As Sete Cores Do Arco-íris

5 Amarelo: Mar Verde Esmeralda - P.02


Notas iniciais
Enfim, a continuação dessa estória, queridos leitores! Eu agradeço imensamente pelo apoio que estou recebendo nessa coletânea e torço para que eu continue a recebê-lo! Os seus comentários são um grande estímulo para mim!^-^

Ah. Eu darei um aviso DE EXTREMA importância nas notas finais. Por favor, não deixem de lê-las!

Depois de minha impressionante descoberta de que o Roderich poderia ser sociável, desde que eu não o irritasse a cada cinco segundos e o acusasse perpetuamente de roubar a minha Lizzy, eu decidi utilizar parte dos dias de nossa viagem para conhecer melhor aquela curiosa figura que estava se integrando ao nosso grupo.

O meu plano para conseguir isso era prático, simples e, em síntese, brilhante: quando eu fosse pedir comida para o Roderich ou quando eu saísse de casa ou do píer e me deparasse com ele, eu usaria os desenhos dele para conversamos um pouco e oferecer-lhe pequenos favores – “Você precisa de mais papel? Eu posso trazer para você!” ou “Você não quer que eu troque a água? Ela já está cinza, jovem mestre!” – e gradualmente a nossa convivência acabaria por se tornar mais agradável, como se essa melhoria houvesse ocorrido casualmente. Ninguém – principalmente, a Lizzy e o Roderich – precisava saber o quanto eu tinha dificuldades em falar com o jovem mestre e quanto empenho eu coloquei para pensar em um método de aproximação que não fosse completamente embaraçoso e humilhante.

Inicialmente, eu planejava me dar bem com o Roderich. Vocês sabem, aquele tipo de relacionamento em que duas pessoas conversam ocasionalmente e se consideram divertidas, apesar de não se acharem tão divertidas a ponto de fazerem planos juntas. Era exatamente o que eu queria e esperava no começo porque...Vamos lá! Eu e o Roderich não precisávamos virar os melhores amigos de todo o universo para que deixássemos de nos desentender!

O Roderich era um sujeito legal e eu queria poder conversar mais vezes com ele e compreender melhor aquele estranho comportamento aristocrático. No entanto, por mais legal que ele fosse, eu realmente não conseguia ver a princípio como a nossa relação poderia se tornar algo além da relação de dois conhecidos que se davam bem. Digo, eu não sei... Nós éramos tão diferentes e tínhamos uma relação antiga bem complicada por causa de todo aquele lance com a Lizzy!

Eu estava seguramente satisfeito em ser somente um colega do Roderich – um ENORME avanço em relação à nossa antiga posição — e o aristocrata devia ter expectativas parecidas a meu respeito. Depois dessa viagem, nós poderíamos tomar umas cervejas juntos de vez em quando – sendo mais realista, eu tomaria umas cervejas e riria da provável incapacidade do Roderich de lidar com álcool – ou nos encontrarmos quando a Lizzy o convidasse para as saídas do nosso grupo, mas era óbvio que nenhum de nós se sentiria confortável o bastante para eventualmente convidar o outro para ser seu padrinho de casamento.

Pois é. Eu queria me socializar com o Roderich por ser curioso e competitivo e por querer alcançar o título de melhor anfitrião de todos os tempos. Todavia, o aumento do tempo que eu estava dedicando a essa atividade não era causado por essa intenção.

Nos dois primeiros dias, as nossas conversas não foram mais do que uma rápida troca de perguntas e respostas educadas. No terceiro dia, eu me arrisquei um pouco mais e nós conversamos por cerca de cinco minutos sobre algumas melhorias que poderiam ser feitas na arquitetura da casa de praia e sobre as compras que precisávamos fazer para aquela semana. No quarto dia, eu já havia começado a fazer questões pessoais e casuais ao Roderich, perguntando o que ele iria cursar agora e se ele havia ido para o baile de formatura. Esse avanço progressivo continuou a ocorrer muito sutilmente e quando me dei conta, eu estava tendo horas de conversa com o Roderich e chegando a ignorar convites para beber com os meus melhores amigos para continuar falando com ele.

O que diabos estava acontecendo?

Se eu estivesse com dificuldades em lidar com o aristocrata e as nossas várias horas de conversa fossem necessárias para que ele não acabasse envenenando minha comida, seria mais fácil entender o que estava ocorrendo e bem mais fácil aceitar a razão pela qual eu sentia uma crescente necessidade de aumentar o tempo que eu passava com o jovem mestre, porém esse não era o caso. Os meus diálogos com o aristocrata eram ótimos. Era estranho ver como as horas voavam, quando eu estava com ele, e como nós conseguíamos nos entreter juntos. Caramba. Nós tínhamos uma severa inimizade até pouquíssimos dias atrás! Nós éramos completamente diferentes! Como, repentinamente, eu me vi ansioso uma manhã inteira para falar com ele e lamentando quando nós tínhamos que nos separar? Que situação bizarra!

Bizarra ou não, era o que estava acontecendo. Eu estava me aproximando muito do Roderich e meu motivo para tanto, por mais que fosse difícil admiti-lo para mim mesmo, era simplesmente o gosto que eu tinha em conversar com ele.

Nós não éramos tão diferentes quanto eu supunha, pude descobrir eventualmente. Nós tínhamos uma série de preferências em comum e um senso de humor perfeitamente compatível. O Roderich me ensinou muitas coisas sobre História da Arte – “Pare de revirar os olhos! Essa será uma disciplina obrigatória no seu curso, seu tolo!” – e me falou sobre as viagens que ele havia feito em suas turnês, contando vários incidentes engraçados que havia acontecido nelas, como a vez em que os pais dele ficaram muito aborrecidos com ele, durante um jantar, e não pararam de chutá-lo por baixo da mesa porque ele se recusou a comer com as mãos em um restaurante na Índia. Eu falei a ele sobre as festas que eu havia frequentado e sobre as coisas que eu via na internet, ignorando ao máximo o quanto o olhar compenetrado dele fazia o estilo “apresentador-de-um-documentário-observando-a-vida-selvagem”. Nós conversamos sobre os desenhos dele, sobre os nossos projetos e sobre os nossos amigos em comum...

... Em pouco mais de uma semana, o Rod era um membro oficial do meu restrito e formidável círculo de amizades. As minhas intenções iniciais não eram exatamente essas, mas, bah, no fim, eu consegui dissipar minhas disparidades com ele e fiz conquistas ainda maiores! E-Eu havia conseguido o que eu queria com pontos extras, certo? Veni, vidi, vici! Eu deveria correr com os braços abertos ao som de We are the champions e aguardar os aplausos que, com alguma sorte minha, abafariam o som das inevitáveis risadas dos meus amigos imaturos, iniciadas a partir da ocasião em que eles noticiaram que eu e o Rod havíamos nos tornado próximos um do outro. O persistente sorriso cretino deles de “Oh, então vocês se tornaram amigos? Você não disse que ele era detestável e que não queria nada com ele, Gilbert?” era insuportável.

Argh. Às vezes, eu realmente me perguntava o que alguém incrível como eu estava fazendo naquele grupo terrível.

Felizmente ou infelizmente, a minha sensação perpétua de irritação e vergonha com os olhares que os meus outros amigos me lançavam toda vez que me viam falando com o Rod, foi rapidamente superada pelo incrível eu, graças ao surgimento de problemas maiores e mais urgentes priorizados por mim. Eles surgiram às onze da manhã da quinta-feira da segunda semana da nossa viagem.

Naquela manhã, eu estava na cozinha, assando salsichas ao lado do Arthur, por sua vez ocupado com a preparação das bebidas que acompanhariam nosso almoço, quando vagando pelas minhas memórias no meio do tédio daquela tarefa, reparei que eu nunca havia visto o Roderich beber nada além de água em nossa viagem e tive a brilhante ideia de pedir ao Artie para preparar um coquetel especialmente para ele, seguindo uma recomendação minha.

Assim que terminei de preparar o almoço e servir a mesa, eu saí para chamar o Rod e oferecer esse drinque a ele. Como sempre, ele estava sentado abaixo do grande guarda-sol, com o olhar voltado para o mar e com uma postura digna demais para alguém que estava em uma casa de praia repleta de pessoas que bebiam três ou mais vezes por dia.

Como era estranho aquele jovem mestre. Às vezes, ele conseguia me entreter mesmo sem tentar.

– Ei, aristocrata. Eu sei que você está transbordando de alegria com a energia do verão, mas você precisa dar uma pausa para almoçar! – eu sorri debochadamente, aproximando-me da figura solene e bucólica que estava oficialmente integrada à decoração do exterior da casa — Eu fiz salsichas, purê de batata e arroz. Aproveite essa oportunidade única de receber uma refeição preparada pelo incrível eu!

Ahãm! A minha proposta foi nitidamente incrível. A reação do Rod? Nem tanto.

Em vez de gritar um “Sim!” entusiástico, jogar seus papéis ao vento e correr para a cozinha –essa não era a minha expectativa, mas seria uma cena totalmente hilária se ele tivesse feito isso — ele girou lentamente seu pescoço e me revelou um rosto desanimado e murcho. O Rod parecia ainda mais pálido do que no início da viagem, um feito assombroso para quem estava em uma casa de praia há quase duas semanas. Havia olheiras enormes abaixo dos seus olhos, cujo brilho parecia esgotado.

Deparando-me com o jovem mestre, eu tive uma vaga intuição de que ele não estava muito disposto a me acompanhar.

– Eu irei muito em breve. – ele murmurou com uma voz fraca e cansada — Eu apenas quero... – ele pôs o lábio inferior dentro da boca e o umedeceu, parecendo reunir forças nessa breve pausa para continuar a falar — Eu quero terminar de colorir esse desenho. Agora. – ele concluiu, encarando-me com uma firme determinação. Por “firme determinação”, quero dizer “pura birra”.

Deixe-me constar, o jovem mestre não estava com cara de alguém que pudesse concluir a própria respiração naquele estado.

– Você ainda não parou de tentar colori-lo? – indaguei retoricamente, inclinando minha cabeça para o lado e aproximando-me um pouco mais dele para colocar as mãos em seus ombros e inclinar-me por cima de um deles para ver melhor os seus desenhos.

Eles estavam inacabados, confusos e dezenas de vezes piores do que pensei, então acabei ficando sem meios para confortá-lo. Eu não queria mentir, no entanto, também não queria dizer uma desculpa barata como “Eu não sabia que você estava começando a desenvolver um estilo pessoal inspirado pelo modernismo, jovem mestre”! Minha única opção era ser franco e insistente o suficiente para retirá-lo dali.

– Você está nisso, desde hoje cedo, aristocrata! – eu o recriminei — Se você está com um bloqueio criativo, lide com ele! Não fique se forçando a...!

– Desculpe-me. – ele contraiu sutilmente seu rosto e pôs um olhar gélido e irascível sobre mim. — Algo em minha expressão sugeriu que eu precisava de um conselheiro espiritual?

Nossa! Obrigado, aristocrata! Eu estava tentando ajudá-lo, sabe!

–Êh. Você está ranzinza, jovem mestre. – constatei com um sorriso vagamente irritado, conhecendo exatamente que botões eu deveria apertar para provocá-lo e me vingar efetivamente — Os seus bloqueios de inspiração o deixam assim?

Acho que acertei precisamente o alvo de maior número de pontos, visto que as sobrancelhas dele arquearam-se ao máximo e o rosto dele foi tomado por uma perturbação generalizada e um corar muito discreto e instantâneo que somente apareciam no auge de sua irritação. Há, há!

– Eu não estou com um...!

– Sabe do que você precisa? – eu o interrompi alegremente, antes que aquilo se tornasse uma briga de verdade e eu não conseguisse mostrar as minhas aptidões culinárias ao aristocrata nem a bebida que eu trouxe tão caridosamente para ele — Álcool. Eu trouxe este coquetel para você, jovem mestre. – exibi triunfalmente, colocando a taça bem diante dos seus olhos e a girando lentamente para os lados para tornar seu conteúdo mais atraente com os efeitos da luz. Ele a encarou com as sobrancelhas um pouco franzidas e não disse nada. Foi um encorajamento bom o bastante para mim. — O nome dele é Love On Jupiter e é feito com gin. Vê?- eu sorri mais genuinamente e encostei o copo em seu rosto, brincando com ele e tendo um imenso prazer em vê-lo recuar com uma careta. Rindo um pouco, eu adicionei espontaneamente — Ele tem a mesma tonalidade de violeta dos seus olhos.

...

Eu garanto, na minha mente, essa última frase não havia soado como uma cantada forçada. Eu somente percebi a similaridade quando terminei de dizê-la e torci freneticamente para que o Rod não reparasse nela.

– Er, você irá aceitar a honra de beber o drinque que eu estou oferecendo tão generosamente, aristocrata? – eu falei em um tom mais grave e cortês do que o usual, pigarreando discretamente porque minha voz estava sendo alterada pelo meu desejo de bater a minha cabeça repetidamente na mesa. Droga. “A mesma tonalidade de violeta dos seus olhos”?! O que eu estava pensando?! O que teria soado mais estranho do que aquilo?!

Roderich me fitou analiticamente e me deixou realmente ansioso por alguns segundos. O meu estômago parecia estar fazendo as mais estranhas contorções dentro de mim, no intervalo que antecedeu a sua resposta.

–... Não. Eu estou ocupado e não penso que essa bebida cairia em meus gostos. – foi a resposta dada por ele, após uma rápida reflexão a cerca de coisas que certamente não eram tão assustadoras quanto as hipóteses pensadas por mim. Por alguma razão, ele ignorou totalmente o quanto a minha comparação havia soado mal.

Eu dei um suspiro de alívio. Essa foi por pouco.

A falta de bom senso do jovem mestre me salvou. Ou talvez, ele não estivesse acostumado a receber cantadas de outros homens e nem houvesse cogitado que fosse isso que estivesse acontecendo. Havia ainda a terceira opção de que ele não tivesse cogitado que EU tentaria flertar com ele. De qualquer modo, salvo daquilo que seria um dos momentos mais desconfortáveis nos meus gloriosos dezoito anos de vida, eu podia voltar a me divertir tranquilamente com o Rod. E sabia precisamente por onde começar.

– Então alguma bebida cairia em seus gostos, jovem mestre? – questionei ceticamente, pondo a mão sobre minha boca para tentar controlar o tamanho do meu sorriso, antes que os cantos da minha boca começassem a doer.

– O que significa esse riso e esse olhar petulante, Gilbert? – ele indagou vagamente ofendido.

– Quais são as bebidas que caem nos seus gostos? – perguntei, não mais conseguindo mais controlar meu riso ao ver como a sua indignação era discreta e suas defesas eram ineficazes — Suco? Leite? Porque eu não te vi bebendo uma única dose desde que nós chegamos aqui, Rod! Será que você é uma daquelas pessoas com uma baixa tolerância a álcool? Eu até consigo imaginar! – exclamei com um largo sorriso e um olhar distante, visualizando a imagem cômica em meus pensamentos — Você é um daqueles que bebem uma taça de vinho e já começam a chorar e a cantar músicas dos anos oitenta, não é?

– Eu não sei de onde você obteve essa impressão completamente incorreta ao meu respeito. – ele replicou calmamente — Pelo que vejo, eu lido melhor com o álcool do que você.

– Oh, e de onde veio tamanha prática? – eu o desafiei, erguendo uma sobrancelha e dando um meio-sorriso nada crédulo — Você espera que eu acredite que o tão correto Roderich Eldestein desrespeitava as leis e bebia com apenas dezessete anos?

Essa era a deixa para o Roderich ficar boquiaberto com a minha astúcia e realizar que sua tentativa de blefar foi um desastre total.

No entanto...

– Eu tenho dezoito anos há meses, Gilbert.

Hã? Quê?

– Huh? O seu aniversário não foi no início desse mês?

Eu estava confuso.

– Ele ocorre no final de outubro todos os anos. – ele respondeu prontamente com aquela singela amabilidade sua. É, Lizzy. Seu ex-namorado definitivamente é frágil e sensível. A propósito, o Arthur deve ser um mestre-cuca para você, não é?

– Um pequeno erro de cálculo. – agitei uma das minhas mãos em um gesto de dispersão do assunto, decidido a ignorar aquele pequeno problema técnico nos meus argumentos para evitar que mais tempo fosse desperdiçado. O Love on Jupiter estava esquentando e o almoço estava esfriando. — Não vamos nos deter nisso. Tome um gole desse coquetel.

– Como mencionei, coquetéis não são... – ele insistiu contrariado.

– É, Rod, eu consigo totalmente detectar a sua experiência com o álcool pelo modo como você está hesitando em tomar um coquetel... Eu aposto que você deve esvaziar garrafas de vodka todos os dias e...! – eu estava rindo despreocupadamente e terminando minha provocação, quando, para a minha pouco pequena surpresa, o Roderich arrancou o coquetel da minha mão e o bebeu em um único gole. Um único gole. E ele não hesitou, não se engasgou ou ao menos tossiu — WOW!

Aquela foi uma cena impressionante. Uma daquelas que você sente que não verá duas vezes na vida. Uma daquelas que fazem você pensar “Por que eu não filmei isso?!”. Eu não consegui acreditar nos meus próprios olhos até que alguns segundos se passassem e eu verificasse que a imagem do copo vazio do Love on Jupiter sobre a mesa não havia desaparecido.

Nada havia me preparado para aquilo. Eu estava tentando fazer o Roderich provar o coquetel para rir da careta que ele faria por sua falta de experiência com álcool ou para rir do fato de que, apesar de todos os seus protestos iniciais, ele acabaria gostando de uma bebida. Nunca me ocorreu a hipótese de que o Roderich bebesse o copo inteiro em um único gole e em seguida começasse a me observar com uma curiosa expressão de “O que houve?” ao perceber o quanto eu estava perplexo com o que havia acontecido.

Caramba.

– Você... – comecei a tentar falar, apontando para o copo, com a cara mais atordoada de todos os tempos — Você acabou de...?

– Se você irá me incomodar até que eu me retire daqui, acho que devemos almoçar neste instante. – ele propôs com muita naturalidade, erguendo-se da mesa e batendo as mãos em suas roupas para retirar a areia que havia nelas. Eu havia começado a pensar que ele iria ignorar o que havia acabado de acontecer, quando ele voltou-se para mim com uma expressão solene e uma sobrancelha ligeiramente erguida e indagou em uma voz muito clara, suave e pretensiosa — A propósito, Gilbert, você sabia que a idade legal para beber na Áustria é de dezesseis anos e que a minha família ainda segue os costumes austríacos? Eu não gosto de coquetéis. Em uma próxima ocasião, desde que você traga um uísque ou um vinho de qualidade, saiba que ficarei extasiado em receber um copo seu.

Eu arregalei meus olhos, pasmo, e ia retrucá-lo com uma resposta igualmente arrogante e provocativa, mas o que saiu de minha boca foi:

– O que diabos, Rod?!

Ok. Era isso que eu estava querendo dizer e não consegui me controlar. Danem-se as respostas inteligentes. O incrível eu não precisa de respostas inteligentes. As minhas respostas normais são inteligentes por virem de mim. Além disso, certos momentos impossibilitam respostas inteligentes e aquele definitivamente era um deles.

Eu estava me convencendo disso, quando os meus pensamentos foram interrompidos por outra cena extraordinária.

O Roderich riu.

Não foi uma gargalhada, claro. Ele não teve que se agarrar ao próprio corpo para controlar sua risada, não foi um riso que poderia ser ouvido pela casa inteira e ele esteve muito longe de rir a ponto de chorar.

Foi um riso discreto e curto, como todas as expressões do Rod. O seu rosto relaxou e os cantos de seus lábios se moveram um pouco. Mas eu não havia visto o Roderich rindo ou sorrindo até então.

Tivesse eu visto antes, muitas coisas no início do nosso relacionamento poderiam ter sido diferentes, porque... Cara.

O Roderich ficava irresistível quando sorria.

Essa constatação foi instantânea, imediata e assustadora. Foi o primeiro pensamento que me veio à mente ao ver o rosto sorridente dele, e quando eu percebi o que havia acabado de pensar, eu não acreditei que aquilo havia se passado pela minha cabeça. Eu tive que abaixar meu olhar para evitar encará-lo e recuperar minha razão.

O Rod? Atraente?! Há, há, há!

Aquilo era impossível, não era?! Eu não podia estar achando o aristocrata atraente! Era a Lizzy que tinha um péssimo gosto ocasionalmente! Ela podia achar o jovem mestre atraente! Não eu! O Roderich era esquálido, pálido, tinha uma aparência intimidante, um rosto comum...! O que alguém veria nele?! O que eu veria nele?! O Rod teve sorte em ter a admiração do incrível eu por alguns segundos! O espanto em vê-lo sorrindo fez com que eu tivesse impressões erradas temporárias! Nossa! Quantas vezes esse tipo de incidente deve provocar confusões entre as pessoas, não é?! Há, há! Agora, eu iria levantar os olhos e veria quão sem graça ele era!

Porém, quando ergui meus olhos novamente, eu tive que engolir em seco e agonizar por dentro, pois o Roderich ainda estava sorrindo suavemente em minha direção e eu concluí que nunca havia sentido algo tão forte por um sorriso antes.

Ah, não.

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A minha constatação de que o Roderich ficava irresistível quando sorria foi o início de uma bola de neve que foi aumentando em um ritmo feroz nos dias seguintes. Que grande droga! Bem que eu detestava neve! Era essa a razão pela qual eu havia escolhido uma casa de praia para passarmos as férias! Eu estava muito irritado comigo mesmo.


Apesar de me recriminar por isso, pouco a pouco, eu fui noticiando outros aspectos atraentes no Rod. Os olhos dele tinham realmente uma tonalidade única, não era? Ele não tinha um corpo sinuoso? A voz dele era agradável, certo? O cabelo dele parecia tão macio, não? A curva do pescoço dele era um pouco sensual, correto? A boca dele, céus, era tão...

Passados quatro dias, eu estava batendo no meu travesseiro antes de ir dormir em pura frustração por estar gostando terrivelmente do aristocrata. Como isso havia acontecido comigo?!

A partir dessa difícil realização, em cada instante da minha viagem, uma pergunta repetiu-se frequentemente em minhas reflexões.

“Ele é bi ou ele é hétero? Ele é hétero ou ele bi?”.

Essa dúvida era o meu problema crucial e o que me deixava hesitante na maneira como eu deveria me comportar em relação ao Roderich.

Eu poderia lidar com a minha antiga inimizade com o Rod, uma vez que nossa convivência havia melhorado consideravelmente, e eu podia lidar com o passado dele com a minha melhor amiga, afinal a Lizzy tinha deixado todos os seus sentimentos amorosos pelo Rod para trás e estava interessada em um canadense que ela havia conhecido em um jogo de hockey, contudo se ele fosse hétero, as minhas chances estavam liquidadas.

Eu não fazia ideia da orientação sexual do Rod e, para piorar, não havia como verificar essa informação sem consequências. Não era como se eu pudesse chegar na frente dele e perguntar descaradamente “Ei, Rod! Apenas por curiosidade, você é bi, não é?”. Eu sabia por experiência pessoal que alguns homens héteros ficavam seriamente ofendidos quando questionados sobre a orientação sexual deles, e eu não queria destruir o bom relacionamento que eu estava construindo com o Roderich, sendo este o caso.

Outra opção seria fazer essa pergunta aos meus amigos, mas aí eu teria que suportar os olhares sugestivos e os risos maldosos deles de “Hmmm, por que você quer saber? Que interesse é esse, Gilbert?” por semanas. Essa opção não era mesmo uma opção.

O que me restou foi tentar descobrir a preferência do Rod através das minhas observações, e eu logo descobri que meus resultados seriam infrutíferos. Não daria para saber enquanto eu me mantivesse em uma zona segura.

Às vezes, eu flertava um pouco com o Roderich e dava atenções especiais para ele, testando o quanto eu poderia me aproximar e como seria recebido. Ele geralmente as recebia bem e ocasionalmente eu me sentia empolgado com as reações dele, pensando que era tão óbvio que ele era bi, tendo em conta o quanto ele havia reagido com casualidade aos meus comentários e ações sugestivas. Entretanto, eu também me deparava com a falta de entusiasmo ou de insinuações da parte dele e me defrontava com a possibilidade de que ele simplesmente achasse que eu estava sendo alternadamente implicante e gentil com ele, como qualquer bom amigo seria, quando eu dizia que nós parecíamos um casal quando discutíamos ou quando eu me oferecia a trazer o que ele quisesse e quando ele quisesse da cidade para ele.

Se ele fosse hétero, talvez nem cogitasse que eu estava imaginando nossos quatros primeiros encontros românticos quando eu dizia para ele que nós deveríamos sair mais vezes após as férias. Ele podia estar pensando “Que bom amigo é o Gilbert! Quando eu arranjar uma namorada e ele arranjar um namorado, nós iremos a encontros duplos e aristocráticos!”.

Aquela situação era um saco. Não dava mesmo para conferir a orientação do Rod e, antes de conhecê-la, eu não poderia fazer praticamente nada! Pelo visto, a única forma restante de conseguir uma resposta definitiva seria passar meu braço pelo pescoço dele e beijá-lo de uma vez – o que eu estava seriamente disposto a fazer – e ver se ele diria “Oh, Gilbert! Seu lascivo estonteante!” ou “O que você pensa que está fazendo, seu insolente?!”. Ainda assim, esse não seria um método muito efetivo. A segunda reação poderia encerrar nossa amizade e não diria exatamente se ele era bi ou não, pois sempre havia a possibilidade de que o Rod tivesse um péssimo, péssimo gosto e não estivesse interessado por mim, mesmo sendo bi. Tsk. Era arriscado demais. Eu precisava me controlar.

Foi difícil ter que ficar calculando cada palavra e cada ação minha para não delatar minhas verdadeiras intenções, caso ele fosse hétero, mas não deixar de mostrar o quanto eu era um indivíduo estonteantemente atraente, caso ele fosse bi. No entanto, era necessário que eu fizesse esse esforço. Quem sabe ele era hétero... Quem sabe ele era bi?

Desse modo transcorreu a nossa terceira semana de viagem. Eu fiquei conversando com Roderich por longas horas, quando não estava ajudando a Lizzy a arrumar a casa ou bebendo com os meus amigos para disfarçar suspeitas, e ele continuou a passar a maior parte de seu tempo produzindo seus desenhos no exterior da casa. Durante essas conversas, eu sempre tentava dar um passo a mais, porém era forçado a me deter em um determinado ponto e terminava enterrando minha cabeça no travesseiro e gemendo todos os tipos de palavrões, quando a noite chegava e eu constatava que mais um dia havia se passado e eu não havia agarrado desesperadamente o Rod. Foi uma semana tranqüila como um todo.

Foi no domingo da quarta semana de nossa viagem que algo especial aconteceu. Por especial, eu quero dizer um desastre completo, é óbvio.

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Na tarde do domingo, assim que terminamos de almoçar uma lasanha, avisei aos meus amigos que iria à praia para comprar peixes e frutos do mar. Ao terminar essa declaração, eu dei um largo sorriso provocante ao Rod e fiquei muito satisfeito ao ver a adorável contração aborrecida de seu rosto.

Explicação? Eu estava indo comprar frutos do mar e peixes justamente por ter implicado anteriormente com ele sobre o cardápio nada litorâneo que ele havia selecionado para as nossas três refeições diárias. Nós estávamos em uma casa de praia e não havíamos comido um único peixe! Quais as probabilidades de ocorrer o mesmo com gente normal?

Quando apontei isso, naquele domingo de manhã, o Roderich disse em sua defesa que eu nunca me ofereci a comprar os ingredientes necessários e, como o exemplar anfitrião que eu era, prontamente me dispus a consegui-los o mais breve que pudesse. Para provar que não estava blefando ou brincando, decidi comprá-los naquele mesmo dia.

Desgraçadamente, como tudo que estava acontecendo naquela viagem em relação ao Roderich, é óbvio houve um problema nisso. Para resumir o que deu errado em uma versão extremamente concisa e com a censura do que o Rod chamaria de “termos vulgares”, digamos que tive que descobrir por experiência própria que comprar peixes e frutos do mar em uma cidade litorânea quando está perto do natal não é nada fácil.

Foi uma experiência surreal. Literalmente uma jornada épica. Literalmente, eu repito.

Para começar, no momento em que eu cheguei à praia, não havia barcos em parte alguma e as pessoas me disseram que eu tinha vindo no horário errado e me recomendaram a voltar durante o pôr-do-sol. Até aí, tudo bem. Eu não tinha paciência para esperar, mas eu sempre podia comprar os peixes e frutos do mar na cidade. Sem problemas.

Depois, eu fui até a cidade e tentei procurar por uma peixaria. A coisa mais parecida que achei foram as casas de três homens que vendiam peixe e dois mercados que também vendiam. Em todos esses locais, os vendedores me olharam como se eu fosse uma espaçonave e fizeram a mesma pergunta: “Tão perto do natal e nesse horário?”.

Os outros turistas haviam acabado com os depósitos da cidade. Era estranho que os peixes e frutos do mar estivessem completamente esgotados, porque, caramba, aquela nem era uma semana de páscoa, mas o consumismo deve deixar as pessoas meio insanas nessa época do ano, pois foi o que aconteceu. Eu mal consegui fazer algumas compras básicas como sabão em pó e pasta de dente!

Em uma situação como essa, eu poderia ter desistido e retornado enfurecido para casa, odiando o natal como o velho senhor Scrooge. Seria o que qualquer um faria. Entretanto, eu não era qualquer um! Eu era o incrível Gilbert Beilschmidt e se eu prometi aos meus amigos e ao meu aristocrata preferido que traria peixes e frutos do mar...Ah, eu os traria.

Resoluto, eu decidi voltar à praia para comprá-los diretamente com os pescadores, pois já era pôr-do-sol e fui informado de que eles retornariam nesse horário. Tendo em conta a minha sorte naquele dia, foi uma surpresa quando cheguei ao início da noite e eles realmente estavam lá. Eu abri um sorriso imediatamente ao ver todas aquelas embarcações reunidas. Finalmente, o incrível eu conseguiria...!

– Como assim “todos os camarões e peixes de qualidade acabaram”?!

Como vêem, a minha alegria foi um momento de esperança.

Argh. Um minuto e meio de esperança para ser mais exato.

Sendo uma pessoa perfeitamente racional e lúcida, eu não estipulei que uma multidão ficaria na praia, esperando desesperadamente a chegada dos pescadores como se aguardassem os Beatles, perdi os melhores produtos e somente me restou ficar com aqueles que haviam sido desprezados pelos outros.

Para ser franco, eu estava tão impaciente naquele ponto que até mesmo aquela oferta estava boa o suficiente para mim. Duas semanas de peixes pequenos não iriam me matar.

No entanto, havia o Rod.

Embora uma parte das minhas razões para fazer aquelas compras se derivasse da minha vontade de implicar com ele, eu tinha o desejo genuíno de deixar o jovem mestre feliz e impressionado com o que eu traria. Algo como “Oh, Gilbert. Você escolheu tão bem essas iguarias culinárias! Como você conseguiu? A sua genialidade é admirável.”.

Infelizmente, trazer um bando de sardinhas desprezadas não me renderia muitos elogios e, exclusivamente por esse motivo, tive que continuar a buscar por ingredientes de qualidade.

Droga.

Como fiquei sem opções, precisei apelar e sair da cidade para ir à capital mais próxima, onde eu finalmente encontrei um supermercado e pude, enfim, comprar o que queria — embora a preços absurdos e enfrentando uma fila enorme, o que comprova que o velho Scrooge possivelmente tivesse razão em odiar o natal.

Devido a toda essa confusão, eu cheguei relativamente tarde em casa. Oito da noite, mais ou menos. Um horário correspondente à madrugada para turistas em uma casa de praia e no qual o meu grupo de viagem deveria estar dormindo. Confirmando essa preposição, as luzes da casa estavam apagadas, com exceção à lâmpada que iluminava a área.

Qual era a explicação para aquela lâmpada solitária? Eu também me perguntei isso ao vê-la. Os meus amigos haviam se lembrado de mim e a deixado ligada em consideração ao incrível eu? Pff. Muito improvável. Aqueles irresponsáveis mal se lembravam de arrastar o próprio corpo para a cama. Não dava para acreditar que eles teriam o bom senso e a responsabilidade de deixarem uma luz acesa para facilitar a minha situação na minha volta. Essa foi a minha primeira hipótese, porém a descartei em segundos.

Eu estava começando a me tornar propenso a acreditar em uma segunda hipótese – de que eles haviam simplesmente esquecido a luz acesa – quando, após terminar de tirar as compras do carro e deixá-las em cima dele, lancei um olhar distraído para o píer e percebi que havia alguém ali.

Oh. Era essa a explicação para a luz ligada naquela hora. Havia uma pessoa sentada na beira do píer. Fazia sentido. Em parte, pelo menos. A luz acesa estava explicada, mas a presença suspeita e incomum de alguém no píer naquele horário, ainda não.

Como o único indivíduo responsável daquela viagem, eu me indaguei quem era essa pessoa e o que diabos ela estava fazendo ali tão tarde da noite e quis descer para conferir o que estava acontecendo. Os meus passos foram vagarosos e o meu coração estava acelerado, contudo devo esclarecer que não estava assustado! Eu estava sendo astuto e me preparando para gritar...digo, atacar de surpresa o ser misterioso no caso de ele se revelar mais misterioso do que eu esperava. O meu coração estava acelerado por conta da adrenalina. E as estórias de terror que o Artie havia contado na noite passada não estavam minimamente relacionadas com o, digamos, receio instintivo que eu sentia. O incrível eu não se deixava intimidar! N-Nenhum pouco.

Glup.

A cada passo meu, a silhueta no píer se tornava mais definida, apesar de não dar pistas o suficiente para o seu reconhecimento. A lâmpada na área não era tão potente e deixava mais penumbra do que luz. Somente após começar a descer a escada de pedras, pude identificar quem era o vulto misterioso e ele acabou sendo o integrante do nosso grupo que seria menos esperado naquele contexto.

Pan-pan-pan! O Rod.

O Rod que eu nunca vi chegar perto do mar, o Rod que definitivamente não era o tipo que fazia saídas secretas durante a noite. O Roderich “é-um-grande-avanço-se-eu-me-afastar-mais-de-dois-passos-da-minha-mesa” Eldestein! Fale em um choque!

Eu não tinha ideia do motivo pelo qual ele estava ali, então me aproximei cautelosamente, descendo as escadas vagarosamente e o observando com apreensão. Eu estava tão nervoso. Eu não sabia o que iria fazer, caso ele estivesse chorando ou estivesse chateado e houvesse ido para lá, tentando se isolar. Dentre as minhas infinitas habilidades, é claro que havia a de consolar os meus amigos, mas eu não estava certo que ela adiantaria com aquele aristocrata. Ele era uma figura estranha. Você pensa que finalmente entendeu o cara e... BANG! Ele aparece no meio da noite, sentado no píer do qual ele nem chegou perto nos outros dias da viagem!

Apesar de todo o suspense pelo qual passei enquanto descia as escadas e daquele que senti por motivos diferentes antes disso, quando eu consegui me aproximar mais e enxergar claramente o perfil do aristocrata, pude ter um enorme alívio, pois, ao contrário das minhas previsões, o jovem mestre não parecia sequer emburrado. Ele estava com um semblante muito tranqüilo e parecia perdido em pensamentos, colocando a mão no rio e deixando que a água passasse por ela. Estranhamente, ele estava muito entretido com esse passatempo.

Para ser sincero, eu achava que aquela atividade era possivelmente a mais monótona atividade noturna possível – vejam que dormir é uma atividade noturna! – mas fiquei um tanto feliz em ver o Rod se divertindo e aproveitando mais a nossa estadia na casa de praia, portanto, gostei de observá-lo nessa distração tediosa por alguns minutos.

Mas há limites do quanto você pode agüentar pela pessoa de quem você gosta, e após quase sete minutos olhando o jovem mestre tirar e retirar as mãos da água, eu estava farto disso e querendo outras formas de diversão.

Foi quando uma ideia oportuna me veio à mente.

Pelo visto, o jovem mestre tinha um amor secreto pelo rio. E eu tinha uma queda secreta pelo jovem mestre. Então para assegurar que esses sentimentos fossem satisfeitos, que tal se eu pregasse uma peça no aristocrata, empurrando-o no rio? A profundidade estava ideal por conta da ação das marés e não havia o risco de que o Rod batesse a cabeça ou algo assim.

Aquele me parecia um ótimo plano. No começo, o jovem mestre ficaria irritado, claro, mas ele eventualmente entraria no espírito esportivo, começaria a nadar e eu poderia me juntar a ele! Nós poderíamos brincar na água e o Rod talvez até tirasse a blusa! Caramba, seria perfeito!

Muito animado com essa perspectiva, eu avancei mais dois passos e fiquei realmente perto das costas do aristocrata, 101% disposto a seguir em frente. Ele não havia me notado e precisei conter meu riso com todas as forças ao pensar no susto que ele iria levar. Kesesese! Como era distraído aquele jovem mestre!

Eu esperei apenas alguns segundos para me assegurar que ele não havia realizado minha presença e assim que fiquei certo disso, eu coloquei minhas duas mãos atrás dele e o empurrei de supetão, gritando “Eu sou a rainha do mundo!” em uma referência a Titanic que se revelou mais precisa do que eu presumia.

O nível da água estava aproximadamente na altura do pescoço do Rod. Ele poderia ter se colocado de pé, caso não estivesse disposto a ficar nadando, e essa era pior reação que eu esperava dele. No entanto, bem diante dos meus olhos completamente chocados, em vez de ter qualquer uma dessas reações, ele simplesmente afundou, submergiu completamente. Como uma pedra solta em queda livre na água.

...

Por segundos, eu fiquei paralisado por um misto de incredulidade e terror, observando o rio sem conseguir ver o Roderich nele. Não podia ser, não podia ser. A água nem estava tão funda! Ele devia estar brincando comigo! Ele podia ficar em pé quando quisesse e...!

Passados esses poucos segundos que equivaleram a uma noite inteira para nós dois, eu vi o rosto dele surgir rapidamente para fora da água, e percebi que ele não estava conseguindo parar de se debater e recuperar o equilíbrio necessário para que ele se levantasse. Foi a cena mais assustadora que eu já vira e eu não pude controlar meu tremor ao presenciá-la. Aquela visão me trouxe a sensação de que um frio insuportável atingia o meu corpo, as minhas veias pareciam cheias de gelo. O Rod estava em perigo. O meu coração acelerou tão rapidamente que eu podia sentir cada batimento em meu pescoço. O Rod poderia morrer. As minhas mãos suaram, a minha testa suou e as minhas pernas bambearam. Era sério. O Rod estava se afogando em um rio cuja água não era suficiente para cobri-lo. Que se danasse qual era a explicação para esse fenômeno! Eu precisava resgatá-lo RÁPIDO!

– Espera, Rod! – eu gritei, preparando-me para pular na água — Pare de se debater tanto, eu vou pegar você! Tente reunir o máximo de fôlego que puder e afunde! Confie em mim!

Assim que eu acabei de gritar, o Rod foi coberto pela água novamente. Eu não tinha certeza se ele estava confiando nas minhas instruções ou se ele havia perdido a consciência, mas pulei imediatamente na água, com roupas e com a minha carteira no bolso, e mergulhei, procurando por ele.

Felizmente ele não afundou muito. O rio não estava profundo o suficiente para que eu conseguisse perdê-lo de vista. Essa foi minha única vantagem. Foi difícil manter meus olhos abertos na água salgada. Além disso, a única luz acesa na casa não estava colaborando muito com a minha procura, a água estava muito escura.

Quando consegui detectar o contorno do corpo do Rod, eu enlacei a cintura dele fortemente e encostei os pés na areia para pegarmos impulso e emergimos. Mesmo após apanhá-lo, não foi tão fácil subir. Ele ainda se debateu um pouco e nos fez afundar algumas vezes, antes que eu conseguisse alcançar o píer e nós dois nos apoiássemos nele, respirando aceleradamente.

Tomar fôlego pode ser uma experiência dolorosa. A minha garganta ardeu e tive que inspirar e expirar muitas vezes até que meu corpo conseguisse relaxar novamente. Eu tossi um pouco d’água e, olhando para o lado, vi o Rod bater no próprio peito, fazendo o mesmo.

O jovem mestre estava pálido, trêmulo e a respiração dele ainda não havia voltado ao normal como a minha. Ele estava respirando aceleradamente, tossindo, espremendo os olhos e agarrando-se no píer como se não fosse largá-lo nunca mais. Ele estava a salvo. Assegurando-me disso, eu fechei os olhos e sorri.

Muitos sentimentos me fizeram sorrir naquele instante. Eu estava tão aliviado em ver o Rod seguro, tão assustado com o que havíamos passado juntos, tão feliz em ter conseguido resgatá-lo. Além disso, por estarmos tão bem, pude começar a ver o ridículo da situação. Verdade seja dita, aquela morte teria sido tremendamente bizarra. Eu não perderia o jovem mestre tão facilmente.

– Esse... Esse foi um resgate incrível. – eu sorri ostensivamente na direção dele e o meu peito estava inflado de orgulho — Você tem que admitir.

Contrastando com os meus sentimentos, o Rod me encarou com uma fúria tão intensa e incisiva, com uma raiva tão incontrolável, que eu pude sentir o seu ódio me atravessar como um ferro em brasas.

– Fi...Fique... – ele começou a falar, com a voz rouca e entrecortada pela sua respiração — Fique quieto! Eu não... – ele teve um acesso de tosse e desviou o rosto — não quero falar com você...agora.

Novamente, eu fiquei com um medo incontrolável.

Ah, não. Eu estava completamente ferrado. Eu consegui destruir o meu avanço, as minhas chances e a nossa amizade em uma cartada só.

Não, não, não.

– Ei, Rod. Você não pode estar chateado, está? – perguntei em um tom afetuoso e preocupado, estendendo a minha mão para tocar no ombro dele e tendo que agüentar a sensação horrível da rejeição ao vê-lo afastar-se de mim — Desculpa. Eu não tinha como prever que você iria ter uma cãibra ou se assustar tanto que não conseguiria ficar em pé por conta própria. A água não estava...

Eu tentei me explicar e tocá-lo mais uma vez, todavia ele não me deu sua permissão para tanto e me interrompeu com um olhar de desprezo pungente.

– Saia de perto de mim. — ele pediu em um tom decidido e autoritário, usando o píer como suporte para que ele saísse da água.

Percebendo que ele iria escapar, eu comecei a me retirar da água urgentemente.

– Rod, escuta! – eu gritei um tanto desesperado, vendo-o se levantar e dar as costas para mim, como se o assunto estivesse concluído naquele péssimo ponto — Eu sinto muito mesmo, mas...!

Para o meu susto, e provavelmente para o susto do próprio Rod, o jovem mestre não conseguiu se sustentar mais do que alguns segundos de pé, antes de suas pernas fraquejarem e ele cair no chão.

– Argh!

Pode ter sido um pouco cruel da minha parte, mas, droga, eu fiquei aliviado em vê-lo parar um pouco porque eu tinha que me explicar e não teria condições de fazer isso com a devida privacidade em casa.

– O que está havendo, jovem mestre? – eu me encaminhei a ele e me sentei de joelhos na sua frente para conversarmos no mesmo nível. Eu precisava tanto, tanto que ele olhasse para mim. — Não fique tão irritado comigo. – eu pedi e quase implorei — Você sabe que eu estava apenas brincando!

– Brincando?! – ele exclamou mortificado — Olhe para mim, Gilbert! – ele gesticulou indignadamente, apontando para o próprio corpo, o qual estava inteiramente encharcado e colado às suas vestimentas — Veja o estado das minhas roupas! Veja o meu estado! Ele parece divertido?

– Não, não parece! Droga, jovem mestre. – eu gemi lamuriosamente. Por que a nossa relação começou a desmoronar dessa forma?! Eu só queria me divertir um pouco com a pessoa por quem eu estava seriamente interessado e acabei arruinando tudo que eu tinha com ela! — Você acha que eu não estou me sentindo culpado?! O cara de quem... – Ah, não! Eu estava muito agitado e estava falando demais! -... eu sou amigo há dias quase se afogou por minha culpa! Eu estou me sentindo péssimo!

Ele bufou com descrença.

– Eu não estou certo que posso considerar como amigo, alguém que não possui a mais remota consideração pelos outros. – foi a resposta que ele deu, cruzando os braços e me fitando gelidamente. — Entenda que estou furioso com você, Gilbert Beilschmidt, e que não desejo vê-lo pelo resto da viagem! – nesse ponto, ele tentou levantar-se novamente, mas as pernas dele não colaboraram e ele mal conseguiu pôr-se de pé, caindo sobre os tornozelos e murmurando o que deveria ser um termo ofensivo extremamente formal. Cara, eu teria rido daquilo, caso não estivesse tão magoado com o fato de que ele estava querendo se esquivar de mim.

– Rod!

– Cale-se! – ele exigiu com o rosto vermelho de... ira, eu acho. — Fique quieto e me ajude a andar até o meu quarto, seu tolo!

O Rod estava com tanta raiva que ele não iria me ouvir. Não importava o quanto eu repetisse que havia sido um acidente e que eu não queria que aquilo tivesse acontecido. Ele não estava me escutando e a irritação dele aumentava mais e mais cada vez em que eu abria a boca. Eu fui forçado a desistir temporariamente da nossa reconciliação e oferecer meu ombro a ele, agüentando a sensação do peso dele, do seu olhar recriminatório e do silêncio até que chegássemos ao seu quarto e nos separássemos, sendo esse último instante simultaneamente ótimo e péssimo.

Aquela foi uma das poucas noites na minha vida em que não me senti nenhum pouco incrível.

Notas finais
Olá, meus caros leitores! Eu fico muito feliz em apresentar a vocês a nova parte dessa fanfiction que está sendo simultaneamente divertida e complicada de escrever!

Eu ainda estou me adaptando ao ponto de vista do Gilbert, por isso fico muito grata pelo apoio que estou recebendo em relação a essa mudança! By the way, eu sei que usei muito as reticências nesse capítulo e acho que foi uma medida estilística necessária, portanto não me arrependo disso. Outra observação: não, eu não estou incentivando o consumo de bebidas alcoólicas. Eu estou apenas apresentando um cenário comum a pessoas dessa idade. Embora eu esteja a caminho dos vinte e beba apenas licor de menta muito ocasionalmente, eu me recordo da época em que o meu tio tinha a minha idade e vivia organizando festas cheias de cerveja nos finais de semana. É uma fase que acontece com algumas pessoas, penso eu. Apenas não se pode deixar que ela saia de controle. Anyway,eu acho coquetéis esteticamente apelativos - a despeito do meu desinteresse em consumi-los - e queria uma estória na qual eles aparecessem, então pretendo mostrar as imagens deles ao final dessa "one". Além disso, coquetéis possuem quantidades variadas de álcool, às vezes doses muito pequenas, o que significa que não, os personagens não estão a beira de um coma alcoólico.

Sobre esse capítulo...Nossa. Vocês mal sabem o quanto ele está relacionado com a minha vida. Não nos pontos amorosos ou dramáticos. Falo do cenário em que ele se passa. Como eu moro em Fortaleza, uma cidade litorânea cercada por cidades litorâneas e voltadas ao turismo, eu usei muitas das minhas experiências nessa fic. Por exemplo: a casa de praia em questão está na frente de um rio misturado com o mar, como em Águas Belas, e essa é a razão pela qual eu chamarei de "mar" ou de "rio", aquilo que estiver na frente da casa - prioritariamente "rio", como é mais correto assegurar.Esse modelo da casa de praia com o píer e etc é inspirado na casa de praia que uma tia-avó minha possui por ali. Eu não tenho ideia se há lugares assim na Europa, mas eu não queria perder minhas referências de lugar; considerem o uso dele como uma liberdade criativa.

A minha experiência contou muito na construção dessa parte. Eu passei pelo que o Gilbert passou. Em Morro Branco, os meus pais sempre iam para a praia no pôr-do-sol para esperar pela chegada dos pescadores - se vocês estudaram termologia, devem saber porque eles voltam nesse horário. Não me esqueço que houve uma vez que minha família viajou para Águas Belas perto do ano-novo, e não conseguimos comprar macarrão, esponja e outros itens básicos porque os turistas haviam acabado com tudo. É um problema recorrente. Não se esqueçam de levar comida e itens básicos de higiene em viagens para cidades litorâneas, durante feriadões ou épocas comemorativas, porque os mercados são limitados e estoques se esgotam logo. Eu também passei pela experiência "MEU DEUS! Os pescadores chegaram!". Não me recordo de que viagem foi aquela, mas um tio de segundo grau recomendou a minha família que fôssemos assistir à chegada das sardinhas e nós fomos para lá completamente empolgados, pensando que, a julgar pela multidão, veríamos uma verdadeira cena do Animal Planet, com centenas de sardinhas saltando no oceano, e quando vimos era apenas a chegada dos pescadores, trazendo sardinhas. Eu digo "apenas", contudo não foi assim que a multidão encarou a cena. As pessoas voaram em cima das jangadas e começaram a comprar quilos e quilos de sardinha, amontoando-se em cima das outras. Foi...impressionante. Quando a minha família finalmente conseguiu alcançar as jangadas, só restavam alguns peixes meio acabados e nós desistimos

Oito e meia é um horário tarde em cidades litorâneas. Muita gente está dormindo nesse horário. Principalmente, turistas. Motivo? As pessoas acordam cedo e dormem cedo por lá para irem à praia e não há muita coisa para se fazer durante a noite.

Pode parecer estranho, mas não há muitas peixarias em cidades litorâneas - eu estou me referindo a cidades litorâneas pequenas. A maioria das pessoas compra peixes diretamente com os pescadores, o que retira a necessidade de peixarias. No entanto, há pessoas que vendem peixes em suas casas e existem alguns mercados que os vendem.

Terminadas minhas observações, eu quero deixar meu aviso importante e ir descansar(eu estou exausta!). Serei concisa e clara: SENHORITA YANKANLY, EU PERCEBI QUE A SUA CONTA PARECE TER SIDO APAGADA. COMO O DESAFIO VIOLETA FOI ELABORADO POR VOCÊ E NÃO DESEJO ESCREVER ALGO PARA UMA PESSOA QUE NÃO IRÁ LÊ-LO, POR FAVOR, MANIFESTE A SUA NOVA CONTA EM UM MÊS OU TEREI QUE ENCONTRAR OUTRO LEITOR PARA CRIAR UM NOVO DESAFIO. PARA COMPROVAR SUA IDENTIDADE, MANDE UMA MP E DIGA PARA MIM QUAL FOI O DESAFIO QUE VOCÊ PASSOU. PERDOE O CAPS-LOCK, EU PRECISAVA CHAMAR ATENÇÃO PARA ESSA PARTE DAS NOTAS!^-^º

Novamente, eu agradeço imensamente aos leitores que estão acompanhando essa estória e essa coletânea por todo o incentivo que venho recebendo! Vocês são maravilhosos! Por favor, continuem a ler, apreciar e comentar os meus trabalhos!

Aguardem pacientemente pela terceira e possivelmente última parte dessa "one-shot"! Bai, bai!:3

PS: Como sempre, eu devo lembrá-los de que fanarts seriam bem-vindas e muito apreciadas.

PS2: Fora de documentários, eu odeio praias.

PS3: As explicações para as associações entre cor e conteúdo dessa estória virão na parte seguinte!:D

PS4: O senhor Scrooge é o personagem principal de "Conto de uma noite de natal", aquela velha estória do velho rabugento que odiava o natal e acaba sendo visitado pelos fantasmas de três natais.