As crônicas das estações - Outono
3 Profecias
Notas iniciais
Entrou no portal com o coração quase saindo pela boca, ela sentira a morte de seu marido a centésimos de segundos atrás. A dor pesava-lhe no coração, mas não havia tempo para lutos. Ela precisava correr contra o tempo para tentar salvar Hanaros.
Quando pisou fora da espécie de buraco negro onde estava, se viu numa gruta escura e úmida. Não sabia onde se localizava, mas tinha certeza que ele a mandara para o local correto. Helena conjurou uma luz para poder visualizar o que estava à sua frente. As lágrimas percorriam – lhe o rosto, distorcido, pela dor de perder aqueles que tanto ela amava. Porém ainda havia ela seu motivo de estar ali.
– Quem adentra nesta superfície sombria, enquanto o caos está corroendo nosso mundo? – Perguntou uma voz rouca.
– Sou a rainha de Hanaros, última Fiorence que ainda permanece no trono. Busco Deigmons. – disse Helena.
–Rainha? – questionou a voz – E onde está o rei para juntos abrirem a dimensão do exílio e salvar nosso povo?
– E- ele não se encontra mais nesta dimensão. – falou com a voz entrecortada.
Helena pôde ver uma forma na penumbra da gruta, mas não ousou se aproximar mais.
– Eu avisei, alarmei a todos sobre o rei que ocupa o lugar errado, porém tem coração bom. Mas sua espécie não queria saber e mesmo assim o usou. Eu avisei que eles chegariam e acabariam com tudo e todos. Avisei que tudo aquilo que não foi dito seria a ruína de nosso povo. Eu avisei.
–Então você é Deigmons? – Perguntou Helena enquanto acalentava as duas crianças que choravam em uníssono como se sentissem a grande perda que sofreram.
– Então esses são os herdeiros do trono hanariano? – rebateu Deigmons com outra pergunta.
–Sim, de ambas.
– Não falo de divisões, me refiro à verdadeira Hanaros. A dos tempos antigos, dos reis divididos.
Helena teve um sobressalto ao ouvir o oráculo mencionar os reis divididos.
– Os grandes já previam, são eles. Desde o início dos tempos estava escrito que haveria uma batalha, final e decisiva. Uma batalha que porá fim nos receios dos hanarianos. Esta batalha que acontecerá de maneira improvável trará os grandes do passado e os que já se foram. – concluiu Deigmons.
–Como assim? – Perguntou a rainha – Isso não pode acontecer, Hanaros jamais fora unida em várias gerações. Para eles estão reservados diferentes destinos. O outro herdeiro do trono é... É um protegido Aleivim, ele fora aceito pela essência, infelizmente.
– É mesmo? E quem seria a outra escolhida para o trono de Hanaros h’qeju?
– E-Eu não sei.
– Interessante...
–Por que a pergunta caro oráculo? – perguntou a rainha. Ela sabia que algo estava passando despercebido por seus olhos.
– A família Aleivim fora corrompida por uma atual descendente, vejo a maldade e cobiça não em todos, mas em um sim, trouxe e trará a desgraça para muitos. – disse reflexivo Deigmons, ignorando a pergunta dela.
– Mas o garoto não é de fato um Aleivim, e mesmo se fosse, a família serviu a nossa família por longas eras. Ele foi o único em todo reino capaz de conter a essência... Ou você quer dizer que ele não fora de fato aceito?
– A essência não é a mesma há algum tempo, como disse, muitas coisas foram corrompidas ao longo das eras.
–Bem, o senhor não disse.
–Não? – Deigmons fez uma pausa – minha memória também não é a mesma Helena. Mas estou lhe dizendo agora, toda Hanaros fora corrompida. Desde o tempo do governo Locf e isso significa que a era da vitória total se aproxima.
Ela nunca ouvira falar daquele tal governo. Sua cabeça dava voltas.
–Não entendo.
– Você não conhece a profecia? Ora, que espécie de rainha é você?
–Não a conheço, poderia me dizer? – Helena estava confusa, tinha vontade de chorar, mas naquele momento parecia que as lágrimas fugiram-lhe dos olhos.
– No início dos tempos, quando Hanaros era uma só e seu povo era unido, a morte era inexistente, a dimensão final também.
A rainha sentou- se no chão úmido da gruta, as duas crianças já lhe pesavam nos braços. Ela se deu conta de que não vira ainda o rosto do oráculo, mas naquele instante aquilo não importava. Ela só queria entender porque aquilo tudo estava acontecendo e o que fazer para salvar as duas crianças que dormiam em seu colo, e qualquer forma de obter a resposta seria vantajosa.
– Inimigos não assombravam nosso mundo – continuou – só a paz e harmonia estava presente. Porém, como nada permanece igual para sempre, um portal aberto para o mundo humano fez com que uma espécie, se assim podemos dizer, de seres mágicos descobrisse as mais repulsivas emoções como, inveja, ódio, rancor e outros. E quando retornou, essa espécie queria tomar o controle de todos os mundos, todas as dimensões. Então, dois reis se uniram para tentar acabar com aquilo, mas um dos soberanos não conseguiu vencer a sede de poder de sua espécie e então não haveria saída a não ser criar a dimensão exílio – para onde iriam todas as criaturas daquela espécie e qualquer outra que tivesse o coração maculado, e o mesmo também foi para lá – e a dimensão final, para onde iriam todos os seres que morreram lutando para salvar todos os mundos, e também os grandes reis do passado, que a partir daquela era teriam que dar sua vida a cada seis eras, para que outros reis pudessem cumprir seu propósito ocupando seu lugar, e derrotando os inimigos, caso precisassem.
– Então é verdade tudo que falam sobre eles? – interrompeu Helena.
– Espere você não me deixou terminar de falar. – pediu o oráculo — Bem, isto é o que os seres dizem, mas nós sabemos que não se deve acreditar. Na maioria das vezes os mocinhos também são vilões. Na realidade uma coisa está errada há muitas eras, porém tudo se acertará quando novos reis surgirem, e esses por sua vez, unificarão Hanaros novamente.
–Então você está sugerindo que Hanaros seja unificada novamente com a união dos herdeiros de ambas Hanaros?– perguntou Helena de uma forma não muito clara.
–Não estou sugerindo, estou dizendo que esta é a única saída. Se algum dia quisermos paz em nosso mundo.
–Não quero paz, quero justiça. Que aqueles seres repugnantes sejam mortos um por um.
– Entendo sua parte vossa alteza. Mas quero que tenha em mente que nem todo mago é melta e nem todo Nixge é bom.
Helena não compreendia aquelas palavras. O que aquele oráculo estava querendo insinuar?
–Então os verdadeiros herdeiros do trono...
– Estão a dormir em seu colo. Eles são o futuro de Hanaros.
– E os outros? – perguntou.
– Eles nunca seriam dignos de tal coisa. Embora agora sejam apenas crianças, o veneno já começa a penetrar pelas frestas descendidas de seus corações.
Helena não entendia o que o oráculo queria dizer, sua mente estava mais emaranhada que os fios de linho que compunham as tapeçarias do reino.
Ela apoiava os bebês em seu colo. Enquanto isso a voz de Deigmons fazia uma longa pausa como se recuperasse o fôlego.
– Retornando. Felizmente nunca houve necessidade de reis morrerem pelas mãos dos Magos – prossegui Deigmons – até agora. Desde aqueles tempos de outrora foi escrito, que duas crianças, a salvas em outro mundo, teriam nas mãos o destino de toda Hanaros. Os imperadores. Mas quem disse que seria fácil? Vossa majestade não poderá permanecer viva, as crianças precisam da proteção que a morte dos pais traz até os dezesseis anos humanos. Além disso, com os reis mortos o inimigo pensará que venceu, porém, será só um artifício para que os imperadores e escolhidos saiam deste mundo sãos e salvos. Em seguida uma longa jornada os espera, a morte dos reis sem herdeiros em idade ideal para ocupar o lugar, acarretará o isolamento da Hanaros central, quero dizer h‘qeju e h’dexs, de todas as outras dimensões. Os Magos voltarão a sua dimensão do exílio, porém findados os dezesseis anos não haverá magia para mantê-los lá. Então dois portais serão abertos, e os futuros reis, unidos aos dois escolhidos, que deverão ajuda-los nesta missão, terão que conseguir encontrar as joias elementais... – Deigmons estava pensando quando parou de repente — Você sabe o que são as joias elementais?
–Sim, já ouvi falar. São joias que tem o poder de libertar a essência maior do coração de ônix e assim abrir todos os portais, e juntar todos os seres. Mas isso não é bom. — a rainha sentira a espinha gelar ao ouvir falar de sua morte que viria logo mais, mas mesmo assim não se deixara abalar. Precisava salvar seu povo e as duas crianças.
–Mas será preciso, tudo se esclarecerá na hora certa minha rainha. – Helena pôde ver a sombra de Deigmons se mover até um local, para logo após retornar com um grande livro em mãos e estende-lo a Helena. A mão dele era enrugada como uma ameixa seca. — este é o livro de Vornek, que tem alguns dos segredos hanarianos, entre eles o da profecia, e principalmente a localização das joias elementais. Deveria ser passado no tempo certo, e este é o tempo.
Helena o recebeu, e logo depois o guardou no Rifind·. As lágrimas voltaram a invadir seu rosto, porém esta não teve muito tempo para chorar. O teto da gruta estremeceu brutalmente.
– Vá, é chegada a hora.
– E as crianças?
– Seu coração saberá o que fazer.
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