As aventuras de uma Docete Ciclope
141 As aventuras de um robô com sentimentos
Notas iniciais

Neste exato momento, Armin tomou meu receptor e ousou falar que só me devolverá caso eu escreva mais a meu respeito no diário para que você, minha mãe, leia.
Obviamente eu descordei disso, mas ele facilmente me convenceu.
Eu espero que ele saiba que estou fazendo isso tudo contra a minha vontade.
De acordo com o Armin, eu devo proceder com as informações sobre a minha vida e dia dia nada empolgantes para a minha mãe saber mais sobre mim, seu filho.
Eu não pretendia aceitar, sendo bem sincero.
Entretanto, eu preciso do receptor de volta.
E conhecendo Armin como eu conheço, sei que ele de fato só me devolverá caso eu faça o que ele manda.
Armin me pediu para que escrevesse curiosidades ao meu respeito para nos aproximarmos e cá estou.
De tanto ler esse formato diário, eu sei bem como escrever em um.
Talvez saia um pouco semelhante a sua escrita mãe, por hábito de leitura e de certa forma referência.
Mas me esforçarei para passar meu verdadeiro eu em minha escrita.
Ele roubou o diário por uns instantes e separou uma página para que eu escrevesse.
No caso, essa página nada mais é do que a próxima pagina que seria escrita.
Provavelmente quando minha mãe vir a pegar este diário, ela irá abri-lo e ver que a página seguinte da qual ela escreveria estará ocupada com meus pensamentos.
Vamos começar isso logo pois não tenho tempo a perder.
Curiosidade 1: Eu me odeio.
Eu odeio a pessoa em que me tornei.
Odeio cada centímetro do meu corpo.
Odeio me olhar no espelho.
Odeio ler a meu respeito.
Odeio meu nome, apelido e qualquer forma que venham a me chamar.
Mas é meu destino.
Eu nasci exclusivamente para ser o que sou.
Então acredito que nasci para me odiar querendo ou não.
Não se culpe.
Não tem nada haver com vocês dois, mãe e pai.
É algo mais pessoal mesmo.
Eu me criei para ser o que sou, não tenho muito o que fazer.
Armin fala que pareço um robô inúmeras vezes, talvez de fato eu seja um.
Por mais que o Armin diga que eu posso mudar meu destino, eu não posso.
Se eu tentar, não prejudicarei somente minha pessoa, mas vou prejudicar minha mãe, meu pai, e até o Armin.
Posso vir a prejudicar muito mais pessoas, entretanto, não faz diferença pra mim, sendo bem sincero.
Eu não ligo.
Não tenho vinculo com ninguém e é esse vinculo que me une as pessoas das quais tento proteger caso meu destino mude.
Eu não posso sair desse loop.
Fui criado para isso.
Sei que causei raiva, dor e sofrimento para muitas pessoas, inclusive, as pessoas das quais eu deveria agradecer pelo simples fato de ter nascido, e só tenho como me desculpar.
Me desculpar por desgraçar suas vidas.
Me desculpar por ter nascido.
Me desculpar por odiar tanto o fato deles dois terem me gerado e colocado no mundo.
Eu devia me sentir agradecido por estar vivo, por ter tido a oportunidade de nascer, mas eu odeio o fato de ter tido essa oportunidade.
Eu fico realmente feliz de saber que minha mãe não se recorda da atrocidade que fiz para ela...Porque eu gostaria de ter essa sorte que ela teve de esquecer.
Mas eu não posso, eu preciso de todas as minhas memórias.
Se eu pudesse usar o neuralyzer em mim e esquecer de tudo que fiz e passei, eu faria sem dúvida alguma.
Não é como se eu tivesse boas lembranças das quais quero recordar, pelo contrário...
Acho que a única lembrança boa que possuo, é relacionada a Violette.
Ela gosta muito de plantas e flores, por conta disso passamos bastante tempo juntos no jardim e na estufa do colégio.
Eu cuidando das plantas e ela desenhando tudo ao seu redor.
E aqui entramos na curiosidade 2...
Curiosidade 2: Violette
Ela sempre foi silenciosa.
Sua companhia é serena e calmante.
Violette é uma pessoa que é sinceramente boa, gentil e muito dedicada.
Eu já conheci várias pessoas naquele jardim, e sem dúvida algumas, ela é a que se assemelha mais a uma flor.
Por um acaso seu cabelo arroxeado ajuda na impressão junto de seu nome.
A companhia de Violette é um tanto quanto refrescante e perfumada.
Não no sentido literal da palavra, mas em sentido figurado.
Na área onde ela se sentava, passei a cultivar violas, ou violetas, como preferir.
Um dia, após as férias de verão, ela notou que haviam varias violetas por ali, e assim, tivemos nosso primeiro dialogo.
Poucas vezes trocamos palavras de fato, mas passamos inúmeras horas juntos apenas apreciando a companhia um do outro.
Ela desenhando minhas plantas e tudo que eu criei cuidadosamente naquele jardim e eu cultivando-as.
Entre uma de nossa poucas conversas, eu passei a chama-la de Viola, aquela flor arroxeada também conhecida como Violette popularmente, que por um acaso, é seu nome.
Um dia, em meio a nossas pequenas trocas de palavras, ela começou a me comparar com a pedra jade, a mesma comparação que um certo cientista fez um dia.
Ela simplesmente começou a falar de como meus olhos eram idênticos a uma pedra jade, de como a cor era diferente de todo verde já visto por ela.
Por fim, ela falou que provavelmente meu nome havia sido derivado de fato da pedra...
Engraçado ela ter dito isso, pois o nome Jade, de fato saiu de uma pedra, e foi sugestão do Armin.
Eu tenho um anel feito de jade que ela me deu de presente uma vez.
É um anel simples e todo verde, tipo aqueles que se encontra em lojas com bugigangas chinesas.
Ela falou que era um agradecimento pelo canteiro de violetas.
Eu uso esse anel sempre por baixo de minhas luvas.
Eu gosto de lembrar da paz que eu tinha naquele canteiro e das horas que passamos em silêncio contemplando a companhia um do outro.
Isso leva a curiosidade numero 3...
Curiosidade 3: Jardinagem.
Se eu fosse ter uma vida pacata comum, sem sombra de dúvidas eu escolheria trabalhar com jardinagem.
Inicialmente eu adquiri esse emprego simplesmente porque estava escrito que seria meu emprego.
Fui instruído para tal cargo desde novo.
Entretanto, eu passei a amar a profissão.
É algo simples porém, que visa bem o que eu gostaria para minha vida.
As plantas se parecem um pouco comigo, e acho que parte disso colabora com meu apego pela profissão.
As plantas só vivem, não podem mudar seu destino, mas elas causam dependência a quem está ao seu redor.
Sem plantas, nosso ecossistema é destruído.
Sem plantas, o ar se torna irrespirável.
Sem plantas, não existiria vida na Terra.
Mas elas não podem andar, não podem fazer absolutamente nada, só ficam presas as suas raízes em terra aguardando alguma abelha passar seu pólen adiante para criar novas plantas e assim manter o mundo em ordem.
Sabemos que elas estão vivas mas que elas não vivem.
Elas não tem direito de conversar, interagir e sair por ai.
Como eu.
Eu estou vivo, todos sabem disso, mas eu não tenho o direito de "viver".
Tenho que me manter vivo porque o "ecossistema" depende de minha existência.
Sem minhas atitudes e vida preservada, muitas vidas e talvez toda a realidade fosse destruída.
Então só me resta me preservar até que minha hora chegue.
A hora de encerrar minhas atividades e passar o pólen a diante.
Sou uma planta, basicamente.
Existem casos que dizem que plantas possuem sentimentos e não transparecem, só em casos raros.
Existem relatos de plantas que estavam morrendo e ao encontrar a pessoa que te cultivou falando "não morra" elas pegaram forças para seguir em frente por saber de sua importância para aquela pessoa amada, provando assim, que plantas podem ter sentimentos.
Eu sou comparado com um robô, particularmente me vejo como uma planta.
Mas eu não sei bem.
Talvez o único motivo de eu ainda tentar me manter vivo seja porque as pessoas que me cultivaram pediram para que eu não morresse e porque eu saiba que a vida delas depende da minha.
Isso significa que tenho sentimentos?
Eu adquiri grande carinho por minha mãe mesmo sem conviver com ela.
Saber sua vida me fez me aproximar dela de certa forma.
Como aconteceu com a Violette, basicamente.
Saber o quanto ela estava ansiosa pelo meu nascimento me deixou extremamente feliz e me sentir desejado essa única vez em minha vida foi bastante satisfatório.
Mas infelizmente, não posso dizer que possuo aquele amor incondicional que um filho sente pela mãe, e vice versa...
Somente carinho.
Eu não convivi com ela, infelizmente.
Por outro lado, Armin foi o único que me estendeu a mão.
Ele me influenciou em muita coisa.
Se eu tenho algo bom dentro de mim, algo bom para oferecer ao mundo, é graças a ele.
Eu posso dizer que todo o amor incondicional que eu devia ter por minha mãe e por meu pai foi todo concentrado no Armin.
Sei que ele me odiava, ou odeia, bastante, mas,ele é uma das poucas motivações que tenho no momento.
Ele é quem me cultivou.
Sou basicamente uma semente plantada por Boreal e Nathaniel que foi esquecida em um pedaço de terra qualquer, e Armin chegou e completou meu crescimento me cultivando e me permitindo crescer como uma planta forte.
Não tenho muitas coisas empolgantes em minha vida, e sinceramente, não lembro de mais curiosidades das quais eu possa escrever.
Irei pular para o próximo pedido do Armin para esse texto.
Armin pediu para que eu fizesse uma trívia sobre mim para que minha mãe pudesse ler e me conhecer mais.
Eu não queria, mas irei obedecer ele, afinal, isso aqui não vai me fazer mal, certo?
Não é como se escrever algo para minha mãe fosse mudar meu destino todo.
Enfim, aqui está minha trívia.
*No futuro o cabelo da minha mãe está enorme, e eu achei que ficou muito bonito.
*Meu pai fica muito bem de terno. É uma das pessoas mais elegantes de terno que eu já vi.
*O Armin devia fazer trança mais vezes, eu gosto das ondas que ficam em seu cabelo quando ele solta.
*Aprendi a gostar de doces após comer em excesso no laboratório do Armin.
*Uma vez eu achei uma menina muito bonita no colégio e foi a única vez na vida que eu tive vontade de falar com uma menina e conhece-la, ela se chamava Violette. Talvez a conheça. Citei ela acima.
*Minha comida favorita são aquelas bolinhas de açúcar.
*Gosto de comer a comida gelada, sempre espero a comida esfriar ou ponho ela na geladeira.
*Nunca beijei ninguém.
*Eu cheguei a adotar um pássaro quando era criança, enquanto eu e era criado por eu mesmo, entretanto, ele fugiu.
*Eu consigo entender perfeitamente a escrita do Armin, e considero isso uma grande habilidade da qual eu devo me gabar.
*Minha flor favorita é violeta.
*Comecei a fumar aos 13 anos. Armin após conviver comigo brigou bastante comigo sobre isso.
*As bactérias do Alexy não funcionam em mim.
*Tenho belonofobia.
*Tenho nictofobia.
*Tenho claustrofobia.
*Não sou bom para compreender piadas e brincadeiras e facilmente tiram sarro de mim por conta disso, entretanto, sei contornar bem esse tipo de situação.
Acho que não tenho mais trívias para citar.
Armin saiu para pegar algo.
Ele disse que irrita trazer algo para nós bebermos.
Conhecendo ele, ele vai trazer algo muito doce como sempre.
Quando ele voltar mostrarei tudo que escrevi e aguardarei que ele libere o receptor para mim.
Eu acredito que ele ainda irá prender o receptor um pouco mais, afinal, ele disse que queria conversar comigo.
Me sinto em um colégio tendo que mostrar o caderno para o professor...
Professor Armin.
Essa manhã fui no jardim do colégio escondido.
Eu sabia que não encontraria a Violette por lá, obviamente, era bem cedo, entretanto, eu queria ver como estavam minhas plantas.
Queria saber se estavam sendo bem cuidadas.
Principalmente meu canteiro de violetas.
Fiquei grato de ver que estava tudo em ordem.
Gostaria de saber se a Violette ainda vai no canteiro.
Faz um tempo que não visito a escola...Estou sempre muito ocupado e não tenho tempo a perder como o Armin.
As bactérias não funcionam em mim, então eu tenho tempo contado.
Não tenho vida eterna nem nada do gênero como ele pôde adquirir através das bactérias.
Me agonia saber que ele está me prendendo aqui fazendo uma atividade tão inútil quanto escrever em um diário enquanto eu poderia estar em outro lugar fazendo algo realmente importante.
Cada minuto é contado para mim.
Eu não sei muito o que escrever, nem tenho muito o que escrever.
Mas espero que esse texto seja o suficiente para me conhecer bem.
As coisas daqui pra frente serão muito complicadas...
Muitas coisas desagradáveis estão por vir.
Sei que eu não devo me meter em nada, e assim o farei, não irei mudar nada, é nosso destino.
Entretanto, só gostaria de pedir uma coisa: Seja forte Boreal.
É muito triste ver o Armin sorrindo e brincando o tempo todo quando tenho certeza absoluta que ele está em pânico por dentro.
E você é uma das pessoas das quais ele mais tira forças...
Não vai ser nada fácil daqui pra frente, NADA FÁCIL MESMO.
Espere tudo que for possível de hoje em diante.
O destino que te aguarda e rodeia todos a sua volta, é o pior possível.
Mas, seja forte.
Sua força pode mover montanhas.
Sua força que controla o Armin.
Por sorte, você tem um grupo que te apoia e está disposto a te ajudar seja no que for.
No fim, sua missão será cumprida, e com ajuda de muitas pessoas que querem seu bem.
Eu cumpro minha missão totalmente sozinho.
Aproveite enquanto tem quem te ajude...
Nathaniel e Armin fariam qualquer coisa pra mante-la bem.
Enfim, gostei de escrever isso.
Pela minha leitura no diário, essa deve ser a única entrada que farei de fato, e confesso que é bom saber que estou tendo essa primeira e única conversa contigo, mãe.
Agora, eu te conheço bem, e você me conhece bem.
Sinto muito por não ter uma vida tão empolgante quanto a sua e por conta disso não ter muito o que escrever.
Deve ter sito uma das entradas de diários mais chatas já lidas.
Ainda assim, me tranquiliza saber que pudemos conversar.
Acho que entendi a intenção do Armin com isso.
Obrigado Armin.
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