As Teias de Chawon
5 É real?
Meio dia. O sol no alto proibia os cinco passageiros de encontrarem uma sombra na carroça. Alguns resmungavam e puxavam um cobertor para as suas cabeças. O condutor da carroça revirou os olhos. Nunca entendia como as pessoas preferiam aquela rota a qualquer outra. Atravessar um deserto já não era coisa de criança, tampouco aquele em especial. Diziam que as areias vermelhas retinham mais calor do que um deserto normal. Se era verdade ou não, o condutor não sabia. Mas ele sentia que era.
Lukas não se importava com o clima. Podia fazer um calor desgraçado, podia nevar, podia estar um frio tão intenso que congelaria os dedos das pessoas. Ele se adaptava bem às mudanças climáticas. Uma das condições de ser um viajante.
Lukas estava a muitos anos de distância de Diana. As duas que ele conhecera. Decidira ir ao passado, a uma época em que ele não havia nascido ainda. Escolhera voltar no tempo porque queria se afastar da linha de tempo de Diana. Não sabia se ela viveria mais do que uns poucos anos sem a presença dele em sua vida. Estava fugindo.
Seu poder esgotara-se no dia anterior. De dois em dois dias ele voltava no limite de anos que sua habilidade permitia. Já fazia mais de uma semana que estava nesse processo. Não sabia qual era a época exata que escolheria. Estava apenas viajando.
Ele escolhera fazer aquela viagem pelo Deserto das Areias Vermelhas porque precisava pensar. Refletir. Entender o que fazer em seguida. Seja lá qual fosse a situação na qual se metesse, não poderia fugir usando seu poder. Teria que enfrentar os problemas.
Estava cansado. E triste. A necessidade de lembrar de Diana começava a evaporar. E isso o fazia sentir-se vazio. Um vazio crescente e que estava apenas no início. Lukas sabia que deveria estar feliz pela sua escolha, porém sentia-se péssimo. E confuso. Haveria uma escolha certa para o pior dilema de sua vida até então?
Poucos minutos depois de meio dia, o condutor soltou um grito, tirando Lukas de seus pensamentos por um breve momento. Um homem encapuzado caminhava no deserto. Sozinho. Lukas revirou os olhos e parou de prestar atenção. O condutor da carroça puxou as rédeas e os dois cavalos pararam, obedientes.
— Quer carona?
O homem ergueu os olhos. Se não fosse por esse movimento, não seria possível perceber que ele era jovem. Devia ter aproximadamente vinte anos. A juventude e a cor azul celeste de seus olhos eram as únicas coisas que a capa cinza escura deixava visíveis. Ele examinou os passageiros.
O único lugar disponível era em frente a Lukas.
Após os cavalos voltarem a puxar a carroça, o viajante do tempo teve a vaga sensação de estar sendo observado. Ele olhou para a frente, ainda distraído com seus pensamentos, e devolveu o olhar do rapaz encapuzado. Lukas não conseguiu enxergar o rosto dele direito.
Deu de ombros. Não faria diferença.
Inesperadamente, o sol desapareceu, sendo ocupado pela lua nova. A temperatura caiu drasticamente. Ninguém pareceu perceber a mudança sobrenatural e inesperada, exceto por Lukas. Ele olhou para o céu, confuso. Seria azar demais acontecer algo ruim naquele instante. Ainda não estava recuperado fisicamente para se materializar em outro espaço e tempo.
Um dos cavalos surtou; relinchou para o vazio do deserto e bateu as patas infinitas vezes, como se estivesse tentando cavar as areias vermelhas. Seu longo rabo não parava de balançar enlouquecidamente.
— Calma aí, amigão. Ô, sossega aí.
Lukas olhou para os outros cinco passageiros e soltou uma exclamação. Exceto pelo rapaz encapuzado cuja expressão facial não podia enxergar, os outros estavam imóveis. Pareciam não respirar. Pareciam não ter mais vidas.
O condutor continuava gritando palavras acolhedoras ao cavalo surtado. De repente, as cordas que o prendiam à carroça arrebentaram; o cavalo relinchou mais alto e ergueu as patas dianteiras. Um segundo depois, ele trotava para longe da carroça. Parecia obcecado por algo invisível aos olhos humanos.
O condutor arregalou os olhos, completamente apavorado e apertou a cabeça com as mãos.
— Não! Não! Volta aqui!
Ele saltou da carroça e saiu em disparada atrás do cavalo enlouquecido.
Lukas ficou em pé, lutando para se equilibrar entre as pernas dos passageiros. Agora quem estava imóvel era ele. Realmente não sabia o que deveria fazer. O dia ficara noite de repente; um cavalo surtara e, agora, o condutor desaparecia no meio dos montes grandes de areias vermelhas. O que diabos tinha acontecido?! O que significava aquilo tudo?!
A situação ainda estava longe de estar totalmente ruim.
O rapaz encapuzado sorriu ao perceber a aflição do viajante. As mãos dele fecharam-se e ele abaixou a cabeça, quase rindo da cena que aconteceria em poucos segundos.
Um gemido chamou a atenção de Lukas. Ele virou a cabeça no modo automático e só não soltou um grito porque o choque era maior.
Quatro dos passageiros choravam compulsivamente. Os olhos paralisados liberavam lágrimas escarlates. Ele tinha quase certeza de que era sangue. Não sabia se era um fenômeno possível. Não sabia nem mais se o que via estava mesmo ocorrendo.
Finalmente veio o grito.
Lukas tropeçou nos próprios pés ao tentar se afastar daquelas pessoas. De todo o sangue. Sentiu seu estômago reclamar e, assim que conseguiu levantar-se novamente, pulou para fora da carroça. As cabeças dos quatro passageiros seguiram-no como num transe hipnótico.
Os pulmões doíam em protesto à falta de controle da entrada de oxigênio. Seus olhos ficaram embaçados. Lukas conseguiu não vomitar o pequeno lanche que fizera quando o céu estava claro.
― Ok. Sem entrar em pânico. ― Ele apertou a cabeça com as mãos. ― Sem entrar em pânico. ― Conseguiu acalmar a respiração.
Evitava olhar para a carroça na sua frente. Sentia os olhares sangrentos sobre si e só isso já era o suficiente para ele quase entrar em pânico de novo.
― Vamos lá... Para tudo tem uma solução...
Menos a que ele já teria usado. Ainda não dava para se materializar em outro lugar. Qualquer lugar de qualquer tempo seria melhor do que ali, naquele instante.
― Eu não acredito.
Uma voz feminina surgiu inesperadamente. Ele franziu a testa, procurando a dona daquele timbre. A voz repetiu a negação e Lukas teve que se controlar para não sair gritando “Quem está aí?”.
Não havia mais ninguém na imensidão vermelha.
― Nunca pensei que você seria capaz disso.
Os joelhos de Lukas tremeram. A alguns metros de distância havia um desenho no chão arenoso. Ele sentiu suas pernas levarem-no até lá. E o que viu serviu para deixar todos os pelos de seu corpo trêmulo arrepiados.
O desenho na areia formava um rosto. Um rosto que ele não via há mais de dez dias. Por escolha própria.
― Como... Que... ― Ele caiu de joelhos. ― O que você...
Os lábios do desenho se moveram.
― Eu não acredito que você me abandonou.
Lukas fez a única coisa que conseguia pensar em fazer, no meio de tanto choque e dor. Pegou um pouco de areia e tacou no desenho. Piscou os olhos.
― Você... não é... real! ― A cada pausa mais areia era derrubada no desenho do rosto de Diana. Uma Diana que escolhera não conhecer mais. Pelo bem dela. E pelo bem de si próprio.
― Você nunca vai se livrar de mim. ― A voz dela despertou uma fúria inesperada em Lukas. O menino soltou um berro muito parecido com um grito de guerra e começou a socar o desenho. Grãos de areia vermelha grudaram embaixo de suas unhas, mas ele não se importava. A única coisa que fazia sentido para Lukas, naquele momento, era destruir o desenho de um rosto que ele tinha pavor de esquecer para sempre.
― Você... não tem... como ser real!
Piscou os olhos e ofegou. Estava de volta à carroça. Era dia novamente e o calor infernal demorou a atingi-lo. Viu os quatro passageiros com o rosto limpo das lágrimas de sangue. Eles resmungavam sobre o sol de meio dia em suas cabeças parcialmente desprotegidas. A carroça estava em movimento, com os dois cavalos puxando o peso, entediados. Nada de relinchos, nada de condutor desaparecendo atrás de um de seus animais de transporte.
O único passageiro que agia de forma diferente, exceto por Lukas, era o rapaz encapuzado. Ele afastou o capuz da cabeça e examinou o menino com os olhos surpresos.
― Você quebrou. ― Ele exclamou e Lukas o encarou, ainda confuso com o que havia visto, mas que não fora real. ― Como você sabia?
― Como eu sabia o quê?
O rapaz desconhecido arregalou os olhos. Ninguém nunca conseguira fazer aquilo tão rápido.
― A ilusão. ― sussurrou ele para apenas Lukas escutar. ― A minha ilusão. Quem é você?
Lukas engoliu em seco. Então aquilo tudo fora apenas uma ilusão?! Estava ele diante de mais alguém que tinha habilidades estranhas?
― Como... Por que você achou... ― Ele gesticulou as mãos, desistindo de caçar as palavras certas.
O rapaz, que, mais tarde, apresentaria-se como Neil, deu de ombros.
― Como eu sabia a ilusão certa? Pode chamar de intuição. ― Ele não quis descobrir quem era a pessoa dona do rosto na areia. Sentia que devia ser alguém importante na vida de Lukas. Alguém de quem ele sentia muita falta. Apesar disso, Neil ficou curioso. A reação padrão das vítimas de seu poder era surtar. Perder o controle total de suas ações e pensamentos. Lukas parecia reagir até bem demais para alguém que, poucos minutos atrás, socava as areias vermelhas do deserto desesperadamente.
Naquele momento, decidiu ficar mais tempo com as pessoas daquela carroça. Ao invés de sair por aí para praticar sua habilidade com outras pessoas.
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