As Sete Cores Do Arco-íris

1 Anil: Flores para um aristocrata - P.01


Notas iniciais
- Condições:

* Eles não podem se conhecer antes do acontecimento. Devem fazê-lo durante a oneshot.

* Poderia se passar em algum lugar bonito, por exemplo, uma praça onde hajam flores.

* No caso, seria uma UA, já que eles não se conhecem. Não precisa haver outros personagens ao decorrer da fic também.

- Desafio da senhorita Naoko

Desafio: Anil

Flores para um aristocrata

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Kesesese... Devo dizer que essa é uma cena um tanto triste, jovem mestre!



O estranho à minha frente disse essa sentença, desprovido de sentimentos de piedade que seriam apenas esperados em tal situação. Ele cobria a sua boca, com a sua mão direita, parecendo controlar-se para não explodir em uma gargalhada. Era impossível, para mim, compreender o seu humor ou compartilhá-lo. Faltava-me ânimo e complacência para isso.


Não tinha ânimo para lidar com provocativas. Eu estava ciente de quão patética era a minha imagem atual.

Era um dia dos namorados e eu estava sentado no banco de uma praça, entre dois casais que trocavam carícias e arrebatadas provas de afeição, condenando-os silenciosamente por sua conduta imprópria e adquirindo, involuntariamente, a função de impedir que ambos se misturassem.

Era uma cena lastimável, sem dúvidas. Eu me sentia repleto de desconforto, aborrecimento e vergonha, pelo papel que desempenhava nela.

A praça, de uma forma geral, apesar das nuvens negras que cobriam o céu, estava repleta de namorados e corações, em diversas formas – balões, chocolates, imagens – e, em alguns casos, era quase possível vê-los sobre casais.

Enquanto isso, munido apenas de uma expressão estoica e de uma necessidade de manter minha compostura, eu tolerava minha importuna posição atual.

Eu definitivamente não era o único solteiro, naquele local. Entretanto, possivelmente, era o único recém-divorciado, portanto, não compartilhava do olhar repleto de expectativa que alguns jovens desacompanhados possuíam, em sua ingênua esperança de repentinamente encontrarem um par romântico ali.

Os meus pensamentos eram mais concretos e opacos.

“Onde está o senhor Ludwig?”

Havia um motivo, perfeitamente razoável, para explicar minha presença, naquela praça. Eu não havia ido a ela para comparar minha solidão com a felicidade escarlate daqueles casais. Oh, não. De modo algum. Tamanha emotividade seria absolutamente desnecessária. Por que eu me dragaria, propositalmente, em emoções que não me trariam nenhum benefício? Não haveria qualquer sentido em uma ação como essa.

Dirigira-me aquele local, naquela manhã, pois esse havia sido o ponto que estabeleci para encontrar-me com um antigo colega de faculdade, antes de nos encaminharmos ao seu apartamento, onde eu moraria pelos próximos meses.

Eu já havia enviado meus pertences e restava-me apenas ir ao seu apartamento para que a mudança se completasse. Teria ido diretamente para lá se pudesse, entretanto, meu medo de me perder – o que já havia ocorrido – em um país que eu pouco conhecia, impeliu-me a decidir que deveríamos marcar em algum lugar público. Assim, seria mais fácil que alguém conseguisse oferecer, eficientemente, orientações que me guiassem para meu destino, caso não pudesse encontrá-lo por conta própria.

Superada a minha primeira adversidade – encontrar o local que havíamos combinado – pensei que, naquela data, não teria outros problemas para suportar. Contudo, o imenso atraso do senhor Ludwig havia deixado-me em minha constrangedora situação atual e, para acentuar a crescente piora de meu humor, um desconhecido havia surgido de repente, debochando abertamente de meu lamentável estado.

A minha impaciência fervia em meu interior, todavia, eu não possuía intenções de externá-la.

– Duvido que ela pareça-lhe tão triste, considerando-se o quanto você deseja rir. – respondi, placidamente. Com a minha réplica, os olhos vermelhos daquele estranho tornaram-se tão repletos de um sentimento de falsa compaixão e escárnio que pareciam prestes a derramar as lágrimas de uma intensa risada. O que ele achava tão divertido? O quê?

Kesesese! Você nem consegue negar que a sua situação atual é triste! Bem, como poderia? É divertido observá-lo com essa expressão tão reprovativa e séria, quando você está entre dois casais que estão tão... – o sorriso dele tornou-se mais contido e dotado de malícia, durante a sua pausa proposital para a escolha de um termo — entretidos que sequer perceberam que estamos conversando sobre eles. Você não imagina o quanto se parece com uma sogra chata, jovem mestre!

– O que não posso imaginar – repliquei, com uma voz forçadamente calma, em uma inspiração profunda e irascível — é o motivo pelo qual um completo anônimo me trataria com tamanha descortesia.

Ele, de fato, parecia-me completamente anônimo. Também me parecia alguém desagradável, sarcástico e desprovido de bom senso, mas, sobretudo, anônimo. Eu não tinha a impressão de que poderia tê-lo encontrado em outro lugar, em uma ocasião anterior, e estava certo de que aquele era o nosso primeiro diálogo. Ele tinha uma aparência e modos muito singulares para serem simplesmente esquecidos ou não noticiados. Além do tom prateado de seu cabelo que, sob a parcial escuridão de um céu nublado, parecia-se também com a cor de uma nuvem carregada por água, ele possuía olhos de um tom intensamente escarlate que refletiam sem pudor, escárnio e arrogância. Nada nele inspirava-me qualquer sentimento de simpatia.

Ainda assim, o anônimo possivelmente havia visto algo em mim que o interessara, considerando-se o quão amplo e firme era o irônico sorriso que ele lançava em minha direção. Com alguma animação, ele deu sua réplica ao meu questionamento — que mais era uma crítica indireta do que uma pergunta – com o entusiasmo de um aluno que recebe, em uma prova oral, a pergunta que já sentia-se disposto e preparado a responder.

– Regozije-se, aristocrata! – ele ergueu ligeiramente seus punhos, com seu semblante tomado por ânimo e vigor — Eu o retirarei de sua monotonia profunda, utilizando-o como modelo em uma de minhas incríveis obras! – ao prosseguir, ele fechou seus olhos e agitou seu rosto com um sorriso que mesclava deboche, um interno elogio a si mesmo, e uma falsa piedade a meu respeito — Ah, você possui tanta sorte de contar com a imensa generosidade do incrível eu, jovem mestre! Vamos! Agradeça-me, agradeça-me! Louve-me eternamente!

Eu fiquei deveras atordoado com aquelas palavras que, embora conectadas, não pareciam formar um sentido e, como réplica, somente pude piscar meus olhos rapidamente, confuso com o significado das sentenças que havia acabado de escutar e com a própria existência delas.

Compreendendo o significado da minha expressão, o anônimo se retificou, sendo um pouco mais direto e menos entusiástico.

– Eu irei pintar uma tela, aristocrata. E você estará nela.

Com essa fala, reparei nos materiais de desenho que o anônimo carregava em seus ombros e abaixo de seu braço esquerdo. Foi uma curiosa sensação a de sentir que tudo havia sido esclarecido e, ao mesmo tempo, que nada havia sido esclarecido.

Conferindo que ele realmente possuía itens de pintura a sua disposição, seu pedido pareceu-me menos absurdo e abrupto do que o meu choque inicial sugeriu-me. Era quase certo que aquilo não tratava-se de uma piada. O que deixava margem para a minha próxima dúvida.

Por que eu?

Naquela praça, repleta de pessoas, movimentos e imagens, por que ele teria escolhido justamente a mim para fazer um retrato? Essa escolha era incompreensível. O meu perfil era absolutamente desinteressante. O meu humor e a minha aparência eram pouco atrativos para uma tela, se comparados ao vívido entusiasmo romântico dos casais a minha volta. Ademais, não me parecia que eu e aquele desagradável arrogante pudéssemos nos entender.

O que, afinal, havia o motivado a fazer-me tal convite?

Ele fez uma proposta repentina como aquela, com uma firme segurança de que eu a aceitaria, cabendo a mim, portanto, dar-lhe uma enérgica negativa. Contudo, os meus sentimentos de assombro e curiosidade interferiram em minha reação e limitei-me a perguntá-lo, com minha boca entreaberta e meu olhar ligeiramente arregalado:

– A minha vontade não interfere na sua decisão?

– Oh! – ele pôs a mão sobre a boca, em uma expressão que mesclava divertimento e surpresa — Eu pensei que você estivesse se sentindo desconfortável, em sua posição atual, jovem mestre! No entanto, você parece querer continuar nela! Kesesese! – ele deu um pequeno riso, e, sem retirar sua mão de seu rosto, permitiu que o deboche nele se expandisse ainda mais. — Talvez, tenha sido para isso que você veio à praça? Desculpe-me por atrapalhar seu passatempo estranho e lascivo, aristocrata!

Aquilo era ultrajante!

– Fique quieto, seu tolo! – exclamei, em um ímpeto, repreendendo-o firmemente e cerrando fortemente meus punhos, antes de acrescentar, fitando-o com rancor e intensidade — Esse não é um passatempo para mim, e não estou aqui por minha vontade!

Antagonicamente à minha reação imperativa e um tanto exaltada, o anônimo prosseguiu a sorrir, inabalável. Aparentemente, o efeito de minha queixa havia sido contrário às minhas expectativas. Ao invés de provocar desconforto ou arrependimento naquele que me importunava severamente, elas pareceram gerar nele um sentimento de vitória e deleite que me parecia absolutamente injustificado e absurdo.

– Se esse é o caso, apenas acompanhe-me, jovem mestre! – ele replicou, calmamente, pondo suas mãos em seus bolsos e dando de ombros, como se comentasse um procedimento óbvio — Vamos! O local que escolhi para a minha tela não fica longe daqui! – vendo que eu não estava plenamente convencido, ele fechou seus olhos e, agitando o seu rosto, adicionou, com um sorriso que exprimia uma evidentemente falsa complacência – O que você teria a perder? Você claramente está entediado e o incrível eu pensou em uma forma de utilizar sua aparência aristocrática em uma concepção artística. Vê? – ele acentuou seu sorriso, como se saboreasse seus próprios argumentos — Há um benefício mútuo nisso! A sua resistência não é nada adorável ou sensata, jovem mestre.

Esses eram argumentos que usualmente pareceriam pouco convincentes. No entanto, dentro daquele contexto, eles me soaram mais persuasivos. Eu estava profundamente entediado e impaciente com o atraso de meu amigo, necessitando urgentemente de uma distração que impedisse-me de acumular em meu peito tamanho desprazer. A minha posição atual não era deleitável e mudá-la certamente não me traria qualquer pesar. Posar para o retrato de um artista anônimo definitivamente parecia mais divertido do que simplesmente lamentar-me por meus infortúnios, sentado entre dois casais, desprovidos de pudor e bom senso.

Não apenas isso.

Eu não tinha apenas um anseio de participar de pousar para um retrato, mas estava especificamente curioso para descobrir como seria participar de uma tela daquele egocêntrico artista.

A pessoa diante de mim não lembrava remotamente um intelectual ou um pintor. Não fossem seus materiais de pintura e a sua evidente sinceridade ao convidar-me a pousar para um de seus retratos, eu seria convencido de que sua proposta tratava-se de mais um de seus deboches e assim que eu a aceitasse, ele riria de mim e diria linhas como “Você realmente aceitou?! Nós não estamos no século dezesseis, aristocrata! Caso queira um retrato, existem diversas câmeras digitais a sua disposição!”. Essa seria a sua mais provável reação, caso fosse esse o seu intento.

Todavia, ele não me parecia estar brincando. O anônimo queria pintar uma tela na qual eu estivesse presente. E ele transmitia a convicção de que, sim, ele podia pintar uma tela na qual eu estivesse presente.

Havia tamanha contradição entre a sua imagem e seu convite que não pude deixar de perguntar-me como seria um quadro dele. Como seriam os seus procedimentos? Como seriam os seus resultados? Eu não podia conter certa curiosidade em descobrir a resposta para essas questões...

– Eu não terei de pagar-lhe algo, pelo meu retrato, terei? – indaguei, pousando sobre o desconhecido, um olhar que continha excessiva desconfiança para aparentar ser o prenúncio de uma resposta positiva.

Apesar de nada em meu rosto, delatar minha resignação, ele deve tê-la sentido de algum modo, pois houve uma notória mudança nele ao ouvir minhas palavras. Ao escutar-me, os olhos dele brilharam radiantemente e seu sorriso tornou-se ainda mais animado, tão animado, espontâneo e sincero que gerou uma discreta e pouco familiar sensação em meu peito e, momentaneamente, não pude saber se deveria arrepender-me ou felicitar-me pela decisão que havia tomado.

– De modo algum, jovem mestre. – ele dirigiu-me um amplo sorriso que continha vívido entusiasmo e, mais discretamente, intenções possivelmente malignas que, naquele instante, eu não tinha a menor disposição de descobrir. Em seguida, ele ergueu seus punhos e exclamou com a confiança e ânimo de um imperador prestes a iniciar um discurso triunfal — O incrível eu, dentre suas inúmeras virtudes, possui um altruísmo infindável e...!

– Nesse caso, embora não goste da sua companhia, eu não me oponho em posar para a sua tela. – eu o interrompi, com moderada polidez.

A despeito de minha relutância em admitir, havia algo de instigante no confiante e animado olhar escarlate que ele fixava em mim, suficientemente convincente para dissipar os vestígios de minha resistência.

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O local que ele escolheu, para o cenário de seu quadro, era realmente próximo ao banco, no qual eu encontrava-me, anteriormente. Contudo, aquele ambiente não me parecia aprazível e o refutei instantaneamente.

– Jovem mestre, pare de ser dramático! Essa é apenas uma árvore! Que mal pode haver em ficar sob uma árvore por alguns minutos?!

– As flores e folhas podem cair sobre mim.

– Nesse caso, você pode retirá-las.

O absurdo daquela frase fez-me ponderar se ele estaria sendo sarcástico ou não.

–... Você está sendo sério? – franzi minhas sobrancelhas, contemplando-o interrogativamente.

– Você é o único que não está sendo sério, aristocrata! – ele exclamou, com uma indignação impaciente que não me pareceu justificável — São apenas folhas e flores! Argh! Você estará sentado no chão, de qualquer modo, então que diferença isso...?!

– Você espera que eu me sente no chão?! – indaguei, tomado por perplexidade e horror.

Houve o início de uma fervorosa, embora breve, discussão que evidentemente terminou em minha vitória, visto que as condições daquele anônimo eram demasiadamente absurdas para sequer serem consideradas por mim.

Ele trouxe-me o banco de uma das mesas de xadrez, presentes na praça, e providenciou-me um amplo guarda-chuva escuro que poderia proteger-me dos objetos que caíssem da árvore, deixando-me, desse modo, mais confortável com minha presente situação. Sem oferecer-me aqueles riscos, a árvore parecia-me mais bela do que era, há um momento. Ela era larga, mas não muito alta. Tinha aproximadamente o tamanho de dois homens adultos. As suas folhas eram de um verde vívido e claro e elas se agitavam ao vento, provocando um quieto murmúrio. Como era primavera, havia, mescladas às folhas, diversas pétalas alvas que a adornavam singelamente, também movendo-se com graça, impelidas pelo vento. Aquela era uma velha macieira e, observando-a com calma, pude perceber que era muito bonita. Eu podia entender por que o anônimo havia a escolhido.

Enquanto eu apreciava a visão da macieira, ele aproveitou-se de minha distração para organizar os itens que precisaria a para a preparação do quadro e, quando meus devaneios foram cessados, surpreendi-me muito ao voltar-me para ele e perceber que estava preparado e aguardava apenas por mim.

– Eu não me oponho à sua longínqua admiração pelas minhas brilhantes escolhas, jovem mestre, mas você precisa parar de se mover. – ele disse, sem erguer seu olhar da tela diante de si e pude perceber em seu semblante, o fascinante surgimento de uma seriedade e compenetração, ausentes até aquele instante e que não me pareciam possíveis nele até que eu as visse. Era, no mínimo, curioso vê-lo assim e decidi que não seria eu a atrapalhá-lo naquele que deveria ser um dos seus raros instantes de discernimento.

– Eu entendo. Há alguma posição específica, na qual eu deva ficar?

Houve uma breve ponderação de sua parte, mas ele rapidamente a findou e, permanecendo extremamente sério e atento à tela, deu-me as seguintes instruções:

– Morda seu lábio inferior, abra ligeiramente as pernas e... – percebendo que eu havia me levantado e estava bastante disposto a ir embora, ele arregalou os olhos, em uma expressão quase apavorada, estendeu seus braços e agitou nervosamente suas mãos para os lados, em um gesto que visava deter-me com urgência — Espere! Espere! Eu estava brincando!

– Mesmo?! – exclamei, sem tornar a sentar-me no banco, com minha irritação e constrangimento, tingindo o meu rosto em uma forte tonalidade de vermelho — Não aparentava!

– Claro! Como você poderia compreender facilmente o meu complexo humor?

– Eu não aceitarei outra piada imprópria como essa!

– Sim, sim! – ele suspirou, contrariado, com impaciente conformismo, revirando seus olhos — Conforme queira, jovem mestre! Apenas fique parado, na posição que lhe for melhor! Eu não tenho uma exigência específica!

A ofensa que tomei com a provocação dele fora tão flamejante quanto efêmera e a mudança de uma posição com denotações de erotismo para uma a minha escolha pareceu-me deveras significativa e atrativa para ser desprezada, sendo responsável pelo retorno do meu interesse em posar para aquela tela. Essas eram condições bem melhores e eu as aceitei de bom grado. Candidamente, tornei a sentar-me no banco, em uma posição que não possuía nenhum detalhe em especial, com exceção às minhas mãos que, por um hábito meu, estavam repousadas sobre meus joelhos.

– Nesse caso, eu permanecerei em minha posição original. – disse, serenamente, enquanto acomodava-me novamente em meu lugar- Sinta-se livre para começar.

– Certo, certo... – ele resmungou, deixando que seus olhos caíssem novamente em sua tela, com a mesma seriedade e compenetração de antes, somada a um latente desprazer. Eu já supunha que essa piora em seu humor acabaria por findar nosso diálogo, quando, com o mesmo semblante e sem erguer seu olhar em minha direção, ele, inesperadamente, dirigiu-se a mim — Ei, jovem mestre.

– Hum?

– Qual é o seu nome?

“...”

Essa pergunta, extremamente simples, pareceu-me mortificante, vindo dele. De minha parte, havia um interesse concreto – e firmemente reprimido — em conhecer melhor aquele anônimo, mas, visto que ele ainda não havia feito nenhuma tentativa de aproximação dissociada de meu retrato, eu havia concluído que elas não viriam eventualmente e que a sua vontade era a de restringir ao máximo as nossas interações. Aquela interrogação, portanto, era inesperada, e deixou-me completamente estupefato.

Sim, ela era tão somente uma parte dos cumprimentos comuns exigidos pelas normas de convivência e não possuía nenhum traço em especial, contudo, o fato de que fora ele o primeiro a manifestar um desejo de conhecer-me, ao invés do contrário, atingiu-me como um raio.

– Não há necessidade que você saiba meu nome. – respondi, arqueando ligeiramente minhas sobrancelhas, perplexo demais para moderar ou ponderar sobre minha resposta quase automática. — Isso não está relacionado à sua tarefa.

– É óbvio que está, jovem mestre! – ele reagiu, imediatamente, com efervescente furor e determinação — Qual será o nome de minha futura tela?! “Um aristocrata com sérios problemas de interação com a natureza, segura um guarda-chuva, debaixo de uma macieira”?!

– Por favor, não coloque um nome como esse!

– Vê? – ele encarou-me, tão acusatório que parecia cercado por uma áurea sombria — Isso não seria nada incrível, não é? Então, diga o seu nome!

Não era como se me restasse outra opção.

– Roderich... – declarei, com visível cansaço em perceber quão facilmente ele me manipulava — Roderich Eldestein.

– Rod, huh? – com a menção tardia do meu nome, ele sorriu com um inexplicável prazer perverso. Em seguida, ele ergueu seu rosto para mim e, confiante e satisfeito, acrescentou animadamente — É um prazer conhecê-lo, jovem mestre! O meu nome é Gilbert! Grave-o, em sua mente, em letras douradas!

Assim decorreram nossas apresentações. Nossos nomes foram apenas a primeira de muitas coisas que descobrimos um sobre o outro, naquela tarde.

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Quando Gilbert propôs-se a pintar uma tela na qual eu estivesse presente, presumi que ele simplesmente apanharia a palheta e começaria a fazer os desenhos com o pincel. No entanto, estava enganado. Ele tinha, perante o seu quadro, uma folha de papel na qual desenhava, utilizando-se de um lápis. Aquele procedimento deixou-me curioso. Em filmes e livros, os pintores sempre começavam a pintar diretamente na tela, então, não me ocorreu que aquele imprevisível tolo pudesse iniciar seu trabalho, com um rascunho.

Um procedimento como esse era uma etapa fundamental para a criação de um quadro, todavia, admito que, até então, não esperava que Gilbert agisse com tamanho zelo e esmero. De certo modo, eu esperava que ele simplesmente jogasse tintas sobre a tela e declarasse que a caótica confusão cromática, decorrente de suas técnicas, era parte de uma arte profunda demais para o meu entendimento.

Era admirável o empenho que ele estava aplicando em meu retrato, contudo, eu não podia deixar de lamentar o fato de que seus cuidados resultariam em uma demora da conclusão do quadro... Talvez eu não visse o resultado final.

– Entediado, huh? – Gilbert constatou, em uma voz que, apesar de grave, transmitia certa empatia por mim, confundindo o teor de meu suspiro — Não há necessidade disso, jovem mestre. Eu ainda estou trabalhando com a sua estrutura corporal, então você pode falar, desde que não se mova muito.

– O que eu teria a dizer?

– Uma justificativa plausível para explicar por que você estava parado, sozinho, em uma praça, em pleno dia dos namorados? – ele fez essa pergunta, arqueando uma sobrancelha, em um tom peculiar, como se nenhuma interrogação fosse mais esperada.

– Não é evidente que eu estava esperando alguém? – franzi minhas sobrancelhas, ofendido.

O vulto de um intenso escárnio surgiu no rosto de Gilbert.

– Você havia marcado um encontro e foi rejeitado? – ele perguntou, parecendo conter-se ao máximo para não rir fartamente de minha patética situação.

– Não! Digo, sim! Não exatamente...!

– O quê? – ele questionou, com sua mão sobre sua boca e pequenas lágrimas acumulando-se no canto de seus olhos, incapaz de controlar os risos que subiam por sua garganta e entrecortavam sua voz — Você realmente foi rejeitado?

– N-Não! – corrigi-o, instantaneamente — Não era um encontro romântico! Eu havia combinado com um amigo que ele me encontrasse aqui, mas ele não apareceu!

Convencido pela minha honesta, apressada e enfática explicação, Gilbert, aos poucos, pôde se recompor e enxugando suas lágrimas, perguntou com um sorriso mais espontâneo e menos mordaz:

– Ele não mandou nenhuma mensagem se explicando?

– Eu não tenho um celular.

– Claro que não tem.

– Eu não gostei do tom da sua constatação.

– Por que você não me pediu para utilizar o meu, Rod?

– Não me parece recomendável, pedir-lhe um favor.

Esse comentário meu teve um efeito peculiar em Gilbert que, aparentemente, não esperava que eu o dissesse, mas pareceu entreter-se com ele. Ele ergueu uma sobrancelha, dando-me um meio-sorriso.

– Eu não estou fazendo-lhe um favor, agora?

– Esse é um engano seu. – corrigi-o, imediatamente, despido de qualquer hesitação — Você foi o único a apresentar um desejo de retratar-me, logo, eu seria pessoa que estaria lhe fazendo um favor.

A minha confiança na coerência do que eu dizia foi confirmada quando houve uma pausa entre a minha fala e uma reação voluntária de Gilbert que, atônito, deteve-se por segundos, piscando rapidamente, antes de finalmente responder-me:

– H-Há! – ele riu forçadamente, desviando seu olhar para os lados, em uma inútil tentativa de disfarçar seu nervosismo por não conseguir contradizer meu argumento — V-Você apenas está hesitante em admitir a minha incrível generosidade! E devo dizer, que também não adiantaria pedir o meu celular, jovem mestre. Ele está completamente descarregado.

– Nesse caso, não o ofereça. – repreendi-o, com necessária e intensa gelidez.

Kesesesese! Eu não me lembro de tê-lo oferecido!

Por perceber que não poderia retorqui-lo, meu rosto foi tomado por rubor e insatisfação. Condenei-me, silenciosamente, por não encontrar uma réplica satisfatória para aquela provocativa indireta e, em um gesto impensado, cruzei meus braços sobre meu peito, o que resultou em uma reação imediata de Gilbert.

– EI! Aristocrata! Não mude de posição! – ele exclamou, com uma indignação que eu não conseguiria provocar, caso conseguisse organizar uma resposta oral. Retornei a minha posição inicial, achando ligeiramente divertido que algo tão simples houvesse o aborrecido dessa forma.

– Oh. Perdoe-me. – desculpei-me, polidamente, contendo um discreto sorriso que tentava surgir em meu rosto.

Ele fez um som impaciente. Em seguir, retornamos ao nosso silêncio. Havia apenas o som dos trovões ao longe. O céu, gradativamente, tornava-se mais escuro, mas a mente de Gilbert estava demasiadamente ocupada para perceber essa mudança. Ele encarava-me com um olhar fixo, intenso e analítico que, para ser franco, deixava-me um pouco desconfortável. Antes que eu pudesse requisitar que ele parasse de me observar daquela forma, ele lançou-me outra pergunta e, para a minha satisfação, voltou seus olhos, novamente, à tela.

– Você gosta de praças, como essa, aristocrata?

– Como isso está relacionado ao nosso assunto anterior? Como mencionei, não estou aqui, por uma opção e, sim, por...

– Sim, sim! – ele bufou, interrompendo-me- Estou ciente disso, jovem mestre! A minha incrível pergunta tinha, como intento, gerar algum diálogo que cessasse esse silêncio mortalmente tedioso! Eu não posso deixar que a sua expressão vazia estrague a minha louvável obra!

– Desde que nos encontramos, você tem me dirigido insultos e sarcasmos. Eu não vejo motivos para contar-lhe sobre minhas preferências. Quando o meu amigo chegar a esse ponto de encontro, nossos caminhos se separarão irreversivelmente.

Kesesese! Você fala como se estivéssemos em uma peça trágica, jovem mestre! Eu posso entendê-lo! Perder a companhia do incrível, sem dúvidas, seria uma fatalidade! Espero que você seja forte e contenha as lágrimas, quando nós...!

– Eu não gosto de praças, para ser franco. – dessa vez, a necessidade de provocar uma interrupção da fala de outrem foi minha — Os únicos passeios que me agradam são aqueles a recitais, óperas e concertos.

– E por que você marcou seu encontro, em uma praça, incoerente aristocrata?

– P-Porque...! – um rubor subiu por meu rosto, quando realizei quão humilhante seria uma resposta sincera. O que eu deveria dizer? “Ah, sim. Eu optei por vir a esse espaço, pois, simplesmente não tenho senso de orientação suficiente para chegar sozinho a qualquer ambiente desconhecido e, marcando em lugares públicos, posso pedir informações a mais pessoas sobre os caminhos que preciso seguir para alcançá-lo, o que é absolutamente necessário para que eu não me perca.”? – E-Eu respondi a uma pergunta sua! V-Você não deveria responder a uma minha?

– Você tem alguma pergunta a fazer, jovem mestre? – Gilbert indagou, surpreso, antes de dirigir-me um sorriso amplamente satisfeito — Os seus métodos foram um tanto infantis, mas o incrível eu responderá ao seu questionamento! Diga! Diga! Eu saciarei a sua infindável curiosidade ao meu respeito!

– Não desperdiçarei minha pergunta, indagando a origem do seu narcisismo absurdo. Por qual razão você veio a essa praça?

Por algum estranho e desconhecido motivo, ao receber minha questão, ele tornou-se sério, por um instante, e desviou seus olhos para os lados, nervosamente, parecendo avaliar sua própria resposta, durante seu silêncio. Por fim, disse com um olhar distante voltado a algum ponto aleatório entre as nuvens, e um sorriso que esforçava-se para aparentar casualidade, mas, nitidamente, era forçado e trêmulo.

– Eu gosto das paisagens desse local...

Recusei-me a aceitar um comentário vago e incerto como esse como o retorno de minha dúvida.

– Por quê?

Ele deu de ombros, dando a entender que não acrescentaria nenhuma informação ao que dissera. O que era, indiscutivelmente, revoltante. Essa era a resposta que eu receberia? Eu estava prestes a expressar minha indignação e cobrar uma réplica que, se não fosse mais honesta, ao menos se valesse mais do uso da retórica, quando ele adiantou-se em relação a mim e comentou com algum divertimento:

– Então... Recitais, óperas e concertos, huh? – ele revirou os olhos, rindo — Quão previsível, jovem mestre!

– Fique quieto, seu tolo!

– Bem, eu não toco algum instrumento clássico, diferente de você, jovem mestre, que precisou, desde cedo, tornar-se uma donzela prendada... – novamente, eu já iria replicá-lo duramente, quando ele acrescentou, com um semblante remotamente nostálgico, desviando o direcionamento de meus pensamentos — No entanto, eu realmente gosto de música erudita. Sempre tive uma ótima relação com o velho Liszt e o velho Gershwin...

– Você está referindo-se a Franz Liszt e George Gershwin, como se eles fossem seus parceiros de embriaguez?!

– Essa é outra pergunta, Rod – ele apontou com um entusiasmo e deleite feroz em utilizar meus próprios argumentos contra mim — e, pelo seu planejamento, essa é a minha vez de indagá-lo!

– Senhor Gilbert, há algum motivo pelo qual nós deveríamos manter esse diálogo? Excetuando, o seu deplorável prazer em implicar comigo?

– É óbvio que há.

– E qual seria esse?

– Nós estamos nos divertindo.

“...”

O argumento de Gilbert era suficientemente simples para que minha incapacidade de retorqui-lo provocasse-me certo desapontamento.

Ele estava certo.

A pessoa que conversava comigo era egocêntrica, irritante e detentora de um sarcasmo implacável, contudo, inexplicavelmente, eu estava, aos poucos, adquirindo um prazer em conhecê-la, o qual eu estava determinado a disfarçar.

Não esperava que Gilbert fosse tão direto quanto a algo que estava somente implícito em nosso diálogo.

A diversão mútua que sentíamos ao interagirmos, mesmo em nossos conflitos e divergências de opiniões, era extremamente sutil em suas manifestações e não me ocorreu que ele a apontaria tão abertamente, quando fiz minha questão.

O meu primeiro instinto foi o de negar aquela afirmação. Divertindo-me? Não seja pretensioso. O seu deleite com essa conversação não é compartilhado por mim. Estou meramente tentando distrair-me, enquanto aguardo a chegada de meu amigo. Embora o senhor esteja se entretendo com esse diálogo, meus sentimentos não são os mesmos e cessá-lo não me provocaria nenhum desprazer.

Eu poderia ter dito isso, entretanto, não tive descaramento o bastante para permitir que uma grande mentira como essa fosse articulada por mim.

Não haveria como dizer palavras como essas, com a naturalidade e segurança daqueles que acreditam nas afirmações que fazem. Os segmentos de minha frase se desordenariam e meu rosto delataria imediatamente o constrangimento que me invadiria.

O que, então, restava-me fazer? Confirmar aquela questão? Sim, seu tolo. Eu estou divertindo-me bastante nesse diálogo, pois aprecio suas respostas, atenção e senso de humor. Mesmo quando você implica comigo, sinto-me incapaz de adquirir uma real irritação, pois reconheço a sagacidade da sua ironia e não me incomodo, em absoluto, em receber os flertes de alguém que pode ser considerado- dentro do senso comum, é óbvio — vagamente atraente.

Não, não, não. Ser inteiramente honesto também não era uma alternativa viável!

– O que lhe sugeriu que eu estivesse me divertindo? – perguntei, por fim, com minha voz defensiva, carregada de hesitação.

– Você não está?

Essa era uma questão mais direta e sua resposta exigia menor detalhamento. Consequentemente, senti-me mais encorajado a dá-la, embora ainda me recusasse a replicá-la com uma intensidade que acabaria por estimular o – já bastante desproporcional — ego de Gilbert.

–... Apenas um pouco. – cedi, parcialmente, desviando meu rosto e tentando utilizá-lo para transmitir uma insatisfação que, em fatos, eu não sentia.

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Gilbert possuía 28 anos. Ele adorava pássaros e cachorros. Ele não apenas apreciava a música erudita, como tinha similar gosto por jazz, blues e heavy metal. Ele, inclusive, fez parte de uma banda do último gênero, quando adolescente. Os outros membros dessa banda eram três amigos seus, com quem ele relacionava-se, desde o ensino médio. Treze anos haviam se passado, desde que ele os conhecera, e a amizade dos quatro mantinha-se firmemente.

Ele tinha diversos tipos de videogames e uma variedade ainda maior de jogos. Também gostava de utilizar redes sociais e perdeu um longo tempo, tentando convencer-me a criar um blog e a ler o que havia no seu, o que foi um esforço infrutífero, devo dizer.

Ele também gostava – e tive que conter meu riso, quando ele me revelou essas informações – de bichos de pelúcia e de filmes românticos, com finais felizes. Percebendo que eu não podia evitar algum divertimento com essas revelações, ele ficou bastante constrangido e, com um sorriso forçadamente pretensioso, tentou argumentar que apenas pessoas incríveis, como ele, eram capazes de perceber a densidade psicológica, dentro daquelas complexas obras cinematográficas, que eram ardilosas justamente por parecerem excessivamente simples. Nesse momento, eu não pude conter uma risada e ele acabou sendo absorvido por ela. Ambos rimos e nos entreolhamos, com uma alegria cúmplice.

Gilbert contou-me muitas histórias de seu cotidiano que fizeram-me concluir que ele era alguém facilmente manipulável e ingênuo, sob certos aspectos. Era recorrente que seus amigos pregassem-lhe algumas peças ou que ele mesmo fizesse algo insensato por atrapalhar-se quanto ao modo como deveria agir. Por outro lado, ele também pareceu-me um amigo fiel, extremamente afetuoso e compreensivo. Qualidades que, em muito, diluíam os seus pequenos e divertidos defeitos.

Ele adorava viajar, gostava de marcas de cerveja que, a meu ver, eram bastante caras, e também apreciava doces, mais do que quaisquer outros gêneros alimentícios.

Do que ele não gostava, então? Ele tinha uma aversão por verduras – o que também fez-me conter um sorriso, pois não pude evitar achar alguma graça do quão infantis eram seus gostos. Ele detestava dramas românticos e debochava de filmes de terror com excessiva apelação para sangue e nudez.

–... Aparentemente, ele pretendia matar todos os adolescentes que fizessem sexo! Kesesese! Devo dizer que, se não houvessem o derrotado, no final do filme, ele gastaria um longo tempo em sua jornada! O assassino do filme era a encarnação dos desejos de todas as mães, jovem mestre!

Gilbert não gostava de ver pessoas negligenciando idosos, tinha uma latente antipatia por gatos – afinal, eles eram inimigos naturais dos pássaros e dos cachorros! — e detestava usar trajes formais, embora acreditasse que algumas pessoas ficassem muito bem neles.

...Esqueci-me de dizer que ele podia constranger-me profundamente, com uma facilidade perturbadora.

E o que eu disse a ele?

Quando nos conhecemos, eu tinha 23 anos, e lamentei-me e mortifiquei-me com o fato de que era mais novo do que aquela pessoa que tinha as mesmas preferências de um garoto de nove anos. Eu adorava gatos e critiquei efusivamente a visão que ele possuía quanto àqueles animais tão graciosos e independentes. Como ele poderia preferir aqueles cachorros desordeiros e alterados, e pássaros, tão apáticos e barulhentos? Essa discussão entre nós quase culminou em um guarda-chuva arremessado na cabeça de Gilbert e tintas arremessadas em minhas vestes. Quando, por fim, chegamos a um consenso, fiz com que ele admitisse que alguns gatos poderiam ser excelentes animais de estimação e, a contragosto, assumi que alguns cachorros e pássaros também podiam ser. Embora, complementei mentalmente, os gatos fossem superiores, é óbvio.

A música erudita, para mim, diferente do que ocorria com Gilbert, era o meu mundo. Ela não era uma simples preferência. Ela era uma parte minha. O meu trabalho envolvia música clássica, eu treinava com o meu piano com infindável afinco e jamais encontrei um gênero musical que me despertasse tantas emoções quanto aquele. Eu amava a música erudita. Eu a bebia, a respirava e a sentia crescer em meu interior, a cada instante.

Quando revelei tudo isso a Gilbert, realizei que havia me expressado de uma forma muito passional, e temi receber aversão e escárnio, por minhas declarações. Eu pensava sobre como deveria amenizar o que acabara de falar, quando noticiei que o olhar intenso e fixo que ele pousava sobre mim, estava bastante sério e não continha nenhuma nuance de desprezo. Antes, possuía um profundo interesse no que eu dizia e uma considerável dose de respeito por mim.

O meu rosto enrubesceu, de imediato, com essa realização e franzi minhas sobrancelhas, tentando denotar um aborrecimento que não possuía, para disfarçar meu constrangimento. Como disse, ele podia deixar-me terrivelmente envergonhado, com uma aptidão natural, aquele tolo.

Mesmo percebendo que Gilbert apreciara o meu discurso, eu não sentiria confortável em continuá-lo, portanto, continuei a citar minhas preferências. Eu também gostava de romances, disse a ele, entretanto, apenas daqueles que possuíssem um teor histórico. O que, irremediavelmente, acabava levando-me a gostar de diversos dramas. Esse gosto meu deixou-o mais chocado do que a minha declaração de amor eterno por Chopin.

– Como você pode gostar desses filmes?! – ele indagou, com uma expressão de assombro e repúdio tão enfática que poderia ser considerada cômica — Eles destroem o seu coração em tantos pedaços que nunca mais é possível reorganizá-los da mesma forma!

Pelo visto, o problema de Gilbert com filmes dramáticos devia-se a sua hipersensibilidade quanto ao conteúdo desses. Eu não tinha problemas com isso. Filmes não conseguiam comover-me a ponto de levar-me a lágrimas, embora bons concertos, com frequência, tornassem meus olhos tão marejados que todos os objetos ao meu redor, tornavam-se embaçados.

Eu gostava de dramas históricos, com seus enredos trabalhados, cenários impressionantes e costumes de uma época distante, sendo retratados. Diferente de Gilbert, que parecia ser arrastado pela dor a cada cena, e que preferia evitar dramas a ter que lidar com os doridos sentimentos que esses traziam. Confesso que achei um tanto adorável, esse seu inesperado lado sensível, entretanto, essa não era uma informação que eu pudesse ou quisesse transmitir-lhe, então, guardei-a comodamente em meu coração.

Eu gostava de ambientes organizados, de chuvas e de chocolate. Apreciava pratos com verduras, considerava-os saudáveis e deleitáveis e não, fazer uma careta de repúdio, não fará com que eu mude de ideia, senhor Gilbert.

Eu também adorava cozinhar e, certamente, senti-me um tanto lisonjeado e surpreso com o quanto Gilbert impressionou-se com essa habilidade minha e passou a perguntar-me sobre minha capacidade de preparar uma série de sobremesas.

Apfelstrudel?

Logicamente.

Chessecake de baunilha?

– Sim.

Sachetorte?

– Evidentemente.

– Você sabe preparar sachetorte?!

– Sim, eu sei. Não é muito difícil, uma vez que...

– Case-se comigo!

Novamente, a expressão dele — dessa vez, uma muito séria — era tão enfática a ponto de ser cômica.

...Apesar disso, não deixei de sentir-me pouco confortável com o que ele me dizia.

– N-Não faça brincadeiras estúpidas, seu tolo!

Nós descobrimos todos esses detalhes sobre nossas vidas, durante as duas horas e trinta e cinco minutos de nosso diálogo. Um longo período de tempo que passou-se, sem que eu percebesse o movimento dos minutos. Estava tão entretido naquela conversa que mal reparei em sua duração e esqueci-me completamente do imperdoável atraso de Ludwig.

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Apesar de ter uma firme resistência a circunstâncias novas e atitudes impulsivas, eu não conseguia encerrar o diálogo que travava com Gilbert, uma pessoa que eu havia acabado de conhecer. Não devido a uma profunda transformação em meus valores ou a um súbito acesso de simpatia de minha parte, mas devido à simples e, concomitantemente, enigmática compatibilidade existente entre nós.

Sim. Misteriosamente, nós nos revelamos bastante compatíveis. Gilbert reagia a minhas reações defensivas e aparente desprezo, com risos e sorrisos, replicando-me de uma maneira espirituosa e calculada que eu tinha dificuldades em revidar. Em meu caso, eu tolerava suas provocativas e o seu absurdo egocentrismo, com apenas um vulto de impaciência e, na maioria dos casos, com algum sarcasmo. Como resultado, mesmo as partes mais quietas de nosso diálogo não eram tediosas e as partes conflituosas sempre possuíam uma sutil dose de divertimento de ambas as partes.

Além disso, havia um interesse mútuo, entre nós, de conhecermo-nos melhor. Gilbert, com sua personalidade completamente distinta da minha, ainda parecia-me ter algo de instigante. Algo que havia crescido significantemente, desde o início de nosso diálogo. E, embora não saiba o quê, em mim, despertou sua atenção, quando ele falou comigo, pela primeira vez, reconheço que ela não foi dissipada em nenhum instante e que chegava a embaraçar-me, perceber o aumento da intensidade do olhar que ele me lançava.

Assim, continuamos a conversar, em um fluxo tão espontâneo e natural quanto a passagem das águas de um rio.

Não foi abrupto o início de temas mais profundos e significativos em nosso diálogo. A atmosfera necessária para que eles surgissem foi gradativamente construída, como o crescimento de uma escala de cores na qual um tom quase branco chega ao auge de sua força. Não posso, portanto, precisar o momento em que as perguntas realmente importantes começaram a ser feitas, contudo, se tiver que escolher um fragmento para esse propósito, diria que foi aquele em que Gilbert perguntou-me sobre a minha profissão.

– Você disse que tocava o piano, correto, jovem mestre? E como você trabalha com isso? Você dá aulas em algum conservatório ou...?

– Não. Eu sou um pianista profissional. Sustento-me com os ganhos de minhas apresentações.

Ele arregalou os seus olhos, imensamente.

– Você vive apenas com isso?! Sério?!

– Devo tomar sua resposta como um insulto às minhas habilidades? – retruquei, erguendo uma sobrancelha, sem disfarçar minha insatisfação com o desnecessário e relativamente ofensivo, choque de Gilbert — Afinal, você, como alguém cujos ganhos dependem das suas pinturas, deveria ser o último a estar impressionado com a rentabilidade de um trabalho artístico. Devo inferir que você subestima o quanto eu...?

– Eu não trabalho com isso, jovem mestre. – ele apressou-se em me informar, solicitando-me com um gesto de sua mão que eu me detivesse. Parecia um pouco atordoado com a direção que meus pensamentos tomaram e um tanto assustado com o estupor de minha resposta. Seu comentário, além de desarmar-me contra as múltiplas acusações que eu estava prestes a disferir contra ele, deixou-me severamente confuso.

–... Huh?

– Eu sou o CEO de uma empresa que trabalha com a inovação de tecnologias verdes para indústrias automobilísticas.

...

Havia tamanho contraste entre a honestidade que Gilbert transmitira e o ilogismo do que ele acabara de dizer que não pude, de imediato, absorver aquela informação.

–... Não pense que eu não noticiarei o seu sarcasmo... – murmurei, em um tom entre a recriminação e a hesitação, franzindo minhas sobrancelhas e abaixando meu olhar propositalmente.

– Não é sarcasmo. — ele respondeu, com casualidade — Você gostaria de ver o meu cartão, depois?

– O que o CEO de uma grande empresa estaria fazendo em uma praça, como essa?- exclamei, tentando forçá-lo a confrontar-se com o absurdo do que ele afirmara.

– Não é lógico? – ele revirou os olhos, com impaciência — Pintando a tela “Roderich Eldestein, um aristocrata com sérios problemas de interação com a natureza, segura um guarda-chuva, debaixo de uma macieira”.

– Eu já lhe disse para não pôr esse nome ridículo!

Kesesese! Como queira, jovem mestre! O incrível eu, absolutamente, terá uma ideia melhor! – após essa afirmação arrogante, Gilbert, por alguma razão, amenizou seu sorriso e voltou-se a mim com maior calma e curiosidade — Agora, retornando ao nosso assunto inicial, é verdade que você se sustenta apenas com o piano? Isso é bem impressionante, Rod.

–... Não tão impressionante quanto o fato de que um tolo insensato, como você, pode tornar-se o CEO de uma empresa. – respondi, muito sério, ainda recuperando-me de meu choque com essa descoberta e deglutindo aquele conhecimento.

– Do que você está falando, jovem mestre? – ele riu — Alguém incrível como eu, não poderia deixar de ocupar uma posição de liderança! Seria uma lástima para todos os meus subordinados! Embora – ele acrescentou, com um tom e sorriso um pouco mais bucólicos — eu deva admitir que os meus planos, para o futuro, eram diferentes, quando eu era adolescente.

– Você pretendia tornar-se imperador do mundo ou algo similar?

Kesesese! Eu ainda pretendo, jovem mestre! No entanto, eu não me referia a isso! – ele deu um breve suspiro e disse, sorrindo com discreta melancolia — Sabe, Rod, como você, eu também gostaria de ter a música como trabalho, não apenas como um passatempo. Eu realmente acreditava que a banda que eu tinha com os meus amigos seria algo como o U2. Ela nos sustentaria e nos manteria unidos até o fim dos dias.

Recusei-me a perguntar o que era U2 e apenas mantive uma expressão séria e compenetrada, agitando ligeiramente meu rosto em um meneio positivo.

– No entanto, ela não conseguiu passar do nosso primeiro semestre na faculdade. – ele deu um breve riso seco e sem força — O Tonio ficou muito ocupado com os estudos e com o trabalho de meio-período que ele arranjou. O Arthie conheceu o Yoko de óculos e apetite sexual inesgotável e passou a utilizar a sua voz em outras atividades. Por fim, o Francis disse que não tinha mais “tempo para esses pequenos prazeres infantis” e recomendou-me a fazer coisas mais divertidas, como sexo, por exemplo.

–... E você?

– Todos estavam fazendo sexo, então eu fiz também! – ele exclamou, com as sobrancelhas franzidas e um aborrecimento deveras infantil — Como se o incrível eu pudesse perder para eles! Em pouco tempo, eu já havia os superado quantitativamente e qualitativamente!

– Devo aplaudi-lo por isso?

– Caso esse seja o seu desejo, não contenha-se, jovem mestre! – ele sorriu, desprezando o sarcasmo de minha colocação e lançando sobre mim, sua própria ironia — Eu não pretendo impedi-lo!

– Por favor, prossiga a sua narrativa. Eu me recuso a acreditar que a sua conclusão seja essa.

– Bem, como eu dizia, eu tive minha diversão, nessa época, é claro. – ele disse, mexendo um dos cantos de sua boca, rapidamente, como se constatasse um fato inevitável, mas importuno. Em seguida, justificou-se com uma expiração e uma exclamação um tanto mais enfática — Eu tinha dezenove anos! Os meus hormônios e os meus cinco metros estavam implorando por uma atividade! Todavia, devo admitir que fiquei um tanto frustrado com o término dos meus gloriosos planos. – a menção ao seu desapontamento, trouxe tons sóbrios e alaranjados ao seu semblante que, teoricamente, ainda continha um sorriso — Eu seria um incrível guitarrista, jovem mestre. Às vezes, penso se não deveria ter ignorado a dissolução da banda e escolhido uma carreira mais próxima dos meus gostos...

Houve um longo silêncio entre essa declaração e uma resposta minha. Um longo e denso silêncio que parecia comprimir a ambos, com a sua expansiva melancolia. E, apesar de não sentir-me bem em fazer isso, fui eu a tomar a iniciativa de interrompê-lo:

– Eu poderia dizer que não poderia imaginá-lo, sendo algo diferente de um CEO, contudo, não estaria sendo honesto. – admiti, com absoluta franqueza — O seu perfil certamente combina mais com o de um guitarrista...

– E o seu perfil, jovem mestre, combina com o de um fiel mordomo em uma trama passada no século dezoito. – ele sorriu, implicantemente.

– Ignorarei a sua provocação infantil. Devo dizer-lhe, senhor Gilbert, que apesar de não conseguir imaginar uma profissão mais inapropriada a você, do que a sua, talvez a carreira de guitarrista não lhe parecesse tão atrativa, se você, de fato, estivesse nela.

Kesesese! Você está tentando transmitir a sabedoria que acumulou em dois séculos de existência, Rod? – ele riu, debochadamente, e somente não tornei-me irascível com aquela lamentação reação, pois estava bastante decidido a expressar minha opinião e não me permiti ser interrompido sequer por meus próprios sentimentos.

– Cale-se, seu tolo. – eu o repreendi, de forma concisa e severa — Apesar de ser mais novo do que você, eu passei pela experiência de seguir precisamente a carreira que esperava, então, sinto-me no direito de aconselhá-lo quanto a esse tema.

– E quais são seus ensinamentos, louvável e ranzinza aristocrata? – ele estendeu uma de suas mãos, em espera, com um largo e mordaz sorriso.

– Eu não consigo ver-me em uma profissão, diferente da que possuo. – confessei, com uma seriedade que em muito opunha-se ao presente humor de Gilbert, deixando que meus olhos, por vezes, caíssem sobre a relva e prosseguindo em um único fôlego — Eu não poderia deixar de ser um pianista. Faltaria-me paciência e disposição para adquirir conhecimentos em quaisquer outras áreas. Eu, entretanto, confesso que seguir a carreira que idealizamos nem sempre é tão deleitável quanto você imagina. Apesar de minhas aptidões, eu não sou um Evgeny Kissin... – ele ergueu uma sobrancelha, interrogativo -... um pianista com grande reconhecimento, quero dizer. Os meus ganhos não são tão limitados quanto você pressupôs, mas não nego que devo ser cuidadoso com os meus gastos. Raramente sou convidado a realizar recitais e meus ganhos derivam-se, principalmente, de participações em concursos. Como nem sempre venço essas competições e meus recitais possuem uma entrada com um preço módico, mesmo nos momentos em que consigo um trabalho, recebo uma quantia moderada de recursos. Esse é um aspecto com o qual, em sua carreira, você não terá que se preocupar. Eu sou forçado a exercer um controle severo sobre os meus gastos e a abdicar a alguns prazeres pessoais, devido a essa limitação financeira, o que você não necessita fazer. Eu reclamo de minhas despesas, contudo, se estivesse em outro emprego, lamentaria não ter seguido o meu sonho de tornar-me um pianista. Enfim, acho que as pessoas possuem uma predisposição natural a culparem decisões passadas por seus infortúnios e acreditarem que poderiam ser mais felizes, caso houvessem agido de outro modo. Essa não é necessariamente uma verdade. – fechei os olhos, por um instante, com plácida resignação — Talvez, senhor Gilbert, se você tivesse que lidar com a falta de reconhecimento e de ganhos na profissão que escolheu, estaria profundamente arrependido de tê-la escolhido, ainda que, a princípio, essa fosse divertida.

– Você, às vezes, se arrepende de ter se tornado um pianista, Rod?

– De modo algum. – retruquei, encarando-o com convicção e serenidade — Eu prefiro direcionar o meu rancor às minhas dívidas do que às minhas escolhas. Penso que essa seja uma atitude mais cômoda e prática.

– Ei, jovem mestre! – ele exclamou, um tanto irritado, com seu olhar vermelho quase amassando a tela que fitava e os cantos de sua boca, curvando-se em desgosto — Você não deveria estar dizendo algo como “Sim, os meus dias são repletos de arrependimento”?!

– Por que eu mentiria tão abertamente?

– Você não acabou de dizer que eu poderia me arrepender de minhas decisões?! No entanto, você acaba de me dizer que não se arrependeu da sua! O seu discurso é um tanto contraditório, aristocrata!

– Não, ele não é. – esclareci, de imediato — Nós somos extremamente diferentes, senhor Gilbert. Não há como comparar as nossas escolhas. Eu seria incapaz de seguir uma carreira dissociada ao piano. Em fatos, até mesmo duvido que poderia seguir uma carreira relacionada ao piano que não fosse a minha atual. Eu não me vejo ensinando outros pianistas ou compondo trilhas sonoras para filmes, portanto, considero impressionante que você tenha se sucedido tão efetivamente, em uma profissão que nada lembra a sua intenção original. Você gosta do seu trabalho, senhor Gilbert?

– É claro que gosto! – Gilbert exclamou, com seu rosto ainda comprimido em certa indignação, como se ele estivesse negativamente chocado com o pronunciamento de uma questão com uma resposta tão evidente — Como eu poderia deixar o destino da humanidade nas mãos de alguém menos incrível, jovem mestre?

– Nesse caso, pare de se lastimar e continue salvando o mundo, seu tolo. – solicitei, permitindo-me sorrir discretamente.

Ele correspondeu o meu sorriso com uma calma afeição que, suavemente, espalhara-se por seu rosto.

Esse instante de franco e recíproco afeto foi bastante volátil, devo dizer. Uma rápida mudança de expressão de Gilbert acarretou em uma imediata dissolução da morna e terna atmosfera que nos envolvia. A expressão dele tornou-se subitamente séria, quando ele apanhou a gola de seu casaco e de sua camisa, puxando-as ligeiramente para baixo, ao murmurar em uma voz grave:

– Está quente...

Ergui uma sobrancelha, com minha expressão perdida entre a dúvida e a reprovação. Percebendo o que se passava, Gilbert pregou-me um olhar atônito e curioso, enquanto o resto de seu rosto delatava um deboche de uma intensidade tal que gerava a impressão de que ele precisava conter-se para não gargalhar.

– Essa não era uma insinuação maliciosa, jovem mestre! – ele respondeu, com sua voz entrecortada por risos, adivinhando a hipótese que ocorrera em minha mente – Eu realmente estou com calor! Essa umidade não está o incomodando, aristocrata?

– Não, mas... – lancei um relance para cima, com minhas sobrancelhas franzidas pela minha insatisfação com meus próprios pensamentos e com a facilidade com a qual Gilbert os lera, e mirei as nuvens densas e escuras que pairavam sobre nós -... acredito que choverá em breve. Não seria melhor que nós nos retirássemos?

– Há! Não se preocupe, jovem mestre! – ele ergueu seu rosto em minha direção, com inabalável confiança — Os meus infalíveis instintos dizem que essa chuva não cairá imediatamente! Ela somente acontecerá, dentro de algumas horas. Nós ainda temos tempo. Ah! Eu sou tão incrível! Mesmo a natureza contém suas forças, diante da minha extraordinária presença!

– E, no entanto, você se diz afetado pela umidade.

– Essa foi apenas uma pequena ousadia, da parte dela, Rod. A natureza possui o direito de tentar. – ele limitou-se a replicar, transparecendo um tênue rancor quanto à desobediência da atmosfera quanto aos seus planos. Após responder-me, ele ergueu-se de seu banco, afastou-se de sua tela e, colocando suas mãos em seus bolsos, perguntou-me solicitamente. — De qualquer modo, eu irei comprar uma garrafa d’água, você também gostaria de uma?

– Não, obrigado.

– Chocolates? Vinho? – ele sorriu, desagradavelmente jocoso.

Em resposta, apenas lancei um olhar profundamente recriminativo e ele, rindo, deu-me às costas para comprar sua água. Suspirei, esmagado pelo acúmulo de vapor e por uma diversificada série de sentimentos incômodos e densos.

Em contraste com minha estática e indiferente expressão, as minhas mãos remexiam nervosamente sobre meus joelhos.

Apesar de ter afirmado não perceber os efeitos da umidade, eu não era completamente insensível a eles. O calor não afetava-me, mas a sensação abafada, em minha pele, era significativamente sentida por mim.

Do mesmo modo, a despeito de minha aparente compostura quanto à excessiva aproximação que eu e Gilbert vivenciávamos, eu percebia e sentia imensamente a suspensão existente entre nós. Ela era acentuada a cada flerte ligeiramente irônico de Gilbert, a cada persistente relance que trocávamos quase acidentalmente, a cada aparecimento de nuances de nossa personalidade em nosso diálogo, a cada sorriso cúmplice que compartilhávamos e a cada rubor que surgia em meu rosto. Eu não a ignorava. Como poderia? Ela era tão evidente que seria vergonhoso não noticiá-la.

No entanto, eu a temia. Ela me trazia mais receios e inquietação do que expectativas. Eu não sabia como deveria reagir ao desenvolvimento vagaroso e inevitável dos enlaces existentes entre nós.

Eu temia que minha percepção se limitasse a uma impressão minha. Sim. Talvez Gilbert não tivesse a mesma agitação que, esporadicamente, tornava instável o ritmo dos meus batimentos cardíacos. Talvez ele não sentisse a profundidade de nossa conversação nem o crescimento invisível, mas latente, do momento que compartilhávamos. A possibilidade de que ele simplesmente possuísse facilidade em interagir e desabafar com estranhos e de que ele não estivesse cortejando-me, mas somente fazendo piadas provocativas com o intuito de rir do meu embaraço era tão palpável que, por vezes, essa hipótese, para mim, tornava-se concreta, como se eu houvesse o escutado dizer essas sentenças.

E se não fosse uma impressão minha a de que... hum...algo se desenvolvia entre nós, os meus motivos para estar nervoso não seriam cessados. Eu não tinha experiência com situações assim, não estava preparado para elas e não sabia o que queria ou não. Teoricamente, eu ansiava por retroceder. “Eu não devo reagir assim”, “Devo censurar os flertes dele”, “Nós não deveríamos mudar de assunto? As dimensões dessa conversa devem voltar a restringir-se aos níveis seguros da casualidade”. Esses eram os pensamentos que pairavam fixamente sobre mim, como uma nuvem demasiadamente densa para mover-se.

Supostamente, o meu intuito seria o de retroceder. No entanto, no plano concreto, a compatibilidade, entre o que eu pensava e o que eu realmente queria, era praticamente inexistente. Por exemplo, se, em algum instante, Gilbert decidisse, por conta própria, que, de fato, era inapropriado que ele persistisse com os seus flertes e que revelássemos tanto de nossas histórias, emoções e ideias um ao outro, apesar de concordar racionalmente com sua resolução, seria muito provável que eu me magoasse severamente com ela.

Afinal, como eu deveria agir? O que eu esperava de Gilbert? Que limites eu deveria estabelecer? O que eu ansiava obter com meu atual comportamento?

A rápida partida de Gilbert e a breve avaliação do que ocorria entre nós, que fiz nesse período, fez-me perceber que, além de inquieto e receoso, eu estava terrivelmente confuso.

– Você parece distraído, jovem mestre.

Eu estive muito absorto em meus pensamentos para perceber a aproximação dele, como se envolto por uma cúpula. Consequentemente, a voz de Gilbert e a realização que ele já havia retornado ao seu banco provocaram-me um curto sobressalto assustado que contive com urgência.

– Ah. Você retornou?

Kesesese! É o que me parece, Rod!

– Não há qualquer necessidade de ser irônico.

– Sim, há. As suas reações, quando eu sou irônico, são adoráveis!

– “Cômicas”, você quer dizer. – corrigi-o, transmitindo alguma irritabilidade em meu rosto que mesclava-se com meu suave constrangimento.

– Não!- ele reagiu, impetuosamente — Elas são adoráveis, jovem mestre! Como o incrível eu poderia resistir a importuná-lo, quando você reage de um modo tão divertido, aristocrata? – sorriu Gilbert, evidenciando seu nítido divertimento perverso em implicar comigo.

– Você fala como se estivesse sendo lisonjeiro, embora haja apenas provocações em seus comentários. – acusei-o, impassível, engolindo meu embaraço anterior, por estar mais convencido de que o conteúdo do que ele me dissera era essencialmente sarcástico.

Gilbert revirou os olhos, ao que seus lábios despontavam, novamente, um tênue sorriso mordaz. Eu me recusava a imaginar o que o divertira tanto. Contudo, devo dizer, ele não o manteve por muito tempo. Para o meu estranhamento, Gilbert tornou-se sério, abruptamente, e abaixou seu olhar para a água que carregava em suas mãos.

–... Ei, Rod. – ele disse, abrindo sua garrafa e, embora sua voz, ao falar comigo, estivesse carregada de uma camuflada apreensão e lembrasse-me o zunir que anuncia aproximação de uma granada, não desconfiei das proporções e efeitos que teria sua próxima pergunta.

–Sim?

– Você está namorando alguém?

A tensão entre nós, por fim, alcançou seu auge. Esse foi o resultado final do acúmulo de expectativas, de comunicações indiretas e de suspensões entre nós. Ele veio a mim, com a força e velocidade de uma colisão, atordoando-me completamente. Antes que eu pudesse sequer refletir sobre o que havia escutado e sobre a possibilidade de que houvesse unicamente curiosidade naquela pergunta, o meu coração disparou freneticamente, impossibilitando-me de respirar e de pensar. Havia apenas branco em minha mente e uma desesperada sensação dorida em meu peito.

Descobri-me incapaz de cogitar em uma resposta e minha reação foi inteiramente involuntária. Arqueei as sobrancelhas, completamente surpreso.

– Não... – murmurei, com uma distância ínfima separando meus lábios.

– Ah. – ele soltou um pequeno suspiro e começou a beber sua água em curtos goles.

Gilbert parecia satisfeito com aquela resposta. E por que não ficaria? Para o seu (provável) propósito, era-lhe suficiente que eu fosse um solteiro. Eu, entretanto, não compartilhava de sua satisfação. Havia um descontentamento de minha parte em deixar que aquele importante tópico fosse tão simplesmente concluído.

Ser muito sincero com Gilbert, possivelmente, era uma ideia pouco razoável. Ele poderia ficar confuso com o propósito de minhas declarações honestas ou realizar o quão desinteressante seria investir em alguém indeciso como eu. No entanto, havia dúvidas, hesitações e medos que eu gostaria de compartilhar com ele a respeito de relacionamentos, a despeito de conhecê-lo há tão pouco tempo.

Não estaria sendo franco ao afirmar que decidi falar de questões tão íntimas, diante de uma pessoa que havia acabado de encontrar, devido a um súbito arrebatamento que senti por ela. Tampouco, fi-lo somente porque aquele era Gilbert. A minha ânsia por desabafar todas as emoções e interrogações que simplesmente acumulei ao longo dos anos encontrou uma rara oportunidade de concretização, quando identifiquei alguém que poderia compreendê-las, sem chocar-se, e essa foi a real razão de minha escolha.

Gilbert, afinal, não fazia parte de meus círculos de conhecidos e desconhecia a imagem que eu tentava construir, perante eles. O conceito que ele possuía quanto a mim, ainda estava sendo moldado, e, por essa exata razão, ele era a pessoa ideal para escutar minhas confissões, inseguranças e queixas. É difícil, penso eu, destruir uma imagem para construir outra, mas é sempre deleitável adornar uma que ainda está sendo formada.

Ademais, eu precisaria ser inteiramente sincero com ele, em algum ponto. A densidade da atmosfera que nos envolvia estava crescendo aceleradamente e, em breve, seria impossível manter-me vago quanto a ela. Eu ainda não sabia o que queria ou não, embora conhecesse o que minha racionalidade ditava e o que o meu coração ansiava. Se eu e Gilbert avançaríamos ou nos recolheríamos, era uma interrogação, para mim. A minha única certeza e determinação era a de que eu precisava desabafar meus medos e indecisões para ele, antes de decidir-me a impor alguma resistência quanto à potencialidade daquele diálogo ou dissipá-las inteiramente.

– Eu me divorciei, recentemente. – comecei — O motivo pelo qual estou esperando meu amigo, nessa praça, seria porque pretendo me mudar para a residência dele. Não teria condições de arcar com as despesas de minha residência, sozinho.

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– Eu sinto muito, Rod. – ele disse, disfarçando um sorriso, através do contato entre sua boca e o gargalo de sua garrafa, em um tom que não transmitia uma gota da piedade que ele supostamente deveria sentir – E qual foi a razão do seu divórcio? A sua esposa tinha ciúmes do seu piano e você teve que se decidir entre os dois?

Como disse, o meu motivo para expressar-me abertamente não seria prioritariamente Gilbert. Eu precisava fazer isso. Era uma necessidade minha. Fosse Gilbert, fosse outro anônimo confiável, meus procedimentos seriam muito similares. Por isso, ainda que eu estivesse bastante receoso com a possibilidade de que o interesse dele, por mim, fosse apagado, como uma vela exposta aos frios ventos noturnos, mantive minha determinação em ser absolutamente franco com ele. Ela ardia vividamente, dentro de mim, e nada poderia abalá-la.

– Não. Nós simplesmente concluímos que a minha orientação sexual não permitiria que tivéssemos um casamento satisfatório.

Nesse momento, Gilbert engasgou-se com sua água.


Notas finais
A parte 02 ainda está em processo de revisão e virá, em breve, assim como os meus comentários a respeito dessa one! Eu espero que vocês tenham apreciado o que leram até agora e que possam deixar comentários, para estimular-me! Eu estou fazendo o meu melhor quanto a minha escrita e reviews sempre são um incentivo!:3