As pegadas da Borboleta

6 Quarta-feira – Cidade X – A incógnita de Aidan


Não consegui dormir direito aquela noite. E no curto período onde consegui pregar os olhos, minha mente vagava por sonhos inquietos e obscuros. Eu acordava de hora em hora pensando na mensagem de Aidan, pensando se a deveria mostrar para mais alguém.

Amanda acordou por volta das nove e meia. Deixei a descansar, afinal de contas ninguém é de ferro. Mas assim que ela acordou precisava compartilhar minha nova informação.

— O que? – perguntou meio zonza. Estava naquele estado de pseudosono. Passou a mão nos olhos para limpá-los, bocejou e esticou os braços.

— Meu pai me mandou uma mensagem de voz minutos antes de morrer. – repeti minha frase, garanto que minha face não mostrava-se muito expressiva. Ela deu um pulo no colchão assim que seu cérebro captou minha frase.

— AI MEU DEUS. – exclamou estalando os olhos, agora estava completamente acordada. Apanhei o celular jurássico que repousava na mesa de cabeceira e joguei meu corpo no colchão, sentando ao lado de minha amiga.

— Escuta. – apertei o botão que repetiria a mensagem. Ela colou o aparelho no ouvido e ouviu atentamente todas as palavras de Aidan, seus olhos brilhantes estavam voltados aos meus.

— Minha nossa... minha nossa! – exclamou ao término da mensagem. Seus olhos estavam estalados, pareciam que iriam saltar das orbitas. – Precisamos gravar isso, antes que se perca. – comentou apanhando seu smartphone. Por alguns instantes se manteve concentrada na tela do aparelho, logo inverteu as funções, mexendo no celular jurássico. – Pronto. – comentou com um sorrisinho vitorioso a face. Amanda sempre fora muito boa em tecnologia, não sabia o por que estudava Geografia na faculdade, deveria fazer algum curso voltado a tecnologia... algo do tipo. – transferi a mensagem para o meu celular, já gravei e está salva nos áudios.

— Como você fez isso? – indaguei abismada, em poucos minutos ela havia feito aquilo. Se fosse para eu fazer, demoraria no mínimo vinte anos e perderia a mensagem. Ela balançou os ombros.

— Tenho três irmãos ligados em tecnologia, tinha que aprender alguma coisa com eles. – respondeu-me com simplicidade, esticou o celular antigo para mim.; apanhei-o e deixei sobre a cama. – o que você vai fazer? – quis saber.

Eu não sabia o que fazer. Aidan me pedia para procurar Nina, dissera que deixara algo para nós duas no laptop do escritório, mas o que fazer afinal?

— Acho que vou procurar a Nina. – era a coisa mais sensata. E a ultima vontade de nosso pai. Amanda assentiu.

— Eu vou com você... – havia mais empolgação na voz dela do que na minha, bateu seu ombro contra o meu tentando me animar. — não perco essa por nada.

...

Após uma boa noite de sono, Margaret já sentia-se melhor. Quando descemos para a cozinha tomar o café da manha, minha mãe estava com a mão – que ainda continha o curativo que eu fizera – em frente a seus olhos. Possivelmente estava de ressaca. Vestia-se de preto, como uma viúva americana – sabia que isso fazia parte de seu sarcasmo.

— Bom dia. – comentei ironicamente sentando-me a mesa. Ela apenas me encarou por alguns segundos, não respondeu meu cumprimento.

— Bom dia, Amanda. – desejou a minha amiga que sentava-se empertigada com a face séria. Ela deveria estar pensando que minha família era um show de horrores.

— Bom dia... – disse Amanda simpaticamente servindo-se de torradas e geleia de morango.

— E o que as garotas vão fazer hoje? – Margat perguntou levando a xicara de café a boca. Amanda encarou-me enquanto abocanhava a torrada.

— Vamos dar uma volta... – menti, não poderia falar que iria ao Hotel Napoleon ver Nina, e nem que papai deixara uma mensagem de voz direcionada a suas duas filhas. Minha mãe iria surtar. E não queremos surtos um dia após o velório, o que a mídia iria comentar? – queria que Amanda conhecesse a cidade. – inventei detalhes para a mentira parecer mais convincente. Apanhei um copo e servi-me de suco de laranjas. A Sr. Barbosa, nossa cozinheira, caprichara aquela manhã.

Minha mãe riu abertamente, mantinha xicara que exalava vapor ainda próximo a boca.

— Levar a Amanda para conhecer a cidade. – repetiu minhas palavras ainda rindo. – como se tivesse muito para olhar aqui.

Margaret tinha razão. A Cidade X era pequena em demasia. Com seus treze mil habitantes todos conheciam a todos. Não havia muitos lugares a ir, não havia nem mesmo um shopping ou salas de cinema. A única coisa atrativa era uma avenida margeada por lojas, e três restaurantes de grande porte com preços acessíveis. Uma típica cidade do interior.

— Posso pegar o carro? – perguntei após tomar o copo de suco.

— Fique com o Gol... vou precisar do Hyundai para visitar um cliente. – disse retirando-se da mesa. Minha mãe era advogada. Este é outro segredo de cidades pequenas: fazer seu nome. Margaret Lokoski (descendente de polonês) era uma advogada muito requisitada, e sempre ganhava suas causas de família.

— Você vai trabalhar? – questionei-a. Afinal de contas minha mãe tinha direito de permanecer em casa.

— Já lamentei muito ontem a noite. – fez um gesto com a mão machucada. – e não vou ficar em casa... não quero enlouquecer. – antes de se retirar do ambiente encarou-me mais uma vez. – e fique tranquila, os abutres. – ela se referia à mídia. – já foram embora... recebi uma ligação hoje de manhã... afinal de contas não tem muito o que se documentar em uma cidade pequena... quase morreram de tédio.

...

Após o café, e tomar um bom banho, guiei o carro pelas estreitas ruas da Cidade X. Estacionei horrivelmente em uma das vagas do Hotel Napoleon, e com passos tênues andamos até a recepção.

Assim que adentramos o rol consegui captar o nível do lugar. O piso cerâmico reluzia a luz do lustre que despendia-se do teto em uma cascata de cristais. As paredes revestidas com papel avermelhado todo trabalhado em detalhes negros, deixava o ambiente com um ar sofisticado. Mais a frente do corredor, atrás de uma enorme janela de vidro fume podia-se ver o restaurante ao lado da grande piscina, tomada por pessoas.

— Bom dia, como posso ajudar? – perguntou-me a recepcionista. Uma jovem esguia que mostrava seu sorriso de dentes perfeitamente alinhados do outro lado do balcão.

— Estou procurando Marina Matias... quarto vinte e sete. – disse olhando para o rol de entrada.

— Nós não passamos informações sobre nossos hospedes. – informou-me tentando manter sua simpatia. Encarei-a e armei um sorriso.

— Eu sou irmã dela. – arquejei colocando a bolsa sobre o balcão, rapidamente apanhei minha carteira, abri um dos compartimentos e retirei minha CNH, estiquei a moça. Ela levou o documento à altura dos olhos.

— Tudo bem. – assentiu devolvendo-me o documento. Apanhou o telefone e fez uma ligação. – ela já está descendo. – informou-me.

Esperamos nina em um dos acentos almofadados. Praticamente deitamos no sofá, até que dez minutos depois – provavelmente tivera de despistar Cecilia – Nina apareceu. Estava nitidamente nervosa, afinal de contas sua mãe não gostaria de saber que estávamos juntas.

— Oi... o que aconteceu? – ela parou em minha frente e de Amanda. Sua voz estava exasperada. Observei suas feições, seus olhos ainda estavam inchados pelas lagrimas derramadas.

— Oi. – comentei levantando-me em um solavanco. Fiquei a sua frente.- Está tudo bem? – quis saber, não queria arranjar problemas para ela.

Nina passou os olhos pelo recinto.

— Sim. – balançou a cabeça positivamente. — o que aconteceu? – voltou a indagar.

— Desculpa aparecer sem avisar. – eu realmente deveria ter avisado, mas não tinha como, precisava vê-la o mais rápido possível. Passei a mão na face. — Encontrei uma mensagem do papai do dia em que ele morreu. – desabafei rapidamente.

Nina levou a mão a boca, fazendo nitidamente cara de interrogação.

— Como assim? – perguntou com a voz carregada de entusiasmo.

— Eu consegui salvar a ligação no meu celular. – Amanda antecipou-se chegando perto de Nina mexendo na tela do aparelho, localizando o áudio salvo, apanhou os fones de ouvido de sua bolsa e esticou a Nina.

A face de Marina ouvindo a mensagem era digna de uma pintura. Ela esboçava reações vivas e completamente sentimentais. Sentia o que eu sentia, e meu coração disparava apenas de contemplá-la.

— Isso é loucura... Isso é muita loucura. – foram as únicas palavras que Nina conseguira expressar. Ela balançava a cabeça negativamente. Senti um arrepio apenas em pensar o que se passava na cabeça de minha imã. Devolveu o aparelho para Amanda juntamente com os fones, colocou a mão na boca novamente estava tão surpresa quanto eu.

— O que achou da mensagem? – perguntei. Precisava saber se teria o apoio de Nina para prosseguir. Precisava encontrar o laptop, encontrar o que nosso pais deixara.

— Parece que ele quer que façamos algo juntas. – Nina comentou pensativa.

— Ele fala do laptop do escritório... – comentei, aquela frase não se despendia de meus pensamentos nem mesmo por um segundo.

Nina novamente varreu o rol com as vistas, afinal de contas sua mãe poderia aparecer por ali a qualquer instante.

— O escritório fica em São Paulo... eu volto com minha mãe no sábado para lá. – informou-me. Minha curiosidade era muito grande eu não aguentaria até o fim de semana. — posso dar uma olhada. – completou seu pensamento.

Mas interpretando as palavras de nosso pai ele pedia para eu chamar Nina, e não ao contrário. “Se o que ele queria que nós víssemos estivesse em São Paulo, por que não ligara para a filha que mora naquela cidade?” Perguntei-me.

— Ele queria que nós estivéssemos juntas... – disse. Respirei fundo. – será que ele não quer que vejamos algo aqui... – pensei comigo mesma deixando as palavras escapar de minha boca, meus olhos estava voltados ao chão de forma que minha intuição me guiava para mais longe.

— Como assim? – Nina incentivou. Encarei seus olhos.

— O primeiro escritório de Aidan foi aqui na cidade. – disse rapidamente lembrando-me da fachada do lugar. Depois do divorcio o escritório passara a ser mais um quarto onde ele dormia quando estava na cidade, em raras ocasiões. Mesmo tendo dinheiro meu pai preferia ficar em lugares que conhecia e que não eram tão requentados.

— Você acha que pode ter alguma coisa por lá? – agora fora Amanda que perguntara, ela era apenas uma espectadora atenta a trama que se desenrolava diante de seus olhos.

Passei a mirá-la.

— Eu não sei... não vou lá a anos. – balancei a cabeça negativamente. Mas minha intuição me fazia crer que poderia sim ter algo lá.

— Poderíamos dar uma olhada... – Nina disse. — eu tenho a tarde livre, consigo despistar a minha mãe.

— Então passamos te pegar as duas. – combinei rapidamente, já havia tomado bastante tempo de Nina, não sei a desculpa que inventaria a Cecilia por estar demorando.

Ela assentiu.

— Ótimo... até lá. – despediu-se de nós com um aceno direcionando seus passos rumo aos elevadores.

...

Chegamos em casa para o almoço. Minha mãe não apareceu para comer, como de costume – em sua rotina – ela sempre almoçara fora.

Após a refeição Amanda subiu para o quarto arrumar suas coisas, iria embora com o ônibus das oito e meia, precisava voltar a sua vida normal, e terminar seu artigo acadêmico. Provavelmente eu permaneceria na Cidade X até domingo. Não tinha animo algum para retornar a faculdade. Provavelmente tinha apenas animo para interpretar o que Aidan deixara para trás.

Meu smartphone voltou a funcionar perfeitamente depois de passei a noite e o período da manhã imerso a um pacote de arroz. Amanda conseguiu transferir o áudio para a minha lista de reprodução, eu nem sabia como agradecer a ela.

Revirei as gavetas atrás da chave extra do escritório de Aidan, a qual sabia que minha mãe guardava em algum lugar no seu quarto. E depois de trinta minutos de procura, onde Amanda revirava as gavetas de uma cômoda de bugigangas, encontramos o objeto.

Na hora combinada voltamos ao Hotel Napoleon. Nina nos esperava no estacionamento, e rapidamente adentrou o Gol abaixando-se no banco do passageiro para que ninguém a visse. Estávamos vivenciando uma parte do filme do 007.

Assim que chegamos ao escritório de nosso pai, em um bairro privado da Cidade X, (uma antiga construção, datada de 1878 muito bem conservada) ficamos chocadas com quanto entulho poderia ser guardado em um quarto.

Haviam muitas caixas de papelão que guardava inúmeros fichários. Livros espalhavam-se pelo chão, pela escrivaninha e por uma parede encrustada de prateleiras, que também guardava cadernos de anotações próprias de Aidan.

— Isso vai ser difícil. – comentei com certo ar de ironia. Nina e Amanda riram.

Andei até a escrivaninha pulando por sobre algumas caixas no chão, abri a gaveta e lá está o Sony Vaio de meu pai.

— Achei o laptop... será que tem bateria. – eu retirei o aparelho da gaveta e o depositei sobre a escrivaninha, abri a tela. Apertei no botão para liga-lo, e por mais incrível que parecesse o computador ligou imediatamente. Apareceu a tela principal, e logo pedia a senha.

— PORCARIA! – guinchei revirando os olhos. Amanda e Nina caminharam pela ambiência e param ao meu lado. – senha? – perguntei a minha irmã.

Ela morreu o lábio inferior e findou os olhos que varriam todo o lugar.

— Tenta. – deu um riso absorta. — Eu amo a Amazônia... tudo junto. – encarei-a com sarcasmo, mas digitei o que havia pedido. O laptop destravou. Estalei os olhos e a encarei.

— Como você sabia? – perguntei.

— Ele sabe que minha senha do Facebook é: eu amo Harry Potter. – riu-se.

— Vocês são muito parecidos. – Amanda comentou pendendo a cabeça para os lados.

— Bom trabalho, Nina. – a elogiei, abrindo os arquivos do computador.

— Vou ver se não encontro nada nessas caixas... Amanda me ajuda? – distanciou-se apanhando uma caixa do chão e colocando sobre uma das cadeiras que encontravam-se ao outro lado da escrivaninha.

— Claro... eu adoraria, quantas pessoas tem a oportunidade de mexer nos trabalhos de Aidan Matias? – disse animada apanhando uma caixa do chão. Logo fechou os olhos sentindo-se culpada pelo que falara. Afinal de contas Aidan Matias estava morto. — desculpem.

— Tudo bem... boba. – disse Nina de forma grácil.

Vasculhei as pastas de vídeos de meu pai, ele havia muitos, todas as suas reportagens estavam arquivadas naquele laptop. Não sabia que seria difícil encontrar um vídeo. Porém, havia um vídeo denominado: Histórias da Família X, o que deixou-me um tanto intrigada. Nosso pai era Jornalista Biologista.

— Encontrei uma coisa. – informei a Nina e Amanda, ambas deixaram de revirar as gavetas e caixas de papelão, rapidamente juntaram-se a mim a frente do monitor do laptop. Coloquei o vídeo para reproduzir, a face de Aidan estava congelada em um careta um tanto que constrangedora.

— Como vão meninas? – ele sorria daquele seu modo em particular, sem mostrar os dentes; o tipo de sorriso que não mostra malicia, mas não é de fato completamente puro. Estava sentado na mesma cadeira que eu me encontrava agora, era noite as janelas atrás da escrivaninha estavam escuras, deixando apenas uma luz enevoada contornar a silhueta da janela. — se estão vendo esse vídeo é porque alguma coisa aconteceu comigo. Algo nada bom. – “sua morte!” pensei em um lamento. — decidi gravá-lo pelo menos duas semanas. Quando recebi minha primeira carta de amor da Madeireira Locus Associados. Não utilizaram uma linguagem sutil, vou ler um trecho a vocês. – ele puxou um papel com letras impressas a altura de seus olhos esverdeados. Demorou alguns segundos até encontrar o trecho que leria. — “seu ambientalista hipócritas de merda. Divulgue-nos e sofrerás as consequências... queime as palavras que escreveu...” – fez uma careta para a câmera forçando uma expressão de espanto. Jogou o papel sobre a escrivaninha. Agora a face estava normalizada. — palavras de amor. – ironizou. — mas não estou aqui para falar sobre minha vida, ou pelo que luto. Estou aqui para falar com vocês... Vocês são a coisa mais preciosa que tenho nesse mundo. Eu descobri que família e amor são as duas coisas sem as quais não se vive. Não há como não encontrar acalento nos olhos de Cath. Não há como não sorrir e se surpreender com ideias de Nina. Vocês são a melhor parte de mim. – dizia com seriedade. Suas palavras tocavam em uma parte de meu coração que estava quebrado. Eu amava Aidan, mas um punhado de palavras ditas na ultima hora não resolveriam uma vida regada a mentiras. Ele parrou a mão a face, pareciam seus olhos pareciam melancólico. — costumava pensar nos erros do passado, mas quando apenas se olha erros e se olha o passado não se vive no presente, não consegue sentir tudo que os momentos podem lhe proporcionar. Talvez não tenha pensado muito durante minha vida, talvez tenha sido refém de meus próprios sentimentos... Mas sentimentos vindos do fundo da índole não são mentirosos... Eles contem a mais pura chama para nos manter vivendo. Manter-nos sonhando e batalhando por aquilo que nossa consciência julga certo e errado. – ele sorriu novamente. — mas final de contas o que é certo o que é errado? Qual o verdadeiro significado de tantos sentimentos? Qual o sentido de tudo isso? – eu também gostaria de saber aquelas respostas. — eu nunca soube responder, mas sempre tive a necessidade de buscar mais, tentar encontrar minha própria figura em meio aos rostos pintados pelo mundo. – Aidan era como nós, pessoas comuns. Por mais que sua popularidade tenha atingidos níveis inesperados para um homem que nasceu, viveu e formou-se em uma cidade do interior, ele sempre procurou realizar seus sonhos; lutar pelo que fazia-o sentir-se livre, vivo, forte e não despedaçado pelos golpes do medo. — Existem coisas a serem feitas, a serem encontradas... e vocês sabem o caminho... deixei algo no Notebook... – não compreendi de imediato aquela frase. Seria uma nova incógnita? Estávamos olhando para o Notebook agora. O vídeo continuou. — dizem que borboletas não deixam marcas por onde andam... mas, talvez, algumas borboletas deixem pegadas. Sigam as pegadas da borboleta... eu espero estar no fim dessa jornada. Escutem os sussurros de seus corações, seu sei que eles contem a pureza e a resposta para o emaranhado de questões em aberto que sempre devastam suas mentes.

Passei os olhos do monitor a Nina, ela enxugava os olhos com a manda da blusa. Estava nitidamente emocionada.

— Porque Aidan não falava as coisas na cara?

— Ele era excêntrico. – Amanda comentou fazendo uma careta e jogando o punhado de papeis que ainda tinha em mãos sobre a escrivaninha. Direcionou seus passos em direção a parede de prateleiras que carregavam livros sobre fauna e flora.

— Sempre gostou de um bom jogo de Caça Palavras. – comentei absorta lembrando-me de uma pequena memoria de quando criança. Quando Aidan voltava das viagens sempre trazia uma caixa de brinquedos novos, mas a maioria deles era educativo; sempre me fazia jogar Caça Palavras com ele a noite antes de ir dormir.

— Ele brincava com você também? – Nina quis saber. Agora não estava mais chorando. Encarou-me com sua expressão de interrogação profunda. Eu estava começando a interpretar sua face, familiarizando-me com minha própria irmã. O que era estranho.

— Brincava. – balancei a cabeça positivamente. Então tive uma ideia. E se as palavras que Aidan falasse no vídeo não tivessem um significado oculto como em suas brincadeiras? — me alcança uma folha... – Pedi a Amanda, que rapidamente juntou qualquer papel e me entregou, voltou a olhar os livros que achara interessante. Apanhei uma caneta qualquer e escrevi na folha as palavras mais confusas do vídeo “deixei algo no Notebook” – talvez ele estivesse se referindo ao vídeo que deixou. – pensei, já que no Brasil é comum chamarmos o computador de Laptop ou Notebook.

— Então porque ele falou que existem coisas a serem feitas? – Nina quis saber novamente. Eu sorri para ela vendo que herdávamos a mesma linha de pensamento investigativo.

— Por que disse “sigam as pegadas da borboleta”? – havia certo tom de ironia rompendo das palavras de Amanda. Ela gesticulou enquanto colocava-se do meu lado. A encarei como se o assunto que falávamos fosse serio, não apenas um jogo.

— Ele sempre foi ligado a frases de efeito. – comentei. E era verdade, Aidan era um escritor excelente, tanto que produzia o que escrevia, e fazia sucesso nos mais diferentes públicos.

Nina suspirou, seus olhos vagaram por toda a ambiência.

— Notebook em inglês quer dizer caderno... – disse com simplicidade fazendo um gesto com os ombros.

Eu ri absorta.

— Ele tinha milhões de cadernos... – isso era nítido, estávamos espremidas em um micro escritório com mais cadernos utilizados e livros do que qualquer outra coisa. Mas então uma imagem chocou-se contra minha retina, eu me lembrei da capa de um caderno especifico; uma agenda; mostrava apenas uma única asa do insto que nosso pai mais amava. — espera... Sempre andava com um especial.

— O caderno da Borboleta Coruja... – Nina completou meu pensamento. Mais uma vez eu a encarei. Era como estar falando com alguém que tinha as mesmas memorias que eu.

— Exatamente o que eu pensei... – afirmei. Levantei-me empolgada. Até mesmo Amanda nos encarou com a face surpresa. — procurem naquelas gavetas... vou procurar por aqui.