As Tontas não vão ao céu

2 Capítulo 1 – Alçar vôo


Fotografar. É isso o que eu sempre gostei de fazer, desde que me entendo por gente. Seja a natureza, ou a algumas peculiaridades da metrópole. Fotografar as paisagens, os animais... Sem sombra de duvidas é um dos meus passatempos preferidos. Minha verdadeira paixão. Mas, não é apenas isso que eu gosto de fotografar. Aliás, não são necessariamente essas fotografias que me encantam. Algumas pessoas me consideram sádico por isso, outras um artista encubado. Minha mãe sempre disse que isso é coisa de doente. O que, vocês devem estar se perguntando: Tirar foto de mulheres tristes. É simplesmente a coisa mais fascinante que existe. Ver as lágrimas deslizando sorrateiramente pelo rosto, os olhos avermelhados mostrando indiscretamente a dor que elas carregam na alma. É bonito. Talvez melancólico e deprimente, mas ainda sim, é bonito vê-las neste estado. A tristeza no olhar pode nos dizer muito sobre a pessoa...

Eu também gosto de fotografar as pessoas bipolares, A forma que mudam de humor é completamente intrigante aos meus olhos. Pensando por este ângulo, talvez eu realmente seja doente.

– Filho. Você tem certeza de que quer fazer isso? – mamãe perguntou, pela milionésima sexta vez. Revirei meus olhos, ajeitando a gravata borboleta e olhando-a com um meio sorriso.

– Tenho. Nunca tive tanta certeza assim antes.

Augustine Torres Chevalier, minha querida mãe, tem mais de quarenta e cinco anos e um coração mole. Desde a morte do meu pai e dos meus irmãos, eu tenho sido tudo o que ela têm e precisa. Mas, infelizmente tive aceitar a oferta de trabalho em outro país. É a oportunidade que pode mudar nossas vidas para melhor!

– Eu quero que você tome cuidado. – disse ela, apertando minha mão com mais força do que o necessário. – As mulheres da cidade grande são loucas.

Não tanto quanto as de cidade pequena, pensei, mas não me atrevi a dizer tais coisas.

– Pode deixar mãe, tomarei cuidado. – exclamei rindo. Depositei um beijo carinhoso em seus cabelos, a abracei fortemente e então me afastei. – E a senhora também tome muito cuidado. Qualquer coisa é só me ligar e eu voltarei correndo, está me ouvindo? – arqueei a sobrancelha.

Ela assentiu, nós trocamos mais algumas palavras e então eu finalmente estava pronto para deixar Lyon para trás. Ao sair por aquela porta, tive a sensação de ser massacrado na cabeça. Era horrível a sensação de estar fazendo algo errado e certo ao mesmo tempo, mas eu precisava alçar vôo. Não podia ficar para sempre as sombras da minha mãe e, tampouco naquele vilarejo simples da França. Me falaram que eu tinha chances de ser um ótimo fotografo, e eu mesmo acreditava nisso então por que não arriscar? Qual o sentido de desperdiçar um dom maravilhoso que Deus me deu? Com uma mochila nas costas e uma pequena mala em mãos, despedi-me rapidamente dos meus amigos de infância, da minha ex-namorada e então parti para a rodoviária. De lá iria para o aeroporto e do aeroporto... Iria atrás da minha felicidade.

Aos nove anos de idade, eu descobri minha imensurável paixão pela fotografia e aos dez, pegava “emprestado” as maquinas de fotografar de minha tia Elie. Também pedia a dos meus amigos e assim foi, até que um dia minha mãe chegou pra mim e me presenteou com uma maquina bem antiga. Simplesmente a coisa mais linda que eu já tinha visto. Minhas fotos saiam todas em preto e branco, mas eu nunca dei muita importância às cores. Preferia as fotos em tonalidade escura, quase sombria. Achava e continuo achando fascinante, apesar de agora dar grande preferência às fotos com cor.

– Destino? – indagou uma moça, bastante simpática que fazia o check in.

– Inglaterra. – respondi depressa. Nunca tinha pego um avião antes, então as coisas eram ainda mais emocionantes do que eu poderia imaginar.

Ela começou a tagarelar alguma coisa sobre detestar os ingleses, mas não prestei muita atenção. Minha cabeça estava longe. Eu pensava no enorme big bang: nas ruas movimentadas que sempre via pelos noticiários e pela internet.

E ah, eu também pensava sobre as garotas. Todas lindas, magras e altas. Sorri com o pensamento. Um pouco de diversão carnal não faz mal a ninguém, não é mesmo?