As cores da carne

2 Carmin - A floresta de faces


Notas iniciais
Assim como para o capítulo anterior você deve se lembrar de que trechos em negrito representam falas e trechos em itálico representam momentos do passado.

Meus olhos se encheram de lágrimas. Ela estava ali no quarto e se abrisse o armário me acharia. Naquele momento tudo que eu desejava era ter meus amigos de volta e que minha única preocupação tivesse sido meu beijo com o Brian.

Acordei num dos solavancos do ônibus, digamos que o motorista não me pareceu confiável desde a hora que avistei-o na quadra do colégio. Olhei pela janela e vi que estávamos cercados por um túnel formado pelas copas das árvores. A imagem daquela figura assustadora ainda pairava pela minha mente, mas ia embora lentamente enquanto eu piscava os olhos para me acordar. O ônibus ia em alta velocidade. 7h40. Há uma hora e dez minutos em alta velocidade e ainda não havíamos chego. Pelo menos o risco de acidentes envolvendo outros veículos era praticamente impossível pelo que percebi. A estrada estava completamente vazia. Olhei para o banco ao meu lado, vazio. Onde estava Brian? Olhei para frente e percebi Colin adormecido e Char com fones de ouvido se sacudindo no ritmo da batida de alguma música eletrônica que ela gostava, provavelmente gastando toda a bateria que lhe restava no celular. Eu havia deixado meu aparelho em casa pois sabia que seria impossível que a bateria durasse pelo mês todo além do grande risco de perdê-lo em meio à mata. Brian surgiu por trás de mim encostando em meus ombros me dando um enorme susto que me fez pular. Ele riu. Ele sentou-se ao meu lado e ficou me encarando com um sorriso desajeitado. Corei. Percebendo ele ficou sem jeito e tentou puxar assunto. "E ai? Preparada?" "Aham." "É, um mês sozinhos na selva, não vai ser fácil, haha." Charlie se virou e disse com um tom de voz que me pareceu grosseiro e debochante: "É uma floresta, não uma selva, não estamos indo para a África, mané." Ela se ajeitou novamente em seu lugar virando-se para frente e pareceu apertar botões freneticamente para aumentar o volume do celular. "Acho que ela está estressada pela viagem." Exclamei para Brian tentando esfriar o clima. "É..." Ele respondeu meio indeciso e logo em seguida refutou. "Não. Não é minha culpa se ela gosta de mim. Ela é uma boa amiga mas eu nunca ficaria com ela, ela é rude e grossa o tempo todo comigo." "Ela fica assim por ciúmes." "Também não é minha culpa se eu amo outra pessoa." "V-você a-ama... Espera, você está falando de mim?" "S-sim" — ele respondeu — "Estou falando de você, eu te amo..." Ele segurou minha mão direita que estava apoiada no braço do meu assento. Rapidamente ele observou Charlie pela fresta dos bancos da frente, ela estava com a cabeça encostada no vidro do ônibus e com fones de ouvido, parecia a ponto de adormecer, então as chances de ela ter ouvido o que ele disse eram mínimas. Colin também, parecia adormecer como uma pedra, até roncava suavemente, mas alto o bastante para que pudéssemos ouvir sem esforço. Brian me olhou fixamente com seus olhos cor de mel. O cabelo ondulado castanho estava amassado em sua testa. Por um momento ele até pareceu atraente. E pensando bem ele era o garoto mais legal que eu conhecia. Mas eu não amava ele. E eu não poderia trair a Char assim nun... Ele me puxou de meu banco com força para perto dele e me beijou interrompendo qualquer pensamento de culpa que eu pudesse ter no momento. Os lábios dele encostaram nos meus suavemente. Macios. Vagarosamente ele abriu a boca e me beijou mais ferozmente. A língua dele tinha gosto de marshmallows... Isso me fez lembrar que havia visto ele com uma sacola com pacotinhos de marshmallows antes de entrar no ônibus. E também me lembrou que não havia comido o lanche que havia comprado, ou seja, meu estômago estava completamente vazio. Bluuurh. Meu estômago roncou. Senti os lábios dele formarem um sorriso de deboche ainda encostados aos meus. Por algum impulso tive uma vontade de beijá-lo de volta. E o fiz. Minha barriga roncou de novo e então me afastei bruscamente. O que estava fazendo? O que Char ia pensar se descobrisse? Ela nunca me perdoaria. Me encostei ereta no banco. Puxei minha mão para fora das dele. "Isso nunca aconteceu. Nunca, entendeu?" "Ahn... Ok... Eu não vou esquecer!" Ele abriu um sorriso radiante de orelha a orelha. "Idiota. Só... Só nunca fale disso para ninguém que já está bom." Retruquei. Ele fechou a cara e curvou as sobrancelhas num movimento triste. "Você vai alguma vez deixar eu te beijar novamente? Eu te amo, Kaya! E eu sei que você gostou do bei..." "Pare."

Me encolhi no meu assento e puxei a sacola com o mini croissant e a caixinha de suco. O gosto de marshmallows foi embora no primeiro gole. Gosto de suco de laranja e abacaxi, somente.

8h50. Já era possível avistar os muros do parque no horizonte, mais dez minutos e chegaríamos. 9h05. O ônibus passou pelos portões. A esse ponto todos os dorminhocos já estavam acesos e fora de seus assentos para se pendurarem nas janelas e observarem a floresta. Brian foi um deles. Saiu do meu lado e tinha ido em uma das primeiras janelas da frente do ônibus. Provavelmente mais para evitar uma situação constrangedora do que para observar a paisagem. Colin era o único sentado em sua cadeira. Acordado, de cabeça baixa, estremecendo. Char já havia guardado seu celular já sem bateria e observava quieta a janela. "Char?" Eu chamei-a. "Oi, Ka." Ela respondeu num tom meio triste. "Ele é um babaca. Não deixe ele te torturar assim, ok? Ele é um bom amigo nosso, mas não deixe ele te desprezar assim, e eu também estou ignorando ele, ok? Logo ele também vai esquecer disso tudo e se for preciso a gente se afasta dele." "Ok." Foi tudo o que ela disse ao mesmo tempo que virou para frente no seu lugar me deixando com um fim desconfortável de conversa. Minha consciência pesava. Minha melhor amiga. Eu a havia traído, e pior, era meu primeiro beijo e eu não podia contar para ela. Acho que eu teria de fazer de tudo para esquecer, o que seria difícil durante o mês que seguiria que provavelmente será nomeado por mim e pela Char oficialmente como mês do constrangimento numa floresta assustadora.

Novamente os professores foram quem quebraram o clima ruim que tinha ficado, desta vez entre mim e a Char. Fiz Colin trocar de lugar comigo quando eles começaram a falar para comentar com a Charlie tudo o que eles falariam. "Bom, pessoal, tínhamos deixado isso em suspense até agora, mas como um acampamento de terror, além da sobrevivência, terá uma eleição de melhor time e isso será decidido ao final do mês onde cada grupo deverá ir à nossa casa de hospedagem no dia 29 às 14h para se reunir e escrever um relatório contando quantos e quais itens escondidos vocês encontraram e relatando os mistérios que vocês conseguiram solucionar."– disse o professor Patric. A professora Delin continuou explicando "Tomem muito cuidado e se lembrem do treinamento que fizemos para essa excursão. E lembrem-se também que as facas e estiletes que vocês trouxeram servem APENAS para juntar madeira, cortar cordas ou coisas do gênero, não ataquem ninguém que represente ameaça para vocês pois são todos figurantes atuando pela escola, caso tenham dúvida é só apertar o bipe que a equipe médica e eu iremos ao encontro de vocês para solucionar qualquer problema." Todos concordaram em silêncio apenas acenando com a cabeça. "Engraçado como todo mundo aqui tem uma mente mais estrategista. Se isso fosse um acampamento de líderes de torcida todo mundo já estaria se atacando e se provocando." Comentei. Char riu. "Verdade!"

As palavras passaram ao professor Dant. "Um último aviso, cada grupo de alunos será deixado em um local a uma hora de distância de cada ponto, o parque é grande e queremos as equipes se virando sozinhas pelo menos no início. Se se encontrarem não há nada de errado em se juntarem para juntar pistas e concluir mais mistérios. Contudo, a premiação final será com base com o que cada grupo de quatro alunos encontrou. A primeira parada será ao meio dia na base dos professores para todos almoçarmos juntos e a partir da 13h cada grupo será deixado em seu ponto, sendo o último grupo liberado às 18h. O mapa e o bipe de cada equipe será entregue a cada equipe quando sair do ônibus."

O caminho a partir dali foi relativamente tranquilo. A mata era silenciosa e fechada e cercava toda a estrada. 11h45. Chegamos à primeira parada. A casa de estadia dos professores fica numa clareira em meio à floresta. Era uma casa marrom, grande, em estilo vitoriano. O ônibus parou e todos nós descemos. A equipe estava junta novamente: Colin, Brian, Charlotte e eu. Dessa vez o clima tinha voltado ao normal, estávamos os quatro ansiosos pelo início da excursão — Colin de uma forma mais afobado do que feliz com a ideia — e morrendo de fome. O croissant e o suco tinham servido de forro para o estômago mas não o suficiente para matar uma fome que desde aquela hora já tinha crescido bastante.

Entramos pela porta dupla principal, passamos por um grande hall de entrada com um lustre chamativo e seguimos reto entrando num grande salão com duas grandes mesas de madeira e ao meio delas uma mesa de toalha branca dispondo de uma grande variedade de comidas. E eu pensando que meu jantar da noite anterior tinha sido o último com tantas opções quanto as que ali tinham. Nos sentamos na ponta da segunda mesa, eu e Charlie de um lado e os garotos do outro. Assim que os professores permitiram nos levantamos e nos servimos. Eu peguei um macarrão spaghetti à bolonhesa, cenouras, beterraba, um creme de milho e um frango à milanesa. Estava morrendo de fome. Peguei um suco de morango para acompanhar e um pudim de leite para a sobremesa.

Depois de comermos todos os alunos voltaram para o ônibus e somente o professor Dant seguiu com a gente. Dant era um bom professor mas digamos que as aulas dele eram meio entendiantes, então ter ele como orientador no ônibus não era a melhor coisa do mundo. Foi só a primeira equipe descer do ônibus que eu apaguei.

18h30. Acordei com árvores batendo na janela do ônibus. O caminho estava estreito e o ônibus se sacudia. Colin parecia aterrorizado no banco à minha frente — trocamos de lugares ao voltarmos para o ônibus, Brian sentou com Colin e Charlie comigo. Enquanto isso o resto da minha equipe adormecia. Só restávamos nós e o professor no ônibus. Pelo que parecia fomos a última equipe. A floresta já escurecia e minha barriga estava a roncar novamente. Colin se virou assustado ao ouvir os barulhos. "Sou só eu. Quis dizer, meu estômago. Desculpe." "Ah, ahn, tá tudo bem."– ele corou. Resolvi tirar minhas dúvidas já que ele parecia não ter piscado o olho desde que entramos novamente no ônibus. "Todas as outras equipes já desceram?" "S-sim. Eu não quero ir!" "Já são 18h40, não devíamos ter chegado ao nosso ponto às 18h? As outras equipes tiveram parada pontual?" "Sim, todas já foram e desceram do ônibus exatamente com uma hora de diferença à partir da 13h... Menos a gente, eu não sei porque não paramos ainda, já estava apavorado e agora ainda mais. E para piorar o professor Dant dormiu, não faço ideia de onde esse motorista está nos levando." "E por que você não falou com o professor, Colin?" "Ahn..." "O que houve?" Interrompeu Charlie que tinha acordado num solavanco. "Nada, eu já vou resolver." Levantei-me e fui em direção aos primeiros bancos onde o professor Dant suspirava em sonhos tranquilamente. "Professor?"– cutuquei ele. "Ahn... Oi Kaya." "Não devíamos ter parado já?" "..." "Já são 18h47 professor!" "Ah, não, não, é que o caminho para o último ponto é um pouco mais longo. Já estamos chegando!" "Ok..."

Voltei para o meu lugar e expliquei para o meu grupo, que agora estavam todos acordados e um pouco desesperados, a desculpa do professor, que pessoalmente não me era nada convincente. Parecia mais que ele tinha perdido o ponto e não havia se ligado disso enquanto aquele motorista bizarro nos levava para sei-lá-onde.

Finalmente, uns 10 minutos depois de eu avisar o professor e ele dar coordenadas ao motorista que parecia mesmo estar indo para o lado errado, o ônibus parou. Nós quatro nos levantamos, juntamos nossas coisas e fomos rumo a saída onde o professor nos entregou o bipe e o mapa prometidos. Com o pé numa floresta quase completamente escura eu disse: "Acho melhor levantarmos acampamento aqui mesmo, não tem mais muita luz e montar barracas à luz de lanternas não seria muito agradável numa floresta fechada como essa." "Concordo!"– exclamou Char, e os rapazes acenaram em concordância também. Nos dividimos eu e Char para o lado direito do caminho por onde o ônibus parou e os garotos do lado esquerdo e todos rapidamente começamos a montar nossas barracas. Com barracas montadas, colchonetes esticados dentro delas e todos nossos pertences devidamente guardados, nos juntamos com um pouco da comida que tínhamos levado no meio da estrada pela qual viemos, entre as barracas. Nos sentamos ali e preferimos não acender lanternas para não ter que encarar nenhuma das pegadinhas de terror que tivessem preparado e que poderiam estar próximas. Eu joguei no meio da roda 4 das 80 barras de cereais que eu tinha levado para o mês, Brian estendeu um pacote de marshmallows, Char tinha alguns pães recheados com queijo e presunto envoltos por um papel alumínio que tínhamos que comer antes que estragassem e Colin colocou junto com tudo isso um pacote de bolachas de maizena. No fim, eu que achei que teria que sobreviver sozinha na floresta apenas com barras de cereais acabei gostando mais da refeição no meio de uma floresta escura do que do banquete da hora do almoço. Depois de devorarmos os sanduíches, as barrinhas e a bolacha de Colin sobraram os marshmallows. Eram 23h18. Suspeitando que não haveriam pegadinhas a essa hora, pois apesar de ser um acampamento de terror e sobrevivência, acho que botar crianças do primeiro do ensino médio pra correr numa floresta escura não devia estar nos planos dos professores, concordamos com Brian que fazer uma fogueira para derreter os marshmallows seria uma boa ideia. Como toda ideia tem seu dono e nesse caso era o Brian, ele foi o enviado para cortar gravetos para acendermos uma fogueira, enquanto nós três, sentados aonde estávamos pegamos pedras das margens do asfalto. Brian estava a poucos metros adentro da floresta e era possível vê-lo cortando pequenos galhos de uma árvore baixinha. De relance vi ele sorrir para mim. Abaixei cabeça envergonhada com aquilo e vi o pacote de marshmallows na minha frente e me lembrei do beijo. Me senti feliz por ter lembrado daquilo naquele momento, mas ao mesmo tempo culpada por causa da Char e confusa com meus sentimentos. Até onde eu sabia eu não gostava do Brian mais do que como um amigo. Mas os marshmallows daquela manhã talvez tenham mudado isso.

23h50. As pedras estavam já arrumadas para a fogueira em nossas frentes. Brian ainda cortava galhos da árvore. Um barulho veio da direção em que chegamos com o ônibus. Era alguém. Alguém na estrada andando lentamente. Brian também ouviu de onde estava e olhou para a gente. Coloquei o dedo na boca simbolizando para que ele não fizesse nenhum barulho. Charlie segurou minha mão apavorada. Lágrimas corriam dos olhos de Colin, silenciosamente. Todos olhamos juntos para a direção do som. Lá estava, a figura preta do parque. Nas sombras, ela andava em nossa direção como se ainda me encarasse. Meu coração acelerou. Vi Brian ao longe rir silenciosamente e senti Char aliviando a pressão que fazia ao segurar minha mão. Colin ainda chorava. Charlie cochichou em meu ouvido: "É só um dos figurantes que a professora Delin mencionou, ufa. Eu tinha me assustado." Não. Se fosse um figurante porque teria me perseguido naquela manhã? Quem era aquela pessoa? Chorando em pavor respondi à Char: "Não Charlie, não é um figurante." Naquele momento minha preocupação com a consciência pesada por não ter resistido ao beijo do Brian era a última coisa que me passou pela cabeça.

Vi a maçaneta do armário girar. Era o fim.

Notas finais
Obrigada por dedicar seu tempo a essa leitura! Espero que tenha gostado e continue acompanhando.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.