As Raízes de Yggdrasil

14 Capítulo 14 – Deserto Findado


— Então está dizendo que… Este foi o teste? – A voz do ruivo se propagou pelo salão principal, contestando algo que para si, pareceu uma total perda de tempo. A destra segurava firmemente o punho da espada, cujo cume se encontrava no chão, encaixando numa das fendas gravadas na madeira.

— Sim. Este foi o teste. – Franziu o cenho, o homem que mais parecia um urso, encarando o garoto ao pausar o polir da própria espada, como sempre fazia para a manter em bom estado.

— Eu pensei… — Relutou. Nem havia batalhado para valer, a não ser por um punhado de moscas gigantes que nem lhe davam o devido desafio.

— O que pensou, estava errado. – Falou com rispidez, soltando um suspiro que mais pareceu um rosnar de leão, e os grunhidos voltavam ao som costumeiro. – O teste envolve suas capacidades mentais, mais do que as físicas. Não queremos loucos manejando espadas como se fossem gravetos. – Voltou a atenção para a própria espada, passando o pano seco pela sua extensão.

— Me toma por tolo?! Quer dizer que qualquer um pode se tornar espadachim, chegando ao acaso na saída? – Bateu o pé na madeira, a qual rangeu após o baque seco. – As criaturas nem eram fortes o suficiente para me dar um desafio.

— Isso só prova que estava mais do que preparado. – Manteve a calma, mas parando de mexer tanto em sua espada, e se debruçando sobre o balcão. – O que está reclamando aí, pirralho?

— Estou reclamando, que pensei que ser Espadachim era algo extremamente difícil de se alcançar. Como alguém pode ser ruim neste tipo de exame? – Fez uma pausa, olhando o mestre da Guilda com a ferocidade de um dragão. – Se é que posso chamar de teste.

— Imagine um tolo com força, manejando uma espada como um graveto, numa situação crítica em que é necessário proteger mais, do que matar. – Um homem desconhecido falou. Estava no canto do salão, próximo à entrada principal, batendo o polegar numa moeda que era arremessada ao ar, e voltava magicamente para a sua mão após girar centenas de vezes. O tilintar característico era quase hipnotizante.
Seu cabelo era completamente desenfreado, numa cor castanha que chegava em fios finos quase até os próprios ombros, cobertos por ombreiras metálicas que encaixavam fielmente em seu corpo volumoso. Uma única placa em seu peitoral, por cima de uma blusa azul, e um manto da mesma cor que se estendia por suas costas. As calças eram largas e marrons, com joelheiras protegendo os joelhos, e botas em couro castanho escondendo dos pés a metade da panturrilha.
Se mostrou relaxado, com uma espada longa espreitando com seu punho por cima do ombro destro, luvas em couro cobrindo suas mãos, e o pé esquerdo apoiado na parede atrás de si, assim como as costas.

Nero abaixou os olhos, pensando brevemente sobre a ideia, e então, falou com algum ressentimento.

— Morreriam muitos inocentes. – Abaixou seu tom de voz, e desviou o foco para o homem que estava ali, o qual suspirou.

— Possui afinidade de um espadachim, mas seu interior ainda é o de um aprendiz. Por isso geralmente terminam o período de aprendizado com dezasseis anos, e não… — Os olhos dourados encararam os de Nero, que se tingiam da mesma cor.

— Doze anos. – Completou o Mestre Espadachim, fuzilando o outro homem com os olhos.

— Doze anos é bem jovem para ascender a qualquer classe. – A moeda tilintou uma última vez, e o homem a guardou em sua sacola de couro no cinto do mesmo material. – Posso afirmar que é um prodígio? – Encarou o Mestre Espadachim com a mesma ferocidade.

— Tem bolas. – Disse o mais velho, coçando o bigode com a canhota antes de continuar. – Ele e a companheira.

— Você viu Cenia?! – Nero se exaltou ao ouvir sobre a companheira, debruçando todo peso do corpo sobre o pomo da espada, e seus olhos clarearam em um brilho intenso.

— Sim, vi. – Admitiu o Mestre Espadachim, voltando a atenção para o rapaz novamente. – Ela terminou o exame em menos de uma hora, ontem à noite. Hoje já deve ter sido nomeada espadachim em Fial. – Se calou por alguns momentos, mas antes que Nero tivesse sequer tempo de suspirar, o homem completou. – O que ela tinha de agradável, tinha de forte.

— É. Ela quem deve ser declarada o prodígio. – Admitiu Nero, enrubescendo levemente. – Por este andar, já deve ter um Lorde para auxiliar em seu treino.

— Deve ter chovido nela, Nero. – Completou o Mestre.

— Precisa de um Lorde ainda? – O homem envolto da escuridão voltou a falar, sendo fuzilado pelo Mestre Espadachim. Desta vez, o mesmo elevou as mãos com as palmas abertas para que o Espadachim visse, totalmente desarmado. – Não estou para encrencas.

— Eu vou precisar, se quiser sobreviver nas ruas de Fial… Ou até mesmo nas daqui, em Isla. – Segurou firmemente a espada, nervoso. – Mas o mais importante… Eu preciso alguém poderoso para me treinar.

— Apressado. – Deu algumas risadas, e se aproximou do mais novo, lhe estendendo a destra. – Eu sou Elendar A’Daragon, da linhagem de mestres espadachins. – Seus olhos se encontraram com os de Nero.

— Nero Cyprianus… — Fez uma pausa, estendendo a mão até à de Elendar, e apertando com firmeza. – Não tenho propriamente uma linhagem como o senhor.

— Não tem qualquer problema. O pedigree é um atalho apenas. Conseguirá alcançar qualquer um de nós, já que alcançou espadachim com apenas doze anos. – Sacudiu levemente a mão da criança, e olhou para o maior, com um sorriso provocativo em seus lábios. – Não acha, pai?

— Ora, que Thor o atinja com um raio. – Bateu ferozmente na madeira do balcão, tremendo todo o estabelecimento. – Me envergonha agir dessa forma e logo em seguida me chamar de pai como se não tivesse feito nada.

O rapaz deu de ombros, voltando para o seu canto e cruzando os braços agora. Já Nero, piscou algumas vezes os olhos, alternando o foco entre os dois adultos na sala. De parecido, não tinham nada. Mas era interrompido quando ia abrir a boca para comentar.

— Sem comentários, jovem Nero. – Disse o Mestre Espadachim, acalmando sua cólera, mas prosseguindo em grunhidos baixos, e uma respiração pesada como suspiros.

O silêncio assombrou o salão por alguns minutos. Nero acabou por encostar as costas no pilar central, enquanto a espada permanecia fincada no lanho na madeira, suspensa e solitária na vertical, como contavam algumas lendas do Rei Herói. Claro, em sua mente ainda juvenil, parte imaginava o treino árduo, e outra, se tornar um herói da mesma categoria. Praticamente sonhava acordado, com as mãos sobre as próprias coxas, e lábios entreabertos num sorriso ameno.
Os outros dois se fuzilavam vez ou outra, mas não rebatiam para palavras, talvez por respeito ao mais novo que estava presente.

— Então… — Sua voz caiu como um trovão, lançando embora o silêncio, no timbre forte que fez Nero dar um pequeno pulo após o vibrar de seus músculos.

— Sim, senhor? – Questionou, desviando a atenção ao Mestre Espadachim.

— Conseguiu ouvir seu nome? – Voltou os olhos para a espada cravada no chão, obviamente se referindo à mesma. Do outro lado do salão, Elendar prestou imensa atenção no assunto, o que perturbou levemente o mais novo. Se eram pai e filho, certamente aquela espada pertencera ao rapaz.

Maneou negativamente a cabeça, movendo os cabelos agora secos com certa graciosidade.

— Não. Seu sibilar foi surdo. Talvez o material não a deixe falar seu nome. – Tentou explicar, mas não sabia nada do que estava falando, o que arrancou uma risada branda de Elendar. Já o Mestre, permaneceu estóico.

— Entendo. – E se calou uma vez mais.

O silêncio retornaria à sala, senão pelo estrondoso abrir da porta à esquerda, de onde saiu a ajudante do Mestre Espadachim, apressada e ofegante, com um único envelope em sua mão, lacrado com cera vermelha, e o emblema oficial da Guilda, que não passavam de duas espadas cruzadas em seu centro.

— Não era sem tempo. – Comentou o Mestre.

— Sabe que dá trabalho redigir algo do tipo. – Rebateu a moça, retomando sua respiração ofegante, e lançando um sorriso a Nero, o qual retribuiu inconscientemente. – Aqui. – Aproximou-se do rapaz em passos lentos, e lhe estendeu o papel. – Não poderá quebrar, em instância alguma, este selo. Ou terá que refazer o exame de admissão.

— Certo. – Assentiu com a cabeça, estendendo a destra para pegar o papel.

— Mas já está tarde. – Falou o Mestre, fuzilando o filho com os olhos, o qual cessou qualquer tipo de movimento. – São uns longos minutos até Fial, e não me parece que farão mais as honras por hoje. – Encarou o filho, o qual abriu a porta do exterior e mostrou a noite que já caíra sobre a terra. O silêncio era quase total, o que indicava que poderia ser bem tarde.

— Passou-se assim tanto tempo? – Questionou Nero, com os olhos focados no exterior, onde era possível ver as ondas baterem contra as rochas e se elevando quase à altura da própria ilha. O cheiro de água salgada invadia o salão.

Todos assentiram, e o Mestre cruzou os braços como o filho fazia antes, mostrando certa superioridade em tamanho.

— Nós damos dez horas, mas isso é uma média do quanto demoram os Espadachins mais experientes. – Explicou o mais velho, e a porta se fechou com a forte ventania gélida que trouxe algumas gotículas de água que bateram na face do ruivo. – Você demorou oito horas ali dentro, vagando sozinho. – Franziu o cenho, e suspirou pesadamente em seguida, mas admitiu a amarga verdade. – Com a sua idade, eu não teria metade da sua coragem.

— É, eu sou demais. – Todos riram naquela afirmação, e Nero ergueu o queixo, mantendo o peito farto e altivo, mas acabou rindo também.

A conversa tomou rumos diferentes daqueles. Nero recebeu algumas dicas de como manejar sua espada, percebendo que havia sido observado o tempo todo por algum dos dois homens presentes, e a ajudante apenas dava risadas com cada tropeço de palavras do Mestre. Acabou por se ausentar, novamente para seus cômodos para trabalhar na papelada que dizia respeito ao estabelecimento. Aparentemente, também pagavam taxas para se manterem ativos até como uma Guilda, e caso não fosse seu suporte inicial aos Aprendizes, Cavaleiros seriam quase inexistentes.
Ao fim de algumas horas de conversa, estava claro que passava das oito da noite, e Nero recebeu uma quantia de dez mil Zeny como prêmio pela sua audácia. Era o dobro do que espadachins comuns recebiam, devido à diferença de idade, e também, do recorde obtido, ignorando totalmente o de Cenia.

Todos se despediram, e Nero acompanhou Elendar pelas ruas mudas e desertas, até chegarem à estalagem onde o ruivo havia almoçado. Quem trabalhava no balcão, não era o mesmo homem de antes, e sim um mais baixo, quase um anão, porém esguio e de cabelos alvos. Jantaram, o rapaz recusou umas bebidas oferecidas pelo mais velho, e a conversa fluiu, até ser questionado do motivo de não ter suporte da própria família, já que ostentava de um sobrenome.
Os lábios se findaram numa única linha, mantendo o silêncio próprio, mas não o do salão, que estava lotado de homens conversando, bebendo, e jogando com cartas.

— Minha família… — Disse Nero, relutando com as memórias que começavam a transbordar em seu âmago. Os olhos voltaram a madeira polida da mesa, e também, para o prato tão vazio, que parecia ter sido lavado naquele exato momento.

— O que tem ela? – Insistiu Elendar, numa personalidade feroz, enquanto comia a décima coxa de Peru com as mãos nuas. Eram como as do Mestre, cobertas de calos e marcas de treino. Cicatrizes lisas e limpas, refletindo um tom de prateado na pele clara, com a vaga luz ambiente. – Desembucha, vá.

— É uma longa história. – Disse o rapaz, levemente acanhado.

— Temos a noite toda. Até amanhã ao toque do meio dia, não conseguirá ter uma cerimónia digna do menino prodígio. – Deu algumas risadas, roendo o osso da perna de peru, enquanto batia fortemente a sola das pernas no topo da mesa, inclinando a cadeira para trás, como se fosse cair. As risadas saíram desenfreadas de seus lábios, mas nenhum dos outros clientes pareceu se importar.

— É relativamente longa, pensando bem. – Admitiu o ruivo, mas antes que Elendar pudesse relutar novamente, o fuzilou com os olhos num intenso escarlate, o que deixou o bêbado levemente receoso sobre comentar qualquer coisa. – Eu vim de Amar’Sin, a cidade dita como amaldiçoada pelo demônio selado abaixo do palácio central. Sabe, eu até que acredito. – Pausou, molhando os lábios no copo de madeira preenchido com água à sua frente. – Todos os moradores, Ala Sul, Ala Norte, Oeste, Leste… Todos com um azar tremendo, mas os forasteiros, vendedores, mercadores, príncipes de províncias vizinhas, parecem terrivelmente sortudos. Perdi as contas de quantas vezes ouvi falar dos mercenários, quantos tesouros haviam encontrado, e nenhum deles era nativo da cidade, ou sequer morava nela. Cresci nas ruas.

— Continue. – Disse o homem, bebendo da caneca de cerveja na pausa.

— Vivi nas ruas, mas eu tinha minha mãe e meu irmão. Meus amigos… — Cabisbaixo, fungou brevemente, mas relutou ao choro. – Eu não estive completamente sozinho, não até fazer meus sete anos. Numa única noite, perdi tudo. – Riscou um lanho na mesa de madeira com a faca. Mais um, entre centenas. – Como um relâmpago de Thor, me tiraram minha mãe, e meus amigos. Bem diante de meus olhos vi os mercenários abaterem minha mãe como se fosse gado, e a violarem sem qualquer ressentimento. – Seus olhos transbordaram uma fúria sem igual, com a pupila incrivelmente afiada, dando a ideia de que caso fuzilasse com alguém com os olhos, mataria na certa. – Meus amigos, não presenciei suas mortes, mas tive a certeza delas. As confirmei. Eu mesmo as confirmei, junto de meu irmão.

— Onde está seu irmão agora? – Questionou o mais velho, se arrependendo no mesmo momento que seus olhos se encontravam com o aprendiz. – Calma, esse olhar pode matar.

— Desculpe. – Respondeu, e então, prosseguiu. – Fugimos para a Ala Norte. Escondemo-nos como ratos nas vielas mais escuras e pútridas. Vivemos ao relento até encontrarmos uma fenda nas muralhas decaídas. Roubamos, apanhamos, e roubamos de novo… Até que eu errei. – Seus dedos envolveram o cabo da faca em suas mãos, e pareceu forçar a lâmina na estrutura cerne da madeira. – Mercenários se aproveitaram da minha burrice e me venderam de mão em mão. – Então, quase sem esforço, a faca deslizou para o interior da madeira, antes de quebrar e sua lâmina voar para o outro lado da sala, onde espetou na parede de cortiça. Aquilo gerou um silêncio incômodo, mas não cessou as palavras que saíram numa cantiga furiosa. – Violado, violentado, explorado como um empregado, sem receber qualquer salário. Me venderam, me bateram, me torturaram por diversão, de mil e uma formas diferentes. – Seus dedos fortes para a idade que tinha, tatearam a mesa, batendo suas pontas fortes na estrutura. Toda a taverna consentiu, ouvindo em silêncio. – E então… — Todos estreitaram os ouvidos, para ouvir o fim da história. – Fui entregue para o abate, em uma arena clandestina. – Terminou de recitar, a princípio, para Elendar que se debruçava sobre a mesa, estoico. Só então olhou em volta, percebendo que era o centro das atenções. Encarou a faca quebrada em sua mão, e a soltou. Olhou ambas as mãos, tão feridas e cicatrizadas, em calos profundos que jamais desapareceriam. Pegou a própria espada, e disparou escadaria acima, para o cômodo pelo qual havia pagado mais cedo. Fechou a porta com força, e a trancou, se sentindo fraco aos olhos de todos, revelando sua fraqueza nítida, tingida de escarlate. Caiu em prantos deixar suas costas deslizarem sobre a madeira lisa da porta atrás de si, com a espada caída à sua direita, até que adormeceu.