As Prattis

20 [Capítulo 19]


O dia anterior ainda a extasiava, eternizando cada segundo que jamais seria capaz de esquecer. Fora sua primeira vez, e com alguém que realmente amava. Finalmente, Angelina despertara sentindo nos lábios um intenso e mortificante gosto de quero mais. Tocara na boca levemente, sentindo o ardor de suas memórias latentes.

Desejara por toda sua vida conhecer o amor, e metera muitas vezes os pés pelas mãos na sua ânsia de descobrimento. Se apressara, se iludira, idealizara uma realidade que apenas lhe trazia medo. Medo do futuro, medo de não ser boa o suficiente, medo de não conseguir suprir as expectativas que os outros tinham sobre ela mas, acima de tudo, as expectativas que ela própria tinha sobre sua vida perfeita.

Nos seus sonhos não havia a cor cinza, nem meio termo, era o preto no branco, final feliz dos filmes, casais e famílias de comerciais de manteiga. Ela idealizara por toda a sua vida coisas que talvez jamais se tornassem realidade. Porque a vida, afinal, era algo moldável, e acima de tudo inesperado.

Amava perdidamente alguém que não lhe era suposto amar. Mas não tinha mais medo, nem ânsia pelo futuro perfeito dos contos de fada. Finalmente se sentia feliz, e compreendera que o amor verdadeiro não se “inventava”, ou “podava” como tentava fazer nos seus sonhos. Ele simplesmente acontecia, e deixava tudo diferente. A fazia moldar-se por ele.

Caberia a Angelina agora encarar aquela felicidade que se apresentara e suas possíveis consequências. Por que nada vinha de graça na vida, e as melhores coisas tinham um preço a se pagar. E o preço nesse caso se apresentava em forma de luta. Teria que ser corajosa e determinada para enfrentar os obstáculos que a família, cidade e sociedade em geral lhes impusesse, e assim o faria, a cada dia, lutaria bravamente por amor, e ela e Jéssica, juntas, galgariam o seu final feliz.

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Era início da tarde de domingo, e Jéssica caminhava ao lado de Gabriela pela cidade, em direção a uma pequena venda de frutas que situava-se quatro quadras acima. Gabriela carregava uma listinha de compras que Mônica teria lhe entregado. A mais velha chamara a irmã para acompanhá-la, porque fazia muito tempo que não conversavam à sós, e estava sentindo falta disso.

Jéssica, ao mesmo tempo, tinha tanta coisa para contar a irmã, mas lhe faltava coragem. Além disso, havia combinado com Angelina de esperar mais um pouco para expor a verdade para a família, então nem cabia a ela adiantar-se, meter os pés pelas mãos seria trair a confiança da namorada. Não sabia Jéssica, no entanto, que certas coisas nem precisam ser ditas, especialmente quando se trata de amor, porque a felicidade experienciada irradia, visível aos olhos de qualquer desconhecido.

— Eu tenho te achado mais feliz ultimamente. — Disse Gabriela, e Jessica abriu um sorriso em concordância, corando levemente, enquanto desviava o olhar para a terra do chão, tímida.

— E Angelina? — Indagou a irmã, com um ar displicente, e Jéssica a encarou evidenciando o seu susto. Teria ficado branca como um papel, em questão de segundos.

— C-como assim? Angelina o que? — Perguntou, gaguejante, evidenciando sua dúvida.

— Vocês não andaram meio enfraquecidas? Percebi que fizeram as pazes. — Perguntou recordando-se do Blackout e outros momentos que sucederam o fim do relacionamento da mais nova com Henrique.

— Ah! — Exclamou com um suspiro de alívio, e Gabriela estranhou. A reação desmedida e vacilante da mais nova ficara tão evidente, quanto a da mais velha parecia suspeitosa. Por qual outra razão Gabriela citaria o nome de Angelina naquele momento? O que mais estaria tentando sugerir? Talvez nada, e fosse a culpa de Jéssica não contar a irmã toda a verdade que estaria lhe consumindo e fazendo imaginar coisas que nem mesmo faziam parte dos pensamentos da irmã mais velha?

— Já faz um tempo que eu estava querendo passar um tempo com você à sós . . . — Admitiu, carinhosa, parecendo ignorar o nervosismo crescente da irmã ao ouvir o nome Angelina, e Jéssica agradeceu por isso, internamente.

Elas continuaram a caminhada, conversando bobagens, rindo, divertindo-se, e Jéssica percebeu o quanto também sentira falta disso.

Na saída da venda, encontraram a amarga viúva Sandra Pontes, que levava seu cachorro da raça yorkshire terrier todo vestido e com acessórios para passear. A senhora as olhou com extrema arrogância, e continuou andando, sem sequer perder tempo respondendo ao cumprimento educado de Gabriela. Sandra odiava aquela família, especialmente agora que o filho estaria encucado com a absursa ideia de casar-se com a “rameira Prattis”, como apelidara Luísa anos atrás.

— Eu não concordei com o posicionamento da Mônica sobre o retorno da Luísa com Mário, mas ela realmente tem razão em se preocupar, essa mulher é uma cobra prestes a dar o bote.


Havia muita coisa que Jessica gostaria de dizer naquele momento, sobre Luísa e Mônica, que certamente discordaria das palavras da irmã, mas ela simplesmente silenciou, limitando-se a assentir com a cabeça.

Alguns segundos depois, Gabriela a encarou sem entender.

— O que? — Perguntou Jéssica em autodefesa.

— Eu sou sua irmã mais velha, e percebo muito bem quando toco em um assunto que te incomoda. Sem contar que sua expressão mudou bastante depois disso. Fala.

— Não quero falar sobre isso.

— Ora, Jéssica! Se você sente necessidade de falar, fala. Percebi pela mudança de expressão que você queria me dizer alguma coisa.

Jéssica suspirou, e respondeu.

— Está bem. É sobre a Mônica. Eu não concordo em nada com a postura dela quando diz respeito ao amor. — Deu uma pausa e encarou a expressão curiosa da mais velha, que provavelmente imaginou em que a postura de Mônica a afetaria naquele momento, afinal a mais velha sempre fora assim e só agora o comportamento estava incomodando-a. — Não viu o que ela fez com a Luísa? — Defendeu-se Instintivamente em continuidade, tentando desviar a atenção para si mesma, o que foi claramente um fracasso. A irmã mais velha logo notara que a preocupação de Jéssica lhe era de origem pessoal.

Elas voltaram a caminhar pela trilha de volta ao casarão dos Toledo Prattis Lopes, em um estranho silêncio que perturbava Jéssica. Aquele comportamento não era normal da Gabriela, a não ser quando ela tinha muitas coisas na cabeça. Teria ido longe de mais?

— Você está gostando de alguém? — Perguntou Gabriela, repentinamente.

Jéssica a encarou rapidamente, antes de desviar seu foco de atenção para as pedrinhas no chão, envergonhada.

— Sim. — Respondeu tensa, sentindo a voz falhar e os ombros pesarem à pressão do momento.

— E você acredita que ela não aceitaria a pessoa que você gosta, tal como não gosta do Mário?

— Sim. — Respondeu afirmativamente mais uma vez, monossilábica, e aquilo seria tudo o que se limitaria a dizer sobre Angelina. Não poderia trair a confiança da namorada, e se ela não sentia-se pronta para assumir a relação, Jéssica era capaz de entender isso, e não iria força-la a fazer o contrário.

Gabriela a encarou com empatia, mas não podia concordar com aquele comportamento ou incentivar tais pensamentos. Não contra a Mônica, que sempre fora como uma mãe para todas elas, inclusive para a Gabriela mesmo tendo pouca diferença de idade.

— Mônica sempre foi a base dessa família. É a pessoa mais gentil que já conheci e a mais centrada de nossa família. Ela vive por nós, por aquela casa, por Deus e pelas caridades dela. E só deseja a nossa felicidade, acima de tudo.

— Eu sei disso, mas quando se trata de amor ela é muito. . . Inflexível. Não viu o que ela fez com Luisa?

Jéssica queria falar sobre a religião, e os julgamentos e implicações morais que possivelmente levaria Mônica a discordar da relação dela com Angelina, mas não podia contar da namorada. E não poderia dizer que é uma mulher, poderia dar muito na cara. Então Luísa era tudo o que poderia dizer em sua defesa. Mas sabia que aquilo não seria o suficiente para Gabriela compreender seus medos, e suas razões. Suspirou pesadamente em derrota anunciada, enquanto a mais velha continuava em esperança que a mais nova pudesse compreender as motivações que levavam a Mônica a meter os pés pelas mãos, mesmo tentando somente ajudar.

— Você sabe que quando nossas mães morreram foi a Mônica que cuidou de nós... Você ainda era nova, e foi a Mônica que criou você, a Luísa e a Angelina.

— Você também ajudou.

— Sim. Ajudei. Mas você sabe q eu não era um exemplo de maturidade na época. E eu nunca fui forte como a Mônica para aceitar tantas mudanças que tivemos, e tantas perdas. Eu passei por um período de depressão imenso, irmã, você não se recorda porque era criança, mas foi graças a Mônica, acima de tudo, que eu consegui dar a volta por cima, e que hoje estou aqui falando com você. Ela simplesmente absorveu o papel de matriarca dessa família, e abraçou tudo que aquilo implicava. Pontos bons e ruins.

Jessica recordara todas as experiências que passaram, suas lembranças da infância eram bem vagas realmente. Lembrava de Gabriela passar muito tempo no quarto por um período e inclusive fazer as refeições lá dentro, e só agora conseguira entender o que acontecera.

— Meu Deus, Gabi, pare de defender a Mônica! Não estou a criticando! Mas você acha que fazer caridade e ser matriarca dá a alguém o direito de querer controlar os sentimentos dos outros? Dizer o que as pessoas podem ou não fazer pelo resto de suas vidas? — Falou, alterando-se um pouco no tom de voz e Gabriela a olhou fuzilante, e respondeu:

— Eu sou muito agradecida por tudo o que a família Toledo Prattis fez por nós, e não acredito que você seja tão ingrata por não perceber isso. – Disse no mesmo tom de voz aborrecido, e Jéssica paralisou, em choque, com o que teria visto no olhar da irmã, que sempre fora tão calma. Imediatamente notara que a mais velha tinha a razão. Gabriela pareceu perceber isso, pois conteve-se em seguida, e continuou. — A moral da história é: Mônica pode fazer coisas erradas mas só tenta acertar. Ela se preocupa com a gente mais até do que se preocupa consigo mesmo. E nos ama. Nos ama muito. Então posso te garantir que ela só quer o melhor pra nós, e não está nos impedindo de fazer nada... Afinal, Luísa não foi impedida de casar, ou sim? Mônica pode até não concordar, mas não está fazendo nada para destruir a relação ou impedir o casamento. Até porque não é do feitio dela fazer nada do tipo.

A irmã tinha toda a razão. Jéssica também era empática a tudo o que Mônica fez por todas elas, acima de tudo pelas Lopes que nem mesmo eram irmãs biológicas das Toledo Prattis, mas nunca foram tratadas de maneira diferente. Jéssica amava a Mônica, e como a Gabriela também a via como mãe, de certa maneira. E talvez estivesse aí a origem do problema. Talvez amasse tanto a Mônica que sentia raiva por achar que não seria aceita e que algum dia a perderia simplesmente por ser quem é, e por amar quem ama.

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No outro dia.

Depois de muita espera, Angelina finalmente ouvira o sinal alertar o final daquela aula exaustiva de extenso conteúdo de organização do trabalho que recebera nas últimas duas horas. Arrumara seus livros e pertences em uma fração de segundos, colocara-os na bolsa e adiantara-se na direção da saída, louca para apreciar a sensação de liberdade fora daquela sala e daquele assunto chato. Quando decidira fazer administração não considerara que certas disciplinas fossem ser tão sofridas.

Passara pelos corredores e saíra do prédio apreciando a luz do sol que hoje parecia radiante. Passou na frente da sala de Henrique e nem se importou, há semanas nem se lembrava mais da existência do rapaz, exceto quando o encontrava em algum lugar por acaso.

Caminhara pelo estacionamento do campus, e decidira por para um instante, e fechar os olhos, respirando o ar fresco que todas aquelas estrutura acadêmica lhe escondia. Suspirou inevitavelmente, lembrando de Jéssica e todas as mudanças que tiveram em sua vida nas últimas semanas.

Aonde ela estaria agora? Deveria ligar. Abrira a bolsa e resgatara seu telefone, mordiscando de leve o lábio inferior, quando sentira alguém tocando-a no braço. Olhara na direção do toque, e não surpreendera-se ao avistar Henrique.

— Queria conversar com você. Podemos sair daqui?

Ela o encarou meio incrédula, já teria passado tanto tempo de separação, ele estaria com outra, até Angelina já teria seguido sua vida e dado uma guinada na sua vida de 180 graus ao apaixonar-se por Jéssica – não que ele soubesse de nada disso , mas ainda assim, que assunto eles ainda teriam para discutir?

— Estou um pouco apressada.

— Angelina, por favor. Só te peço 5 minutos do seu tempo. Preciso falar com você. Por favor.
Curiosa, Angelina gesticulou com a cabeça em concordância e ele pediu que ela a seguisse, e assim foram caminhando na direção do parque.