As Sete Cores Do Arco-íris

4 Amarelo: Mar Verde Esmeralda - P.01


Notas iniciais
- Condições:
* Férias de Verão
* Praia pela manhã
* Gilbert ensina Rod a nadar
- Desafio da senhorita Bell

Desafio: Amarelo

Mar Verde Esmeralda

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Em nosso terceiro dia de viagem, eu lancei um relance atento aos meus arredores e percebi que qualquer um que observasse aquele local, afirmaria que eu, Gilbert Beilschmidt, era o melhor cara para preparar uma excursão. A casa de praia alugada por mim, para nossa viagem comemorativa de conclusão do ensino médio, era totalmente incrível e eu merecia a admiração e os elogios eternos dos meus amigos pela minha excelente escolha.

As águas extremamente verdes, o céu intensamente azul, o píer de madeira no qual nós podíamos beber nossos drinques, a enorme e majestosa residência, acima das escadas de pedra... AH! Eu realmente tinha motivos para me orgulhar da minha escolha e podia dizer para mim mesmo, “Gilbert Beilschmidt, você é um gênio nas artes do entretenimento”!

Todos estavam se divertindo tanto! O Artie estava jogando vôlei aquático com o Tonio, o Francis estava flertando com alguma garota desconhecida no píer, a Lizzy estava deitada em uma boia, flutuando nas águas e se bronzeando em uma pose meio arrogante que era totalmente hilária e...!

Pensando melhor, havia um detalhe que impedia que aquela viagem fosse a melhor de todos os tempos. Uma mancha em nosso cenário feliz e radiante.

Nem todos estavam se divertindo com aquela viagem.

Acima do píer, em uma mesa em frente à nossa casa, coberta quase completamente por um guarda-sol enorme, encontrava-se um amargo aristocrata, inteiramente vestido, observando-nos com uma apatia que me parecia uma versão amenizada do tédio em sua forma mais pura.

O nome daquele jovem mestre era Roderich Eldestein. Um cara de quem nunca gostei, para ser franco, e com o qual eu nunca esperei ter de continuar convivendo após o término do ensino médio e do namoro dele com a Lizzy.

Eu tinha muitos motivos para não gostar daquele aristocrata, mesmo não o conhecendo muito bem. Ele foi o responsável por tornar a minha Lizzy, a minha parceira de crimes com quem eu podia contar para entrar em brigas, jogar videogames, beber às escondidas e conversar sobre sexo, em uma chata de primeira categoria. Eu não sei exatamente como ele fez isso, mas, quando eles começaram a namorar, ela passou de uma garota que eu podia chamar tranquilamente de “O cara” para um protótipo de uma princesa Disney. Ele roubou a minha melhor amiga e ainda teve o descaramento de transformá-la em uma donzela desagradável! Aquele aristocrata!

Além desse motivo principal, eu tinha outras razões muito válidas para não gostar do jovem mestre, a despeito das afirmações totalmente injustas da Lizzy de que eu era apenas uma criança mimada que não gostava de perder a atenção que me cediam. Ele era um esnobe! Um estoico e antiquado aristocrata que mais se parecia com um nobre do século dezoito do que com um estudante do ensino médio do século 21! Que diabos! Ele usava cardigãs e ombreiras! Que tipo de cara de dezessete anos usa cardigãs e ombreiras?!

A falta de expressões dele também me irritava. Eu não quero confirmar as suspeitas da Lizzy de que eu era uma criança buscando atenção, no entanto não nego que era um tanto aborrecedor perceber a indiferença dele às minhas tentativas de incomodá-lo, durante os seus ensaios no piano do salão de música. Eu podia ofendê-lo com todos os apelidos e sarcasmos que me viessem à mente, e ele nunca gritava comigo nem se dava ao trabalho de me responder. Quando eu conseguia arrancar alguma reação dele, era sempre a mesma: um olhar vazio, fechado e sutilmente reprovativo que parecia me dizer “Muito bem. Você pode concluir o seu ponto? Eu estou ocupado, no momento” e que nunca durava mais do que alguns segundos.

Argh! Havia tantas coisas naquele aristocrata que me incomodavam! A áurea de superioridade intelectual que ele adorava emanar! Aquela gigantesca falta de personalidade e de mudanças em seu semblante! Aquele cara era um saco! Como a Lizzy havia escolhido tão mal o seu namorado?! Eu sempre achei que nós tivéssemos o mesmo gosto para homens!

Em resumo, eu não gostava daquele Roderich. Não gostava minimamente dele. Sendo assim, quando a Lizzy me contou que havia terminado com ele, em outubro, eu comemorei entusiasticamente! Finalmente, eu poderia parar de ter que aguentar o meu convívio forçado com o aristocrata e recuperar a minha Lizzy original!

Se essa era a minha perspectiva, por que diabos ele estava em uma viagem comemorativa na casa de praia que eu aluguei? A resposta era simples! A culpa era da Lizzy.

Quando ela e o Roderich terminaram, ao invés de passar a ignorá-lo e deixá-lo a sós com seu passado e seu piano, como eu estava ansiando, a Lizzy foi invadida pela vontade de fazê-lo “integrar-se ao nosso grupo, porque eles não eram mais namorados, mas ainda eram amigos e ela nunca poderia deixá-lo se sentir sozinho e blá blá blá”. Como resultado dessa péssima, péssima decisão, eu tive que continuar a ter que aturar o aristocrata, pois ele sempre era arrastado pela Lizzy para as saídas do nosso círculo de amizades e, como eu era o único com bom senso o suficiente para saber que ele não deveria ser incluído ali, era um tanto difícil expulsá-lo.

E naquela viagem, como o habitual, a minha suposta melhor amiga trouxe o Roderich consigo contra a minha vontade. Eu não convidei o jovem mestre, não dei nenhum indício que queria que ele viajasse conosco e estou quase certo de que pedi explicitamente que ela deixasse o seu aristocrata de estimação em casa dessa vez. Essa deveria ser uma viagem fantástica e divertida do nosso grupo para comemorarmos o final do nosso ensino médio! Como diabos o Roderich poderia ir para lá? Ele não era do nosso grupo, não combinava com as palavras-chaves da viagem e, honestamente, uma das minhas razões para estar feliz com a conclusão do ensino médio era porque eu não precisaria mais conviver com esse cara! Que sentido haveria na presença dele ali?

Conclusão: A Lizzie não deveria trazer o Roderich. E o que ela fez? Ela trouxe o Roderich!

Eu não consigo descrever como foi a minha careta de desagrado ao ver que o jovem mestre estava com a Lizzie e com o Francis no carro dos pais dela, quando eles chegaram. Ela deve ter sido realmente intensa porque a Lizzy e o Francis começaram a se justificar nervosamente assim que me viram, com alguns argumentos visivelmente improvisados e pouco convincentes como “Ele é nosso amigo e nosso colega de sala, como poderíamos excluí-lo da viagem?” que poderiam ser facilmente desmontados. Em primeiro lugar, nosso amigo? Sério? Eu não me lembro de ter conferido àquele aristocrata a honra de tornar-se um amigo do incrível eu! Segundo: ele era nosso colega de sala? Bem, e daí? Nós não estávamos mais naquela turma! Esse era o ponto daquela viagem! Que se danasse se ele havia sido da nossa classe em anos anteriores. Havia trinta e poucos alunos que também tinham estudado com a gente e nem por isso eu os convidei. Ah, sim. Como nós poderíamos excluí-lo da viagem? Provavelmente, seria mais fácil fazê-lo, se vocês não o convidassem para participar dela e o trouxessem em um carro até aqui!

Humpf... No fim, por piores que fossem os advogados de defesa daquele aristocrata, eles acabaram conseguindo o que queriam. Embora eu não tenha feito isso por conta dos argumentos nada convincentes que escutei daqueles dois ou por um súbito sentimento de remorso e de consideração pelo jovem mestre — que estava assistindo à exaltada defesa que lhe faziam com uma plácida e irritante indiferença — eu acabei por deixar que os três permanecessem em minha casa de praia. Pois é. Eu sou generoso assim.

Eu não expulsaria o Roderich e muito menos os meus dois amigos, após a longa viagem que eles fizeram para chegar até lá. Mesmo que eles merecessem, parecia muito errado e muito imaturo despachá-los a essa altura — quando os três já estavam na casa de praia, com um bando de malas e o cansaço de horas de percurso — e a minha nobreza de espírito não permitiria que eu me comportasse desse modo.

Eu não detestava o Roderich. Eu não gostava dele, é terrivelmente óbvio. Entretanto, eu não o odiava. Os meus sentimentos de aversão pelo jovem mestre não eram tão profundos ou graves e, em situações como aquela, eu costumava ficar mais irritado com a Lizzy, por trazer o aristocrata consigo, uma vez que ela conhecia melhor do que ninguém a minha antipatia por ele, do que com o Roderich em si. O próprio Roderich parecia desconfortável e discretamente contrariado ao ser carregado para as saídas do nosso grupo. Não era culpa dele, estar ali. Eu sabia muito bem que a Lizzy podia agir como uma completa psicótica quando queria algo, e que não era fácil ignorá-la nessas ocasiões.

Eu tinha muitas coisas contra ele, porém não o considerava meu inimigo mortal ou algo similar e não havia necessidade de que os meus amigos o defendessem tanto, pois eu sabia o quanto seria cruel mandá-lo sozinho para casa e, desde o princípio, eu estava inclinado a deixar que ele ficasse conosco.

Não poderia ser tão mau! A casa era enorme e vários quartos estariam disponíveis. No total, éramos apenas cinco pessoas a ocupar um lugar com oito quartos. Seis, ao incluirmos o Roderich. O aristocrata não reclamou do ambiente ou da quantidade de bebida que eu armazenei na geladeira e no frigobar, o que era um ótimo sinal. Além disso, ele era tão quieto e recolhido que dificilmente eu teria que interagir com ele, caso não quisesse.

Eu poderia suportar muito bem uma viagem de três semanas com ele, foi a minha conclusão naquela data.

Argh. Eu estava tão enganado!, concluí no terceiro dia.

A presença do Roderich realmente me incomodava! Eu achei que poderia ignorá-la, mas nããão! Sem que eu pudesse impedir, ela me deixava seriamente frustrado e chateado e me perturbava imensamente!

A minha irritação era completamente justa! Como um anfitrião, eu queria propiciar a todos uma memorável viagem divertida e empolgante da qual eu pudesse me gabar por anos a fio e o aristocrata, aquele chato, estava atrapalhando esse incrível cenário que eu tinha em mente!

Como posso explicar? Eu realmente achei que ele poderia se descontrair um pouco ao ficar conosco por alguns dias. Digo, não era possível que uma pessoa permanecesse tão séria e solene por vinte e quatro horas e por vários dias seguidos, acompanhada por grupo como o nosso! Em algum momento, ele se soltaria e começaria a se divertir com a Lizzy, com o Francis ou com o Artie!

No primeiro dia, ele permaneceu fechado e isolado. Eu atribuí esse comportamento ao cansaço dele – ele acabara de fazer uma viagem exaustiva, tudo bem — e o ignorei. No segundo dia, ele saiu e ficou nos observando na área externa da casa, sentado naquela mesa acima da escadaria do píer, enquanto nós nadávamos e nos entretínhamos na água, não mostrando quaisquer indícios de estar apreciando a viagem ou de ter intenções de se aproximar de nós. Eu decidi desculpá-lo, pensando que aquela era uma hesitação temporária e que, no dia seguinte, ele certamente estaria mais animado e integrado ao grupo.

Entretanto, o terceiro dia chegou e lá estava ele! Sentado naquela mesa de novo! Ele nos via nadando e aproveitando nosso verão, com o mesmo tédio do público de um concurso de soletrar! Era muito chato ter aquela nuvem cinzenta e pesada em uma viagem na qual eu esperava que todos se divertissem! Que estraga-prazeres!

Após essas reflexões, na tarde do terceiro dia, eu fiquei realmente aborrecido com o Roderich e quis intensamente convencê-lo a voltar para casa, para que ele pudesse retornar ao seu amado piano e eu parasse de me sentir um idiota por não saber o que fazer para descontraí-lo sem ferir meu orgulho.

Eu quis, mas não pude.

Seria um descaramento enorme, fazer esse pedido ao Roderich pessoalmente, considerando-se que ele estava preparando todas as nossas refeições – e eu devia admitir, ele era literalmente um MESTRE nisso — e que a pessoa que o convidou, a Eliza para ser específico, havia se encarregado de quase todas as tarefas domésticas da casa. O aristocrata não atendeu às minhas expectativas, todavia ele estava recompensando sua estadia à sua maneira, e não seria nada incrível que eu chegasse nele e dissesse algo como “Ei, jovem mestre! Você não está divertindo aqui e eu não estou gostando de ver o tédio estampado no seu rosto, durante a formidável viagem que organizei, então o que você me diz de ir embora e, de preferência, hoje? Eu pago a sua passagem!”.

Há, há! Não havia chances que eu fizesse isso! Não quando eu poderia fazer a Lizzy convencê-lo por mim...

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Em algum ponto temporal entre o relance que dei ao Roderich e a conclusão da minha linha de raciocínio, o Artie desistiu de jogar vôlei aquático com o Tonio e entrou em casa, deixando a bola abandonada sobre o píer. A nossa bola, apesar de ser usada como tal, não era propriamente uma bola de vôlei, e sim uma daquelas bolas de plástico gigantes, leves e coloridas que as crianças costumam perder no jardim dos vizinhos. Ela não era perfeita para um jogo de vôlei, porém, realizei ao contemplar a minha amiga deitada relaxadamente sobre sua boia, ela certamente era ideal para outros propósitos e eu a carreguei comigo ao me aproximar sorrateiramente da Elisaveta.

A Lizzy estava usando óculos escuros e não estava muito atenta aos seus arredores. Essa desatenção foi seu erro fatal e a fonte da minha enorme diversão, pois quando eu joguei a bola em cima dela, o susto dela foi totalmente hilário! Ela deu um pequeno grito abafado e começou a se debater desajeitadamente na boia, como uma aranha que desequilibrou em sua teia, e essa descompostura teve um contraste extremamente cômico com os ares de Cleópatra que ela emitia há pouco.

– Gilbert! – ela rosnou agressivamente, ao reestabelecer seu equilíbrio e se reposicionar sobre a bóia, encarando-me com a indignação de um vilão que tem seus planos atrapalhados por um herói importuno, o que não reduziu em uma gota a minha vontade de rir.

– Você me chamou, imperatriz? – perguntei ironicamente, cobrindo minha boca para disfarçar a intensidade da gargalhada que escapava por minha garganta. Oh, céus! Eu estava quase chorando!

– Você acha que isso é engraçado?!

– Extremamente! – eu admiti, rindo ainda mais. Depois, acrescentei com um sorriso ligeiramente provocativo, empurrando o ombro dela carinhosamente – Você está perdendo o seu velho toque, Lizzy! Em anos anteriores, você nunca cairia em uma brincadeira simples como essa! Você ainda está sofrendo os efeitos colaterais do seu namoro com o aristocrata?

– Não seja estúpido. – ela resmungou, desviando seu rosto e colocando seu cabelo por trás da orelha para ajeitá-lo – Eu relaxei porque não pude acreditar que alguém de dezoito anos ainda estaria interessado em brincadeiras tão infantis. O Roderich não está relacionado com cada decisão ou atitude minha, sabia?

– Ah, não?! – exclamei com um tom cínico de assombro – Então, o que explica aquela dezena de vestidos e saias que apareceram misteriosamente no seu armário, quando vocês começaram a namorar?!

– Eu mudei e quis alterar a minha forma de me vestir. – ela respondeu calmamente — É normal que uma garota gradualmente comece a se tornar mais consciente sobre a própria aparência, Gilbert. Você não esperava que eu continuasse a usar as suas roupas e o meu macacão do Lanterna-Verde por toda a minha vida, esperava?

– Bah. Você era mais legal, quando se vestia assim. – eu respondi com um suspiro inconformado — Eu ainda digo que aquele jovem mestre foi uma péssima influência para você. Ele é um chato! Eu não sei por que você tem que continuar andando com ele, quando vocês dois já termi...!

De repente, a Lizzy girou todo o seu corpo para o meu lado e olhou diretamente para o meu rosto, abaixando parcialmente as lentes escuras dos seus óculos para me fitar com algum cansaço e desinteresse.

– Você veio aqui para falar sobre ele, não foi? – ela perguntou, confrontando-me com aquele olhar de constatação entediante de alguém que aponta algo óbvio demais para precisar ser apontado — Essa era a sua intenção, desde o princípio.

– Você está certa. – eu tive que admitir, com um resmungo, apoiando minhas mãos na boia dela — Eu vim para falar sobre ele. Lizzy, você viu que eu agi com uma generosidade exemplar ao receber o aristocrata aqui! Eu fiz o meu melhor para ser um anfitrião digno de elogios eternos, mas ele continua agindo como um chato e estragando a nossa diversão!

– “Nossa”? – ela ergueu uma sobrancelha.

– Certo! A minha diversão! – corrigi impaciente, descontando minha frustração na bóia dela, que passei a empurrar para frente e para trás com violência, sem que a pessoa deitada nela se importasse com esses movimentos ou com a minha indignação — Droga, Lizzy! Eu não fiquei corrigindo você, quando você veio com aquele discurso de que ele era “nosso” amigo! Você sabe que eu não gosto dele e ainda assim você o trouxe aqui! Você é a culpada-mor por estarmos nessa situação e eu espero que você assuma essa responsabilidade! Eu não aguento mais ver a cara de tédio daquele aristocrata, quando eu estou fazendo de tudo para que essa viagem seja a mais épica de todos os tempos!

– Ele não está entediado. Ele apenas deve estar se sentindo um pouco infeliz por ter sido carregado pela ex-namorada dele para a casa de praia alugada por uma pessoa que claramente não gosta dele. Ele deve estar se sentindo muito sozinho, agora.

Eu estive tentando ouvir seriamente as palavras dela até aquele momento, porém, quando ela veio com essa conclusão melancólica e com aquela voz de pena, eu não consegui mais me aguentar.

– PFFF! Lizzy, você realmente perdeu o seu velho toque! – eu gargalhei intensamente- Sério! Eu acho que nem o Tonio cairia nessa!

– Do que você está rindo, agora, seu idiota?!

– Vamos lá, Lizzy! – exclamei, sorrindo e enxugando as pequenas lágrimas que escaparam dos meus olhos — Você não está realmente esperando que eu acredite que aquele aristocrata faz o tipo sensível que fica se isolando nos cantos e se lamuriando por terminar com uma garota ou por não se sentir bem-vindo em um lugar, está?

– Diferente do que você presume, Gilbert, o Roderich não é uma pessoa sem sentimentos. – ela me assegurou confiantemente, com uma severidade firme e suave — Ele é muito inseguro e sensível e acho que ficou bastante magoado com o fim do nosso relacionamento.

– É óbvio que você pensa assim! – eu revirei os olhos, com um sorriso de escárnio- Você é a ex dele! Você quer acreditar que ele está sofrendo secretamente por perdê-la e que todos os dias ele chora ao piano, lembrando-se dos seus momentos juntos!

– Não, você está enganado. – ela me corrigiu — Não é essa a minha vontade e eu não estou dizendo que o Roderich deve estar se sentindo sozinho porque sou a ex dele. Eu estou dizendo isso, por ser a melhor amiga dele e conhecê-lo muito bem. Eu posso imaginar como ele está se sentindo.

– Bah! Você apenas está sendo emotiva, Lizzy! – eu bufei ceticamente, retirando minhas mãos da boia dela para cruzar meus braços em meu peito — Os seus sentimentos pelo aristocrata não lhe permitem ver que ele é...!

Eu iria vocalizar algumas ofensas que, naquela tarde, eu já havia repetido em meus pensamentos várias vezes, quando a Lizzy interrompeu-me, estendendo sua mão em um gesto que solicitava que eu parasse por um instante.

– Espere um pouco, Gilbert. – ela pediu, abaixando seu pulso, antes de me perguntar vagarosamente, atônita e incrédula — Você realmente está agindo como se conhecesse o Roderich melhor do que eu?

– Talvez! – eu respondi de imediato, em um impulso defensivo, sem pensar muito no que ela havia acabado de perguntar. — Digo, eu conheço aquele aristocrata e, diferente do seu caso, eu não fico adornando aquela personalidade insípida dele...!

Ela deu um pequeno suspiro, sorriu como se tivesse pena de mim, apanhou uma das minhas mãos, e começou a agitar suavemente o rosto para os lados.

– Gilbert, querido, você não conhece o Roderich. – ela disse, calmamente, com aquele familiar semblante muito, muito irritante de avó compreensiva perdoando os erros inocentes de seu pequeno neto. — Você não o conhece nem um pouco. Ele não é essa pessoa indiferente e fria que você alega. Embora ele possa ser bastante discreto quanto aos seus sentimentos e desejos, ele secretamente possui uma personalidade tão forte quanto as nossas. Não subestime o meu gosto. O Roderich é um cara legal.

– Claro, claro. – falei em um tom nada crédulo — Se ele é tão legal quanto você afirma, por que vocês dois terminaram?

– Oh, Gilbert! – ela riu, com aquele jeito de um adulto com pena de uma criança que não entende o funcionamento de um objeto, dando tapinhas camaradas em meu ombro — Sabe, quando você for grandinho, irá entender que às vezes os adultos terminam seus relacionamentos porque a relação deles não está dando certo e que uma separação não significa que um deles seja mau ou que...!

– Pare com isso, Lizzy! – eu reclamei ofendido e um pouco vermelho. Era tão desconcertante que alguém incrível como eu fosse tratado como uma criança pela Lizzie! E o que era ainda mais desconcertante que aquilo? O fato de que eu nunca conseguia pensar em uma resposta sagaz naqueles momentos! E-Eu me contentaria com técnicas mais modestas de vingança, como jogar água nela ou algo assim!

– Você não quer ouvir essas conversas de gente grande, não é? – ela perguntou implicantemente, ainda rindo e mantendo aquele olhar de dó.

Eu estava prestes a executar minha implacável vingança e jogar tanta água sobre a Lizzy que ela se sentiria como os personagens da Odisséia ao enfrentarem a fúria do mar provocada por Netuno, mas a sorte dela interferiu e ela foi acidentalmente salva pelo Artie, que estava no píer, e começou a gritar, dirigindo-se a nós:

– Ei, Elisaveta! Gilbert! Eu trouxe coquetéis, vocês irão querer?!

– Sim! Nós estamos indo! – ela berrou em resposta, afundando na água para sair de sua boia. Ao emergir, ela sorriu perversamente para mim e acrescentou em um volume mais moderado – Eu espero que o Arthur tenha se lembrado de que temos uma criança aqui e tenha feito um coquetel sem álcool...!

– LIZZY!

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O Artie era aquele tipo de cara que não conseguiria preparar decentemente uma panqueca, mesmo que sua única tarefa fosse desligar o fogo, quando ela estivesse pronta. No entanto, era inquestionável que havia duas coisas que ele sabia preparar muito bem: chás e coquetéis. Uma combinação meio irônica, tendo em vista que nós geralmente precisávamos beber os primeiros, após bebermos muito dos últimos. O Artie não sabia o que fazer com ovos, óleo e uma frigideira, mas ele era um gênio no preparo de bebidas.

Quando cheguei com a Lizzy ao píer, nós não desapontamos com o que nos esperava. A Eliza recebeu um Bahama Blue, eu ganhei Midori Cosmopolitan e pudemos voltar a conversar com uma boa bebida nos acompanhando, o que tornou nosso diálogo consideravelmente mais agradável, devo acrescentar.

– Como eu estava dizendo, Gilbert – prosseguiu Elisaveta, colocando seus óculos escuros e deitando-se sobre a madeira do píer – eu conheço bem o Roderich e acho que se você o conhecesse, também gostaria dele.

– Eu acho que nós precisamos retirá-la do sol, Lizzy! – eu exclamei, rindo debochadamente- Os seus pensamentos estão começando a se tornar incoerentes...!

– Escute-me, Gilbert, você não quer ser um bom anfitrião? – ela ergueu-se, tomando um gole longo de sua bebida profundamente azul e lançando-me um olhar inquisidor por cima de suas lentes — Não quer que essa viagem seja considerada “a mais épica de todos os tempos”? Nesse caso, você terá que se socializar com o Roderich. Essa será a única solução para o seu problema, porque eu garanto a você que não irei pedir a ele que volte para casa.

– Eu não iria pedir que...! – eu estava prestes a retrucar, contudo, se a conclusão da Lizzy não deixou extremamente claro que ela sabia muito bem quais eram os meus planos e não estava disposta a colaborar com eles, a expressão que ela fez a seguir deixou isso tão óbvio que eu acabei precisando engolir o meu blefe para não passar pelo embaraço de fingir que não a compreendi — Hm. – eu cerrei minha boca, sentindo que os cantos dela se abaixavam com o meu humor contrariado. Ah, droga! O que eu deveria dizer?! Eu não conseguiria enganar a Lizzy! Como não conseguiria ludibriá-la, o meu único escape era deslocar o assunto para um campo em que minhas afirmações fossem mais honestas e confiantes. — Lizzy, eu me socializo o bastante com o aristocrata! – eu finalmente exclamei. Dessa vez, eu estava sendo totalmente honesto. Eu achava que interagia muito com o aristocrata. Excessivamente, inclusive. Muitas das nossas horas de convívio poderiam ser subtraídas, sem que houvesse danos para nenhum de nós. — Não é como se nós fôssemos estranhos ou...!

– Houve alguma ocasião de conversa entre os senhores em que você não tenha apenas implicado com ele ou pedido por comida?

...

...

...

Sabe o que foi terrivelmente frustrante nessa questão?!

Ela foi tão simples! Tão, tão simples! E ainda assim, ela atingiu as minhas convicções com a velocidade e a fúria destrutiva de uma avalanche! Por mais que eu quisesse, eu não tinha como respondê-la com satisfação e com um sentimento de vitória! Era tão perturbador e revoltante, perceber que ela estava certa! Eu não queria dar a vitória para Lizzy! Eu realmente não queria! Eu adoraria ter mostrado para a Eliza que as minhas opiniões eram muito bem fundamentadas e que ela não poderia ter solicitado por uma fonte mais confiável para obter informações sobre o Roderich! Que diabos! Eu queria ter ao menos conseguido citar um único episódio em que tive uma conversa amistosa com o aristocrata, sem que isso tivesse modificado minha impressão de que ele era simplesmente um chato! No entanto, eu não consegui! Por mais que eu houvesse tentado explorar cada memória minha com aquele aristocrata, por mais que eu houvesse me esforçado para encontrar alguma situação de convivência entre nós que pudesse fugir das duas classificações da Eliza, eu não conseguia achar nenhuma lembrança de meu convívio com o Roderich que fugisse delas! Eu sempre achei que eu conhecia bem o jovem mestre e, consequentemente, que possuía o direito de julgá-lo e de criticá-lo, como quisesse. Entretanto, agora que a Lizzy havia mencionado, agora que eu estava pensando nisso, não houve nenhuma vez em que eu houvesse falado com ele e não tivesse implicado com ele ou apenas cobrado por comida!

O que eu posso dizer?! Eu fiquei chocado! Eu achei que eu conhecia o jovem mestre, por nós estarmos no mesmo ambiente com frequência, contudo esse não era o caso! Eu sabia quais eram os gostos do jovem mestre, além da preferência demasiadamente óbvia dele por cardigãs, ombreiras e pianos? Eu sabia qual era o passado dele, como ele estava no presente ou quais eram as metas dele para o futuro? Eu sabia qualquer coisa sobre ele, além dos traços mais visíveis dele, que seriam noticiados por qualquer desconhecido? Não!

Essa realização de que eu não sabia nada sobre o Roderich me acertou em cheio e me deixou desnorteado e confuso, pois eu tinha muitas convicções sobre ele e nunca havia cogitado que elas pudessem estar erradas.

Eu conhecia tão bem o jovem mestre? Não. Você não pode dizer que conhece bem o ex da sua melhor amiga somente por ter solicitado que ele preparasse carne para o jantar ou por tê-lo importunado várias vezes e ter sido ignorado em todas essas ocasiões. Se eu não conhecia tão bem o jovem mestre, eu poderia assegurar que ele era tão chato quanto eu presumia? Humpf! Ele certamente parecia ser! Um cara de dezessete anos que usa cardigãs e que parece ser o mordomo retirado de um romance de dois séculos atrás não poderia deixar de um chato, mas...! Não, eu não poderia garantir.

–... Não. – eu admiti relutantemente, com um bico de desgosto que tentei disfarçar por dentro do meu copo repleto de líquido verde. A minha sinceridade fez com que um sorriso se abrisse espontaneamente no rosto de Lizzy. Ela não me deixou nada feliz, no entanto. Eu não gostava de perder e, sobretudo, detestava aquela sensação de que estava perdendo para a Lizzy E para o jovem mestre.

– Vê? Vocês precisam conversar um pouco. – ela propôs docemente — O Roderich parece melancólico, desde o fim do nosso namoro... Por que você não tenta animá-lo conferindo a ele a incrível honra de tornar-se seu amigo?

Eu fiz um som grave e aborrecido por dentro do copo e tomei o primeiro gole de minha bebida. Um gole longo. Eu estava precisando dele. O álcool, o sabor agradável e ligeiramente adocicado do meu cosmopolitano e o contato frio do líquido com a minha boca me deixaram um pouco mais conformado e disposto a aceitar a proposta que ela me fazia. Fazer amizade com o Roderich, huh? Não me custava tentar. Eu não conseguia ver como aquilo aconteceria, porém, tendo em conta que a Lizzy não me ajudaria a convencê-lo a ir embora e que eu estaria fadado a ver o Roderich vagando como um espírito atormentado pela casa se não fizesse com que ele se divertisse naquela viagem, aquela era a minha melhor opção.

Eu não conhecia o Roderich o suficiente para garantir que nós nos detestaríamos até o fim dos nossos dias. Não era como se houvesse experiências passadas que me garantissem que não havia chances de que nós nos déssemos bem. No presente, eu não tinha como dizer “Eu tentei fazer amizade com ele, Eliza, mas aconteceram os problemas X e Y e eu não tentarei de novo”!

Droga.

– Você é horrível. – eu murmurei acusatoriamente, tomando mais dois goles rápidos de meu cosmopolitano. Eu havia me conformado com a ideia de permitir uma aproximação entre o incrível eu e o jovem mestre, porém não havia me conformado ainda com a facilidade com a qual a Lizzy havia manipulado a minha mente nos últimos quarenta minutos.

Em resposta, ela começou a rir e passou a mão por cima dos meus ombros, alojando seu braço sobre eles.

– E outra coisa, — ela adicionou à sua linha de raciocínio e de conselhos verdadeiramente úteis, os quais eu não estava nenhum pouco interessado em ouvir — a sua argumentação inteira se baseou no fato de que eu sou a ex-namorada dele e não posso julgá-lo, mas... Gilbert, querido. Perceba. Eu sou a ex-namorada dele. Caso ele fosse alguém desagradável, eu não deveria ser a primeira a apontar isso?

Ela tinha um ponto, além do velho toque perspicaz da minha amiga de infância e, naquele caso em específico, decidi conceder a vitória a ela.

Touché.

– Eu não sei se esse foi um bom uso da expressão, mas obrigada. – ela sorriu, estendendo sua mão em minha direção — Agora, deixe-me provar um pouco do seu coquetel. Eu mereço uma compensação pelo susto que você me deu nessa tarde.

– Você não irá se vingar? – eu estranhei e não perdi uma instantânea sensação de alívio.

– Eu disse que não iria? – ela perguntou com um sorriso perverso, quando meu copo já estava em suas mãos.

– Lizzy!

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Eu e a Lizzy continuamos a conversar sobre temas casuais por algum tempo e, depois de alguns minutos, o Antonio e o Arthur juntaram-se a nós. O Francis havia desaparecido há pouco com a sua acompanhante e todo o nosso grupo entrou em um consenso de que não deveríamos procurá-lo a menos que quiséssemos presenciar uma cena com R-18. O Roderich, ainda parado em sua mesa, tinha um olhar distante e vazio que parecia voar para muito além do horizonte e que, no entanto, recusava-se a descer uma única vez para o píer no qual estávamos sentados. Mesmo privado dessas duas companhias, o nosso grupo teve bons momentos. Nós nos lembramos de episódios do ensino médio, falamos de nossos planos para o futuro, implicamos um com o outro e rimos muito.

Nós estamos tendo uma conversa muito divertida e não queríamos interrompê-la, contudo não demorou muito para que concordássemos que um de nós teria que sair para apanhar as bebidas. Estava quente, havia uma quantidade absurda de álcool na geladeira e nós tínhamos aquela idade em que retiramos o maior proveito possível da nossa permissão legal para beber. Seria um desperdício deixar de acrescentar alguns coquetéis ao nosso diálogo.

Como nenhum de nós estava com vontade de subir para preparar os coquetéis, escolhemos na sorte quem faria isso.

E eu fui azarado da vez.

Argh. O que se poderia fazer? Eu era um incrível anfitrião e deveria satisfazer ao máximo os meus acomodados hóspedes. Por essa razão, eu perguntei qual bebida cada um deles queria e subi a escadaria sem dizer uma reclamação, embora estivesse bastante contrariado e houvesse praguejado contra todos eles em meus pensamentos.

Até alcançar a área externa da casa, as únicas coisas que estavam em minha mente eram as bebidas que eu precisava preparar e os meus insultos silenciosos aos meus melhores amigos, entretanto, quando terminei de subir as escadas, deparei-me com Roderich Eldestein e o curso das minhas ideias foi modificado drasticamente.

Lá estava ele. Sentado naquela mesa repleta do que me pareciam ser papéis e de objetos que eu não pude identificar à distância. O seu rosto e os seus ombros estavam ligeiramente vermelhos por conta do sol, mas os seus cabelos e as suas roupas permaneciam impecáveis, ainda que ele tivesse permanecido um dia inteiro exposto a vento e ao calor.

O semblante deve estava impassível e permaneceu desse modo, mesmo quando o olhar dele encontrou-se com o meu.

Eu engoli em seco.

De repente, eu fui invadido por uma série de lembranças do que eu havia falado com Lizzy naquela tarde. Eu não conhecia o jovem mestre que estava a minha frente. Aparentemente, havia um lado sensível, legal e meio temperamental, por trás daquela expressão estoica, e eu somente poderia acessá-lo, caso fizesse amizade com ele.

Francamente, aquilo parecia inacreditável, quando eu via o aristocrata me contemplar com um rosto que lembrava uma página em branco. No entanto, como diabos eu poderia ter certeza de que as minhas preposições e impressões estavam corretas, quando eu não havia conversado mesmo com ele? Eu precisava dar uma chance para o jovem mestre. Eu não aguentava mais ver o aristocrata amargando os nossos dias de verão. Fazer amizade com ele era a única solução palpável para resolvermos nossos problemas.

Havia, claro, a atraente opção de mandá-lo embora, todavia, como mencionei, eu era nobre demais para agir assim...e os murros da Lizzy doíam demais para que eu me arriscasse a tentar esta opção.

Kesesese! Aquela tentativa poderia dar certo! Talvez a melancolia fleumática dele fosse inteiramente substituída por um entusiasmo ardente, caso ele recebesse o privilégio de tornar-se amigo de alguém tão incrível! Eu quase podia vislumbrar e rir dos saltos de alegria que ele daria ao receber tamanha oportunidade!

Certo, eu conversaria com aquele jovem mestre!

...Mas não imediatamente.

Não. Eu não era um covarde e uma pessoa precisaria ser anormalmente estúpida para ter essa opinião a meu respeito. Aos meus dezoito anos, eu já era um indivíduo seguro e confiante, com muitos motivos para sentir-me dessa forma. Digo, vamos lá! A covardia é uma qualidade que combina mais com os fracos e indefesos! O aristocrata, por exemplo, poderia ser um ótimo covarde!

Em conclusão, o sentimento que me congelou, quando o jovem mestre percebeu que eu falaria algo e arqueou ligeiramente as sobrancelhas, com seus olhos reluzindo de um modo incomum, não deve ser denominado como “medo”. Era um tanto similar a medo, tendo em conta que um calafrio percorreu minha espinha, que eu comecei a respirar rapidamente, como uma compensação pelo aumento da velocidade do meu coração, e que tive o forte desejo de desistir de ouvir os conselhos imbecis da Lizzy e correr disparadamente daquele lugar. No entanto, aquilo não podia ser medo, pois apenas um idiota teria medo daquele tipo de situação. Associar as palavras “Medo” e “Roderich”, não sendo o Roderich aquele que estava se sentindo assustado, parecia absurdo e ridículo... Sério.

Eu não tinha medo. Eu não podia estar com medo! Aquele deveria ser outro sentimento. Hesitação, talvez? Ansiedade? Desconforto. Pronto! Esse era o nome! Eu estava desconfortável!

E por que eu estava desconfortável?

Er... Porque... P-Porque, hum... Porque aquele não era um bom momento para começar uma conversa com o aristocrata! Ele estava ocupado, eu estava também e seria muito estranho começar a conversar com ele, abruptamente, quando nós não tínhamos intimidade alguma e nenhuma disposição amistosa um pelo outro.

Há, há, há! Sim, sim! Seria uma completa falta de bom senso começar algum diálogo aleatório com o jovem mestre, naquele instante! Eu não estava sendo vacilante e covarde! Era uma postura mais inteligente e admirável, aguardar o momento certo para uma iniciativa. Eu não sabia quando o momento certo viria – se ele viesse – mas era melhor esperá-lo do que agir precipitadamente, certo?!

Com esses pensamentos, eu desisti de falar com o aristocrata– temporariamente! Temporariamente! – e já estava me dirigindo para a casa, quando percebi que o olhar dele continuava a me seguir, esperando o que eu queria dizer, antes de me apavo... digo, antes de perceber que eu não me sentia confortável em iniciar uma conversa com o jovem mestre em um momento pouco oportuno para ambos. Por que ele estava me olhando tanto? Era horrível perceber aquele olhar distante acompanhando os meus passos. O que havia com aquele aristocrático Slenderman?

Eu não estava gostando nada disso e resolvi falar alguma coisa para esclarecer o que exatamente eu queria com ele.

– Ei, jovem mestre! – eu gritei, detendo-me em meu percurso e ele me observou tão expectativamente que quase me desorientei quanto ao que iria dizer em seguida- E-Está faltando algum ingrediente para o nosso jantar?!

– Não. – ele respondeu, vagarosamente, com uma expressão e tom vagamente desconfiados que me fizeram suspeitar de que ele não havia sido plenamente convencido pelo meu blefe. Droga. Eu tentei! — Eu prepararei apenas almôndegas de frango e tenho todos os ingredientes dos quais preciso. Amanhã, eu farei uma lista do que vocês devem comprar para as próximas semanas.

– Combinado! – eu exclamei, esperando que nós pudéssemos encerrar o assunto ali. Ele nunca deveria sequer ter começado, afinal.

Eu estava prestes a atravessar o portão e, percebendo a minha saída, o Roderich abaixou seu olhar e tornou a recolher-se em seu espaço em uma conclusão bastante comum para as nossas rápidas interações. Dessa vez, no entanto, ela teve um efeito bem desagradável sobre mim e eu adquiri uma enorme e inexplicável sensação de culpa ao observar aquele evidentemente entediado e possivelmente solitário aristocrata.

Sabem, embora eu gostasse de defender meus interesses, eu não era um mau indivíduo nem era uma criança mimada e egoísta – que se danasse o que a Lizzy dizia. Eu tinha bastante consideração pelos sentimentos alheios, desde que eu conseguisse percebê-los. Previamente, eu não supunha que existissem quaisquer sentimentos a serem percebidos naquele insípido jovem mestre e essa era a minha razão para perturbá-lo incessantemente e não me sentir remotamente arrependido por fazê-lo. Incomodar o aristocrata não era muito diferente de pisar na grama de um parque abandonado. Tecnicamente, eu estava fazendo algo errado, todavia a minha ação não atingia ninguém. Eu tentava incomodar o aristocrata e me entretinha com esse passatempo e o aristocrata não se incomodava realmente por ser necessária a inevitável aproximação de um meteoro com a extensão do nosso próprio planeta para que ele se sentisse ligeiramente afetado com algo.

Dessa forma, tudo funcionava em perfeita harmonia e todos estavam bem até que a minha maléfica melhor amiga tivesse a ideia estúpida de influenciar os meus pensamentos e arruinar a minha diversão.

Ela veio com toda aquela conversa sobre o quanto aquele jovem mestre se sentia sozinho, negligenciado, desprezado e etc e, agora, eu não conseguia deixar de achar que havia algo de muito triste e patético no semblante tranquilo daquele aristocrata! Argh! Ele sempre havia tido essa aparência de um cão abandonado na chuva? De repente, tudo que eu havia tomado como mera indiferença da parte dele havia se tornado a camada de triste resignação que encobre as pessoas que se conformaram com o seu destino trágico!

Hoje, eu reconheço que a influência maligna da Lizzy me fez exagerar muito em minha percepção do quanto o aristocrata estava insatisfeito e também me fez confundir o que seria um suave aborrecimento com uma profunda tristeza resguardada. Eu sei, eu sei! Eu estava exagerando. Naquela hora, porém, eu estava confuso, começando a enxergar o aristocrata como uma heroína romântica que tenta esconder seus sofrimentos, e cada movimento dele me pareceu infinitamente mais melancólico e lânguido do que realmente era. Aquilo estava me deixando muito transtornado! Eu não aguentava vê-lo tão cabisbaixo, estragando a minha incrível viagem com esses ares de melancolia!

Foi nesse instante que tomei a resolução de agir e, com a postura firme e decidida de um super-herói que já apanhou e ouviu toda a estória de vida de um vilão por várias horas e finalmente adquiriu a oportunidade de reagir, eu me afastei da porta, fui em direção ao aristocrata e me coloquei por trás dele, inclinando-me por cima de seu ombro.

– O que você tanto faz nessa mesa, jovem mestre?

Ele quis protestar contra a minha aproximação repentina. Eu fui mais rápido do que ele e evitei que o jovem mestre se desvencilhasse de mim, limitando sua resistência a um som abafado de queixa. Sem que o aristocrata pudesse me impedir, eu pude ver o que ele queria esconder de mim ao perceber minha aproximação, e fiquei honestamente chocado com o que me deparei.

Eu vi um desenho. Um desenho colorido à aquarela que mostrava o oceano e o céu de uma tarde ensolarada, vistos acima do píer.

As cores naquela paisagem eram tão vivas que causavam a impressão de que a sua mão afundaria na imagem, caso você tocasse na folha. Havia uma multiplicidade de tons naquela imagem e eles não se confrontavam ou gritavam por atenção. Eles se complementavam com suavidade e cada variação cromática gerava uma beleza peculiar na tela. A oposição entre duas ou mais cores servia para gerar efeitos que uma não conseguiria por conta própria. O verde das folhas das palmeiras, por exemplo, parecia ser agitado pelo vento potencialmente azul que passeava em um céu predominantemente lilás e a areia parecia tão macia que quase era possível sentir a textura dela, através da observação do desenho.

Aquilo era totalmente impressionante.

Eu só ficaria mais espantado se houvesse uma revista pornô no lugar daquele desenho. Ele era espetacularmente incrível e parecia ter sido feito por um profissional e explicava por que o aristocrata ficava tanto tempo naquela mesa e era tão bem feito e eu não sabia que o Roderich sabia desenhar e...! Droga! Aquele desenho era simplesmente fantástico!

– Caramba! Você desenhou isso?!

Quando terminei essa pergunta – que soou um pouco mais idiota do que uma frase dita pelo incrível eu deveria ser – eu me arrependi imediatamente por tê-la feito e esperei por uma resposta moderadamente sarcástica e fria daquele aristocrata, contudo, em vez de adotar uma atitude cáustica e pretensiosa, Roderich replicou muito casualmente:

– Sim. Eu gosto muito dessa paisagem e estou pensando em desenhá-la pelos próximos dias. Em ângulos e horários diferentes, provavelmente.

– Eu não sabia que você sabia desenhar, jovem mestre! – eu exclamei genuinamente surpreso, e, em um movimento automático, meu corpo sentou-se ao lado dele, antes que minha mente realizasse o que eu estava fazendo. E antes que eu pudesse me arrepender desse movimento, o Roderich falou e me manteve parado.

– Naturalmente, você não sabia. – ele disse com uma cândida indiferença pelos meus comentários lisonjeiros. — Eu não tenho o costume de desenhar, pois prefiro me dedicar ao piano.

A resposta dele não foi ríspida nem monossilábica e deixou espaço para a continuação daquele assunto. Percebendo essa abertura, eu concluí que o Roderich por certo não estava tão incomodado com o lugar no qual eu estava sentado e muito menos com o nosso diálogo. Encorajado, eu me reajustei na cadeira e continuei a falar.

– Ah! Então, você desenha, cozinha e toca o piano?! – eu sorri inevitavelmente com a minha constatação — Que donzela prendada, jovem mestre! Você também sabe costurar, valsar e falar francês?!

– Sim, eu sei. – ele retrucou gelidamente, com os cantos de sua boca se retraindo sutilmente e seus olhos e sobrancelhas se abaixando no que me parecia ser... Uma cara discreta de raiva, eu acho? Aquela foi a primeira vez em que vi tanta expressividade em seu rosto. — Felizmente, a minha educação não foi bárbara como a sua.

– Sério?! Você realmente sabe tudo isso?! Caramba! – o meu sorriso tornou-se menos surpreso e mais implicante — A Eliza realmente estava procurando por uma esposa, quando começou a namorar você...!

– Você concluiu o seu ponto, senhor Beilschmidt? – ele me interrompeu, com um tom impaciente, finalmente voltando seu rosto para o meu lado e encarando-me com um olhar duro como um diamante. A reação dele foi bem diferente da sua costumeira e irritante expressão de “Brinque o quanto quiser, Bobo-da-corte, enquanto eu resolvo as pendências reais” e ela foi mais marcante do que a sua reação irascível anterior porque, dessa vez, ao invés de olhar para o horizonte, para a mesa, para os lados ou para qualquer outro espaço menos significante, ele olhou diretamente para mim e eu senti o meu olhar arregalar em resposta. — Eu estou ocupado.

– Não seja tão amargo, jovem mestre! – eu exclamei, sorrindo afetuosamente, pondo um braço em torno dos ombros dele e tentando disfarçar minha satisfação pessoal em perceber que após muitos meses de tentativa, eu CONSEGUI fazer o totalmente insípido Roderich Eldestein ter alguma reação! — Eu estou tentando ser amigável com você!

– E está falhando miseravelmente, se me permite dizer. – ele replicou, desvencilhando-se de mim e tornando a dirigir seu olhar e atenção para a mesa a nossa frente, passando a apanhar distraidamente seus lápis e pinceis e a preencher um estojo com eles de uma maneira que parecia desafiar a lei física de que dois corpos não podem ocupar um mesmo espaço.

Pelo visto, o jovem mestre era desorganizado, huh? Aquele não era um traço que eu esperava nele, mas eu deveria impedir minha tentação de comentá-lo, pois me parecia que ele estava prestes a escapar e que esse não era um assunto que o motivaria a permanecer naquele lugar. Eu o reservaria para outro momento, um mais oportuno.

Eu não queria fazer comentários mais arriscados, tendo em conta que minha tentativa de conversar com o Roderich estava, inesperadamente, dando certo. Muito mais certo do que eu previa. Trezentos por cento mais certo do que eu previa. Eu realmente não sei como ou por qual motivo, porém, de algum modo, eu e o jovem mestre engatamos em um diálogo que estava fluindo com uma enorme naturalidade e que estava sendo um tanto divertido de uma forma meio peculiar. Eu não estava precisando me esforçar para falar com ele, acontecia espontaneamente, e eu estava gostando seriamente das respostas dele e, sobretudo, do potencial que elas tinham para tornarem-se alvo do meu brilhante senso de humor.

Nós não costumávamos falar sobre assuntos que fossem do interesse do Roderich, porém, pelo visto, nós deveríamos fazer isso com mais freqüência. Era óbvio que o jovem mestre mudava consideravelmente a sua postura chata quando ele não estava sendo incomodado, e essa mudança era inegavelmente algo curioso. Não que ele deixasse de ser chato – pois é necessário muito mais do que uma resposta educada para que alguém que usa ombreiras seja dissociado do adjetivo “chato” e suba no conceito do incrível eu – mas era verdade que ele se tornava menos desagradável, caso não estivesse sendo importunado e recebesse comentários sobre tópicos que caíam em seus gostos. O meu interesse foi despertado em simultâneo com a minha vontade de impedir que aquele jovem mestre escapasse tão rapidamente.

– Você ainda pensará assim, se eu disser que o seu desenho está super-mega-hiper-incrível? – eu indaguei gentilmente, inclinando meu rosto para o lado.

Ele ficou tenso por alguma razão.

– Eu não gosto de falsos elogios.

– Nem eu. – eu respondi honestamente, dando de ombros — Você fez outros desenhos, além desse?

A boca dele caiu um pouco e, por um segundo, ele pareceu confuso. Eu estava tentando entender no que ele estaria pensando, quando o Roderich piscou os olhos rapidamente, como uma criança acordando de um sonho estranho, voltou-se para mim e me perguntou com uma mescla de surpresa e curiosidade:

– Desde o início da viagem, você quer dizer? Sim. Eu fiz outro desenho, ontem. Você gostaria de vê-lo?

DUH!

– É óbvio que eu quero!

Ele deu um pequeno giro na cadeira, apanhou uma pasta que estava encoberta pelas pilhas de papel acumuladas na mesa e a ofereceu para mim, depois de se certificar que havia um peso impedindo que seus papéis se espalhassem.

– Aqui está. – ele disse, observando atentamente as minhas reações ao único desenho presente naquela pasta. Ele estava apreensivo demais para quem havia feito dois desenhos tão bons e cheguei à conclusão de que o jovem mestre escolhia os momentos mais estranhos para ser modesto. — Eu não tive disposição para colori-lo, mas... O que você acha? – ele perguntou com receio do significado do meu longo silêncio, durante minha contemplação ao seu desenho.

Vendo os traços totalmente discretos, porém perceptíveis, de preocupação no rosto do Roderich, eu me senti tentado a brincar com ele e dizer que aquilo estava horrível, contudo acabei optando por dar uma resposta honesta. Eu não tinha certeza se conseguiria mentir descaradamente o suficiente para convencê-lo e a minha atuação provavelmente ficaria ridícula. Aquele desenho, como o primeiro, estava evidentemente, obviamente, totalmente incrível. Eles retratavam identicamente a mesma paisagem, embora as cores do segundo fossem mais escuras do que as do primeiro por estarem em escala de cinza e mostrarem aquele cenário em um horário diferente.

– Ele está muito bom, jovem mestre! – eu elogiei sinceramente — Regozije-se! Se o incrível eu pôde reconhecer suas capacidades artísticas, não demorará muitos anos para que você se torne o novo Salvador Dali...!

– Não seja tolo. – ele me interpelou com uma expressão vagamente repreensiva — O Salvador Dali possui um estilo completamente diferente do meu. Ele era um surrealista.

ARGH! Caramba! Ele poderia soar mais aristocrático do que ele soou na última frase?!

Ele era um surrealista~”! Tenha dó!

– Sim, sim! Como se isso importasse, jovem mestre! – eu revirei os olhos, com impaciência — Todos os estilos de arte envolvem tintas e desenhos!

– Você quer ser um arquiteto, não quer? Se eu dissesse que você seria o novo Einstein faria algum sentido para você?

– É completamente diferente, aristocrata!

– Você deve concordar que todas as exatas envolvem números e cálculos.

Cheque-mate. Ele tinha um ponto.

Que tal mudarmos de assunto para que ele não perceba isso?, eu pensei.

– Você pretende continuar desenhando nas próximas semanas? – perguntei.

– Sim. – ele disse em uma voz baixa e tranquila — Eu estou desprovido do meu piano, afinal, e pretendo dar os desenhos que farei pelos próximos dias, como um presente de natal para a senhorita Elisaveta.

Acho que a maior prova de que minha visão do Roderich começou a mudar seria o fato de que em vez de começar a ter teorias conspiratórias de que o jovem mestre secretamente tencionava reconquistar a Lizzy e acabar me irritando com o aristocrata, eu simplesmente reconheci que aquele gesto seria legal da parte dele e me perguntei como os seus outros desenhos ficariam.

– Boa sorte. – eu desejei com uma expressão séria e fiz um discreto meneio de encorajamento a ele com o meu rosto. Para a minha sorte, o Roderich era melhor em detectar e compreender sutilezas do que eu e não precisei fazer mais do que isso para que ele assimilasse o que eu tentava expressar. Os olhos dele procuraram os meus e pousaram suavemente sobre eles.

– Obrigado. – ele me agradeceu com toda a honestidade que aquele semblante inalterável poderia expressar. Digo, o rosto dele não mudou nenhum pouco, mas os olhos dele estavam diferentes, sei lá. Eles estavam brilhando mais ou brilhando de um modo diferente. Eu não sei ao certo. Eu só posso arriscar dizer que havia alguma diferença ali que me fez noticiar o quanto Roderich estava contente com o que eu havia dito.

Eu não disse mais nada, depois desse agradecimento, e tampouco o Roderich o fez. Sentimos que aquele era um bom ponto para terminarmos nossa conversa e não tentamos puxar outro assunto. Entretanto, eu não me senti expulso daquela mesa e, apesar de não estarmos mais conversando, fiquei observando o jovem mestre, enquanto ele continuava a guardar os seus materiais de desenho.

Nós estávamos vivenciando um daqueles raros momentos em que o silêncio se torna confortável e apreciável, quando fomos despertados pela ação esmagadora e sem noção da realidade. Traduza-se realidade como um dos meus amigos bêbados e entediados no píer.

– GILBERT BEILSCHMIDT! ONDE ESTÃO NOSSOS COQUETÉIS, SEU LERDO IMPRESTÁVEL?! — gritou Artie, o suposto “cavalheiro” do nosso grupo, destruindo completamente qualquer atmosfera cinematográfica daquele meu primeiro momento de interação real com o aristocrata.

Argh. Droga. Os malditos coquetéis. Eu havia esquecido completamente deles.

– Você não está tão alcoolizado para começar com os insultos, Artie! – eu berrei em resposta, indignado principalmente com o quão autoritário e impaciente o Artie estava soando. Que arrogante da parte dele! O incrível eu não se submeteria às ordens de...!

– GILBERT! VÁ LOGO! O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO AÍ?! – a Lizzy gritou logo em seguida, com a mesma impaciência e irritação do Artie. Ótimo. Pelo visto, o álcool tornava todos os meus amigos insuportáveis.

De qualquer modo, eu não queria deixar a Lizzy mais irritada – p-porque eu era um cara extremamente legal, não porque eu estava com medo de apanhar dela! Há, há, há! – e não estava disposto a ficar agüentando os gritos dos meus amigos, portanto, rapidamente dispus-me a cumprir com os meus deveres como o fantástico anfitrião que eu era.

– Eu estou indo, seus alcoólatras! – eu respondi em voz alta, levantando-me de minha cadeira e fitando o píer com a ira de um injustiçado que jura vingança.

– Você irá apanhar uma bebida para eles? – perguntou o jovem mestre, cuja presença eu havia esquecido momentaneamente, em um tom vagamente curioso, erguendo seu olhar para mim.

– Um bando de coquetéis. – eu resmunguei desanimadamente, flexionando os meus ombros por sentir-me acabado com o comportamento dos meus amigos e com a minha perspectiva de encontrá-los bêbados e enfurecidos comigo daqui a alguns minutos. — Essa foi a razão pela qual eu subi. Eu nem me lembro mais quais eram os coquetéis que eles queriam, então acho que apenas irei fazer qualquer coisa que me vier à mente e esperar que a sua ex psicótica não me destrua por conta disso.

– Boa sorte. – a resposta dele foi dita de forma surpreendentemente neutra e séria.

Logo após ouvir o aristocrata, eu comecei a me encaminhar novamente para a casa. Cada segundo é importante, quando você é o responsável pelas bebidas e está em uma turma como a minha

Eu estava prestes a alcançar a porta, quando tive uma realização. Eu estava recebendo uma oportunidade para ser gentil com o Roderich. E quer saber? Eu queria ser gentil com ele.

Nós não começamos muito bem e as nossas primeiras impressões foram mutuamente péssimas, mas o jovem mestre não era um mau sujeito e o nosso recente diálogo me fez descobrir que conhecê-lo melhor seria mais divertido do que pensei. Então, por que não tentar me dar bem com ele?

– Er... Você quer que eu traga uma bebida para você, aristocrata? – eu ofereci, colocando um braço por trás da cabeça, com uma expressão um tanto desconfortável que ninguém, eu repito ninguém, teria conseguido evitar em uma situação estranha como aquela. Eu estava oferecendo bebidas para um cara com quem eu mal queria conversar até algumas horas atrás!

Ao ouvir minha generosa oferta, Roderich arqueou ligeiramente as sobrancelhas. Ligeiramente mesmo. Eu nunca teria reparado que a expressão dele havia mudado se não estivesse o encarando fixamente. Aquela era a cara de choque dele?

Por um instante, o Roderich permaneceu tão quieto que achei que ele iria recusar polidamente a minha proposta, contudo, após um breve instante de silêncio, ele respondeu em uma voz muito calma:

– Um copo d’água, por favor.

– Conforme queira, jovem mestre.

Eu sorri vitoriosamente e entrei em casa, murmurando o refrão de uma música do Metallica. Graças às minhas ações, dias mais calmos e gloriosos viriam, eu pensei.

Até hoje eu não consigo entender como todas as minhas previsões naquela viagem se mostraram erradas.

Notas finais
YAY! Olá, queridos leitores! Bem-vindos à nova one-shot dessa coletânea! Eu estou muito exausta e não farei muitos comentários, entretanto existem algumas coisas que eu gostaria de mencionar nessas notas finais!
Em primeiro lugar, como vocês puderam ver, essa fic será narrada pelo Gilbert. Essa é a primeira vez que o coloco como narrador e ainda estou me acostumando a esse novo tipo de organização do texto, portanto, desejem-me sorte! Em comparação ao Roderich, o Gilbert possui uma maneira muito diferente de perceber o mundo e essas diferenças aparecem no narrar dele! Além disso, há uma grande mescla entre formalidade e informalidade nas falas dele que não são típicas da narrativa do nosso aristocrata! Ah, e o ponto de vista dele é completamente hilário! Eu estou me divertindo muito com essa fic!XDD
Em segundo lugar, eu quero registrar que essa primeira parte é apenas o começo do começo dessa estória! Ela é praticamente um prólogo! MUITAS águas irão rolar - literalmente - e espero que vocês continuem a ler essa one-shot! O novo universo alternativo já foi apresentado, meus caros, mas o enredo mal começou!:D
Por fim, eu gostaria de agradecer a vocês, queridos leitores, por continuarem a acompanhar e comentar essa coletânea! Eu sou sinceramente grata a cada um de vocês e espero de todo coração que vocês saibam disso! Eu agradeço especialmente à senhorita Yuina Hal por sua recomendação e à senhorita Bell por seu desafio! Muito, muito obrigada mesmo!:3
Ah! A segunda parte de "Mar Verde Esmeralda" não será postada tão rapidamente quanto essa, porém eu estou trabalhando nela e espero postá-la o mais breve quanto for possível!
Sim, sim. A mudança de atmosfera entre as duas one-shots não mudou somente por causa da mudança de narrador, como também devido à mudança de cores temáticas. Eu farei maiores explicações quando concluir essa fic, então peço que aguardem pacientemente por elas. O título também estará incluído nas minhas explicações e, antes que os alertas venham, não, eu não confundi as cores.
Aos desenhistas que estão acompanhando meus trabalhos, lembrem-se que fanarts são sempre bem-vindas ~
Muito obrigada pelos seus reviews! Eu espero que vocês continuem a ler, apreciar e comentar as fanfictions dessa coletânea!
Bai, bai!