Notas iniciais
Hello, again! Coloquei o link de algumas imagens de como imagino os personagens durante o capítulo, mas estão livres para usarem a imaginação.

Encarei bem a figura estabanada no meu sofá, parecia dormir como se não tivesse tido a chance nas últimas três semanas. Como ele se encontrava sem camisa, ficou impossível não analisar seu físico, e bem, nada mal! Em comparação, parecia que não fazia a barba ou cortava os cabelos negros desde o nascimento. Coloquei rapidamente meu celular no carregador e voltei a encará-lo. Não! Nada. Não conseguia me lembrar de absolutamente nada da noite anterior.

A última coisa que consegui me lembrar foi de mandar uma mensagem para Gus, dizendo que ele e a brincadeira idiota do sim podiam ir se ferrar, depois caminhei até o Brilliant Night e pedi o barman para “ir mandando”. Brilliant Night é um lugar metade boate, bar e lanchonete, cujo Gus tinha dito mais de uma dúzia de vezes que eu deveria parar de frequentar porque é onde sempre arrumava os piores namorados.

—Puta merda! -o homem afirmou quando despertou instantaneamente e se levantou como se tivesse levado um choque, com os olhos arregalados e assustados, afinal, eu estava com o rosto quase colocado no dele, o examinando atentamente.

—Quem é você? -a frase saiu da minha boca sem que eu tivesse qualquer chance de tentar impedir, ele continuou me olhando como se eu fosse um monstro saído diretamente de Hotel Transilvânia.

—Quem sou eu? -ele perguntou de volta aparentando estar indignado com o fato de eu não me lembrar, mas pelo que eu poderia saber ele era só um ladrão que invadiu minha casa de madrugada e ficou pra tirar uma soneca, ou algo assim. -Você não quis que fôssemos para o seu quarto… -ele começou a explicação e sem que precisasse sequer continuar, eu já estava surtando. Ai Meu Deus! Eu fiz sexo com um desconhecido depois de ter bebido todas, comecei a andar de um lado para o outro, eufórica, com muitos pensamentos do que poderia ter acontecido e nenhum deles era bom. Eu definitivamente não sou o tipo de pessoa que faz sexo casual, nunca mesmo!

—Você quer dizer que nós realmente…? Ai meu Deus! -levei as mãos a cabeça, sem ter ideia do que dizer.

Ele começou a rir antes que eu pudesse dizer outra coisa.

—Você realmente não se lembra, não é? -ele questionou, claramente se divertindo com todo o meu desespero.

—Estou com dor de cabeça demais para conseguir. Quanto eu bebi ontem?

—Eu perdi a conta depois do vigésimo drinque. Onde ficam os remédios? -ele perguntou e começou a perambular pela minha casa logo em seguida, indo até a cozinha como se tivesse alguma liberdade para aquilo.

—Na gaveta! -apontei para a gaveta abaixo da pia.

—Quando eu cheguei no Brilliant Night você estava falando com o seu copo… tagarelando, na verdade. Então você me contou sobre o desafio do seu amigo, alguma coisa sobre seu ex, e eu te falei que precisava de um lugar para dormir. -ele finalmente achou o comprimido para dor de cabeça e encheu um copo com água da pia antes de andar até mim novamente. -Toma isso, vai! -ele me entregou. Cheirei, desconfiada, mas logo em seguida virei tudo goela abaixo imediatamente.

—Falando com meu copo? Então, a gente não…

—Da última vez que transei bêbado eu tive um filho, então não faço mais isso. -ele disse e eu assenti, um pouco menos preocupada.

—Você tem um filho? Desculpa, qual seu nome mesmo?

—Pode me chamar de Ben! -ele estendeu o braço para me cumprimentar após se apresentar pela segunda vez, mas antes que eu apertasse sua mão, ele conferiu o relógio no seu outro braço. -E eu estou atrasado. Mais um atraso e meu melhor amigo vai me demitir, então preciso ir! -ele esqueceu o aperto de mãos e saiu em busca de sua camiseta.

—Ben, eu ainda não… -comecei, mas ele me interrompeu ao mesmo tempo que finalmente achou sua blusa.

—Me liga quando se lembrar das melhores partes. -ele mexeu no cabelo, verificou se o celular estava no bolso e apertou o passo até a porta. -Obrigada pela estádia, Lina! -disse e saiu pela porta, indo embora.

A noite passada acabava de entrar para minha enorme lista de más decisões.

(…)

Aos poucos, algumas cenas voltaram a minha cabeça. Como quando você vai assistir á um novo filme, mas percebe que já viu antes porque se recorda de algumas pequenas parcelas.

Lembrei-me de que não havia almoçado no dia passado, eu estava obcecada em achar alguma coisa para minha apresentação de um novo comercial de refrigerante que precisava criar até sexta-feira. A lua começava a surgir quando sai da empresa enorme em que trabalho como publicitária, precisando urgentemente de um cachorro quente, ou de um bom prato de comida caseira, mas já passava das sete, eu não encontraria nada do tipo naquele horário.

—Olha o cafézinho! Quer um café, moça bonita? -alguém perguntou, de dentro de uma pequena barraquinha de cafés, assim que virei a primeira esquina.

—Não, obrigada! -respondi prontamente, precisava de algo que pudesse parar com o barulho do meu estômago, eu poderia comer um elefante! Dei cerca de três passos antes de me lembrar da aposta ridícula em que estou enterrada, provavelmente Gus nunca saberia que eu disse não a um café, mas eu sim, e mentir pra mim mesma é ainda pior, sem contar que eu não conseguiria esconder algo dele nem se minha vida dependesse disso. Voltei de imediato.

—Pode me dar um pequeno, por favor?!

—Pode ser sem tampa? Estamos em falta. -o homem perguntou e eu assenti. Paguei e peguei o café, logo voltando a procurar pelo meu tão sonhado cachorro quente.

Até uma garota adolescente, que pareceu ter surgido do nada, passou correndo por ali, derrubando todo o café quente em minha blusa nova e transparente. Merda, merda, merda!

—Desculpa moça! -ela olhou para trás, não conseguindo conter uma risadinha e voltou a correr. Adolescentes deveriam ser extintos!

Tentei me limpar, procurando por algum lenço na minha bolsa porque sempre guardo um desses, mas eles são pequenos demais.

—Não seja boba Mia, você está perfeita! -reconheci a voz e a risadinha gostosa que vinham em minha direção. Olhei apenas para ter certeza de que se tratava do meu ex-namorado, acompanhado da sua ex-atual-namorada. Merda de novo!

Ele estava com uma câmera em mãos, tentando tirar uma foto dela, que tampa o rosto com a mão envergonhada. E ela é linda! Loira, alta, físico de modelo. Não daria para correr deles, então desejei que o chão abrisse e me engolisse por trinta segundos.

—Oi Coralina. -eles pararam de andar, e ele desligou a câmera quando finalmente me viu. Charles-otário-Miles era o único, além de minha mãe, que me chamava de Coralina, havia começado como brincadeira porque ele sabia que eu odiava. Abri a boca para responder algo, qualquer coisa, mas a mulher loira e absolutamente linda estava me encarando curiosa, e não saiu nada. -Essa é a Mia. -ele me apresentou a ela como se eu fosse ficar radiante de saber que ele tinha conseguido a ex de volta. Abri a boca novamente, mas não saiu um mísero “oi”.

—Parece que está com problemas ai. -ela falou, olhando para minha blusa, que agora estava mostrando todo meu sutiã preto.

Charles rapidamente tirou o casaco marrom que usava, me entregando com um sorriso.

—Você é tão gentil! -Mia o elogiou, com brilho nos olhos. Torci para não vomitar, mas lembrei que não havia almoçado e agradeci por aquilo pela primeira vez no dia.

—Obrigado. Estou atrasada! -murmurei, fingindo conferir o relógio, coloquei o casaco e corri na direção oposta deles o mais rápido que consegui. Mesmo sem olhar para trás, poderia sentir o olhar questionador dos dois.

Fui direto para o bar! Com uma pausa apenas para mandar uma mensagem dizendo que Gus e aquela aposto idiota podiam ir se ferrar, só quando finalmente liguei meu celular na manhã seguinte percebi que tinha mandado aquela mensagem para todos os meus contatos.

Espera! Incluindo sua família? Você mandou “você e sua aposta idiota podem ir se ferrar” para o seu chefe?

Gus começou a rir escandalosamente depois de eu contar o começo da história para ele, e antes mesmo que eu pudesse ter a chance de responder a qualquer uma de suas perguntas.

—Por que você acha que acordei com cinquenta e três ligações perdidas? -respondi enquanto ele ainda dava risada. Havia sido um tanto constrangedor explicar a tantas pessoas que tinha enviado a mensagem errada.

—Sua vida parece uma novela em que a mocinha é um desastre, sempre quero saber o próximo capítulo!

—Como você me deixou ir pra casa bêbada com um desconhecido? -perguntei indignada, conseguia me lembrar vagamente de ter conversado ao telefone com ele naquele dia mais tarde, Gus certamente poderia ter me evitado a tomar outras péssimas decisões.

—Ei, não foi desse jeito! Você me ligou de madrugada, dizendo que estava com o casaco do Charles, que tinha o cheiro dele, e blá, blá, blá. Daí o Ben roubou o celular da sua mão e disse que levaria você pra casa em segurança. Eu estava morrendo de sono, então deixei.

—Ele podia ser um estuprador! -argumentei, ainda enfurecida.

—Um estuprador não me pediria, Lina! -ele retrucou, batendo as mãos na mesa a sua frente, como se fosse óbvio.

—Não muda o fato de você ser um péssimo amigo… -revirei os olhos e ele fez uma careta.

—Finalmente descobriu? -Samantha Mason surgiu ao meu lado como mágica.

Sam havia feito um rabo de cavalo no cabelo, usava um top laranja, leggie e tênis de corrida. Ela corre todos os dias no mesmo horário desde que a conheci quatro anos atrás, mas há teorias de que, na verdade, ela não faz exercícios, porque não é possível que alguém que acabou de correr quatro quadras inteiras ainda possa se parecer tanto com a Barbie! Sam é o oposto de mim, ela têm cabelos loiros e longos que sempre parecem ter saído da capa de uma revista de moda, cílios enormes, um nariz pequeninho, e é alta o bastante para ser modelo, se quisesse. Ela é o tipo de amiga que eu tenho inveja até do formato do queixo. A única coisa que possuíamos em comum além da cor da pele, eram os olhos verdes.

August soltou uma risadinha perceptivamente forçada e fez uma careta para a resposta de Sam. Eles se odiavam desde que se conheceram, no começo eu achava que era porque sentiam alguma atração encoberta um pelo outro, mas depois que Gus se apaixonou por Cami percebi que ele realmente não gostava de Sam. Ele diz que é porque ela é uma péssima amiga pra mim, e tudo bem, ela não é exatamente do tipo que sairia de uma noite de bebedeira para vir me ver caso eu precisasse, mas me ajuda a evitar algumas péssimas decisões, diferente dele!

—Já que sua ótima amiga chegou, eu preciso ir! -ele conferiu o relógio antes de se levantar da mesa. -Eu e Cami vamos ao cinema.

—O quê? Ela ainda não se cansou de você? -Sam fingiu surpresa, me fazendo rir da sua reação exagerada. Gus fingiu não ouvir e se afastou rapidamente de nós.

—Vai! Me conta tudo do gostoso no seu sofá hoje de manhã! -ela disse alto o bastante pra mesa de trás ouvir e nos olharem torto, mas já estou acostumada.

—Não sei em que parte da noite ele surgiu, mas disse que eu ofereci que ele dormisse na minha casa e colocou seu número no meu celular. -expliquei brevemente.

—E o que ele disse quando você ligou? -ela perguntou curiosa.

—Eu ainda não liguei pra ele... -murmurei enquanto levei o olhar ao chão, sabendo o que viria após a confissão.

—Lina, por que não fez isso ainda? Ele está esperando sua ligação, e sabe de tudo que aconteceu na noite passada, vai, liga agora! -ela ordenou, já roubando meu celular da mesa a nossa frente.

Roubei de volta antes que ela fizesse qualquer besteira.

—Ele disse que estava trabalhando, não é melhor eu…

—Liga logo! -exclamou, nem um pouco aberta a discussões, procurei por Ben na lista de contatos e cliquei em chamar, torcendo mentalmente para que ele não atendesse agora.

Alô? -ele atendeu ainda na primeira chamada.

—Oi, é a Lina! -eu disse encarando Sam, que se aproximou de mim para tentar ouvir.

Lina, conseguiu se lembrar de alguma coisa?—ele perguntou do outro lado da linha.

—Mais ou menos, ainda não me lembro se eu chorei. -respondi e ele riu.

Quer mesmo que eu responda?

—Não, obrigado! -neguei com medo da resposta, quanta vergonha uma pessoa pode passar em uma mísera noite? -Quer dizer, sim, por favor! -eu disse logo em seguida e Sam revirou os olhos. Eu ainda não tinha decidido se desistiria da aposta com Gus, só faltava mais um dia e eu poderia estar prestes a ganhar duzentos reais.

Você teve uma crise enquanto a gente queimava o casaco do Charles.

Sam solta uma risada, enquanto eu faço uma careta e mais lembranças voltam a minha memória.

—Desculpe por isso também, aliás, obrigado por ter me levado pra casa!

Sempre que precisar!—ele afirmou e tenho certeza que está sorrindo, mas ouço uma voz o mandando desligar o celular. -Lina, vou ter que desligar agora, mas depois te passo uma mensagem.

—Certo. Tchau! -respondi e ele desligou rapidamente.

—Ele tem uma voz tão sexy, e esse papo de mensagem, acho que está interessado em você! -Sam disse assim que coloquei o celular de volta á mesa.

—Ele só estava sendo gentil, me viu fazendo papel de idiota sozinha em um bar e quis ajudar, está com pena de mim, isso sim! E além disso, tenho quase certeza que ele é casado. -contei, tentando não criar nenhuma expectativa já de cara.

—Ele usa aliança?

—Não tive tempo de reparar, mas ele disse que tem um filho. -respondi, tentando ligar todas as linhas soltas. Apesar de parecer estar em uma época desleixada, ele era bonito, engraçado, tinha um filho, dificilmente estaria solteiro.

—Merda! Não se envolva com homens que tem filhos ou problemas com ex namoradas, sabe que não terminou bem da última vez. -ela me lembrou.

—Ainda não acredito que queimei o casaco do Charles-otário-Miles! -recordei e nós duas caímos no riso.