As quatro estações do amor
4 Outono
Notas iniciais
Ele odiava o outono. Simplesmente porque precedia o inverno. Porque o tempo começava a ficar mais frio. E ele odiava o frio. Ela sabia disso. E exatamente por isso ela tentava ajeitar a coberta em volta dele. Para esquentá-lo enquanto ele dormia.
Ele estava encolhido entre as cobertas do chalé onde eles passariam o primeiro fim de semana de outono do namoro deles. Vez ou outra espirrava e tremia um pouco. Ela beijou a testa dele e tentou se levantar, mas a mão dele saiu debaixo da coberta e segurou seu braço: “Fica aqui comigo” e sem responder nada, Ravena se enfiou debaixo das cobertas com ele. O viu sorrir. Sentiu os braços dele a envolvendo. Sentiu a cabeça dele se aninhar em seu pescoço.
E ali ficou.
Os dedos dele escorregaram por entre os dedos dela. E ficaram assim. De mãos dadas.
Ela estava sem sono, porque mil pensamentos invadiam sua cabeça. Porque ele sempre era tão delicado com ela? Ela não merecia. Pelo menos acreditava que não.
“Eu te amo Ravena”
“Eu também te amo Gar”
“Muito”
“Mais do que eu podia imaginar”
Era amor. Ela sabia. Ele a fizera descobrir. Do jeito mais insolente, mais irritante, mais inesperado. Ela não sabe quando aconteceu, só sabe que de repente não podia mais imaginar sua vida sem ele.
Ele a confortava. Ele a fazia rir. Ele a fazia feliz, estranhamente feliz.
Naquele instante, que não saberia dizer se foram segundos, minutos ou horas, a história dele passou em sua frente, como em um filme.
Todas as vezes que ele se preocupou. Que ele se arriscou por ela. Para tentar fazê-la rir. Todas as vezes que ele atrapalhou sua leitura, sua meditação, sua calma, seu mantra, seu sono… ah como ele atrapalhou…
Ela não sabe dizer quando aconteceu.
Ela não sabe explicar porque aconteceu.
O primeiro beijo. Atrevido, como sempre, no meio de uma discussão “se vai me mandar para outra dimensão, que valha a pena” foi o que ele disse antes de puxá-la para o primeiro beijo deles. E ela, sem ação, apenas retribuiu. E retribuiu. E retribui até hoje.
E como ela gosta de beijar ele. Ele pode ser muito atrapalhado com muitas coisas (muitas coisas!), mas com isso não. Ela não sabe dizer se ela gosta mais do beijo em si, ou do olhar dele, ou das provocações que ele faz no meio do beijo. Ela só sabe que gosta muito.
Nunca imaginou que poderia ser amada. E ele sempre prova que ela está errada. Ele a ama por completo. Todos os seus “eus”, até os que ela mesma não ama. E ele sempre a elogia, sempre.
E sempre perde tudo também. Ela é tão organizada e metódica. E ele tão desastrado, distraído, inconveniente. Tudo que ele tocava, quebrava, sumia… incrivelmente, como mágica. Mas ele olhava com aquela cara de cachorro sem dono “Eu juro que coloquei aqui” e coçava a cabeça sem graça. Ela adorava quando ele fazia isso.
Então ela o beijava.
Simples assim.
Ele a deixava mais simples. Mais espontânea. Mais livre.
Ela tinha a sensação que eles estavam juntos por toda a eternidade, mesmo fazendo poucos meses. Era inexplicável.
Ele tremia de frio e ela se virou para ele, abraçando-o e aninhando-o em seu colo. Pôde vê-lo sorrir “você é tão quentinha, Rae-Rae, minha Rae-Rae”. Ela adorava ser dele.
Era tudo tão novo. Tão estranho. Tão deliciosamente perigoso. O único medo dela, desde então, era perdê-lo. Perder aquele que a motivava a viver. O fato era que ele tinha o dom de tirá-la de seu centro e ela amava isso.
Fez um carinho terno nos cabelos dele. Ele era tão maravilhoso para ela. E o melhor é que ela sentia que podia falar tudo para ele… ela sabia que poderia se entregar.
“Eu odeio você” ela disse, duramente, durante uma discussão.
“Que bom… assim posso te conquistar de novo… e de novo… e de novo”
E toda reconquista era melhor. E toda reconciliação era mais intensa. Ela sabia que ás vezes dizia isso a ele, só para ouvi-lo dizer que a reconquistaria. Ela se sentia especial.
Ele queria mostrar a ela todas as belezas do mundo. Ele queria fazê-la bem verdadeiramente. E ela permitia. E ela gostava de fazer parte do mundo doido e desorganizado dele.
No final das contas, ela tinha certeza que eles se completavam. Ele a levava aos céus enquanto ela o puxava para a terra. E os dias deles seguiam assim. Ele fantasiando o universo e ela pragmaticamente puxando-o para a realidade.
Eles se completavam.
Ela gostava de ver o corpo deles juntos. A sua pele acinzentada contra a pele verde dele. Ela achava que combinava. E quem não acharia?
Ele espirrou e reclamou. Ela sorriu e o afagou. Lembrou-se de como ele reclamou de ela ter reservado um fim de semana em um chalé próximo ao Canadá. “Porque você quer me congelar?”, “Você é a rainha do gelo, não eu…”, “Se eu morrer de frio você será a culpada…”. Como ele era dramático…
Sem ele perceber, conseguiu se levantar e preparou chocolate quente pros dois. Então o acordou calmamente e lhe ofereceu a bebida aquecida, recebendo em troca um sorriso sincero e uma fungada de nariz.
“Você é a mulher da minha vida Rae…”
Ela se sentou ao lado dele na cama imensa, debaixo das cobertas. Sentia-se ele gelado. Mas, mesmo sabendo que ele odiava aquele clima, aquele lugar… ele estava lá, ao lado dela… tomando chocolate quente, enchendo seu saco, reclamando e rindo…
“Olha como minhas mãos estão geladas”
E ela entendeu o recado dos olhos desejosos dele. E assim começou a beijá-lo. Delicadamente. E sorriu entre os beijos. E sentiu as mãos frias dele arrepiando-a nas costas. E ele a jogou na cama.
“Agora você vai ter que me esquentar”
E assim começava uma noite de amor.
Mais uma.
De muitas que já haviam tido.
Mais uma.
Dentre tantas que eles ainda teriam.
Nenhum dos dois sabia quando virou amor.
Só sabiam que eles se completavam.
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