As Sete Cores Do Arco-íris
6 Amarelo: Mar Verde Esmeralda - P.03
Notas iniciais
Por conta de uma série de problemas pessoais, eu não atualizava minhas fics há alguns meses e decidi postar mais uma parte para essa! Eu queria ter encerrado essa parte em outro ponto, mas como estou precisando de um pouco de incentivo ultimamente, achei que não haveria problemas em deixar que essa "one-shot" ficasse com quatro partes e encerrar esta no ponto em que escolhi. Eu espero que vocês aproveitem a sua leitura!^-^
PS: As notas finais terão explicações sobre a minha demora para retornar, um aviso relativamente importante, uma divulgação e a minha lista de prioridades de atualizações futuras.
Registro das perdas totais daquela noite: quarenta euros, a maioria dos meus documentos e qualquer resquício de amabilidade do Rod.
Ingenuamente, fui dormir naquela data achando que a raiva dele era uma coisa do momento e contando que poderíamos nos acertar no dia seguinte, mas o meu palpite foi tão incorreto. Quando amanheceu e eu pedi que ele saísse um pouco da mesa onde todos estavam tomando o café, trazendo-o para um canto mais discreto para que nós pudéssemos conversar, presumi que os meus pedidos de desculpa surtiriam efeito dessa vez.
Como ele poderia ficar bravo com o incrível eu? As minhas sinceras desculpas foram ditas e, tendo passado o susto e o cansaço da outra noite, a irritação dele deveria ter se dissipado, certo?
Errado.
Diante dos meus repetitivos pedidos de desculpa e do meu melhor olhar de “você-não-deveria-estar-bravo-comigo”, ele meramente me deu as costas e voltou à mesa do café como se ele tivesse apenas observado a passagem do vento no tempo da nossa conversa. Deixe-me dizer: aristocratas são seres rancorosos e impiedosos. Ninguém deve querer tê-los como inimigos. Afirmo por experiência própria.
Depois dessa primeira tentativa(de muitas), eu tive que mudar meus métodos e apelar para a gratidão do Rod. Eu decidi que seria tão prestativo e gentil com ele que não lhe restaria outra opção, senão perdoar ao totalmente generoso Gilbert Beilschmidt. Eu iria atendê-lo, ajudá-lo e mimá-lo como ele nunca foi mimado em sua vida.
Eu passei a auxiliar o Roderich a preparar o almoço – especialmente no preparo de peixes e frutos do mar porque ele parecia se sentir um pouco intimidado com as lagostas, camarões e com os “olhos tenebrosos dos peixes” – arrumei o quarto dele, trouxe água e quitutes a todo instante para a mesa em que ele ficava e não parei de elogiar cada movimento e palavra que ele dizia. Oh, você acha que está quente? Que excelente percepção, jovem mestre! Pessoas como você nunca ficam desidratadas!
Nesse processo, eu continuei a fazer pequenos pedidos de desculpa ao longo do dia, esperando que alguma hora ele desistisse de ser teimoso e dissesse linhas como “É claro que eu o perdôo, Gilbert Beilschmidt! Esqueça esse conflito e me beije! Essa triste separação intensificou o amor que sinto por você!”. Um cara não pode perder as esperanças, por mais que um aristocrata as esmague com um olhar gélido e hostil.
O Rod não colaborou muito com a concretização das minhas expectativas. Eu estava sempre pedindo desculpas, tentando me explicar e buscando agradá-lo, contudo a maneira como ele estava me tratando fazia parecer que eu estava em um país muito distante sem conseguir contatá-lo. Ele não estava falando comigo e virava o rosto quando eu falava com ele. A expressão dele apresentava uma indiferença permanente pela minha existência. Não eram sinais de sucesso dos meus planos, eu estava consciente, contudo me esforcei para não me inquietar rapidamente com eles. Havia sempre o amanhã.
Eu somente comecei a me inquietar com eles, quando o “amanhã” continuou a mostrar que eu não fiz avanço algum.
Dois dias se passaram. Dois dias de bajulação incessante ao Roderich e ele ainda me tratava como se eu fosse menos significante do que um apontador quebrado no fundo de um estojo. Eu não era ninguém, era somente aquele vulto misterioso que estava fazendo as tarefas dele e fazendo-lhe favores por acaso! Algo como os duendes daquela velha estória do alfaiate que acordava de manhã e via os seus produtos prontos!
Comecei a me desesperar com a passagem dos dias e com a persistência do comportamento rabugento do Rod. Dois dias podem não parecer nada para um espírito furioso, eu sei, entretanto nós estávamos em uma viagem que acabaria em menos de duas semanas, e eu ainda precisava fazer as pazes com o Rod, recuperar nossa amizade e a sua boa impressão sobre mim, descobrir qual era a orientação sexual dele, tentar conquistá-lo e levá-lo a encontros românticos na praia! Era muito para pouco tempo e o Rod nem tentava me ajudar! O “R” do nome dele devia ser um “R” de rancor!
No terceiro dia, eu acordei de saco completamente cheio com aquela estória. No entanto, como logo nesse dia o Rod começou a mostrar alguns sinais de ter começado a me perdoar, eu fui recobrando meu bom humor aos poucos. Ele voltou a responder as minhas perguntas e a expressão dele retornou a ter aquela... eu não sei, algo que ela tinha antes de nós brigarmos. Ele estava quieto e aborrecido, contudo não parecia mais tão amargo e ressentido como antes. Não era um excelente sinal?
Durante o horário do almoço, eu comecei a me sentir tranqüilo novamente e cantar Celebration time na minha mente. Eu estava até achando com inocência que a bondade e o bom senso estavam retornando ao adorável e vingativo alvo das minhas afeições, quando vi o Roderich terminar de servir a mesa e se sentar sem ter entregado o meu prato propositalmente. Repito, ele entregou o prato de todos, menos o meu. E o modo como ele se sentou tão tranquilamente e confiante de si mesmo me deu nos nervos. Era evidente que recado ele queria transmitir com aquela ação. O relance lateral de desprezo que ele me lançou não deixava muitas margens para outras interpretações.
Acho que meu estresse acumulado agiu sobre mim porque aquela foi a gota d’água.
– O que diabos, Rod?! – eu gritei, batendo meu punho fechado contra a mesa com um impacto que fez os pratos alheios se remexerem.
A mesa inteira ficou atônita. Com exceção ao jovem mestre, aquele passivo-agressivo.
– Você deseja algo, Beilschmidt?
– Não venha com essa de “Beilschmidt”! – eu apontei acusatoriamente para ele — Será que dá para você parar de ser tão cínico e teimoso, aristocrata?! Eu pensei que você estava começando a ser um pouco racional hoje de manhã!
– Racional? – o seu rosto não mostrava, mas eu conseguia ouvir o sorriso escarnecedor na voz dele — Não é como se você pudesse falar muito sobre ações racionais, eu não estou correto?
– Não, não está! Olha, Rod! Eu sinto muito! – eu exclamei com mais impaciência do que arrependimento — Eu já disse dezenas de vezes que eu sinto muito! O que você espera que eu faça?! Eu não queria ter sido tão... – eu me recusei a relacionar o adjetivo “idiota”, o primeiro que me ocorreu, com a minha incrível pessoa, então tive que engoli-lo e improvisar -... com você naquela noite!
– Gilbert, você viu o estado das minhas roupas? – o tom da resposta do jovem mestre não era menos acusatório ou determinado que o meu — As minhas pernas ficaram tremendo tanto que eu mal consegui me levantar! Eu senti dores musculares incessantes no dia seguinte!
– Você não entende?! – a minha garganta estava doendo de tanto gritar, no entanto eu não conseguia me manter calmo quando eu observava quão incompreensivo aquele aristocrata estava sendo. Por que ele não conseguia entender?! — Eu estava querendo me divertir com você! Se eu soubesse que as coisas sairiam de controle, eu teria me contido! Eu nunca faria algo que fosse deixá-lo intrigado comigo, Rod!
– Er, desculpe-me por estar me intrometendo, mas do que exatamente vocês estão falando? – perguntou o Arthur e ele estava ruborizado e com a cara estranha de alguém que se recusa a acreditar no que está ouvindo.
Foi somente nesse momento que realizei que a mesa inteira estava nos encarando com mortificação.
– Huh? – eu ergui uma sobrancelha em estranhamento, antes de me lembrar que o nosso círculo de amizades não estava informado sobre as origens daquela nova Guerra dos Cem Anos. — Ah, sim. Lembra daquela noite em que comprei os peixes e frutos do mar? – eu perguntei para o Arthur para a partir desse ponto começar a explicar o que estava acontecendo — Quando cheguei aqui, o Rod estava sentado no píer, então eu decidi me aproximar dele...
Um baque súbito interrompeu a minha narrativa e, para a minha surpresa, descobri que ele havia sido causado pelo Rod, cujas palmas das mãos estavam coladas na madeira da mesa e o rosto estava ligeiramente vermelho de... raiva(era a minha interpretação).
– F-Fique quieto, seu tolo intratável!
– Por que você está ficando tão envergonhado?! – eu bati novamente na mesa com a mesma intensidade — Eu só estou contando o que aconteceu naquela noite...!
Interrompendo aquela discussão abrasada, alguém veio ao resgate da tranquilidade do nosso almoço. Não foi a Lizzy com ameaças violentas dirigidas para o incrível eu, não foi o Artie com berros repletos de palavrões sobre a importância da etiqueta à mesa ou o Tonio com um sorriso amistoso, mudando o assunto para um tópico completamente diferente. Foi o meu grande e sensato amigo Francis que nos interpelou, sorrindo discretamente e colocando uma mão firme sobre o meu ombro, com uma colocação que conseguiu nos desarmar efetivamente:
– Meus queridos amigos, embora pareça uma bela narrativa, eu não acho que conseguiríamos nos concentrar em nossa refeição, ouvindo vocês falarem sobre a noite de sexo selvagem que tiveram no píer. Vocês poderiam reservá-la para outro momento?
– Quê?!
Eu podia sentir o meu queixo caindo do meu rosto e as minhas sobrancelhas franzindo.
A minha primeira reação foi de assombro, é óbvio. Que diabos?! Quando nós havíamos falado que...?!
A minha reação seguinte foi a de olhar imediatamente para o rosto do Roderich. Um dos nossos amigos havia descaradamente feito uma sugestão maliciosa sobre o nosso relacionamento e era de fundamental relevância verificar como o Rod reagiria a isso. Eu contava em ver um aumento no rubor de seu rosto combinado com um adorável olhar assustado – indicativos positivos de que eu tinha alguma chance, afinal — porque embora eu estivesse irado com o jovem mestre, eu ainda era louco por ele.
Acho desnecessário comentar que o Roderich frustrou minhas esperanças de novo(!), recebendo o comentário do Francis com perfeito estoicismo. Eu juro que o rosto dele conseguiu tornar-se mais neutro e impassível do que já era, algo que eu considerava impossível até então.
– Não se trata disso. – ele falou com um suspiro que exprimia uma monotonia profunda, como se ele considerasse uma explicação completamente desnecessária, enquanto erguia-se da mesa. — Todavia eu concordo que encerremos nosso assunto. – ele acrescentou, quando estava prestes a se retirar — Gilbert, eu o autorizo a apanhar seu almoço, apenas não persista nesse conflito.
– “Autoriza”?! – eu fiquei boquiaberto com o nível de cara-de-pau daquela frase — Fui eu que comprei os ingredientes e preparei a maior parte do almoço!
– Você quer que eu retire sua autorização? – ele ameaçou com um olhar gélido e autoritário.
Era demais para mim. Chega de lidar com o Roderich e com a maldita comida parcialmente dele naquela tarde. Eu havia sido acusado e desprezado. O meu humor não estava nada bom.
– Bah! Esqueça! Eu perdi a fome de qualquer modo! – eu decidi, levantando-me da mesa apressadamente e andando com passos pesados e barulhentos em direção ao meu quarto. Eu fiz questão de virar o meu rosto no fim do corredor para adicionar — Empanturre-se com esses peixes e com os olhos “amedrontadores” deles, Roderich!
Fechando a porta do meu quarto, eu pude ouvir a resposta distante, irritada e provavelmente constrangida que vinha da sala de estar:
– Você é um estúpido, Gilbert!
_________________________________________________________________________
Brigar com um amigo é terrível. Brigar com alguém por quem você está interessado é péssimo. Brigar por algo que é culpa sua é pior ainda. Conclusão: aquela tarde estava sendo uma droga.
Como o tempo é um sacana que se diverte sadicamente em nos provocar a impressão de que os nossos tormentos são intermináveis, as horas horríveis que se seguiram à briga que tive com o aristocrata no horário do almoço pareceram séculos. Por mais que eu quisesse me esquecer do assunto e mandar o jovem mestre se ferrar, era como se algo ficasse se debatendo constantemente nas paredes do meu coração.
Eu estava inquieto, nervoso e inconformado. Precisando do suporte emocional de uma pessoa compreensiva.
Infelizmente, a Lizzy era a minha melhor opção no momento.
– Eu não consigo entender o Rod, Liz. – eu admiti, sentado ao lado dela no píer, observando como a cor da água parecia escurecer com o avanço do pôr-do-sol. Não que eu quisesse me deixar levar pelo sentimentalismo, era apenas difícil olhar para a cara da pessoa que escuta as suas confissões constrangedoras, principalmente quando ela é propensa a rir do que você diz.
A Eliza estava chutando a água distraidamente, mas eu sabia que ela estava atenta ao que eu falava.
– Bem, eu achei que conseguia entendê-lo. – ela falou com um tom reflexivo que acabou expressando certa confusão de sua parte — Todavia, o Roderich que conheço não gritaria ardentemente com alguém em uma mesa repleta de pessoas. Eu mesma estou admirada.
Qualquer um ficaria admirado. O jovem mestre não era o tipo que conseguiria expressar indignação a menos que a raiva dele ultrapassasse todos os limites da paciência humana.
Pensar que eu havia sido o responsável por levá-lo a tal ponto de raiva era meio deprimente.
– Você acha que ele me odeia? – eu murmurei, afundando minha cabeça nos meus joelhos.
–...
– D-Digo, será que ele é insensato a ponto de odiar alguém tão incrível quanto eu? – eu me reiterei, corrigindo minha postura e quão suspeita havia sido minha questão anterior. A Eliza continuou a me encarar com um olhar inquisidor por mais alguns segundos, tentando identificar algo delator no meu rosto.
Felizmente, graças às minhas grandiosas táticas de atuação, a Lizzy desistiu e eu pude voltar a respirar.
– Eu não penso que ele te odeie. – ela opinou, dando um pequeno suspiro — Ele só está irritado. Com certeza, você deu razões para isso.
Quê?!
– Por que você não consegue acreditar que ele está apenas agindo como um imbecil?!
Aquilo era tão terrivelmente injusto com o incrível...!
– Gilbert.
– Ele está! – eu insisti, porém a Eliza manteve aquele olhar massacrante de impaciência e descrença e eu fui forçado a mudar a minha defesa — Certo, eu fiz algo errado, mas eu já pedi desculpas várias vezes! O que ele quer que eu faça?!
– Eu não sei. – ela deu de ombros. — Se alguém me contasse o que aconteceu entre vocês, seria mais fácil ter uma opinião sobre esse tópico.
– O Rod parece querer manter esse assunto em privado e eu não estou em posição de contrariá-lo. – eu agitei minha mão, dispensando aquela hipótese.
Seria totalmente contra os meus princípios e contra os meus projetos de eventualmente conquistar o Rod, revelar um incidente o qual ele não queria que fosse contado. Além disso, eu me sentia um tanto vitorioso em relação à Liz por ter adquirido um momento secreto com o Rod, mesmo que esse momento secreto fosse um afogamento ridículo.
– Huh? – ela deu um pequeno sorriso implicante — Suspeito.
É, seria bom se algo suspeito tivesse acontecido.
– Não há nada de suspeito nisso. – repliquei, tentando disfarçar meu aborrecimento com esse fato. Bom, eu não podia falar muito sobre a minha péssima noite privada com o jovem mestre, portanto, era melhor desviar a conversa para outra direção. — Ei, Lizzy. Você já viu o Rod nadando?
– Eu acredito que não. – ela arregalou um pouco os olhos como se fosse a primeira vez que ela reparasse nisso.
– Nem eu. É estranho, não é? – dei um meio-sorriso um tanto amargo — As férias estão quase acabando e ele não quis entrar no rio nenhuma vez. Eu até pensei que ele não gostasse do mar, mas aí eu vi como ele estava brincando a água na noite em que nós brigamos. Além disso, ele fica sempre desenhando a paisagem e dando olhares distantes para ela... – eu suspirei pesarosamente e não consegui conter um gemido de frustração — Argh. Francamente, eu nunca sei o que ele realmente está pensando. Ora parece que ele gosta da água, ora parece que ele não gosta. Ora parece que ele gosta de... da minha fantástica companhia, ora parece que ele não gosta. Eu estou ficando esgotado de tentar me aproximar dele e de tentar fazê-lo se divertir com essa viagem, Eliza. – eu engoli algo inexistente preso em minha garganta — Talvez eu devesse deixá-lo em paz de uma vez por todas.
Eu soube que havia chegado ao cúmulo do ridículo quando reparei que o meu coração estava doendo somente porque eu cogitei naquela possibilidade.
Gostar de alguém sem conhecer os sentimentos da outra parte é mesmo um lixo. Você fica chateado por gostar dele, fica chateado por desistir dele... Se eu conseguisse superar aquele lance com o Rod, iria me esforçar para que aquela porcaria nunca mais me acontecesse.
– Ele não entrou na água uma única vez? – a pergunta da Liz interrompeu a minha linha enraivecida de pensamentos, mostrando uma preocupação bem diferente da minha.
– Não. Você não percebeu? – eu pisquei duas vezes. Que diabos, Lizzy. Quando você viu o Roderich molhado, usando roupas de banho? Eu certamente teria reparado se isso tivesse acontecido.
– Nossa, Gil. – ela inspirou fundo, o que me fez começar a reunir fôlego para me preparar para uma série de “Foi você que intimidou o pobre Roderich!”. — Isso foi extremamente antipático da parte dele.
– Hã?
Caramba. A Lizzy estava brava. Ela não estava insana de fúria, contudo o seu rosto nitidamente estava desgostoso e compenetrado ao mesmo tempo. O mais impressionante é que dessa vez essa raiva não era dirigida a mim, mas ao seu desnecessariamente super-protegido Roderich Eldestein. O que era aquilo? Um milagre de natal antecipado?
Eu estava tão desacostumado e despreparado para aquele desfecho que não sabia se deveria ficar alegre ou terrivelmente assustado com ele. Porque eu ainda estava em dúvida, resolvi observar a direção dos pensamentos dela.
– Nós iremos reverter essa situação. – ela anunciou em uma voz decidida, levantando-se com o sorriso encorajador de um general que tenta animar suas tropas na etapa final de uma guerra — Não se preocupe. Siga os meus comandos!
– Eu estou mais preocupado com o que você quer fazer do que com a situação atual! – eu anunciei imediatamente com um olhar arregalado. Pois é, eu já havia chegado a uma conclusão sobre os potenciais efeitos das ações da Lizzy.
– Eu irei falar com o Rod. – ela informou e virou de costas, retirando-se do píer antes que mais protestos apavorados saíssem de minha boca. Que vilã implacável!
A Lizzy é mesmo uma amiga única... de um modo que pode ser uma benção ou uma maldição a depender do caso. Quando você escuta alguém dizer “Eu irei falar com o Fulano!”, “Eu irei resolver tal coisa!”, você supõe que a pessoa está dizendo que eventualmente ela irá agir. Você não pensa que ela está apenas fazendo o anúncio do que ela pretende fazer imediatamente!
Vejam e pasmem! A Eliza caminhou para a mesa em que o Rod estava sentado e o interrompeu sem hesitação no meio da sessão artística dele para dizer que eles precisavam conversar em privado. Em resposta, sabem o que o aristocrata fez? Ele concordou e começou a segui-la na mesma hora! Que droga, Lizzy! Quando uma vez eu falei para o Rod que gostaria de conversar em privado com ele, antes do nosso pequeno acidente, ele fez um som de “Hm” tão cheio de escárnio que provavelmente era a sua versão do tradicional “Há!” ou coisa parecida e nem se moveu.
A minha indignação com essa cena revoltante e especialmente com o relance de “você-está-completamente-excluído-desse-diálogo” que o Rod me lançou quando os dois estavam saindo foi o que me fez espiar para onde eles estavam indo – “Os fundos da casa não são uma câmara secreta, pessoal” — e me esconder atrás de uma coluna para ouvi-los. F-Foi uma vingança merecida, não uma atitude ciumenta e insegura, posso garantir!
– Roderich, querido, eu não acredito que você não entrou na água nenhuma vez desde que chegamos aqui. – a Eliza estava dizendo quando cheguei — Eu não sei se você não gosta de nadar, se não gosta de água salgada ou se não gosta do Gilbert, mas escute... Você precisa nadar pelo menos uma vez. O que você está fazendo é uma desfeita enorme para o anfitrião.
Eu não podia ver o rosto da Lizzy porque isso poderia atrapalhar o meu disfarce, mas, caramba, a garota tinha dezoito anos e ela conseguia dar um sermão em um tom maternal.
– Senhorita Elizaveta...
Eu queria tanto ver o rosto do Rod. Ele estava soando um pouco magoado e ao mesmo tempo ofendido. Eu não conhecia uma expressão sua que fosse compatível com esse tipo de sentimento. Por outro lado, eu tinha menos curiosidade em ouvir o que ele tinha a dizer. Eu estava farto de escutar o mesmo drama aquático todos os dias. Ainda bem que a Lizzy o interrompeu.
– Eu sei muito bem que o Gil é um idiota. – ela disse — Ele é irritante, implicante, inconseqüente, impulsivo, arrogante e tão imaturo quanto uma criança de cinco anos! Eu juro que tenho vontade de esmurrá-lo de vez em quando!
Wow. Muito obrigado pelo apoio, Lizzy! Que bom ver que posso contar com você para me proteger!
– Eu conheço os defeitos do Gilbert e sei que ele deve ter feito algo muito estúpido para deixá-lo tão irritado. Eu sei disso, Roderich. – eu quase podia enxergar o sorriso afetuoso da Lizzy pelo tom adocicado que ela estava usando para falar o nome dele — Meu querido Roderich.
– Elizaveta, escute. – ele tentou falar novamente.
– Todavia eu não posso deixar que você vá para casa sem nadar ao menos uma vez, Roderich. O Gil é inegavelmente um idiota, mas ele é um idiota com um bom coração. Ele está se esforçando ao máximo para que essa viagem corra bem e para que todos se divirtam juntos nas últimas férias da nossa adolescência. Eu vejo que ele está tentando de verdade. Você também vê, não é?
...
Eu... não sei o que dizer sobre esse momento ou sobre como eu me senti. Acho que não existem muitas sensações nesse mundo que se equiparem a de ouvir um amigo te defendendo ou noticiando algo em você que não parecia ter sido percebido por ninguém. Como a Lizzy sempre falava com certa implicância dos meus esforços para ser o melhor anfitrião de todos os tempos, eu não sabia que ela realmente os valorizava ou que ela tinha ideia de como isso era importante para mim... A emoção que eu senti naquele instante por ter uma melhor amiga como ela foi indescritível.
O Rod provavelmente não sabia disso também. Ele não deu uma resposta.
– Mas eu não vejo você se esforçar nesse sentido, Roderich. – a voz dela se tornou um pouco mais severa, embora estivesse muito longe do nível de ira que ela podia alcançar, tratando-se de um problema comigo — Você não precisa agir a cada instante como se estivesse odiando esse lugar e não quisesse estar aqui. Não custa a você tentar nadar um pouco e se integrar por alguns minutos ao grupo. É o mínimo que você pode fazer para compensar todo o empenho que o Gilbert está colocando nessa viagem.
O Rod continuou em silêncio, o que me causou uma frustração enorme com a minha incapacidade de ver através dos objetos, pois eu precisava saber que tipo de silêncio era aquele. Era um silêncio de raiva? De concordância? Da descoberta de uma forte e irreversível paixão por alguém incrível como eu?
– Eu vou dar um prazo a você. – a Eliza continuou — Você terá até a semana que vem para reunir disposição e nadar conosco, Roderich, senão eu ficarei terrivelmente magoada com você.
Er...Hã???
“Senão eu ficarei magoada com você”? Vamos lá, Lizzy! Que punição mais quarta-série. Como se o jovem mestre fosse aceitar as suas condições por causa de uma chantagem tão ridícula!
Certo, eu tinha que ver qual havia sido o efeito daquela ameaça no aristocrata. Como os dois haviam parado de falar há alguns segundos, deduzi que era o instante ideal para que eu tentasse dar uma olhada na expressão do Rod, então tomei coragem e coloquei parte do meu rosto para espiar o que havia atrás da coluna, mas...
– Vamos. – falou a Lizzy, sorrindo para mim bem na minha cara e bloqueando completamente a minha visão do Rod. DROGA. — Eu terminei de falar com o Roderich. Você pode parar de fingir que não estava espionando nossa conversa.
– Eu não estava...!
– Gilbert.
Era impossível enganar aquela mulher.
– Droga, Lizzy. Como você faz isso?!
– Eu recebi super-poderes de uma pedra radioativa. Esses poderes me permitem saber, por exemplo, que essa foi uma tarde cansativa para você e proponho que nós joguemos uma partida de xadrez. Ah, saiba que quando eu terminar de destruí-lo mesmo o Roderich terá pena de você!
– Há! Tente o quanto quiser, Eliza! Dentre os muitos títulos que recebo, está o meu título como um mestre imbatível no xadrez! Mantenha as mãos nas suas peças para que elas não fiquem tremendo!
Senhoras e senhores, eis a minha melhor amiga e parceira em todo o universo: Elizaveta “sobrenome-complicado-em-húngaro”. A amizade dela era uma bênção e uma maldição que eu jamais gostaria de perder.
_____________________________________________________
O interessante no inesperado é que ele pode surgir em graus diferentes. Às vezes, você tem uma noção de que algo pode acontecer, entretanto acha que isso seria improvável. Às vezes, você deixou de pensar em uma determinada alternativa para uma situação e foi exatamente ela que ocorreu. Às vezes, um acontecimento totalmente inimaginável surge simplesmente do nada.
Adivinhem qual foi o meu caso.
– Eu quero conversar com você.
Notas finais
Eu devo pedidos de desculpas a muitas pessoas por não ter feito reviews em algumas fics que acompanho e por não estar atualizando com tanta frequência ultimamente. Eu ainda estou devendo as one-shots da votação! Eu sei disso! Eu realmente conheço as minhas dívidas e farei o meu melhor para que todas elas sejam quitadas, então não aumentem o peso na minha consciência, por favor!-_-º
Todavia, para ser honesta e direta, a minha grande explicação para todos os meus problemas em relação a fanfictions, reviews, atrasos e etc seria: eu tenho depressão. É uma tendência biológica na minha família e eu não preciso ter razões para ficar deprimida. Simplesmente acontece. Desde o início do ano passado, eu estive piorando e piorando até descobrir o que estava acontecendo comigo. Eu não estou SEMPRE deprimida, mas quando eu fico deprimida, eu não tenho disposição para fazer muitas coisas e tento focar as minhas energias restantes nos meus estudos. Sem contar que as minhas pioras são acompanhadas por um bloqueio de escrita. Em resumo, combinando as ocupações da faculdade que estão se tornando gradativamente maiores com eventuais "crises" de depressão é bastante natural que eu demore para fazer algumas coisas e espero que vocês sejam pacientes comigo, quando isso acontecer. Fics que envolvem pesquisas são especialmente difíceis nessas condições e eis porque existe uma diferença no tempo de atualização dos meus trabalhos.^-^
No primeiro semestre desse ano, eu tive o meu pior momento de todos e não tive disposição para fazer nada, então decidi apenas concluir meus trabalhos de faculdade, após tirar uma semana de folga absoluta, e conseguir um tempo para relaxar das minhas responsabilidades como escritora. Em vez disso, eu focalizei minha energia criativa em fics casuais e curtas e em um evento de produção de fanfictions em dupla que estou fazendo no blog desafiosparaficsdehetalia. Fora da pressão que eu sinto em relação aos meus outros projetos, eu pude descansar mais e já estou começando a me sentir melhor.^_^
Esse evento, by the way, é o meu segundo aviso. 14 escritores/desenhistas se inscreveram nele e nós lançaremos uma coletânea de 28 estórias com algumas ilustrações no início de outubro. Eu deixarei o link aqui, quando ela estiver pronta, e acho que vocês se divertiriam muito ao lê-la!
O meu último aviso, para concluir, é o de que eu escolhi uma nova pessoa para dar o desafio "Violeta" para mim, uma vez que a leitora original deletou sua conta! Eu mandarei uma MP para a nova escolhida em breve!
Muito, muito obrigada pelo apoio que vocês sempre me dão! Ele é extremamente importante para mim! Eu espero que vocês continuem a acompanhar, apreciar e comentar os trabalhos dessa coletânea! Nós nos vemos na parte final dessa "one-shot"!=)
Bai, bai!:3
PS: Lista de prioridades desse mês -> Mar Verde Esmeralda, Teoria do Romance Literário, Obaka-san!, Mrs. Kirkland.
Fale com o autor