Notas iniciais
Espero que goste, fiz com carinho, água e sabão! ♥

Bolhas de sabão

Era uma rua estranha, na verdade ela não tinha nada de diferente de qualquer outra rua que você já tenha visto, ela era estranha porque o observador da rua achava estranheza nela, será que a estranheza se encontrava na rua ou no observador da rua? Muitas coisas funcionam assim no nosso cotidiano, os objetos, pessoas, sentimentos, lugares e experiências as quais atribuímos adjetivos vagos e complexos, ao mesmo tempo, não são nada mais do que ele mesmos.

Talvez essa seja a classe gramática mais antropocêntrica, egocêntrica e egoísta de todas, os adjetivos se referem aos sujeitos e o maior sujeito de nossa vida, somos nós mesmos. Os adjetivos são atribuídos como nós queremos, eles não são iguais ao artigo que tem que buscar sempre estar em concordância com o sujeito, os adjetivos falam quem é o sujeito.

E quem nós somos? Sinceramente, eu não me conheço, eu não sei como eu fico quando estou encantado lendo as páginas de um livro, qual é a minha aparência ao ouvir uma música excelente, não sei como eu fico quando minha cabeça cai pra trás e eu perco o fôlego de tanto rir, não sei como é minha aparência ao ver meus amigos e as pessoas que eu amo.

A vida é estranha, nos conhecemos por básicas selfies e frases que não passam de 140 caracteres, afirmamos nossa identidade e isso não passa de alguns adjetivos que acompanham a sentença “Eu sou _______.”.

Nem mandamos e controlamos o nosso próprio corpo e somos capazes de tentar nos definir, eu não controlo minha fome, meu riso, meu choro, minhas expressões, minha angústia e meu medo. As vezes não consigo controlar nem minhas próprias palavras.

Acredito que todos têm adjetivos em comum, mas alguns são únicos. E são por esses adjetivos únicos que você deve lutar, afinal eles são o mais perto de você mesmo que você jamais vai chegar.

Nós somos egoístas demais, nossa natureza é tão depravada que enxergamos as coisas apenas no nosso ponto de vista e isso não é nossa culpa. Crescemos assim e somos assim, somos humanos. O mesmo lugar de paz para um, pode ser de tormento para outro.

As coisas são o que são e essa história, não mostra o que as coisas são, mas o que elas representam, ela mostra os adjetivos únicos, totalmente vagos, totalmente sem sentido e totalmente sem explicações para um menino. As coisas são, que talvez esse seja o maior, melhor e mais belo adjetivo que alguém possa usar, Eu sou o que sou.

Mais uma vez, Alfie se encontrava perdido. Odiava a nova cidade, odiava o quão grande ela era, odiava a quantidade de rostos desconhecidos que enxergava, odiava não receber os sorrisos das senhoras que costuravam em frente à casa azul de sua cidade natal, de não receber o famoso “Bom dia” de Dona Rosa, odiava não ter o aceno vindo de dentro da marcenaria de Seu Antônio, o que mais odiava na nova cidade era o fato de ele não ser percebido.

Os sorrisos das senhoras, o “Bom dia” de Dona Rosa, o aceno de Seu Antônio o faziam se sentir especial, coisa que para ele era totalmente difícil. Alfie não era bonito e sabia disso, tinha tanta certeza disso que nunca tinha tentado ter nada com nenhuma garota, o que afastava tanto garotas como garotos, assim, nunca teve muitos amigos.

Lembrava-se da despedida de suas três únicas amigas, todas elas tinham um apelido carinhoso para ele, tinha muito carinho por todas elas, apenas não sabia expressar isso. Quando estava se despedindo delas, elas entregaram-no um envelope para abrir quando chegasse ao seu novo destino, era um manual com vinte cinco dicas de sobrevivência.

Digamos que se o manual viesse com algum tipo de mapa, Alfie seria mais feliz. Era a quarta vez na semana que se perdia ao tentar achar a casa da avó no caminho de volta da escola, a casa da avó, era a única coisa que Alfie gostava daquela cidade, o cheiro de móveis velhos, de chá, o barulho do chão de madeira e do farfalhar das inúmeras espécies de plantas do local.

Estava voltando da escola, se encontra numa rua estranha, pelo menos para ele, tentara se comunicar com duas ou três pessoas que passaram reto por ele, aera uma rua de comércio, as calçadas era sorteada de cubos brancos e pretos e vendedores ambulantes se revezavam aos gritos para atrair qualquer tipo de cliente.

Voltar da escola deveria ser um momento feliz, afinal era quase como uma carta de alforria para Alfie, dentro daquele lugar o momento mais divertido do dia era a entrada de cada professor, isso dava a ele alguma coisa para prestar atenção, alguém que ele sentia que se importava, alguém estava falando com ele ou pelo menos para ele.

Nos intervalos Alfie passava despercebido, no caminho até seu armário era como um fantasma, no almoço sua mesa era a única que tinha assentos vagos, nos trabalhos em grupos era sempre o terceiro membro de alguma dupla e na Educação Física era o resto, o menino de colete azul, já que nem seu nome se importavam em saber.

Quando estava muito triste Alfie colocava seu fone de ouvido no máximo e ouvia suas músicas, inclusive era o que estava fazendo no momento. Estava tocando sua música preferida, até que ela acabou, Alfie virou a esquerda na esperança de achar alguma coisa familiar que indicasse que estava no caminho certo quando escutou uma voz familiar vindo dos seus fones, tirou o celular do bolso e leu o título “AUD-369121518”, era Renata, uma de suas amigas.

“Eu te conheço muito bem pra saber que se você esta ouvindo isso é por que você esta triste demais e tava escutando música. Não fique assim Alfie, você é importante demais para mim e eu odeio te ver triste, eu te amo muito... Me liga”

Depois de ouvir essas palavras, Alfie já se encontrava chorando. Tinha certeza que um dia ia se afogar em seus próprios sentimentos de tanto que fingia não tê-los. Alfie ainda estava caminhando, limpando as lágrimas com a parte de dentro da manga da blusa, quando algo estourou no seu nariz, era uma bolha de sabão.

Aquilo colocou um sorriso enorme no rosto de Alfie, seu sorriso era a única parte de si mesmo que achava bonita e ele não se lembrava qual era a última vez que tinha sorrido daquele jeito. Procurou a fonte daquelas pequenas bolas de alegria flutuantes, no fim da rua tinha uma menina vestida de fadinha, sua mãe estava sentada atrás dela lendo algum tipo de revista. Os cabelos escuros da pequena fada estavam presos em uma grande trança, enquanto ela pulava e agitava a haste que gerava as bolhas.

Alfie se viu na pequena menina de vestido azul por alguns segundos, ele era uma criança que nunca entendeu direito o que estava acontecendo ao seu redor. Ele não entendia a brincadeira das outras crianças, ele não entendia a risada delas, ele não entendia os grupinhos, ele não entendia o porquê ser tão difícil pra elas apreciar as coisas simples.

Se lembrava claramente de um dia que a sua antiga professora levou agua e sabão para sua turma, ela deu um pouco para cada aluno e deixou que cada um fizesse sua mistura. Quando ela os levou para o lado de fora da classe, cada aluno começou a soprar e fazer suas próprias bolhas, até que alguns se cansaram e começaram a correr e estourar bolhas alheias.

De ínicio, Alfie não se importou com a presença deles, ele estava ocupado fazendo suas próprias bolhas, até que ele conseguiu fazer uma bolha que era relativamente grande, boquiaberto, observou o percurso da bolha até que bateu um vento e a trouxe direto para os dedos de um de seus colegas.

Foi a primeira de muitas vezes que Alfie chorou escondido na escola, não entendia qual era a graça de estourar bolhas, aqueles pedaços de sabão e água preenchidos de ar eram lindas, de acordo com a luz eles varaiavam as cores e podia ser de todos os tamanhos possíveis.

Continuou seu trajeto, mas dessa vez com um sorriso no rosto. Percebeu que tinha encarado a menina por tanto tempo que a mesma o encara de volta, Alfie acenou e deu um sorriso, a pequena fada riu tímida e acenou de volta. Lembrou-se que quando a professora o encontrou chorando e entendeu o motivo do choro ela o ensinou que se ele molhasse a mão com água e sabão ele poia colocar dentro da bolha e ela não ia estourar, depois das lágrimas serem secas, Alfie testou o que sua professora lhe disse minutos antes e acabou a tarde em diversas gargalhadas.

Nesse meio tempo, Alfie achou uma placa que sabia ser da rua da casa da avó, tomou a direita e seguiu em frente. O real motivo de Alfie gostar de bolhas de sabão é porque ele se identificava como uma.

Ele era frágil e guardava coisas demais dentro de si, as vezes por medo, as vezes por não ter com quem compartilhar, as vezes por simplesmente não querer, as vezes não há motivo para as nossas vontades. Assim como as bolhas, se fazia grande e pequeno, as vezes voava um pouco e estourava, outras vezes alçava voo até perder a vista.

Alfie acreditava em coisas concretas, não existia meio termo, ou era sim ou era não, ou se era feliz ou se era triste, ou se tinha sucesso ou fracasso. Mas também acreditava que as vezes coisas boas vinham difarçadas de ruins e ele achava todas essas características nas bolhas.

Frequentemente, bolhas que você nem se importa são as que voam mais alto e as maiores, que mais brilham são as primeiras a cair no chão ou as bolhas estouravam ou voavam para longe, basicamente era nisso que Alfie acreditava.

Os momentos mais felizes de sua vida era quando suas amigas ou sua avó vinham com as mãos cheias de sabão e conseguiam ter acesso a um pouco desses sentimentos e emoções que ele guardava dentro de si.

Perdido nesses pensamentos, Alfie chegou a casa da avó, era uma casa pequena com um quintal grande, inúmeras plantas e gatos se encontravam ali, a casa era de uma amarelo que já se encontrava desbotado pelo tempo e a maioria dos móveis era de madeira, assim como o chão.

A casa era quente no inverno e fria no verão, era aconchegante, apesar dos cupins que se aproximavam pela madeira velha e de outros insetos que se aproximavam pelas plantas. Ele havia ganhado um quarto na casa, ele era amarelo igual o resto da casa, continha uma cama, uma banheiro, uma escrivaninha, duas tomadas e um ou dois pôsteres que ele havia posto ali.

Alfie abriu o portão da pequena cerca, a vó o esperava preocupada na porta, depois de explicado a confusão, a vó o abraçou e disse que o almoço estava na mesa, se sentou e comeu a deliciosa comida do fogão à lenha da avó, depois foi para seu quarto, pegou o celular e discou para Renata.

Notas finais
Espero que tenham se emocionado Fighting
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.