As Três Profecias
3 Sou tomada pela escuridão.
Notas iniciais
Dez dias se passaram de maneira que mal pude perceber. Daniel havia se tornado meu novo melhor amigo aqui no acampamento e Bonnie havia se mostrado muito legal para uma filha de Marte. Desde o dia em que cheguei não tive mais noticias da irmã do mau e não tive coragem de perguntar, pois notei que sempre que alguém tocava no assunto Bonnie se entristecia.
Em menos de dois dias eu já havia me tornado uma moradora comum do acampamento e descobri que os gregos — não todos — não eram tão chatos como imaginava. Na verdade. eles eram pessoas legais.
Chacoalhava minha cabeça toda hora que pensava que me sentia melhor aqui do que no Acampamento Júpiter. Me sentia em casa.
Tudo — menos Drew — ali era perfeito e Daniel estava me ajudando de verdade ali. Estávamos treinando para a caça á bandeira. Os chalés de Hermes e Afrodite estavam juntos com o de Hades e Zeus.
Eu queria ficar ali muito tempo, mas também queria minha memória antiga, saber sobre minha vida antiga. Havia algo que me impedia de seguir em frente, de recomeçar, por mais que essa seja minha vontade.
Fui tirada dos meus devaneios sobre o acampamento com o barulho de metal se chocando e notei que era a espada de Daniel que batia contra a minha, que se encontrava há poucos centímetros do meu corpo. Se não fosse pela espada eu estaria com um corte profundo. Coisa péssima para uma filha de Vênus.
Eu havia me desligado totalmente deste mundo e esquecido que estava treinando contra Daniel.
— Precisa de mais atenção — disse ele baixando sua espada. Não pude perder a chance. Imediatamente empunhei a minha e golpeei seu peito com a lateral da espada, de modo que não o cortasse, mas o assustasse.
Ele caiu para trás assim que minha espada se chocou contra o seu corpo e criou um olhar estreito sobre mim.
— Primeira regra, nunca baixe a guarda — falei, com um sorriso maroto, lembrando-o do nosso primeiro teste há uma semana. Ele sorriu de volta e levantou.
— Vamos beber alguma coisa, um refrigerante, sei lá — ofereceu ele. Notei que ele havia corado em ter levado um golpe de uma garota, não pude deixar de sorrir da cara de vergonha dele. — O que foi? — agora ele estava três vezes mais vermelho.
— Nada, desculpe. — forcei minha melhor cara séria — Pensei que refrigerantes fossem proibidos no acampamento.
— Stoll.
— Ah.
Nos refrescamos e passamos o resto do dia juntos. Exatamente como os outros que passei ali. Não houve nada de diferente, e Drew parou de implicar comigo — a mando de Quíron.
Eu não me sentia bem com isso, não gostava de admitir que nos últimos dez dias eu sentira como se o acampamento meio sangue havia se tornado minha casa. Mesmo brigando com Drew, mesmo com os olhares de canto de olho — que me acontecia nos primeiros dias e me deixavam extremamente irritada —, mesmo com as maioria das coisas acontecendo de errado por aqui, eu ainda sentia que o acampamento meio sangue era minha casa. Eu ainda me sentia melhor aqui.
Ficamos pouco tempo descansando, logo após voltamos a treinar, desta vez na companhia de Bonnie — e mais uma vez sua irmã não estava presente —, que era uma ótima combatente. Daniel fez questão de duelar comigo diversas vezes, e se mostrou na obrigação de deixar claro ser melhor que eu. Isto me irritou diversas vezes, mas ignorei. Eu tinha a certeza que nos últimos dez dias eu havia sido bem mais irritante para ele.
No fim da tarde, estávamos todos reunidos em volta de uma fogueira. Os primeiros sinais de escuridão haviam acabado de se formar quando um tumulto no pé da colina chamou nossa atenção. Havia uma dezena de jovens reunidos em um circulo, logo percebemos que não era coisa boa.
Eu, Daniel e Bonnie, que estávamos conversando e curtindo o crepúsculo corremos até lá para ver também o que estava acontecendo. Assim que chegamos no meio do tumulto, ouvimos a voz de Drew gritando há alguns metros.
— Estávamos no shopping juntas, fomos até uma loja de roupas, ela parecia entediada, então aquela coisa começou a falar "Elizabeth, Elizabeth" e saiu andando. Depois disso tudo que pude fazer foi segui-la.
No meio dos jovens havia uma garota no centro da minha idade e com uma camiseta escrita "salve a Amazônia".
Eu havia ficado com medo desde o momento em que Drew começara a pronunciar meu nome, agora com esta garota me olhando eu estava três vezes mais.
— Tudo bem — disse Quíron, para Drew. Ele tentava parecer calmo, mas era evidente que não estava. Seu olhar nervoso seguiu a garota e alterava para mim. — Rachel... — ele tentou falar, mas Drew o interrompeu.
Agora ela olhava diretamente para mim.
— Eu disse, essa garote é problema, faz tempo que Delfos não se manifesta, mas depois que essa menina chegou. Eu falo, ela é problema...
Dessa vez, quem interrompeu cansada foi eu.
— Calada! — ela não disse nada, simplesmente me encarou com veneno nos olhos.
— Ela não é problema, ela é a salvação deste mundo — disse a ruiva com uma voz estranha. Seus olhos fecharam e voltaram ao normal, como se ela estivesse possuída antes. Então, seu olhar continuou a me seguir, de uma maneira misteriosa. Ela tinha um sorriso ousado no rosto, mas ao mesmo tempo feliz. Ela esticou a mão na minha direção e as pessoas que estavam entre nós saíram. Fiquei com medo daquela situação, mas mesmo assim dei alguns passos e apertei seus dedos gelados. — Sou Rachel Elizabeth Dare. — Foram as últimas palavras que ouvi, antes dos meus joelhos fraquejarem e eu sentir as trevas me tomando. Senti meu corpo tombando no chão e se afastando de mim. As mãos macias de Daniel seguraram meu rosto e então já era tarde demais, eu já estava fora de mim.
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