As Prattis

33 [Capítulo 32]


Angelina acordara com um barulho incômodo que parecia o despertador. Tateara o lado esquerdo da cama em busca de Jessica, até lembrar-se que teria retornado ao seu quarto ainda de madrugada para evitar outro flagrante. Sentira-se invadir pelo desgosto de não poder acordar do lado de quem ama, mas o pensamento foi interrompido pelo chato som que se repetira.

Abrira os olhos devagar procurando o aparelho para desliga-lo, mas quando, com muito esforço, finalmente o olhara, percebera que não estava na hora dele tocar. Aturdida, procurou na direção da cabeceira novamente, e avistara o celular com a tela ainda iluminada, indicando um movimento recente.

Esticara-se mais uma vez para pega-lo e vira as últimas mensagens, em que Henrique dizia que já havia pensado sobre o que acontecera, decidido o que fazer, e por fim, marcando um encontro no mesmo lugar às 13h. Suspirara profundamente, exalando toda a tensão que se alastrara pelo corpo. Tentava manter-se otimista mas lá no fundo apenas temia o pior.

Digitara uma curta confirmação para o rapaz, e em seguida mandara uma mensagem para Jéssica contando o acontecido. Instantes depois o celular alertou novamente, dessa vez, a resposta da jovem, que claramente não teria conseguido dormir direito também:

Jes: Quer que eu vá com você?

Por mais que Angelina quisesse, essa resposta não estava nem em cogitação. Juntar aqueles dois no mesmo espaço de novo, e naquele momento, só pioraria ainda mais a situação. Precisava encontrar Henrique à sós e esperar que o rapaz estivesse mais compreensivo às suas palavras.

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Angelina chegara ao parque no horário marcado, e Henrique já estava à sua espera.

Aproximara-se hesitante do rapaz, com os ombros sobrecarregados de pressão. Sentira como se estivesse a ponto de ser submetida a uma audiência judicial, em que seria julgada por algum tipo de transgressão legal que teria cometido, e que cada passo dado naquela direção só a aproximaria mais da difícil decisão.

Infelizmente não podia fugir do julgamento, pelo simples medo da penitência, e isso a estimulou a dar o último passo e parar bem de frente ao rapaz, que teria acompanhado sua aproximação com atenção.

— Pensei que você fosse trazer a guarda-costas com você. — Brincou, recebendo um olhar fuzilante como resposta.

— Você pediu que eu viesse, eu estou aqui. Agora pare de brincar e me diga o que você decidiu. Você vai manter o silêncio ou não?

— Depende. — Ponderou, atraindo um olhar intrigado de Angelina.

— Do que? — Perguntou, visivelmente apreensiva com a resposta, embora jamais pudesse prever o que seria dito a seguir.

— Case comigo.

— O que? — Gritou, e o tom de voz saíra mais esganiçado que o normal, diante da natureza absurda – e totalmente inesperada – da proposta que recebera. — Você não ouviu nada do que eu falei ontem, Henrique? Eu amo a Jéssica. Como eu--...

— Eu ouvi, Angelina. — Disse, interrompendo-a, e expelindo um suspiro exasperado no fim. — E ainda estou ouvindo, já que você faz questão de me lembrar continuamente desse desatino. — Continuara, concluindo a frase com um gesto negativo de cabeça, que apenas fizera sentido quando suas próximas palavras foram pronunciadas – ... Mas nada disso importa.

— Como assim não importa? Você quer que alguém case com você sem te amar, e amando outra pessoa? Que falta de amor próprio é esse?

O rapaz a olhou sério, e claramente magoado. Respirara pesadamente em busca de paciência para aceitar o comentário que considerara ofensivo, e continuou seu implacável discurso.

— Você quer viver esse seu conto de fadas depravado que você criou, não quer? Então case-se comigo e você poderá viver esse amor da forma que bem desejar. – Angelina o encarou, atônita, sem acreditar no que estaria ouvindo, e o rapaz aproveitara-se desse instante para tocar em sua mão, e continuou – Vê como é perfeito? Eu vou ter você, ter a chance que eu preciso de melhorar financeiramente, e ninguém vai desconfiar da relação de vocês, enquanto você estiver comigo.

Angelina recuperou a sanidade, de repente, e afastou-se do toque do rapaz, sentindo-se visivelmente ofendida, e sem nem mesmo saber como responder àquela situação, que era tão bizarra, inapropriada e inesperada, que a garota simplesmente vira-se dominar pelo estado de perplexidade severo, que impedira suas habilidades mentais de elaborar sentenças temporariamente.

O rapaz divagava sozinho imaginando como seria o futuro deles, e como ele permitiria a “depravação” dela com a irmã bastarda, rindo dos próprios pensamentos, enquanto Angelina permanecia pasma encarando o rapaz, sem conseguir reagir àquele delirante disparate.

— ... Bom, isso se a Jessica não se importar de te dividir comigo, é lógico. — Concluíra, com um riso irônico no fim.

— Que maluquice é essa que você está dizendo? — Dissera, finalmente recobrando a consciência, embora ainda se encontrasse em estado de evidente confusão mental. – Jessica jamais faria isso e nem eu iria querer!

— Você estaria casada, Angelina. É claro que eu iria querer consumir a relação e ... — Dissera, interpretando sua resposta de maneira errada, e Angelina levantou a sobrancelha, em sinal de irritação e crescente impaciência.

— Henrique, eu não me casaria com você. Que ideia mais estapafúrdia é essa? — Argumentou a jovem, tentando recuperar o bom senso adormecido as palavras do rapaz, mas logo começara a perceber que era inútil.

— Por que? Angelina, pense como seria bom! Você não estaria devendo nada à ninguém. Mônica estaria satisfeita por ao menos você estar casada com um homem, e eu deixaria vocês continuarem se relacionando enquanto isso durar. — Finalizou com o tom de desprezo que lhe era peculiar referindo-se a relação da ex com Jéssica, e a mulher o encarou espantada.

— Meu Deus. Você realmente está considerando isso. — Angelina falou em voz baixa, e a soma do choque e decepção que sentira pelas atitudes do rapaz que estava a sua frente, as levaram ao apse de repulsa àquele encontro, e isso levou Angelina a girar o corpo na intenção de afastar-se e ir embora.

Henrique a segurou, impedindo-a de sair. Em um tom de voz baixo, mas soando suficientemente ameaçador, ele proferira.

— Você entende que não tem outra saída? Não entende?

Angelina o mirou fuzilando-o com os olhos, aparentando estar mais zangada do que nunca àqueles delírios que a contrariava.

— Você está louco se você pensa que eu me casaria com você só para proteger minha imagem! Eu sou adulta Henrique, e sei tomar responsabilidade pelos meus atos quando necessário. E não pense por um segundo que você pode impedir minha felicidade... Eu não devo nada a você.

Com um pequeno, mas ágil, impacto no braço do rapaz, Angelina soltara-se da prisão, e dera alguns pequenos passos de volta ao caminho que viera. Mas Henrique ainda não permitiria que ela sumisse de sua vista, e seguira a jovem, o suficiente para que ela ouvisse suas próximas palavras:

— Talvez eu não possa, Angelina. Mas eu sei quem pode. — Ameaçara mais uma vez, dessa vez em tom explícito, e Angelina parou pouco mais à frente, trêmula.

Sentira muita raiva do rapaz naquele momento. Mas, acima de tudo, lembrara-se das palavras de Jéssica da noite anterior. Realmente nunca teria o conhecido. Hoje tivera muitas provas da veracidade de suas palavras. Compreendera finalmente porque ninguém da família queria aceitar seu relacionamento com Henrique, e a percepção de seu mau julgamento veio à tona na mente da jovem, acompanhada de uma sensação de asco profundo por todos os momentos que estivera com ele.

Séria, Angelina girou o corpo na direção do ex namorado, que também estaria parado esperando uma reação da jovem.

— Você faria mesmo isso? Cumpriria a ameaça e contaria tudo para a Mônica se eu não aceitar sua proposta? — Perguntara, em uma mera tentativa de reparar aquilo que teria se quebrado para sempre dentro de si. Não queria acreditar que sua percepção fosse verdade, e que todas as lembranças que possuíra do rapaz tornaram-se nocivas, de repente.

— Você tem até amanhã para responder meu convite de casamento, senão eu vou ter o maior prazer de contar tudo para a hipócrita da Mônica, só pra ela saber o tipo de parentes que tem em ccas. Quem sabe assim ela não caia em si, e coloque aquela bastarda nojenta e a irmã para fora daquele casarão de uma vez! E olha que eu ainda estaria te fazendo um favor, te afastando daquela rameira.

A vontade que Angelina sentira foi de socar Henrique na cara e faze-lo pagar por todo o veneno que liberava, em forma de palavras. Mas estapeá-lo significaria lutar contra a repulsa que a impedia de aproximar-se mais um passo que fosse do ex namorado. E isso ela não iria fazer. Nunca mais. E, assim, reprimira sua raiva, sentindo os efeitos da repressão arderem levemente seus olhos.

— Você sabe o que é mais idiota? — Angelina questionou o rapaz, com uma lágrima destilando solitária por seu olhar lacrimejante.

Henrique compreendera a mudança da jovem em sua frente, que desprovera-se da intensa raiva reativa ao discurso do rapaz, para um olhar que transmitira algo que ele não conseguira ler. E ele a encarara confuso.

— Você estava dizendo todas essas coisas pra mim, e eu ainda não conseguia acreditar que eu pude me enganar tanto sobre quem você era de verdade... Me chame de ingênua, mas eu jamais imaginei que você seria capaz de algo assim. — Concluíra, dando ombros, afastando-se à passos largos, dessa vez com determinação, ignorando o rapaz gritar seu nome.

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Angelina passara do portão e correra em direção à casa, devastada. Sra. Perez a avistara entrando e se preocupara, perguntando em vão o que a jovem tinha, mas nem fora escutada. Instantes depois, entrara no quarto de Jéssica, de rompante, abraçando-a aos prantos. Sra. Perez, que a seguira, chegara na porta do quarto, que ainda estava aberta, tranquilizando-se quando viu a menina acompanhada, sendo consolada por Jéssica.

Assim que fora vista pela mais velha que ainda tinha a menor chorando em seus braços, Sra. Perez dera um pequeno piscar de olhos, com uma suave expressão facial, que indicou a Jéssica o tipo de confiança à qual teria lhe empregado.

Gentil, a governanta fechou a porta e saiu, enquanto a mais velha se emocionava por compreender que a senhora que ajudou a cria-las, teria deixado Angelina sob seus cuidados para ajuda-la naquele momento de crise. Maior prova de confiança não há.


Minutos se passaram, e finalmente Angelina começara a parar de chorar, recompondo-se da tristeza que sentira devastando-a por dentro. Jéssica já estava sentada na cama, com o fardo loiro de rosto úmido apoiado sobre o seu colo. Estava preocupada com a namorada, e mais do que nunca temendo pelo futuro delas. Sentira raiva de Henrique, embora não fosse capaz de imaginar a verdadeira razão pela qual a menor estaria naquele estado.

Enquanto isso, Angelina não conseguia parar de repetir a proposta que teria recebido de Henrique em sua mente, e a decepção que sentira ao notar que estivera tanto tempo com alguém que claramente não conhecia. As palavras do rapaz as perseguiam em eco, como um aterrorizante choque de realidade, que trouxera à consciência da jovem coisas que ela jamais pudera prever. Atestara sobre coisas que jamais voltariam a ser como antes.

Estava claro que não havia outra saída. Odiava dar razão a algo que saíra da boca de Henrique naquela tarde, mas ele estava certo sobre algo. No entanto, a ameaça de casamento nem era cogitada em sua mente. Ao contrário, Angelina percebera que estava na hora delas darem o maior passo de suas vidas, assumir a relação mesmo que aquilo envolvesse uma possível guerra fria familiar. Precisavam contar a Mônica toda a verdade, e o quanto antes, evitando assim que ela soubesse a verdade por outras fontes.

Porém, antes de mais nada, Angelina teria que explicar cada detalhe do encontro para Jéssica, que continuava sem saber o que estaria acontecendo. E, assim, ela o fez, trazendo a namorada à plena consciência sobre tudo o que teria acontecido, e a sua sequente – e possivelmente precipitada – decisão.