As Raízes de Yggdrasil

6 Capítulo 6 – Incessante


Alguns minutos se passaram em silêncio, apenas ouvindo as gotas de chuva caírem umas sobre as outras e gerando poças de água, e amontoados de lama que serviriam de areia movediça, o que deixaria tortuoso o caminho para retornar à sua ala natal. O desânimo era evidente na faceta das crianças, as quais não conseguiam sorrir, ou brincar com a situação, mesmo que isto fosse normal do outro lado da cidade, onde provavelmente ainda não choveria. Por longas horas foram obrigados a ignorar os pés com feridas abertas, calos e borbulhas da longa caminhada em areia seca, que agora não passavam de possas que provocavam o ardor clássico nas feridas. Todos se queixavam, mas aguentavam, sendo obrigados a tomar caminhos diferentes daquele que haviam usado para chegar ali. Em si, a viagem era tranquila, se amenizassem o fato de que estavam completamente encharcados e cansaços, ainda mais o ruivo, que finalmente se lembrou de que havia sido espancado no dia anterior, e os efeitos eram ainda mais poderosos do que outrora. Suas mãos não soltavam as costelas que pareciam soltas para si, mas não para o irmão.
Ao fim de oito horas, a claridade nada havia mudado, já que a chuva mais forte foi durante as horas mais quentes e radiantes, assim como as nuvens se tornaram mais negras durante esta hora. Sequer reconheceram as ruas que seriam o seu território, já que a maioria não passava de um pequeno riacho que corria monte abaixo.

— Estou cansado, mesmo. – Disse Horus, com os braços caídos juntamente aos ombros, e passadas obviamente forçadas.

Ravic o acompanhava logo atrás, com cuidado para que o irmão não caísse, apeasar de que também estava cansado. – Logo chegamos em casa, irmão…

E Nero estava igualmente cansado, com olheiras profundas abaixo de seus orbes, e com o nariz extremamente vermelho, já que começara a espirrar alguns minutos antes.

— Está na hora de nos separarmos. – Disse Caelum, pousando a destra sobre o ombro do irmão mais novo. Nero apenas bocejou, concordando com o aceno da cabeça, desviando o olhar para as outras crianças.

— É. Até que foi divertido. – Disse Edfu, sorrindo para todos, antes de virar costas e se esgueirar por uma ruela diferente.

— Até depois, Caelum, Nero! – Os outros irmãos recitaram quase em coro, continuando o caminho em frente.

☙❧

— Bem, aquela foi a minha primeira decepção grande sobre este mundo. – O pensamento fez seu cérebro trabalhar além das memórias de sua infância, repletas de um cenário dourado e o aroma seco da areia. Poucas haviam sido as vezes que conseguira as vias respiratórias limpas para cheirar algo senão a terra, como as próprias palmeiras que cresciam no interior das muralhas.

— Algo que me despertou para o mundo real, em que a esperança apenas traria decepções desagradáveis em minha vida. Mas apesar de aceitar isto… No fundo… No fundo… Eu sabia que um dia conseguiria sair da cidade amaldiçoada.

Relutou uma vez mais contra a dormência sentida em seus músculos paralisados, mas não havia energia para ser enviada através das articulações. Seu sangue não corria suas veias, retirando pouco a pouco aquele brilho vivo que qualquer ser humano possui enquanto respira. Havia desistido de tragar o ar inexistente, e de fazer seus órgãos trabalhar. Naquele momento, apenas sentia a gélida sensação de estar petrificado no tempo, mas também perdendo a noção do mesmo.
Tentou afastar o som das gotas que caíam e agora formavam um rio que avançava pelo infinito, escorrendo lentamente, recriando a mesma rocha dura em que assentava seus joelhos, com um grunhido, mas este não saiu. Suas cordas vocais não vibraram, e não o fazendo, nenhum som foi produzido. Buscou usufruir da ponta dos dedos, procurando movê-los com bastante esforço, mas apesar da brilhante mente forçar os músculos treinados a se mexerem, estes desobedeceram.

— E me resumi a isto, depois de todo aquele esforço. – Pelo menos, conseguia mover seus olhos, de modo a encarar o cenário em volta, apenas o suficiente para ver algumas raízes encontrando seu fim no vácuo, as raízes pertencente à árvore da vida que se erguia alto, através do mundo dos mortos, de Midgard, onde vivera e contemplara tantas vezes sua venusta aparência, com seu coração valoroso e corpo robusto, jurando a defesa da mesma.

— E agora, ela suga tudo que há em mim, para aqueles acima, rirem e brincarem. – Fez uma pausa em sua mente. Queria reviver os momentos felizes, mas naquele momento, não conseguia concentrar-se o suficiente para afastar a dor lancinante. Limitou-se aos lamentos.

— Agora, aquela melodia faz sentido. A melodia do coração que para e se oferece ao silêncio. O coração que impede a fala, completando a morte. O coração que não mais aquece, que não fornece a vida a seu portador. E a mente que não descansa, imortalizando-se. O coração enferrujado.

Por momentos, os ecos das gotas do líquido escarlate cessaram, ou pareceram cessar para o homem de tez quase alva, o qual se aliviou prematuramente. O tempo que passou a correr de forma diferente, se tornando mais longo do que qualquer outra pessoa sentiria. Um segundo, poderia começar a passar-se por minutos, tornando um tormento àqueles que viviam aquela sensação.