As Prattis

16 [Capítulo 15]


Luísa voltara do portão principal onde teria se despedido de Mario, carrancuda. Estava aborrecida pela atitude de Mônica, odiava a superproteção irracional que a irmã mais velha desempenhava na casa dos Toledo Prattis desde a morte da mãe delas. Mônica não entendia nada de amor! Passara pelo corredor, em direção à sala principal, onde todas as três ainda estavam interagindo, animadamente. De repente, observara algo que logo lhe chamara a atenção. Jéssica estava sentada no sofá, perto de Angelina, e ambas, em meio a agitação e risadas, teriam se esticado ao mesmo tempo sob à mesa de centro, para pegar os copos de vinho tinto que estariam apreciando, o que fez com que os dedos se roçassem levemente.

As expressões delas mudaram de imediato, e enquanto Angelina mexia no cabelo em evidente sinal de desconforto, Jéssica desviara o olhar, corando-se um pouco. Fora um toque singelo, rico na sutileza do momento, mas acabara por provocar nelas sensações amplificadas. Luísa não sabia, mas enquanto Jéssica recordara toda a explosão que teria sido o início da manhã, Angelina sentira uma espécie de choque elétrico com aquele toque, o que aguçou ainda mais a sua “curiosidade” pelos possíveis benefícios do seu novo tipo de relação com Jéssica, por assim dizer.

Já havia passado algum tempo que Mário teria ido embora. Mônica ainda estava trancada no quarto. Angelina e Jéssica teriam acabado por engatar novas conversas bobas com Luísa e Gabriela, que depois teriam se ocupado de outros afazeres, sobrando para elas a escolha de continuar a conversa a sós, ou não. Obviamente, decidiram permanecer ali, juntas, e de um assunto desviaram para vários outros sem perceber o tempo passar de segundos para minutos e, por fim, horas.

Tanto tempo se passara e elas ainda encontravam-se sentadas no sofá da sala, viradas uma para outra, completamente absortas do resto do mundo. Viram um filme, discutiram temáticas diversas, se entretendo tanto que nem mesmo notaram quantas vezes pessoas entraram e saíram da sala, empregados limparam móveis, telefones tocaram — exceto quando elas eram chamadas.

Angelina sorria das bobagens de Jéssica como se fossem coisas engraçadíssimas e de outro mundo, e sempre que podia a fazia rir também. Pareciam ter voltado ao normal. Angelina adorava ficar observando as bochechas de Jéssica contraindo-se rapidamente nas risadas, enquanto apareciam os pequenos furos que a mais nova possuía na região lateral das faces, próximos a boca. Sempre adorara o riso de Jéssica, mas naquele momento qualquer coisa lhe pareceria ainda mais encantador.

Sabe aquela pergunta que Angelina teria se feito há horas atrás? No fundo ela sabia a resposta. E Já estava na cara dela há muito tempo, só ela que não havia percebido. Quando as duas estavam juntas, criavam um mundo novo, em uma versão só delas, que apenas elas entendiam e ninguém mais se encaixava. Mas fora quando se pegara pensando insanidades como possíveis maneiras de ficarem juntas para sempre, tipo internar-se em um convento para viverem escondidas de todos, que Angelina percebeu o quanto estava encrencada!! Estava realmente apaixonada.

— Nossa... Você já viu a hora? — Dissera, mostrando o ponteiro apontar para meia noite e meia, e Jéssica encostou sua mão no relógio de Angelina, para vira-lo de forma a enxergar melhor. Os dedos se tocaram novamente, e assim que notou isso, Jéssica os afastou, constrangida. A pequena sensação de choque atacara novamente, dessa vez em Jéssica. Sorriram sem jeito, tímidas.

— Caramba. E eu tenho aula amanhã. — Respondera Angelina, disfarçando a agonia com a nova preocupação (covarde, mas legítima) que agora tinha em mente.

A mais nova levantou de rompante, e desligaram a tv. Jéssica a acompanhou, ambas dirigiram-se ao mesmo corredor do casarão onde ficavam os respectivos quartos. Elas ficaram impressionadas com a quantidade de luzes apagadas que encontraram por todo o trajeto. Todos já teriam ido dormir? Caramba!

O primeiro quarto era o de Jéssica. Do lado direito do corredor. Angelina ficou na porta, parada, como se estivesse acompanhando-a depois de um primeiro encontro e a esperasse entrar:

— Está me acompanhando até o quarto, é isso? — Questionou irônica, gerando na outra um abafado riso de concordância. Jéssica reparou, e mordiscou os lábios disfarçando a vontade que sentira de agarra-la ali mesmo.

— Digamos que estou garantindo que você chegará sã e salva, já que ficamos juntas até às 00h35. — Brincou Angelina olhando o relógio, exibido o sorriso mais fascinante e mais espontâneo de toda a noite. Jéssica reparou e mordeu os lábios novamente, rindo mais uma vez, dessa vez mais tímida, baixando o olhar em seguida. Realmente era muito fofa ver Jéssica tendo aquela atitude.

Angelina evidenciara um conflito de Jéssica sobre entrar logo ou não, e ambas se entreolharam por alguns instantes, até que a mais velha se decidira, abriu a porta e adentrou o recinto. Quando estava prestes a bater a porta, Angelina empurrou-a levemente, de modo a facilitar a própria entrada, e jogara-se impulsivamente contra o corpo de Jéssica, beijando-a apaixonadamente, enquanto fechava a porta do quarto com seu pé. Por fim, a abraçou apertado, intencionalmente inalando e impregnando a essência daquele inconfundível perfume Floratta Rose, em si.

— Agora. . . — Dissera em um sussurro bem rouco, com o pouco de voz que ainda conseguira arranjar, e Jéssica dera um penoso suspiro como resposta — ... Boa noite. — Desejou, afastando-se aos poucos, pra desespero completo da mais velha, que delicadamente tomara suas mãos para si, em um silencioso pedido.

Angelina levantou a sobrancelha divertidamente ao desespero da outra. Era muito fofo! Jéssica não aguentava mais esperar para senti-la em seus braços. E para ser sincera, ela também não. Mas era necessário, e o olhar de Angelina transmitiu a paz e a verdade que Jéssica precisava absorver, para deixa-la ir sem medos.

Surpreendentemente, no entanto, ao invés de sair, Angelina dera outro beijo em Jéssica, dessa vez com um roçar dos lábios perfeitamente sincronizados em movimentos calmos e leves. Algo completamente inesperado, que a relaxou totalmente. Era mais uma prova que estava sendo 100% correspondida.

Compreendera, enfim, que não valia a pena ter ansiedade, atropelar o momento que elas estariam vivendo agora, quando o melhor momento era exatamente esse: ir conhecendo os limites e aprofundando a relação grão em grão até que a mesma se torne algo sólido e esperançosamente duradouro. Angelina não queria que a primeira vez delas fosse assim, e tinha toda a razão. Para que a pressa?