas delas, e também em todos os meus sussurros noturnos, sempre que eu chamava o nome dele durante o sono. Blasfêmia.

Devia estar translúcido agora, enquanto eu praguejava a cor da minha pele, por ser tão branca e corar com tamanha facilidade. Mas, eu agradecia por ninguém estar prestando atenção em mim, nem mesmo Mabi, que estava ocupada demais brigando novamente com a irmã, por um pedaço do frango. O assunto parecia ser a coisa mais normal do mundo para ambas, que não esboçavam qualquer reação de choque ou incredulidade. Daria no mesmo se lhe dissessem que um cachorro estava com pulgas. Até mesmo o pai delas Wallace, se mostrava indiferente no assunto, mais interessado na cerveja brilhando contra a luz do sol em seu copo.

Pensei por um segundo, que meu coração fosse explodir de tão forte que batia. Eu esqueci completamente dos meus devaneios fúteis, relacionados a festas e vestidos caros. Agora eu ansiava por uma coisa: Vicktor. Eu estava me xingando mentalmente, por ter perdido toda a conversa, enquanto me prendia a coisas sem importância. Queria saber tudo. Como Cadú de Ocinatas – que eu nem sabia que estava morto – havia revivido, quando isso acontecera e principalmente como estava Vicktor. E como todos pareciam perdidos em suas próprias cabeças, eu mesma tomei a iniciativa de perguntar a Clayton.

--- Como Cadú pode ter revivido? Talvez ele nem estivesse morto afinal de contas. – Dei de ombros, fingindo não me importar, mesmo que a preocupação estivesse explicita em minha voz.

Todo mundo da mesa, voltou á encarar Clayton com interesses óbvios.

--- Acredite, ele realmente estava morto. – Clayton parecia sereno, passando os dedos pelo cabelo grisalho. Sua esposa baixou os olhos para o seu vestido florido e surrado. – Cadú morreu afogado, enquanto participava de um campeonato de natação. Todo mundo da equipe de natação o viu morto. O corpo dele foi levado para o IML. Ele realmente estava morto. Só que algumas semanas depois, todos o viram vivo. Claro que acharam que fosse o irmão dele, ou alguém muito parecido. Mas era ele. Acredite. – Clayton deu de ombros, acariciando a barba crespa e branca, sobre a pele negra. – Há quem acredite que o Senhor Ocinatas seja santo. Antes, muitas pessoas iam até ele para pedir-lhe uma espécie de benção. E todos saíam satisfeitos, já que em questão de semanas todos alcançavam seus objetivos. Não é a primeira vez que alguém revive, acredite. Disseram-nos que já presenciaram uma criança reviver através de um toque do Senhor Ocinatas. Como a cidade que eles moram é muito pequena, é só uma questão de tempo para que apareçam centenas de pessoas carregando cadáveres e pedindo para que ele os faça reviver. Por enquanto a história ainda está abafada, mas não por muito tempo, creio eu.

O meu pai estava boquiaberto. Sua boca se abrira em espanto formando um O. Eu vira pelo canto dos olhos, minha mãe e minha prima Suzana, se inclinarem para frente, hesitantes, com os olhos preocupados voltados para minha avó. Mabi olhou pra mim por alguns segundos e depois desviou, cochichando alguma coisa no ouvido da irmã. O casal velho de negros, Clayton e Marília, trocaram um olhar silencioso, como se estivessem conversando.

Segundos depois, eu escutei um ruído baixo. Virei-me e vi a minha avó chorando desesperadamente. Os seus lábios enrugados tremiam, assim como suas mãos pressionadas contra o rosto. Suzana saltou da cadeira rapidamente, abraçando a avó com força sussurrando alguma coisa em seu ouvido. Lágrimas escorriam pelos olhos da minha mãe, que estava preocupada e afligida. Mabi e Walquíria abandonaram os pratos de comida e se ergueram em direção a avó, preocupadas. Seguidas por Wallace e Maurício. Só eu permaneci imóvel em meu lugar. Apenas segurando com força a ponta do vestido da minha avó, sem entender porque ela estava chorando assim. Eu me sentia presa a cadeira, incapaz de me mover.

--- Eu quero vê-lo. – Balbuciou Solange, com a voz estrangulada em meio as lágrimas desesperadas, e as mãos pressionadas contra o rosto. – Ele pode...ele pode,João...

E então eu soube o motivo do choro desesperado da minha avó. Minha avó estava criando esperanças de que ele – Seja lá o quê, Ocinatas — pudesse fazer com que seu filho João, que morrera a dois meses de um acidente de carro, pudesse voltar. Suzana a abraçou com mais força.

Era exatamente isso, que minha mãe estava temendo.

--- Precisamos vê-lo. – A minha mãe anunciou, com uma voz tensa e cheia de aflição.

Cabeças se ergueram em sua direção, assustadas. Suzana beijou a cabeça de sua avó, como se dissesse que não a abandonaria. Maurício trocou um olhar preocupado, com a esposa. Mas, Elena estava segura. E em circunstância alguma, abandonaria a mãe.

O me coração bateu com mais força.