– Charles – Erik entrou no escritório da mansão. Já estava bastante familiarizado com tudo ao seu redor, inclusive com aquele ambiente. Xavier estava sentado em sua grande escrivaninha de madeira escura e escrevia em uma folha de anotações, enquanto seus olhos corriam do livro para as palavras marcadas em caneta preta. – Charles – repetiu, porque o professor não lhe dera atenção.

– Ah, Erik. Perdão – ele recostou-se na poltrona, retirando os óculos de leitura do rosto. Esfregou os olhos; parecia cansado. – Não ouvi você chegar. O que trouxe pra mim? – Charles debruçou-se na escrivaninha e esticou o pescoço para olhar o que Erik trazia em mãos.

– Na volta pra mansão eu parei numa confeitaria alemã. – Ele ergueu uma sacola. No fundo, Charles esperava que Erik trouxesse, seja lá o que fosse, numa bandeja, e não na sacola. Mas ele não tinha esse tipo de tato. Aliás, Charles duvidava muito que Erik fosse fazer algo do gênero, algum dia. – Parei para comprar strudel.

– Hum. Eu gosto. – Foi acompanhando enquanto Lensherr se aproximava por trás de sua cadeira e deixava a sacola em sua frente, descuidadamente sobre os livros. Ele apoiou a mão no respaldo da poltrona e curvou as costas para olhar Charles mais de perto.

Xavier bateu com a ponta da caneta de leve no nariz de Erik.

– O que quer, Erik? Pra me agradar assim, de repente.

Lensherr sorriu e esticou-se um pouco mais, a fim de roubar um beijo de Charles. Eles deixaram as línguas encontrarem-se rapidamente antes de partir o toque. Erik deu a volta na escrivaninha e escorou-se nela, enquanto Xavier começava a fuçar na sacola.

– Está chovendo bastante lá fora, você não se molhou?

– Sim, mas já tomei um banho. – Erik olhou pela janela, observando as gotas grossas de chuva baterem contra o vidro. Charles tirou um dos strudel da sacola; estava dentro de um pequeno papel de pão. Olhou para o doce e mordeu um pedaço, colocando a mão embaixo a fim de evitar que os farelos da massa fina caíssem em seu colo.

– E como não molhou o strudel? – Disse Charles, de boca cheia.

– Coloquei dentro do casaco.

Xavier fez uma expressão de surpresa e mordeu outro pedaço, sem mal ter engolido o primeiro. Erik ficou olhando enquanto Charles mudava seu semblante para um de satisfação, lambendo os farelinhos da palma da mão. – Isso é tão gostoso.

– Sim. Imaginei que fosse gostar. – Lensherr afastou-se da escrivaninha e caminhou até o móvel aparador onde Charles deixava uma garrafa de whisky, copos e um porta-gelo sem gelo. Só de vez em quando ele se lembrava de colocar. Serviu-se com uma dose de whisky e retornou até perto do professor, que já havia largado seu trabalho e se concentrado mais no strudel.

Erik observou enquanto ele puxava as almofadas do sofá e as acumulava todas num canto, a fim de apoiar as costas ali. Jogou os pés para cima e ergueu a cabeça para morder o strudel, como se isso fosse evitar que os farelos caíssem. Erik sentou-se no canto do sofá, onde Charles havia generosamente deixado um espaço.

Ele mastigava e cantarolava uma música, em murmúrios, batendo com os dedos livres nos joelhos dobrados. Lensherr apoiou o braço no encosto do sofá e virou a dose de whisky de uma vez, mexendo os ombros de forma confortável.

You’re asking me will my love grow

I don’t know, I don’t know

You stick around now it may show

I don’t know, I don’t know

– Que música está cantando?

– Ah. É dessa banda nova, os Beatles. Eles são ótimos. – Charles engoliu o que estava mastigando, e passou a mão no rosto, livrando-se dos farelos que haviam grudado por ali. Erik franziu de leve o cenho. Não sabia muito sobre música, em geral; apenas ouvia algumas no rádio, às vezes.

Charles puxou uma almofada, escorregou um pouco e apoiou a cabeça nela. Olhava para o strudel em sua mão com os olhos baixos, lambendo o canto da boca. – Não comprou um pra você, Erik?

– Eu não estou com vontade agora.

– Não deixe na geladeira, ou Sean e Alex vão pegar.

Erik não respondeu, vendo que a chuva engrossava consideravelmente. Um ou outro trovão lampejava ao longe e seu barulho chegava a eles segundos depois. Levantou-se e foi pegar mais uma dose de whisky, oferecendo a Charles, que recusou. Bebeu ali mesmo e deixou o copo, retornando ao sofá em seguida.

Xavier levava o último pedaço de strudel à boca e lambia os dedos, como uma criança.

– Trouxe quantos?

– Três. Dois pra você.

– Tem certeza? – Ele sacudiu os dedos úmidos no ar. – Se não eu deixo pra você.

– Tenho, pode pegar.

– Ah, obrigado, Erik. – Charles levantou do sofá e foi pegar a torta na sacola. Amassou o papel da outra e deixou no lixo embaixo da escrivaninha. – Eu estava com fome, mas não quis ir até a cozinha.

– Muito trabalho?

– É. Quando eu começo, não paro mais. Pelo menos você consegue me tirar um pouco a concentração.

– Falando assim, parece algo ruim.

Charles já se jogava novamente no sofá, recolhendo uma perna para cima e sentando-se sobre ela. – Oh, não! Por favor, jamais pense isso. Sua companhia é muito agradável. – Ele se arrastou um pouquinho para mais perto de Erik, esfregando os nós dos dedos rapidamente contra a barba rala. – Como eu poderia reclamar, se além de tudo, você me traz um doce?

Erik o olhou de esguelha, observando o sorriso gentil em seus lábios avermelhados. Charles inclinou um pouco o corpo e roçou o nariz no rosto de Lensherr, averiguando que ele havia mesmo tomado um banho, porque estava com um cheiro quente e confortável; sem falar nos cabelos molhados, mas isso não está em pauta.

– Não se acostume. Não pretendo ficar fazendo suas vontades o tempo todo, considerando que nunca faz as minhas.

– Que mentira! – Charles defendeu-se, mordendo outro pedaço da torta. – E você não está fazendo minha vontade, está apenas me agradando.

– É a mesma coisa.

– Não é não – continuou. – Se eu tivesse pedido o strudel, seria fazer minha vontade. Nesse caso em específico, como você trouxe sem eu pedir, apenas pensando que eu iria gostar, você está me agradando. Então não podemos considerar como fazer minhas vontades.

– Certo, certo – ele rendeu-se, com preguiça de rebater o argumento de Xavier. Até porque, não é como se realmente tivesse um. Mas que estava mimando Charles, estava.

Tudo bem. Erik ficava com um sentimento estranhamente quente e aconchegante ao ver Charles sorrir daquela forma. Não era algo que ele já houvesse sentido antes.

– E o que eu posso fazer pra retribuir esse seu gesto, Erik?

Lensherr passou o dedo no rosto de Charles, tirando um farelo dali. O professor olhou para baixo, como se fosse enxergar, e lambeu a boca.

– Pode ir dormir comigo. Você não dormiu ontem, e na outra noite, dormiu só quatro horas.

– Estou acostumado com as poucas horas de sono. Não se preocupe.

– Não interessa, você tem que dormir. Essa sua cabeça tem que desligar um pouco de vez em quando. – Erik levantou-se, pouco disposto a ouvir mais argumentos de Xavier, embora o assunto já tivesse mudado. Charles continuou sentado no sofá, olhando para Lensherr. – Vamos.

– Mas Erik—

– Charles. – ele indicou a janela com a mão. Charles acompanhou com os olhos. – Não existe coisa melhor do que dormir com o barulho da chuva.

Xavier tombou de leve a cabeça para o lado, sorrindo. Erik era um homem muito peculiar. Ele era bastante rígido em geral, mas tinha pequenos gestos que faziam Charles se apaixonar por ele cada vez mais.

– Está certo, Erik, mas eu tenho que dormir de verdade. Amanhã cedo tenho trabalho.

– Hum – fez Lensherr enquanto Xavier se levantava do sofá e dava uma mordida grande no strudel. – Achei que não se importasse com as poucas horas de sono.

– Eu te compenso amanhã. – Ele fez um carinho no queixo do outro e o beijou, fazendo Erik rapidamente sentir o sabor doce da torta. Em seguida, Charles deu a volta no sofá e foi até a escrivaninha, pegar a sacola da confeitaria, um livro e seus óculos de leitura. – Já que me convenceu, hoje só quero dormir, está bem?

Erik deu de ombros suavemente, acompanhando Charles para fora da porta.

– Já estou te agradando de novo.

– Não, Erik. – Charles parou e virou-se um pouco para olhá-lo por cima do ombro. – Agora está fazendo minhas vontades.

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