Notas iniciais
“Poderia ter ficado ali, daquele jeito, por horas. Agora, reparou que faltou um “ele” no começo dessa frase? Isso por que ele não sabia que era ele. Não sabia onde estava ou o que “onde” era. E ele poderia ter ficado nessa letargia, aquela mesma letargia que se tem quando se acorda e se encara o teto pelos dez minutos seguintes sem nada na cabeça, o dia todo.
Mas não. Por algum motivo um som o alcançou, tirando um pouco da neblina que envolvia sua mente. Ele sentiu seus músculos se mexendo, e a dormência deles diminuindo. Ao abri-los, descobriu que tinha olhos.
O som de novo. Era um grito. Por algum motivo o homem que não sabia de nada se pós de pé e correu, correu desesperadamente atrás daquele grito.
Foi estranho. Mesmo que ele não estivesse cansado( demorou alguns segundos para que a palavra cansado viesse a mente dele, e mais alguns para que ele se lembra se o que era mente) os músculos pareciam simplesmente fadigados e mesmo que ele sentisse que podia , digamos, correr para sempre, a ideia não lhe agradava nem um pouco.
Outro grito. Isso lhe tirou de suas divagações. Por um extinto animal que aflorou nele o homem que não sabia de nada, enquanto aumentava sua velocidade, pareceu simplesmente se deixar cair, lançando os braços pra trás e se inclinando num ângulo de quase 45 graus. Ele estava quase sofrendo o efeito da gravidade e provavelmente bateria com o queixo no chão se aquele mesmo instinto dele não tivesse rosnado para que arrancasse com tudo.
Na fração de segundo que ele começava a cair o homem que parecia saber de algumas coisas fincou um pé como apoio no chão, colocando toda a força do corpo magro dele na perna e usando de impulso. Ele saiu numa investida, foi insanamente rápido e por mais que aquilo incomodasse seus músculos, seus instintos praticamente exigiam pra que ele protegesse quem quer que fosse estivesse gritando.
A visão dele pareceu meio que se borrar enquanto ele avançava por...pensando bem ele tinha estado numa floresta qualquer e agora avançava por uma estrada de terra.
Ate que finalmente ele achou o que estava procurando e cara...ele ficou realmente puto. A cena não era tão incomum assim se você considerasse coisas como a falta de policiamento da região, o fato que eles estravam num estreito e que bandidos emboscavam pessoas em estreitos, mas ele não sabia e não se importava com isso, naquela hora ele só quis retalhar todos aqueles trastes.
Na frente dele, emboscado por bandidos estava uma caravana, puxada por duas mulas, um homem mais velho tinha guiado ela ate ali, uma criança que se assemelhava bastante ao homem mais velho se você desconsidera-se suas feições ainda infantis e junto com eles tinha uma garota.
Alta, muito alta, os cabelos loiros mesclados com castanho, e a pele branca como alabastro mesmo embaixo daquele sol. Não mais que 16 anos. Os olhos era duas gostas de chocolate castanhos com alguns pingos verdes. Era ela a mulher mais linda que ele já vira, se é que já vira alguma antes.
Ate ai tudo bem. O problema eram os saqueadores. Tinham sete deles. A caravana tinha sido derrubada, uma das rodas dela quebrada. O homem mais velho amarrado, um corte profundo no braço. O garoto jogado no chão e um dos saqueadores simplesmente pisava encima do garoto, impedindo-o de se mover. Os outros seis cercavam encurralavam a garota.
A loira gritava, os olhos castanhos só mostravam medo, enquanto ela tentava se afastar dos saqueadores que pareciam se divertir com o desespero dela. a túnica de algodão tinha rasgos, fruto da violência dos bandidos. Um dos bandidos chegou inclusive a baixar as calças, enquanto se aproximava faminto, soltando obscenidades pra garota.
Nenhum deles viu o Homem que sabia de algumas coisas parado na curva da estrada, mas esse nem foi o maior problema, o problema de verdade foi que quando ele encostou a mão no espada curta presa na sua cintura, repentinamente se lembrou de como usa-la.
O primeiro a cair foi o de calças ariadas. Ele nem sentiu quando sua cabeça deslizou pra fora do pescoço. O engraçado foi que ele estava no processo de falar outra obscenidade pra garota quando sua cabeça rolou e ele ainda terminou de falar.
A confusão se instaurou sobre todos ali. Os saqueadores pararam de se mover, uns confusos, outros apenas apavorados.
Os próximos mortos foram dois apavorados. Novamente aquele instinto apontou o que ele devia fazer e numa explosão de velocidade ele transpassou o saqueador, deformando completamente com a lateral do corpo do bastardo. Esse ai nem teve reação, nem viu ele chegando.
Agora o segundo reagiu. Quando viu seu amigo ser retalhado em tiras de carne ele teve tempo de montar uma expressão de raiva enquanto levava a mão a arma mas foi só isso. Ele mal teve o tempo de sacar, o homem que sabia empunhar uma arma simplesmente encaixou uma estocada limpa, e a cabeça desse também rolou.
Já foram 3, faltavam 4. Agora, esse últimos estavam alertas. No tempo que o homem que sabia empunhar uma arma levou pra abater três deles os outros quatros levaram para perceber que ele existia.
O próximo que ele mirou tinha inclusive já sacado a espada, tentando uma estocada que ele notou ser cheia de falhas. O homem que sabia como cortar cabeças simplesmente deu um passo pro lado, a espada passando reto e o deixando incólume.
Ele acertou o cabo da adaga na boca do saqueador, seus dentes agora quebrados. Agora ele simplesmente virou a lamina e abriu só um corte na garganta, uma poça de sangue vindo da carótida logo começando a se formar no chão.
Menos 4, Faltam 3.
Veio mais outro e esse era jovem, jovem ate demais, o homem sem nome pensou. Não teve o mínimo equilíbrio ou uso adequado da espada naquela luta. Ele sacou uma gladio de 90 cm que parecia pesado de mais na mão do garoto.
O corte foi da esquerda para direita, de um jeito tão excessivamente demorado que ele poderia ter tomado um chã e ainda mata-lo se quisesse...17 vezes. Ele simplesmente abaixou da espadada e golpeou. Uma estocada no peito, que pareceu perfurar a armadura de couro fervido do saqueador e o matou de imediato.
O penúltimo também não durou muito. Esse tentou correr, dando de costas pro homem sem nome. Numa arrancada de velocidade o homem avançou e acertou uma estocada no coração.
Menos 6, faltam 1.
Esse um foi diferente. Ele também parecia jovem, não devia nem ter duas dezenas de vida, que nem o quinto a ser morto, mas a atmosfera envolta dele era completamente diferente.
Como já disse, ele parecia uma adolescente e se o Homem que venceu tivesse que chutar diria que seu adversário tinha uns 15 anos. Os cabelos longos e de um tom de loiro que mais lembrava cinza, a pele pálida. Também é valido falar do rosto em branco e olhos azuis meio gélidos que só passavam tedio.
Por algum motivo o Homem que vencia não o atacou de imediato. Não era medo e também não era exatamente cautela, era mais...respeito, sabe? Como se aquele cara não merecesse ser morto tão rapidamente como os outros bastardos que caíram ate agora.
Este lhe abriu um sorriso.
— Ora...você é forte, hein?
O Homem que vencia descobriu que sabia falar:
—...Sim
— ...Entendo...eu também, vamos fazer um duelo mais serio? Por honra, sabe?
Talvez pelo fato que aquele cara não tinha chegado sequer perto da Loira, por ele ter levantado o pé e o garoto ter escapulido e estar, nesse momento, estancando o ferimento do velho, o fez concordar.
— ...Tá.
Ele baixou os olhos e viu que o “garoto” de cabelos cinzas tinha uma espada na cintura e subitamente o homem soube como fazer uma reverencia.
Os movimentos foram quase que espelhados. Ambos puseram suas espadas frente ao corpo, um dos braços, o não dominante, posto para trás do resto do corpo.
Eles dois deram um passo a frente, e se curvaram, inclinado um pouco a cabeça, numa reverencia modesta entre dois espadachins. Se Discórdia, o pai das espadas, ou Guerra, como o demônio ficou conhecido anos depois, visse aquilo, ele sorriria orgulhoso. Era a sutileza que havia numa luta entre espadas.
E os dois avançaram. O Homem que seria Rei avançou frente ao Saqueador que seria sua espada e escudo por muitos anos.
O primeiro golpe foi do Homem que seria Rei, uma estocada emendada com um corte na diagonal. O Saqueador não teve problemas em desviar e atacou ele mesmo. O Rei aparou o golpe com a própria espada. E eles trocaram golpes, investidas e defesas por parte dos dois e se guerreiros trocavam sentimentos pelos punhos espadachins os faziam pelas laminas.
O Saqueador abaixou quando..
— estre..
Quando..
— Mestre?
Quan..
— Mestre, o senhor esta bem?
Subitamente, Preguiça piscou o único olho aberto, saindo dos seus sonhos acordados, de suas memorias. Ele abriu um sorriso:
— Hum? ..sim, estou bem, Princesa- disse o demônio abrindo um sorriso charmoso. O que Helena não notou foi que aquele sorriso também foi um sorriso triste, uma tristeza confortável, se é que existia tal coisa. Uma tristeza chamada saudade.
Preguiça sorriu saudoso e com saudades se lembrando de uma porção de coisas. Se lembrando de Roger, o saqueador que seria seu principal cavaleiro, um dos poucos homens que ele realmente confiara. Sorriu se lembrando do velho Mathias, que sentou ao seu lado e discutiu amplamente sobre comercio e politica no dia que ele virou rei, com a paciência de um avo. Se lembrou do pestinha Sinbad, que se tornaria um guerreiro cujo nome faria exércitos inteiros tremerem.
Acima disso ele se lembrou de Sofia, a Loira. Sua esposa. Ele se lembrou dela e por trás daquele sorriso pra sua princesa Helena o Rei Salomão, o Pecado Capital Preguiça...por trás daquele sorriso ele chorava.
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