As cores de Jurema
2 Capítulo 1
Minha história, a parte que importa, começa em 2013, no 9º ano. Foi quando entrei no Colégio Corpus Christi. Apesar de, para a maioria das pessoas, a mudança de escola parecer brusca, para mim foi totalmente indiferente. Não tinha muitos amigos no meu colégio anterior (que faliu, por sinal), então vi no CCC uma chance de recomeçar o que quer que tivesse sido começado por mim antes. Nem sei explicar o quão romântica e sonhadora eu era naquela época...
Nasci em 2000. Com 13 anos, a faculdade era como uma utopia: parecia que minha hora nunca iria chegar. Queria letras. Ser escritora, trabalhar numa editora... Mudar o mundo com minhas palavras, ainda que só tivesse chegado ao ponto de escrever sobre um garoto e uma garota que ficavam juntos no final. Mas eu era muito nova, — diziam meus familiares e professores — tinha muito tempo para pensar no que realmente seria melhor pra mim. Como se o melhor pra mim fosse ter uma conta bancária com infinitos dígitos...
— Meu nome é Cíntia — disse, minha primeira amiga no CCC.
— O meu é Melissa — apresentei-me.
E conversamos sobre os seriados do canal 1 e sobre o quão ultrapassados estavam os desenhos animados; já tínhamos 13 anos, afinal.
Isso aconteceu no meu primeiro dia de aula. E de novo no segundo. E de novo, de novo e de novo...
Cíntia foi minha melhor amiga durante o nono ano inteiro. Era engraçada de uma forma meio cruel, mas eu não me importava. Me defendia das brincadeiras estúpidas praticadas por aqueles meninos idiotas com quem eu não falava direito e eu era muito agradecida por isso. Ela era um pouco metida, não posso negar, mas não era a típica patricinha dos filmes americanos; esse posto já estava ocupado por outras. Não que isso fosse um problema. No geral, toda a sala se dava bem. Havia o grupo das garotas populares e o grupo dos garotos populares, que costumavam estar juntos; havia o grupo dos estudiosos, que às vezes se misturava com os anteriores; a dupla inseparável de dois garotos solitários; as meninas precoces que estavam sempre admirando os terceiranistas e, bom, o grupinho de garotas alternativas, que era o meu.
Éramos garotas muito diferentes e era Cíntia quem nos unia. Manuela era a mais estranha entre nós: estava sempre ouvindo música, pintando a parte de trás do cabelo, se apaixonando por meninos (e meninas, mas só agora eu sei disso), desenhando vestidos e sonhando em ser modelo. Ela era gordinha. E virginiana. Thaís, a mais inteligente. Evangélica, sequer falava em garotos e amava tudo e todos. Jamais foi vista mentindo ou fazendo algo inadequado. Tinha o cabelo mais longo e liso (e natural) que eu já havia visto na vida, e um rosto muito bonito também, mas considerava a vaidade algo desnecessário. Sua mãe a abandonara; morava com a irmã mais velha, o irmão mais novo e o pai. Este último, muito conservador. Não me surpreendia ela ser tão politicamente correta. Contraditoriamente, aquariana. Cíntia era magérrima, altíssima e de cabelo alisado no ombro. Não era considerada bonita. Mas era geminiana, então, talvez por esse motivo, era a mais sociável de nós: conseguia manter diálogos com os demais grupinhos sem se sentir ameaçada. Eu e Thaís sentíamos medo deles e Manu, bom, só falaria se quisesse discutir, porque isso ela amava. E paralela a todas essas panelinhas sociais, estava Iasmim: altura certa, magreza ideal e lindos cabelos cacheados e negros que chegavam ao meio de suas costas. Canceriana, mas dificilmente mostrava características do signo, diferente das outras. Iasmim tinha a maior facilidade do mundo em conversar, fazer amizades ou apenas estar lá. Migrava de grupinho em grupinho, fazendo com que todos a amassem e quisessem tê-la por perto. E eu, bom, era só eu. Não a mais inteligente, a mais legal, a mais normal ou a mais criativa. Apenas eu. Baixa, cabelo castanho e o corpo mais tipicamente normal possível: nem magro, nem gordo, nem com bunda. A característica que mais se aproximava do termo legal possuída por mim era ter sido abençoada com genes recessivos que me tornaram canhota. E só.
No fundo, eu sabia que as invejava. Invejava a beleza indiscutível de Iasmim e sua habilidade em fazer todos se apaixonarem por quem era, a inteligência e a fé inabalável de Thaís e o modo como Cíntia se sentia extremamente confiante em ser ela mesma, ainda que às vezes pudesse ser considerada venenosa. Mas de todas elas, a que eu mais invejava era Manuela, com sua capacidade de se adequar a situações tão diferentes, sua autenticidade e a forma como ela não parecia se preocupar com nada ao seu redor, a não ser com ela mesma. Manu era a mais estranha, sim, mas não seria dessa maneira se não quisesse. Ela era exatamente quem queria ser. E isso me encantava. Eu também sou virginiana, afinal.
Demorei cerca de 2 meses pra me adaptar ao Colégio Corpus Christi. E com me adaptar, quero dizer sentir-me confortável pra tirar dúvidas durante a aula e falar na frente da turma ao apresentar algum trabalho. Nunca fui tímida, mas naquela escola, tão diferente de tudo com o que eu já estivera acostumada, me sentia burra e deslocada. Foi dentro deste intervalo de 60 dias, ao cultivar as 4 amizades que me acolheram de início, que passei a observar cada colega de classe na tentativa de entender porque eu parecia ser tão diferente. Cheguei a uma dolorosa conclusão: eu não tinha personalidade. Todos ali, até mesmo Henrique, o garoto vesgo que tinha um único amigo, tinha suas próprias características, por mais desprezíveis que elas fossem. Mas eu não. Eu era apenas uma mistura de fragmentos pouco interessantes de pessoas que eu gostava, de ídolos adolescentes, de personagens de séries. Ainda assim, nada que merecesse muita atenção. Eu era um pontinho excluído no meio de todas aquelas pessoas cheias de vida que estiveram desde cedo naquela escola enorme. Só hoje eu sei disso: o Corpus Christi pode esmagar você se quiser. Mas com 13 anos, tudo que eu queria era me sentir parte de algo. Algo grande, como aquele colégio parecia conseguir nos tornar. Os alunos do CCC eram a alta sociedade dos adolescentes de nossa cidade e eu passei a querer, de maneira desesperada, ser, oficialmente, um deles. Então eu resolvi, estupida e precipitadamente, pela primeira vez em minha vida, mudar quem eu era. Não que isso fosse gerar algum arrependimento. Afinal de contas, eu não era muita coisa.
Fale com o autor