As Raízes de Yggdrasil

18 Capítulo 18 – A equipe de resgate


Os dois dias seguintes escoaram de forma displicente, sobrecarregados de tarefas e ensinamentos pela parte do esquadrão de cavaleiros de Elendar. Nero havia conseguido resguardo num quarto barato, por virtude das orientações dos cavaleiros, de não gastar suas energias na viagem para a pousada em Isla, onde acabaria por se instalar mais tarde.

Durante aqueles dias, todos ensolarados e cada vez mais quentes, o rapaz recebeu formação sobre a melhor maneira de cortar vários tipos de inimigos e criaturas. Como deveria golpear contra armas menores, contra maiores, contra longas e pesadas. Em parte, todas as dicas já eram sabidas pelo rapaz, mas este as absorveu com vigor, replicando isoladamente com as mãos desarmadas. Assim como aprendeu sobre as várias posturas que os cavaleiros usavam com as grandes espadas longas, e, que algumas delas, podiam ser replicadas usando espadas menores, e sem o uso de um escudo. Toda esta conversa e tirocínio, servira além para fortalecer a mente e técnica do jovem Espadachim, mais novo que todos os outros, como também lhe forneceu um bom conjunto de avambraços para colocar sob as luvas e a proteção de couro nos braços.

Ao fim do segundo dia de espera, Nero recolheu a espada com a cobrança de quatro mil Cernes pela parte de Hollgrehenn, o Mestre Ferreiro da capital, e que mostrou seu valor em virtude ao ferro, trabalhando a espada do Nero ao nível de um mestre. Em uma das demonstrações e explicações sobre a mudança em seu material com uma pequena adição de Noirium, o que tornou a lâmina levemente mais negra, cortou um boneco de palha ao meio num único balançar, sem todo seu vigor e força.

Numa das conversas com membros do clero, aprendeu também que o Deus para qual devia louvar em batalha, era Tyr, o mesmo que criara as espadas para que humanos pudessem batalhar contra os demônios. Que talvez, numa das invocações de seu nome, poderia usufruir da força dos cavaleiros em um ataque potente, que abalava a própria lei natural da física. Na descrição breve… “Seu martelo de seis pontas destroça os solos e os inimigos, abalando o próprio céu e suas pacíficas nuvens. O ar em sua volta vibra e repuxa para a expulsão, fazendo explodir seu alvo de dentro para fora. É a ira de Tyr, o Deus da Guerra.”

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O terceiro dia começava com o forte badalar dos sinos, anunciando o alvorecer e despertando toda a capital que preguiçosamente se erguia aos poucos. Merceeiros eram os primeiros a postar a serviço, juntamente aos padeiros nas tavernas sempre abertas, fazendo percorrer pelas ruas e as portas abertas, o cheiro da massa sendo preparada para o pão que seria distribuído na hora seguinte, ainda quente. O Mestre Ferreiro se espreguiçava à porta de casa, alongando os fortes e torneados músculos, pela pele bronzeada dos braços constantemente expostos. A igreja abria as suas portas, e puxava para o exterior os novatos do grupo de coral, para exporem suas vozes ao público diurno que já repousavam nas praças, antes de botar as mãos ao trabalho.

Grupos de mulheres feitas transportavam cestos de roupas até a praça local, conversando sobre devaneios e sonhos, picuinhas, e sobre técnicas para manter as roupas mais cheirosas e limpas. A maioria possuía frascos vendidos pelos alquimistas, para proporcionar melhor fragância aos tecidos, assim como deixá-los mais aveludados. Não fosse aqueles fortes produtos, Nero que contornava lentamente, em passos relutantes, a fonte principal da praça do centro da capital, sentiria mais ainda o cheiro pútrido vindo dos esgotos. Claramente, era uma missão de pura urgência, ainda mais naquele dia, já que o cheiro transpassava dos limites subterrâneos para o exterior. Epidemias era um dos ricos preocupantes, o que fazia sacerdotes e médicos preparados já pela manhã, percorrendo as ruas de forma natural e tranquila, tentando não espalhar o pânico.

Subiu a escadaria para o patamar elevado da cidade, e se deparou com um grupo em prontidão de espadachins, e um único cavaleiro. Era alto, tão alto quanto o Paladino que vira naquele dia da cerimônia. Ou talvez nem tanto, mas para Nero, que era mais baixo que o costumeiro de sua idade, aquele homem parecia uma enorme muralha andante.

Os pesados olhos rubros pousaram sobre o recém-chegado ruivo, e seu silêncio perturbador, cessou o falar do grupo de rapazes, em que todos aparentavam estar numa fase avançada em sua adolescência. Todos ataviados formalmente como um Espadachim deveria, menos Nero, possuindo um avambraço em cada antebraço, metálico e reluzente à luz do grande fruto da árvore da vida, que iluminava as ruas aos poucos.

— Nero Cyprianus. – Ditou uma única vez, fazendo o ruivo tremer e se aproximar lentamente. Seus olhos jamais se deslocaram dos do maior, mas evitou demonstrar qualquer tom desafiante. Com um semblante neutro, cessou o caminhar a dois metros do Cavaleiro.

— Ao seu dispor, Senhor Rulf Elbic. – Abriu um solene sorriso, amenizando a pressão dos olhos com a coloração dourada, e só então, vagueou o olhar pelos outros espadachins.

— Oh, então é você. – Um deles, mais altivo e soberbo, aproximou-se do menor, lhe estendendo a destra num ato cordial de cumprimentar. – O prestigiado mais novo Espadachim.

— E você seria? – Replicou ao cumprimentar o rapaz, lhe segurando a mão com a oposta, e apertando firmemente num sacudir que as separou. Seus olhos bailaram para o tom rubro, desconfiado de toda aquela reação.

— Ah, sim, claro! Esqueci que eu tenho modos, diferente de certos pirralhos. – Deu um sorriso esnobe, enquanto estufava o peito em meio à fala, encarando o menor de cima para baixo. Então, replicou uma vênia cortês, como se cumprimentasse uma dama, estendendo para Nero, a destra de forma solene, com a palma aberta voltada para cima. – Ramuh, ao seu dispor, madame. – Isto gerou algumas risadas pela parte do outro grupo de Espadachins, tendo alguns se dispersando e sendo substituídos por duas mulheres. Ramuh seria jovem, de dezassete anos, com cabelos negros e olhos tão negros quanto a noite sem o brilho dos frutos. Seu corpo não era tão forte quanto ele achava ser, mas seu orgulho conseguia ser maior que o cavaleiro encarregue do grupo.

Nero lhe deu o sorriso mais soberbo que conseguiria, cruzando ambos os braços em frente ao corpo. As duas garotas que se juntavam ao grupo assistiram à cena, e perceberam o motivo da risada, rindo graciosamente em conjunto.

— Talvez nossas companheiras possam lhe explicar como tratar uma dama. – Disse Nero, e descruzou os braços, voltando a desviar a atenção para todos presentes.

— Com toda a certeza do mundo… Jamais seguraria com minhas delicadas mãos, essas luvas sujas. – A garota de cabelos ruivos como o mais novo, ria, explicando para Ramuh, que enrubescia, tanto de vergonha quanto de raiva, seus erros em cortejar. Seus olhos rubros então pousaram sobre Nero, mas relutou as palavras de seus lábios delineados num sorriso.

A outra ao seu lado, aparentava ser bem mais séria, cessando tão prontamente as risadas e tomando um semblante calmo e sereno. Sua neutralidade era a beleza, contendo um azul oceânico nos fios longos, e puros olhos dourados.

— Celia. – Disse a Ruiva, cutucando a menor com o cotovelo, a qual aparentemente acanhada, replicou.

— Tenten. – Fez uma pausa constrangedora, e encolheu os ombros, fazendo alguns dos fios longos fugirem por cima dos ombros. – Mas podem me tratar por Ten.

— Nero Cyprianus. – Disse o menor, encarando os outros dois presentes.

— Trevorrayne. – Bateu o punho destro no próprio peitoral farto, mostrando seriedade nos olhos marrons, assim como seu cabelo selvagem. Era quase tão alto quanto Rulf.

— Ramuh. – Falou o orgulhoso, apesar de praguejar contra Nero em voz baixa para que ninguém percebesse suas palavras.

— Nós sabemos. – Falaram as garotas em coro, sendo que Tenten revirou os olhos.

— Chega de papo furado. – A voz atingiu todos como um trovão, vindo de Rulf, o mais alto, que iniciou uma caminhada lenta ao descer as escadas. Seu manto bailava ao vento, marrom e com veludo branco na parte interna. Suas vestes também se diferenciavam levemente do costumeiro quando se encontrava com o resto do grupo. O principal, eram as argolas em aço sobrepostas umas sobre as outras, encaixando-se em correntes longas que cobriam todo o tronco até metade das pernas, e os braços. Estas eram ocultas em maior parte por roupas acolchoadas, e pelas partes metálicas que tilintavam a cada passada, cobrindo seus ombros e braços completamente. Uma estola única que representava a insígnia do dragão de duas cabeças da família Tristan, e de Fial. Grevas pesadas que pareciam castigar o chão a cada passada, cobrindo quase metade de suas pernas, e deixando que as calças de couro preenchessem o resto.

E claro, não podia faltar a longa espada pesada que espreitava por cima do ombro esquerdo com seu punho, oculta na bainha também pelo manto esvoaçante.

— Devemos nos apresentar celeremente no exterior da Ala Leste, onde nos aguardam para darmos início à missão. – Continuou em meio das passadas, e o silêncio se fez presente no grupo de Espadachins que acompanharam a uma distância de dois metros, cada um, com suas manias e vontades, mas todos com os olhos fixos no caminho à frente, onde sua justiça havia sido jurada.

Passaram pelo resto da cidade em silêncio, deixando suas passadas ecoarem pelos recantos mais vazios da cidade em seu horário matutino, enquanto o tilintar das placas metálicas abalavam a conversa dos moradores. Não havia demorado tanto quanto esperava, atravessando os grandes portões de madeira abertos e cedentes à passagem para uma área repleta de jardins.

Conseguia ser mais verde que a ala sul, com grama aparada mas ocupando todos os recantos, e não deixando nenhum caminho de terra batida ou gravilha visível, assim como também não ostentava de espaços vazios do imenso verde em seu tapete ondulante pela brisa quente. À direita, próximo tanto à muralha, como ao desnível físico da montanha que se erguia tão alto quanto a ala Norte da cidade, e que certamente continuava por longos quilômetros a Leste… Um belo e recatado jardim espelhando quatro partes idênticas em um círculo deslumbrante e tranquilizador.

Composto por pinheiros jovens que se erguiam juntamente aos arbustos verdes e do tamanho de um homem adulto, com quatro entradas visíveis através de arcos floridos com rosas, cruzando com outra camada bela de natureza, onde pequenos muros esculpidos de pedra, com bancos verdes em metal encostados nestes, ostentavam de conjuntos similares de dezenas ou centenas de violetas. Nas laterais de cada um dos oito bancos próximos às entradas, enormes vasos em cerâmica de plantas os embelezavam. Já no centro, tão florido e belo, num tapete multicolor que balançava ao vento, assim como a grama que ousava entranhar por entre as flores.

À esquerda, uma colina envolta em árvores de todas as direções, menos naquela que daria diretamente à muralha, tão altas e vigorosas, com raízes longas saindo da terra, mas escondidas por arbustos quase vivos pelos movimentos de chacoalhar do vento. No topo da colina, um enorme acampamento pertencente aos Cavaleiros que sempre vigiavam a área. Alguns, postados a serviço, usando de binóculos para observarem tanto o grupo que avançava solenemente pelo gramado, como a entrada do esgoto que ficava logo em frente.

Vale realçar, para mais para Leste, ficaria a cidade dos arcanistas, Nazdam, e que escudos mágicos repeliam qualquer atitude visual perante a cidade, mesmo pelo enorme telescópio que se erguia no topo de uma enorme montanha, do qual o único caminho de alcançar o telescópio e a montanha, era atravessando três outras com pontes de pedra quebradiças.

— Pois bem. – Disse Rulf ao alcançar a entrada dos esgotos. Não passava de uma pequena casa toda em pedra e fechada, sem qualquer vestígio de janelas e entradas ventiladas, a não ser, a porta de aço que estava naquele momento aberta. Dois guardas de alabardas resguardavam o interior ao cruzar suas armas em meio ao ar. Seus rostos eram impassíveis, quase como se fossem robôs, e cediam passagem ao grupo. – Lhes apresentarei ao descermos, ao grupo. Serão divididos em dois grupos ao todo, e cada um dos grupos terá uma tarefa diferente.

Desceram escadas renovadas para fácil acesso aos subterrâneos para manutenção, mas estas era em espiral e com pouco espaço para locomoção, ao ponto de que tiveram que descer em fileira até alcançarem a área onde ocorreria a missão.

Era escuro, claramente, mas esta escuridão era espantada em vários pontos diferentes no labirinto de corredores longos e húmidos. Ao descer as escadas, estavam em segurança das águas sujas que corriam, mas não do odor pútrido do local, o que causou náuseas no mais novo, que tampou as narinas com o polegar e indicador. À direita do grupo, um conjunto de três tochas iluminava uma mesa repleta de papéis, dos quais, iluminados por uma vela menor de cera branca que escorria em pequenas gotas à medida que se gastava. Um conjunto de barris contendo água e comida, e um grupo inteiramente diferente de indivíduos.

Eram quatro ao todo. Um sacerdote de cabelos verdes e olhos rubros, com a túnica marrom costumeira. Já a mulher, a mesma vista rezar perante o grupo de coral dois dias atrás, com olhos tão belos e azuis.
Acompanhando o casal de sacerdotes, um noviço se postava com a túnica mais clara, quase branca, e um rosto tão amigável e afável, como um anjo. Seu cabelo era dourado, e seus olhos azuis como os da mulher, parecendo até irmão ou até mesmo filho desta.

E a quarta pessoa, do sexo feminino, com roupas leves em tons escuros, deixando expostas as pernas torneadas e fortes, assim como a barriga lisa e de cintura fina. Seus braços também estavam expostos, com exceção das mãos, ambas contendo luvas de arqueiros que protegiam os dedos das linhas finas dos arcos. Em suas costas, uma aljava em couro repleta de flechas de penacho verde, como os cabelos curtos da mulher, e placas metálicas douradas protegiam seus ombros, ostentando da cor de seus olhos. O sorriso da mesma era bem animado e alegre, e em sua destra, segurava o arco curvo.

— Ei! Finalmente chegaram. Estava cansando de esperar. – Disse a arqueira, com uma voz forte para uma mulher, acenando para o grupo que se resguardava da escuridão no “acampamento”.

— Apresentarei o grupo para evitar conversas opostas. – Disse Rulf com celeridade, erguendo a destra e mostrando sua palma. Então, se voltou de modo a ficar de frente para todos acomodados no calor. O silêncio se fez, quebrado apenas pelo crepitar das chamas e do combustível de óleo, e das gotas de água caindo do teto alto e impercetível. – Eu sou Rulf, cavaleiro encarregado de vos levar à vitória nesta primeira missão. Atual líder da família Elbic, explicarei a missão após apresentar cada um dos membros presentes. – Apresentou em prontidão os espadachins, e então, apontou para a arqueira. – Irene, vinda de Casron para auxiliar em virtude de seu conhecimento em criaturas. – A mulher mostrou grande orgulho, estufando o peito de seios quase inexistentes. Então, o cavaleiro apontou para a sacerdotisa. – Leinas, Sacerdotisa de Fial, juntamente com Kabbak, Sacerdote ascendendo a Sumo-Sacerdote após esta missão. – O homem demonstrou uma reverência breve e leve ao cavaleiro, com um sorriso afável. – Alcott, o noviço encarregado de vossos ferimentos e estados de espírito. Ele ficará neste ponto durante toda a duração da cidade, e assim criará um porto seguro para vocês. – Apontou por fim para o noviço, apresentando a parte de sua missão, o qual desenluvou as mãos queimadas quase até à carne. Claro, todos olharam incrédulos. – Alguma dúvida?

A questão ecoou por alguns momentos pelos corredores estreitos, mas ninguém protestou.

— A missão se divide em duas partes: Um grupo se dividirá em abate das criaturas que apareceram no subterrâneo de forma misteriosa, e encontrará a causa deste fenômeno. Outro grupo se focará inteiramente no resgate. – Deu um longo suspiro ao falar sobre o segundo grupo, fechando os olhos momentaneamente, como se relutasse com a vontade de fazer este trabalho ele mesmo. – Uma criança se perdeu ontem de tarde nos esgotos, ao aproveitar-se da brecha dos guardas que desviaram atenção para os seus amigos. Seu paradeiro é desconhecido.

— Quais os grupos, Sir? – Questionou Nero, só então percebendo como havia falado alto, ou talvez, o silêncio dava esse parecer.

— Por fim uma pergunta. – Elevou a destra para que mais ninguém falasse. – O grupo de abate será: Nero Cyprianus, Irene e Ramuh. Alcott também faz parte deste grupo, mas meu conselho é que não o façam abandonar o posto. – Seu olhar se tornou severo, e então, todos os outros se aglomeraram. – Os Sacerdotes estão aqui para fazer parte da missão também. Eles acompanharão Celia, Tenten e Trevorrayne na busca.

Todos assentiram com as cabeças, demonstrando interesse e valor nos olhos que queimavam além do espelhar das chamas ao lado de Rulf. Este, que silenciosamente, pegou um punhado de tochas de mão, e as estendeu ao fogo.

— Que o fogo ilumine vossos caminhos, e torne menos tortuosa esta missão. – E entregou a cada um dos participantes, uma tocha, a qual iluminaria quase um corredor por inteiro.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.