As Prattis
14 [Capítulo 13]
— O que você quer comigo ainda, Angel? Por Deus, me deixa em paz. – Disse magoada, bloqueando a passagem para que Angelina não entrasse no quarto.
— Me deixa entrar, Jes. Por favor. — Sussurrou docemente com uma voz triste, e Jéssica suspirou em resposta, abrindo a porta logo depois. O fato de não conseguir resistir aos encantos de Angelina, mesmo naquele instante, a chateava profundamente. Angelina fechara a porta na passagem.
— Posso saber o que ainda temos pra conversar? — Indagou fria, enquanto observava Angelina entrar no espaço, e recostar-se à porta fechada.
— Jes, pense um pouco. Você sabe que eu jamais pensaria algo assim de você. Você é mais do que minha família. Você é minha “alma gêmea". Lembra disso?
Os olhos de Jéssica marejaram, enquanto ela esboçava um inevitável sorriso. Lembrar do passado é sempre tão bom, exceto quando ele nos lembra do que estamos prestes a perder no presente.
— Eu não quero te perder. — Admitiu, com a voz chorosa, enquanto puxava Angelina para um abraço apertado.
— Você está louca? Você jamais vai me perder. — A seriedade e a calma na voz de Angelina transmitiu mais veracidade às suas palavras, e ajudara Jéssica a se acalmar. Pouco depois, ela afastou-se do abraço e encarou Angelina, que a observava com intensidade. — Eu só quis te dizer que não sou forte como você. Que não há espaço na família Prattis, no sentido de não ser o esperado, o aceitado. Por muitas gerações.
— Está bem, eu já entendi. Não vou manter esperanças de que vamos ficar juntas no final, como se isso fosse apenas uma comédia romântica da Sessão da Tarde.
— Eu gostaria de ver isso. Uma comédia romântica homossexual passando na sessão da tarde. Imagina a cara daquelas beatas da igreja assistindo?
As duas riram, e Jéssica mordiscou mais uma vez seu lábio inferior.
— Você se incomoda de sair um pouquinho? — Fez uma pausa sentindo a tensão retornar ao ambiente. — Eu estou precisando ficar sozinha no meu quarto... — Suspirou, pesadamente por um segundo — Absorver tudo isso.
— Você entendeu que jamais vou me afastar de você, não entendeu? — Perguntou, em tom de quase súplica e Jéssica involuntariamente sorriu ao comportamento preocupado da amiga.
— Está tudo bem. Mesmo. Só preciso ficar sozinha.
Uma lágrima descia do olho direito de Jéssica, que recebera um doce beijo casto no rosto de Angelina. A mais nova então afastou-se na direção da porta fechada, e chegou a tocar na fechadura, quando algo a fez mudar de ideia.
Ainda não estava tudo esclarecido. Ainda havia coisas que ela não entendia. Não sabia se era curiosidade ou necessidade, mas ela simplesmente precisava saber. E virou-se com a expressão de dúvida pra Jéssica que agora estava de pé ao lado da cama, e a encarou, aturdida, pela hesitação da jovem. Angelina aproximou-se, curiosa.
— Por que você não quis me beijar? Você já teve duas oportunidades em que eu não demonstrei resistência alguma, e você fugiu de mim nas duas vezes. Por que isso?
— Não acho que isso faria alguma diferença agora, Angel. — Disse, acenando negativamente com a cabeça, martelando na mente o fora que teria acabado de tomar no estábulo: “Eu queria te dizer para não ter esperança sobre nós”. E a jovem fora até a porta reativamente.
— Eu só quero entender. — Não sabia ao certo se era só essa a razão, mas fora a primeira desculpa que Angelina arranjara para responder a amiga.
— Mas essa conversa já acabou. Você já deu seu ponto final, e agora precisa me deixar sozinha, para que eu possa me acostumar à ideia. — Jéssica abrira a porta, colocando-a para fora sutilmente, mas Angelina estava presa ali como se tivesse criado raízes.
— Não, Jéssica, não acabou. — Disse, fechando a porta novamente. — Eu sinto que preciso saber. Se você gosta de mim, por que não me beijou?
— “Se” eu gosto? Você ainda duvida?
— Não é isso, mas como você não quis me beijar duas vezes, eu me senti rejeitada.
— Ah, então é disso que se trata? Está com o ego ferido? – Angelina a encarou ofendida, e ensaiou dizer um não, mas Jéssica sentira uma onda de mágoas e irritação invadindo o seu corpo diante de tal insistência. Ela já havia sido rejeitada várias vezes hoje, e nem por isso estava pressionando a garota sem aceitar a derrota. Pelo contrário, estava tentando acostumar-se à ideia que aquele amor estava fadado ao platonismo para sempre — O que você quer que eu diga, garota? Que eu diga o quanto sempre fui completamente apaixonada por você? Que eu nunca senti isso por mais ninguém? — Falou, debochada, sentindo-se aborrecida internamente por estar sendo colocada contra à parede por coisas que nem fariam sentido argumentar.
Já teria levado o fora, o que mais Angelina fazia ali? No entanto, dissera. Tudo o que sempre quisera esconder. Seu amor platônico e anos de sofrimento. Acabara de escancarar os véus de sua existência, e da relação delas, admitindo toda a verdade nua e crua para a amiga, que agora conhecia a profundidade dos seus sentimentos. E o medo tomara conta, se arrependendo em seguida. Medo de como Angelina responderia a tal intensidade.
Era a primeira vez que Jéssica admitia abertamente o que sentia, e mesmo tendo sido feito com tantas lágrimas latentes, e tristezas submersas, Angelina não pôde evitar sentir um certo prazer em finalmente escutar aquilo. Mordera os lábios levemente, sentindo uma intensa necessidade de abraça-la. Agora sabia a verdade. Por anos, ela teria sido o amor platônico de sua melhor amiga. Porém, isso a fazia voltar ao questionamento inicial. Se era realmente tão importante pra ela, porque ela não a beijara?
— Agora responde o que eu perguntei, Jéssica.
Um minuto de silêncio se fez no quarto, enquanto ambas se entreolhavam sem nada dizer. Como Jéssica podia absorver o fato que havia sido rejeitada, se Angelina parecia uma mula empacada naquele quarto, e inventava razões para não sair dali. Afinal, o que ela estava querendo provar? Irritada, Jéssica decidira admitir tudo de uma vez, talvez assim Angelina finalmente desse por satisfeita e saísse.
— Porque eu não queria que nosso primeiro beijo acontecesse no meio de tantas dúvidas. Que você se arrependesse de ter feito, segundos depois que a gente se afastasse.
Angelina encarava Jéssica, visivelmente emocionada. Teria considerado tantas bobagens, mas em nenhum momento considerara isso. Jéssica a amava tanto, que preferia não tê-la em seus braços, a tê-la sem saber o que quer.
— E você sabe que era exatamente isso que iria acontecer. Você deve até ter sentido alívio quando eu me afastei. – Continuou.
— Você me conhece muito bem. — Disse, esboçando um meigo sorriso, enquanto pegava a mão de Jéssica, e trazia ela para mais perto de si.
— O que você está fazendo?
A mais velha lhe encarava sem entender, enquanto Angelina analisava cada detalhe do seu rosto, reduzindo a cada segundo a pouca distância que ainda havia entre elas.
— O que eu já deveria ter feito há muito tempo.
— Não faça isso, você pode se arrepender. — Jéssica sussurrou, rouca. Sua voz simplesmente se embargara na emoção do momento. Tivera a intenção de ajudar a amiga a recuperar o bom senso, embora o efeito tivesse sido o exato oposto.
O ar quente que saíra juntamente com aquelas palavras ardera na face de Angelina, que acabara fervendo em excitação. Impulsivamente, a mais nova abraçara Jéssica, invadindo completamente o espaço entre os corpos, e juntou os rostos, enquanto tocava a face da outra com a própria pele. A pele de Jéssica era macia, e já teria sentido ela por tantas vezes, em cada toque, em cada abraço, mas jamais teria sentido-as da maneira que sentia agora. Ela possuía uma calidez inconfundível.
Jéssica estava entregue, completamente incapaz de resistir àquele ataque preciso. Há muito tempo sonhara com esse momento, mas nada se comparava ao que estava acontecendo realmente. A realidade era muito melhor do que qualquer ficção.
A familiar fragrância amadeirada de Angelina invadia suas narinas, deixando-a ainda mais extasiada, e a jovem soltara um profundo suspiro, que fora perfeitamente ouvido pela mais nova, que reagira empurrando-a gentilmente contra a porta, e tocando sua face dessa vez com os lábios, descendo na direção do pescoço em uma ânsia feroz. Finalmente subira em busca de algo que ela não mais conseguia evitar, que não mais considerava-se capaz de resistir. Precisava sentir. Precisava beija-la. Imediatamente.
Seus lábios procuraram os de Jéssica, revezando-se em latentes sensações. A língua de Angelina invadira, sem pressa, a boca de Jéssica, que liberou a passagem, e com alguns segundos de toques, a mais velha finalmente reagiu, virando-se de lugar com Angelina, dessa vez pressionando-a contra a porta, e aprofundando ainda mais o beijo.
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