As aventuras de uma Docete Ciclope
48 Capítulo 48
Notas iniciais

Fiquei abaixada no canto da sala de ciências torcendo pra que ninguém viesse até mim.
Estava morta de vergonha.
Como não teríamos aula de ciências eu achei que ali seria um bom esconderijo . . .
Os pensamentos continuavam a me matar.
O que diabos eu estava fazendo ? O que diabos o Nathaniel estava fazendo ? Tantas perguntas sem respostas . . .
E esse mistério todo em cima desse maldito ritual do Castiel.
Eu peguei o celular e fiquei mexendo na esperança do tempo passar mais rápido.
Foi quando ouvi alguém se aproximando.
Eu apertei o Bimbo e me encolhi mais . . . Torcia pra que fosse o Castiel ou o Lysandre. Eles pelo menos não iriam me encher de perguntas . . .
Mas não, era o Armin.
Ele parecia estar me procurando.
Que droga.
Logo ele que me viu naquela cena constrangedora com o Nathaniel.
Ele começou a andar em silêncio pela sala, e bem, ele não é idiota e logo me viu.
"Oi" ele falou me olhando encolhida no chão.
Eu respondi um “oi” nervosa.
Armin se sentou do meu lado.
"Pode deixar que eu não vim pra te encher de perguntas sobre o Nathaniel não. Só vim avisar pra ficar tranquila." assim que ele falou isso eu entrei em pânico, então ele completou "Nathaniel me explicou tudo . . . Sei lá, daquela vez tivemos um mal entendido também, então eu não quis tirar conclusão nenhuma." Admito que ouvir isso foi um alívio.
Ele puxou então o PSP dele e ficou em silêncio.
"ER . . . Valeu por não pensar nada de mais . . . " eu agradeci sem graça . . .
"OK."
Armin é bem calado, eu não sei como puxar assunto com ele . . . Aliás, sempre penso que posso estar incomodando ele, afinal, ele não quer largar o "mundo 2D" dele, então eu, sendo uma "3D" devo ser um estorvo.
"B-Bem, eu devo estar te incomodando né ? Você quer jogar, eu vou sair."
Ele falou com um tom mais impulsivo "NÃO ! Não tá incomodando não ! "
Ficamos nos olhando, ele parecia ter ficado incomodado com a própria atitude.
"Mas eu entendo se quiser sair de perto de mim . . . Desculpe." depois de falar isso ele voltou a atenção pro PSP.
Por uns segundos achei ele BEEEM menos bizarro . . .
Voltei a me sentar do lado dele.
"hmm . . . O que você tá jogando ? " Eu perguntei curiosa e pra puxar assunto.
"Não é nada hentai se quer saber, não dessa vez . . . Só um emulador de SNES. Estava querendo recordar meus tempos de infância esses dias e instalei aqui no PSP"
Devo admitir que eu não compreendia muuuuita coisa sobre jogos. Jogo uma vez ou outra mas até então eu não sabia o que era esse tal emulador que ele instalou.
Ele explicou de forma simples que era um programa que simulava algum console. Interessante até.
"Hmm, Armin, você falou de infância e me bateu uma curiosidade, como foi sua infância ? Você sempre gostou dessas coisas ? É interessante imaginar, você e seu irmãos são gêmeos, deve ter sido divertido . . . "
"Sim, foi sim. Eu e o Alexy já trocamos de lugar várias vezes. Quando um ficava de castigo o outro pra dar uma folga trocava de lugar. Como nós dois tínhamos a mesma tonalidade de cabelo, todos caíam."
Fiquei imaginando, parece realmente divertido, eu ia gostar de ter uma irmã gêmea.
"Isso foi bem fofo, você e seu irmão parecem ter uma relação bem próxima . . . E parecem se amar muito. "
"De fato. Alexy sempre se preocupou bastante comigo e eu com ele. Ele já trocou de lugar comigo também pra tentar me fazer ter amigos . . . Mas quando eu voltava pro meu lugar eles me achavam desinteressante. Alexy sempre foi melhor socialmente do que eu. Eu já troquei de lugar com ele pra fazer as provas dele."
. . . Quando o Armin falou isso, admito que me deu uma pontadinha no peito, me senti mal. Ele não falou com um olhar triste nem nada, mas sei lá, se chegou a esse ponto, ele realmente queria ter amigos, não ?
"Nossa, sério ? Mas se você é bom nas matérias, porque tira notas baixas ?" tentei desviar o assunto pois me senti desconfortável.
"Bem, porque isso é passado, agora eu não ligo muito pra estudos, admito. Prefiro perder meu tempo com jogos e animações do que estudando. Não acho que estudar vai me dar nada em troca, só perda de tempo." Ele pelo menos parece bem decidido enquanto fala isso.
"Mas . . . Você vai poder ser alguém, ter empregos legais." tentei retrucar.
"Bem, não acho que nada do que a escola propõe é legal. Eu gostaria de trabalhar desenhando ou programando algo, então prefiro perder meu tempo estudando isso do que estudando matemática, ciências e coisas assim . . . Ninguém aceita esse pensamento, e eu entendo . . . Mas não ligo. Pra mim, tirar uma nota que dê pra passar de ano já tá de bom tamanho."
Essa conversa é bem desconfortável . . . E o Armin é bem apático.
"Mas então é por isso que gosta tanto de jogar ? Porque quer trabalhar com isso um dia ?" perguntei novamente tentando desviar o assunto do ponto "incômodo".
"Também, mas é mais por lazer mesmo . . . Me entretém e me deixa feliz." ele falou com um olhar mais feliz. Nunca tinha reparado direito, mas os olhos dele são beeem bonitos, devo admitir.
"Hmm, e qual seu estilo de jogos favorito ? Que tipo de jogo quer fazer ?" me senti melhor ao ver que ele estava mais confortável.
"Eu gosto muito de Date Sim e novels. Mas gostaria de fazer RPGs."
Date sim ? Eu sei o que é Novel, mas não sabia o que era Date Sim.
Ele me explicou que eram jogos de encontro, namorinhos e tal. Tipo novels que são cheios de textos e alternativas, sendo que o foco é namorinho mesmo quando tem um background bem trabalhado.
Admito, nunca joguei nada desse tipo. Quando falei isso ele voltou pro "assunto incômodo".
"Apesar de tudo não faz diferença pra você, você poderia jogar por diversão mesmo, mas meu caso eu jogo mais porque gosto de ouvir o que os personagens têm a falar pra mim. Eles são sempre gentis comigo e sempre estão perguntando o que eu quero ou deixo de querer."
OK, se ele sempre volta pra esse assunto mesmo que sem querer, significa que devo saber mais.
"Mas . . . Por quê ? Quer dizer, você só joga porque quer ouvir coisas legais e não por diversão." perguntei com um pouco de dó.
"Tipo isso, eu gosto de jogar, sempre gostei, acho divertido, mas admito que maior parte do meu vício é mais porque eles me completam. Vem cá. Olha." Armin se aproximou mais e inseriu um jogo no PSP.
Pude ver abrindo uma tela com uma menina muito lindinha. Ele abriu um save dele e começou a me mostrar.
Ela realmente falava só coisas gentis e amorosas.
Muita coisa de duplo sentido, mas era gentil.
Acho que entendi. . .
"Mas, Armin . . . Eu acho que você não tem que largar os jogos nem nada, mas . . . Diminuir e tentar se socializar mais não te ajudaria a ouvir essas coisas gentis de verdade ?" tentei dar alguma solução, porque de fato, ele gosta de jogar essas coisas acima do normal.
"Não, porque gente igual esses personagens de jogos e animações não existem . . . Então prefiro ficar com os 2Ds" ele falou em um tom de "ponto final".
"Mas você nunca tentou se socializar ! Como pode falar isso ? "
"Eu já te disse que já tentei, MEU IRMÃO já tentou. Além do mais, eu já tive namorada. E ela falava coisas muito gentis pra mim . . . Tipo esses personagens 2D." NOSSA.
Isso foi um baque pra mim. Armin namorando ? Me senti tão estranha. Nem eu nunca namorei . . .
"Então, existe gente gentil, mas . . . Porque vocês terminaram ? Foi porque você se mudou pra cá ?"
"Não. Ela só estava comigo porque ela tava prestes a repetir de ano e queria tirar notas boas. Fiz tudo pra ela e no fim ela me largou. Não deu nem 1 dia ela já estava com outro. Aliás, ela sempre ficou com vários por aí, não sei como acreditei nela. Aliás, sei sim. Olha pra mim. Ela tinha razão quando falou que ninguém nunca ficaria comigo à sério. O que eu tenho pra dar pra alguém ? Não tenho boa aparência, tenho gostos "estranhos", sou o oposto do meu irmão . . . Mas eu nem ligo."
. . . Nossa . . . Armin . . . Eu nunca pensei que fosse achar plausível o vício dele nesses jogos . . .
"Armin, você é IDÊNTICO ao seu irmão. Então aparência não é desculpa ! Seu irmão é lindo ! Você mesmo disse que toda menina se interessa por ele." tentei por ele pra cima, mas ele parece ter uma estima beeem baixa.
"Mesmo sendo semelhantes, não somos iguais. Além do mais, ele sabe se portar perto dos outros, isso faz muita diferença, eu não vou fingir ser alguém que não sou só pra agradar os outros . . . "
Depois de ouvir a última frase do Armin eu senti uma pontada de raiva de mim mesma.
Sabe, eu também não tenho uma boa aparência, e bem, sou rodeada de pessoas.
Será que se eu agisse como sou de verdade eu teria tantas pessoas perto de mim ? Porque boa parte do tempo eu visto uma máscara.
Eu me acostumei com quem sou, eu sinceramente nem sei quem sou mais de tanto tempo que interpreto esse papel de "terráquea perfeita" que criei pra mim.
Minha vida toda eu luto pra ser normal, ser igual a todos os terráqueos, mas . . . Nunca parei pra pensar, será que sou feliz sendo aceita por eles ?
O Armin parece sentir falta de se socializar com as pessoas . . . Mas ele deixou claro que mesmo sem amigos ele é mais feliz sozinho sendo ele mesmo do que com gente que goste de uma máscara que ele venha a criar . . .
Nunca pensei que uma conversa com o Armin seria tão filosófica.
Nesse dia decidi que tentaria ajudar o Armin no que eu pudesse.
Eu não posso simplesmente virar as costas pra ele depois de tudo que ele falou.
"Você gosta bastante de tecnologia né ?" eu perguntei depois de um longo silêncio.
"Sim, adoro comprar equipamentos novos pra testa-los. Meu quarto é lotado de tralhas relacionadas."
Eu me lembrei que eu tinha alguns equipamentos ultrapassados de lá do meu planeta, pra ele seria algo interessante de se mexer. É uma tecnologia diferente da que tem na Terra.
"Hmm, eu tenho uns equipamentos em casa que você não encontra por aí com facilidade . . . Mas estão encalhados. Você gostaria de dar uma olhada ?" quando falei isso ele esboçou um sorriso.
Sei que ele é esquisito, BEM esquisito pra ser sincera, mas ele sorrindo não é esquisito como pensei.
Pensei que ver ele rindo seria meio "creepy" mas achei fofo e me senti bem comigo mesma.
"Mas você faz o que pra passar o tempo ?" ele perguntou.
"Ah, eu . . . Fico na internet, escrevo, faço coisas assim." admito ter me sentido uma pessoa tão sem sal ao falar minhas atividades . . .
"hmm, e tem vontade de fazer o que quando acabar o colégio ?"
"Eu queria muito . . . Não sei direito o que eu quero na verdade. Eu nunca paro pra pensar sobre isso . . . Me acho bem sem talento. Mas eu gostaria de fazer uma biografia um dia com meu diário." Eu fiquei com vergonha de falar que eu queria ser famosa com algo um dia. Tipo ser cantora ou atriz. Acho que é banal e fútil, ele iria rir de mim.
Quem diria, eu com medo do esquisito do Armin rir de mim.
"Entendi . . . Eu também me achava sem talento pra nada. Todos queriam ser cantores, atores, médicos. . . eu não me achava bom pra nada dessas coisas. Até descobrir o desenho e a programação. Eu me senti a vontade. Não são coisas que as pessoas dão muito valor, sabe . . . mas eu me sinto bem com elas então pouco importa. Além do mais, as pessoas não dão valor mas não vivem sem desenhos e programação na vida. Eu me sentiria bem em pensar que mesmo essas pessoas rindo de mim iriam depender de algo meu."
Armin realmente é bem decidido. Ele é uma pessoa admirável, como nunca reparei isso ?
Decidi que queria conhecer mais do mundo dele, pedi pra ele me mostrar os jogos dele, ele se aproximou e . . .
Aos poucos . . . Eu comecei a sentir aquela coisa de novo . . . Oh não
A última vez que eu senti isso eu estava com o Nathaniel.
O que está acontecendo comigo ?
Pior ainda: Porque isso está acontecendo justo com os meninos que eu mal tenho ligação ?
Eu comecei a me aproximar lentamente do Armin, e sentei entre as pernas dele pedindo pra ele me mostrar os jogos que ele tinha.
Armin parecia muito nervoso, e eu, internamente, queria gritar.
Eu me esforçava pra tomar controle do meu corpo, mas não conseguia.
Foi quando encostei a cabeça no peito do Armin e fiquei olhando fixamente pra ele.
Ele estava muito nervoso, e eu mais ainda. Aliás, mais do que nervosa, eu estava em pânico !
E o clichê aconteceu, Castiel entrou na sala.
. . . Fiquei feliz por um momento, afinal, alguém interrompeu seja lá o que eu faria.
Mas depois pensei: Era o Castiel.
Castiel olhou fixo pra nós dois, eu totalmente "oferecida" pro Armin.
Ele começou a mudar a expressão de espanto dele aos poucos pra raiva.
"EU SABIA ! VOCÊ MENTIU PRA MIM COMO SEMPRE !! AQUELA SUA HISTORINHA DE "ABUSO" !!"
. . .oh não . . .
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