Lembro-me como se fosse ontem do dia em que tudo mudou. Éramos bons amigos desde muito tempo e eu assisti aquela doce menina sair de relacionamento em relacionamento, sempre de coração partido, e eu ali ao seu lado tentando juntar os pedaços. Aquela tarefa era árdua e cada vez mais ficava difícil convencê-la de que ela merecia muito mais do que estavam tentando fazê-la acreditar; contudo, ela apenas me lançava um sorriso fraco e tentava mudar de assunto enquanto empurrava bem para o fundo de suas lembranças os momentos ruins que culminaram nas cicatrizes emocionais que carregava… e naquele dia era para ter sido assim, nada mais que isso…

Ela me mandou uma mensagem de texto com a seguinte intimação: “Vamos pra uma festa. Vista-se”. Prontamente obedeci, pois já imaginava do que se tratava, já que o cara com quem ela estava ficando era um idiota que não queria assumí-la para não perder os contatinhos e, provavelmente, ela tinha enfim se livrado do embuste. Não fiz perguntas quando ela chegou buzinando e me jogou um capacete sem nem ao menos me dar boa noite, mas quando notei que ela queria se embebedar nos primeiros minutos eu não tive alternativa a não ser intervir de forma enérgica:

— Está tentando se matar?! — reclamei puxando-a para um canto menos barulhento.

— Me dá. Eu preciso. — ela me respondeu com a voz embargada, mas tentando ser forte.

— Terminou com ele? — perguntei sem arrodeios e ela hesitou desviando o olhar — Hei, você sabe que ele não valia o esforço, não é? — minha voz soou mais branda, mas ela estava na defensiva.

— Você fala isso de todos meus namorados. — ela disse e esfregou os olhos antes que as lágrimas pudessem rolar.

— Porque eu sou seu amigo e me preocupo com você. — declarei envolvendo-a num abraço de conforto, o que sempre fazia com que as defesas dela ruíssem e ela chorasse copiosamente — Vamos embora. Aqui não é lugar pra você ficar no momento.

— E para onde vamos? — ela questionou entre soluços, apertando-me ainda mais.

— A gente deixa a estrada nos levar. — sorri afrouxando o abraço e enxugando as lágrimas dela.

Saímos pela estrada principal e cada vez mais as luzes do centro ficavam distantes e parecidas com pequenos vagalumes. Ela estava como passageira e apertava minha cintura procurando conforto em mim, mas não tentava conversar nem sobre trivialidades, apenas suspirava vez ou outra.

Estacionei próximo a uma pracinha e nos sentamos nos balanços de madeira para conversar. Incentivei como pude que ela colocasse para fora tudo que não conseguiu dizer para ele e ela o fez. As coisas eram pior do que eu imaginava e aquilo me deixou tão irritado que, se eu não fosse completamente averso à violência, eu teria ido direto na casa daquele imbecil lhe quebrar a cara. Ela terminou aos prantos e eu me levantei urgente para mais uma vez consolá-la com um abraço e ali ficamos por minutos que pareceram uma eternidade até que ela levantou a cabeça e me disse:

— Não sei o que seria de mim sem você. — seus olhos cintilavam com as lágrimas e seu rosto estava avermelhado.

— A mesma pessoa incrível, tenho certeza. — respondi com um sorriso e fui pego de surpresa com um beijo.

— Desculpe. — ela disse após se separar dos meus lábios bruscamente, mas eu não a deixei se afastar por completo.

— Tudo bem. — respondi e a beijei de volta, um beijo ainda mais intenso.

Não sei apropriadamente descrever o que eu senti naquele exato momento, mas tenho algumas analogias em meio à minhas memórias que podem servir: Eu me senti feliz, como quando consegui dar um salto mortal pela primeira vez na escola e ganhei uma medalha por isso. Eu me senti nervoso, como quando eu fui fazer meu teste de direção depois de ter já falhado uma vez. Eu me senti leve, como quando eu recebi o resultado da prova mais difícil do meu primeiro semestre de faculdade e descobri que não tinha ficado na final… eu nunca tinha me sentido daquela maneira com garota alguma...

Após o beijo ela sorriu para mim e me agradeceu pela noite. Eu estava perto da minha casa, poderia voltar a pé tranquilamente, mas não esperava que ela realmente fosse se despedir ali mesmo depois do que aconteceu. Me senti confuso, mas eu não quis ser precipitado e a deixei ir. Mal consegui dormir naquela noite só pensando na maciez dos lábios dela nos meus e tenho certeza que quando enfim peguei no sono foi com um sorriso bobo no rosto...

A realidade tende a ser dura com as pessoas que sonham demais, mas é difícil não devanear as coisas mais incríveis quando enfim se percebe um sentimento tão bom dentro de si. Eu peguei meu celular assim que acordei esperando encontrar uma mensagem dela e encontrei, só não esperava um pedido de desculpas de duas laudas sobre como um possível relacionamento amoroso entre nós seria um erro, pois éramos melhores amigos e isso já funcionava tão bem. Eu quis gritar, eu quis apresentar meus argumentos, mas uma vozinha em minha cabeça me repreendia me fazendo lembrar que ela estava fragilizada e foi isso que a fez me beijar na noite passada. Após escrever e apagar uma dezena de textos, eu enfim respondi com um inconformado “você tem razão” e um símbolo de “carinha feliz”... eu esperei que ela mudasse de ideia no final do dia, mas já se passaram sete meses e estamos na mesma.

Ela não entrou em outro relacionamento depois do último, o que foi bom para ela que teve tempo de se curar de maneira apropriada. Por várias vezes, quando nos encontrávamos, eu quis dizer sobre como eu me sentia a respeito daquela fatídica noite, mas vê-la tentando ser feliz me fazia acreditar que eu poderia pôr tudo a perder e eu me calava enterrando eu mesmo meus próprios sentimentos enquanto tentava me contentar com aquele lindo sorriso que ela me lançava ao me ver… acho que isso já me serve por agora...

Notas finais
Se você chegou até aqui espero que tenha gostado da leitura. Conheça o instagram @lonely_hearts_poesias. São textos bem sinceros e cheios de sentimentos. Se possível deixa um comentário ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!