As Reais e Irreais Crônicas do Grande Korkovski
1 O Conto das Rukas
Notas iniciais
- Mais uma, por favor, só mais uma!
- Mais uma?! Vai ficar cansado de tantos solta-línguas em apenas um dia. Mas sem problemas. Vou te contar a história das rukas.
Nunca vou esquecer aquele dia. Estávamos eu e o grande capitão Korkovski, ainda sem nossa embarcação, soleando por um pisadouro deserto, sem nenhuma bela natsva para nos fazer companhia. O capitão soleava quieto, olhando para frente atento, parecia observar algo bem de longe. Então deu um sobressalto, que até Karov que dormia em seu ombro se assustou.
- Eukera! Eukera!
- Acho que é eureka, capitão...
- Que? Não importa vassalo, acabo de avistar uma ruka! Alongue suas tíbias Fritz, vamos pega-la...
Assim correu o capitão. Corri logo atrás com o pequeno Gup pulando em minhas costas; como todo macaco faz quando quer algo. Corremos por uma boa parte do pisadouro, até ver do que o mestre falava. Havia um estranho anímulo a alguns passantes, um tanto udinente por sinal. Ele era grande, preto e branco e tinha um sino no pescoço.
- Veja Fritz, uma ruka! Todo bom pirata tem uma boa ruka – falou o mestre em voz baixa parecendo bem empolgado.
Eu olhei bem o anímulo, mas não questionei a ideia do saudoso capitão.
- Nunca tinha visto uma ruka antes capitão – cochichei.
- Nem eu Fritz, mas se todo bom pirata tem, devemos de domar esse branjoso anímulo.
Estávamos um pouco distantes da ruka, parecia muito perigosa, mas não tinha percebido nossa presença. Então o capitão sacou sua garrucha e devagar saltou em cima do anímulo. Esperava que a ruka atirasse o capitão para longe, ou se debatesse para escapar, mas não. Apenas emitiu um som estranho, como “muuuuh” e continuou parada, o capitão era muito forte para ela.
O capitão Korkovski dominou a grande fera, então a montou. Logo subi junto, para partimos pelo grande pisadouro. Porém, o anímulo não moveu um músculo. Continuava parado, soltando aqueles “muuhs” uma vez lá que outra, e assim ficamos por uns bons minutos.
- Capitão, por que ainda estamos parados?
- Silêncio, escrúpulo...
- Sim senhor capitão.
-... Deixe-a concentrar-se. Pelo jeito as rukas precisam de tempo para juntar energia – cochichou o capitão, o que não adiantou, afinal Karov começou a gritar nos ombros do mestre, igual fazia quando estava com fome.
A ruka continuou parada por mais alguns minutos. Então cansado o capitão desceu da montaria e começou a observa-la, enquanto Karov parava de gritar e voltava a dormir.
O capitão observava o anímulo por um bom tempo, então virou para mim e revelou sua descoberta:
- Veja essas saquetas embaixo dela Fritz, estão cheias, por isso ela não anda.
Logo o capitão se aproximou devagar das saquetas a que se referia, e hesitante estendeu uma das mãos. Tocou uma delas devagar e se afastou, para ver se a ruka reagiria, mas nada. Então tocou de novo e nada aconteceu. Quando foi tocar novamente, Karov soltou um grito alto em seu ouvido e ele se assustou. Tropeçou algumas vezes até cair sentado, e quando caiu, disparou sem querer sua garrucha em um grande estrondo. E assim a ruka correu.
- Capitão está tudo bem? – perguntei preocupado.
- V-você – o capitão estava assustado assim como eu, mas prosseguiu – viu aquilo Fritz?! Eu poderia ter morrido. Por isso apenas o mais branjoso dos piratas pode ter uma ruka como esta, e ela será minha!
O saudoso mestre se levantou, limpou suas vestas e guardou sua garrucha. Estava com um olhar determinado, e então começou a solear em direção ao anímulo. Eu tentei segui-lo, mas ele falou que aquilo era coisa de pirata, então fiquei parado olhando-o.
Ele soleava branjosamente, o anímulo estava parado distraído. Logo o capitão saltou em cima da ruka novamente, a domando de modo tão bravo, que ela não falava nada além dos “muuhs” de dor. Então ele desceu novamente, e de modo heroico foi tocar as saquetas da ruka, mas dessa vez as apertou, e algo milagroso aconteceu. O capitão ficou alguns segundos observando aquilo, um vaat branco vindo de uma ruka, sem duvida poderia valer milhões de verdouros.
Com aquele feito, então, o mestre encheu algumas garrafas de um uvamixe velho com aquele vaat. E logo após ter percebido que não conseguiria fazer a ruka leva-lo nas costas, ele a levou. Obviamente não nas costas. E assim saímos, o Capitão Korkovski com uma pequena corda que ligava sua cintura ao sino da ruka e eu com o pequeno Gup logo atrás.
Então partimos pelo pisadouro com a intenção de achar algum comerciante, ou pirata que quisesse comprar aquele vaat super valioso. E não precisamos andar muito. Na beira do pisadouro havia um varonito e uma natsva que vendiam rubas em uma barraca, e por algum motivo perto deles tinha uma placa com coisas estranhas escritas.
O capitão se aproximou deles, marchando de cabeça erguida. O varonito cochichou algo como “por que ele tem um urubu nos ombros?”, e parecia um pouco nervoso.
- Boa tarde senhores, gostariam de algumas frutas frescas?
O capitão e eu nos olhamos e começamos a rir.
- Ouviu isso Fritz? Eles comercializam varonitos afeminados! – disse o capitão gargalhando.
- “Va” o que? Afeminados? Desculpa senhor, não entendi o que quis dizer...
Então em seguida o capitão parou de gargalhar e tentou ficar sério, mas só depois de algumas risadas a mais ele conseguiu fechar o semblante.
- Deixe para lá companheiros piratas, vim lhes trazer algo divino!
O varonito e a natsva se olharam como se fossemos malucos, mas continuaram ouvindo.
- Eu encontrei uma ruka muito florante neste pisadouro, e a trouxe comigo – então o capitão apontou para o anímulo, e ao ver ele, o varonito pareceu falar algo como “mas que porr”... – e então, ao mexer em uma de suas saquetas, consegui um Vaat que vale milhões de casquilhos e verdouros. E lhes dou a honra de compra-los do grande pirata, e mestre das grandes Lágrimas-de-deus, o capitão Korkovski.
Uns segundos passaram-se em silêncio com aqueles dois nos olhando, então o varonito dirigiu-se a nastva e falou:
- Ligue para a polícia querida, esses dois são completamente loucos.
O capitão os olhou com um tom de ira.
- Como ousa insultar o grande Korkovski! Eis de pagar!
Então o capitão sacou sua garrucha e disparou para cima, estourando pólvora, fazendo o varonito abaixar-se no chão com medo. Logo o capitão saltou por cima dele de modo bravo, porém, a ruka decidiu unir-se ao lado inimigo. Quando ele saltou, parou no ar e caiu por culpa da corda que estava presa ao anímulo, o que fez a ruka começar a correr arrastando o capitão pelo chão.
- Friitzzz, seu verme me ajude!
Fiquei meio sem saber o que fazer, a ruka corria de vagar, mas arrastava o capitão que já estava todo enozado pela corda. Então fui em direção a eles e segurei o capitão pelas pernas puxando-o no sentido contrario da ruka. Tentei usar toda a minha força, então o anímulo caiu em cima do capitão, com a intenção de esmaga-lo, imagino eu. O capitão gritou de dor, mas seu grito saiu abafado por causa da ruka em cima dele. As mãos do mestre estavam embaixo do anímulo, e ele lutava de modo bravo para se desprender.
Não sabia o que fazer, então fiquei dando forças para o capitão, que ao tentar mover uma das mãos, disparou sua garrucha e atingiu a cabeça do anímulo, que soltou seu último “muuuh”. Logo corri para ajuda-lo.
O capitão Korkovski levantou-se ofegante, limpou as vestas e colocou Karov de volta em seus ombros que havia voado com a agitação. Estava com um olhar muito bravo, mas parecia triste.
- Então é isso Fritz... Ela desonrou o grande capitão, havia de ser sacrificada. Mas pelo menos nós ainda temos aquele vaat que roubamos dela – falou o mestre de modo ofegante.
Enquanto eu concordava com o capitão, observei que o varonito e a natsva já haviam escapados, provável que com medo do grande Korkovski.
- Veja capitão, conquistamos as rubas daqueles cariontes!
...
Quando chegou a noite, eu e o capitão ainda estávamos pela barraca, retripando algumas rubas e montando planos para nosso navio, mas então decidimos que seria melhor sair dali pela manhã.
- É possível que aqueles piratas tenham ido chamar reforços Fritz, ainda mais em uma notche de lua preenchida, onde a vingança se torna mortífera. Descansemos e amanha seguimos por onde o sol nasce.
Quando amanheceu, eu e o capitão voltamos ao pisadouro. Seguindo sempre pelo norte, e sempre dizia o capitão, “onde o sol nasce meu caro amigo”. Amigo era o que éramos, e amigos continuaríamos.
Deixamos a ruka para trás, mas tínhamos seu Vaat, que nos deixaria ricos. Soleando pisadouro adentro, assim fomos por uns dias, bem cansativos. Mas tínhamos as rubas para retripar e bebíamos a água que encontrávamos. Foi quando, um dia, soleando por um pisadouro deserto, sem nenhuma bela natsva para nos fazer companhia, o capitão soleava quieto; olhando para frente atento, parecia observar algo bem de longe. Então deu um sobressalto, que até Karov que dormia em seu ombro se assustou.
- EUKERA!
- É Eure – ia corrigi-lo mas ele estava empolgado demais.
- Cale-se Fritz, temos outras coisas para nos preocuparmos... – falou o mestre apontando para um campo aberto, então percebi o que ele havia avistado.
-Pelo jeito vamos precisar de muitas cordas capitão...
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