As Prattis
5 [Capítulo 4]
Angelina chegara em casa correndo, e jogara-se na cama, aos prantos. Nem mesmo sabia se havia gostado dele realmente, ou se algum dia haveria de gostar de alguém de verdade. Era tão nova, e possuía tão pouca experiência no assunto. Ele teria sido seu segundo namorado, mas o único com quem passou mais de um ano juntos, e único com quem pensou em casar, e constituir família.
Estaria tão errada por querer isso? Era um desejo tão absurdo assim? O ex poderia ser tudo aquilo que Mônica teria dito, mas por alguma louca razão, ela sentia-se segura com ele. E casando, ela não precisaria mais preocupar-se com o futuro. Não há nada mais cômodo do que ser uma dona de casa, mãe, zeladora de seus próprios ninhos. Mas, de repente, ele a rejeitou, e agora sentia-se humilhada, e com o ego magoado.
Minutos depois, Angelina entrou no chuveiro, despindo-se de toda a mágoa que esse evento escondia. As lágrimas desciam, afundadas na frustração de ter perdido a única chance que tivera de possuir a estabilidade tão falada do matrimônio, mesmo que isso trouxesse a inevitável falta de liberdade que a convenção religiosa determina.
Suas irmãs podiam tentar consolá-la, mas nem mesmo Angelina era capaz de entender a dor no peito que sentia. Tudo que apenas se traduzia no seu medo de ficar sozinha.
De repente, a porta do banheiro se abriu, e Jéssica entrou à passos e voz firmes:
— Saia daqui, Jes. Eu estou nua, não está vendo? — Reagiu, em autodefesa, tentando afasta-la dali, embora deixasse claro que a questão em jogo não era realmente uma preservação pudica, já que mesmo o box sendo de vidro, Angelina não se importou em cobrir-se.
— Como se eu jamais tivesse visto. — Disse, em tom de descaso. Algo na sua voz fez Angelina suspirar, incomodada. Sabia o que iria acontecer. Sabia a razão daquela invasão no seu quarto. Sabia que elas iriam discutir. E, definitivamente, não queria isso agora.
— Você agora vai brigar com toda a sua família por causa desse rapaz?
— Ah. Você ouviu a discussão, e também vai me crucificar. Mas que surpresa! — Disse ironicamente, transferindo sua raiva por tudo que estava acontecendo para mais um membro de sua família.
— Chega, Angelina. Pare de crucificar os outros! Você está arranjando motivos para o cara ter te traído, enquanto está na cara que a única razão dele ter terminado foi ele próprio. Ele não demorou de seguir em frente, como você pôde ver. E devo ressaltar o que no fundo você também já sabe, que aquela intimidade deles certamente não foi conseguida em duas semanas de relacionamento.
— Saia daqui! — Gritou, exasperada. Jéssica havia ido longe demais. Sugerir que Henrique a estava traindo todo esse tempo?! Mas que absurdo!
— Eu não vou sair... E, quer saber? — Em um súbito ato nervoso, Jéssica invadiu o box do banheiro, empurrando-a contra a parede, e molhando-se completamente no processo — Eu quero que você saia dessa fossa agora! — Seu dedo apontava em movimentos bruscos para o coração da amiga, porém sem machucá-la. Angelina permanecia petrificada, diante de comportamento tão despudorado e confuso por parte de Jéssica. — O Henrique nunca te mereceu. Nunca! E sua irmã nada mais fez do que tentar proteger você, sua honra, e os bens da sua família. Você viu o que aconteceu comigo no passado, viu como uma má escolha pode destruir a vida de toda uma família! Meu pai era um homem maravilhoso, e eu nunca vou conseguir odiá-lo por tudo o que fez. Mas ele claramente não estava pronto para ter uma família, e eu não vou admitir que você trate sua irmã daquela forma.
Os olhos de Angelina lacrimejaram, à medida que ela ia compreendendo aonde Jéssica queria chegar. A amiga tinha toda a razão. Estava arranjando um milhão de desculpas, e culpando todas as pessoas que verdadeiramente a ama, enquanto a única razão daquele término é que não era para ser. Nem o amava, afinal de contas. E, de repente, aquilo lhe pareceu tão óbvio. Agarrou-se a uma ilusão, e quase se pôs contra sua família para conseguir o que queria: sua fantasia de vida perfeita. Felizmente Jéssica lhe trouxe a razão!
Percebendo o marejar da mais nova, Jéssica puxou a amiga para um abraço apertado, e levou seu rosto recém-molhado ao ombro da menor. A água não parava de cair sobre elas, mas nenhuma das duas manifestava desejar uma saída. O corpo de Angelina se arrepiou levemente ao sentir um suave beijo em seus ombros, em mais uma demonstração de carinho da amiga. Embora ainda estivesse chocada com a impulsividade de Jéssica quando invadiu o chuveiro, Angelina estava realmente aliviada, por dar-se conta de todos os seus enganos, e em saber que podia contar com a melhor amiga.
— Eu só... não entendo... — Sussurrou, no ouvido da amiga, que a apertava ainda mais contra si, tentando tranquiliza-la.
— Shiii! — Sonorizou roucamente, tocando levemente nos lábios úmidos de Angelina com seu dedo direito, fazendo-a parar de falar bruscamente, ao sentir estranhas ondas de calor percorrendo os dedos de Jéssica, em direção ao seu corpo, o que fez com que também sentisse toda a calidez que possuía naquela pessoa a sua frente, no que dizia respeito ao seu nome, e àquela família. — Eu não vou deixar você ficar se torturando por causa dele. Você não fez nada, e ele que é um menino estúpido e mimado, que não sabe apreciar a magnífica mulher que estava disposta a constituir uma vida com ele!
Angelina fechou os olhos, enquanto ouvia a voz rouca de Jéssica soar em seus ouvidos, em outro abraço. Não havia mais dúvida. Aquela discussão, reconciliação, e atitudes impulsivas entre duas amigas estavam deixando-a visivelmente excitada, e Angelina afastou-se de Jéssica por centímetros, e a encarara, sem conseguir disfarçar o súbito interesse nos seus lábios, tão próximos de si.
O que acabara de acontecer? Jéssica sentiu a mudança de comportamento da amiga, e ligeiramente trêmula, arriscou aproximar o rosto em movimentos bem devagar, analisando todas as reações de Angelina. Pouco depois, ao ver nos olhos da amiga um súbito nervosismo e insegurança, Jéssica recuou, dando dois passos para trás, sentindo certa dificuldade para coordenar os movimentos, tamanho o seu desespero por continuar aquele momento. Angelina não parecia pronta para enfrentar o que estava prestes a ocorrer, e não estava preparada para perder a amizade da outra, caso algo desse errado.
— Agora eu vou te deixar tomar banho em paz. — Disse, em voz baixa, e já virada para a porta, evitando olhar para Angelina enquanto saía em disparada do local. Sentia-se de certo modo envergonhada. Por muito, mas muito pouco, não teria conseguido conter os seus instintos. Por tanto tempo sonhara com isso, e de repente, estivera a um passo de conseguir.
A amiga que estava nua, mas ela havia acabado de despir-se de todos os segredos perante a outra. Agora tudo estava na cara de Angelina, e ela só precisava do mínimo de esperteza, para conseguir compreender. Felizmente, estava claro que Angelina tinha sentido o mesmo que ela, o que lhe trazia uma sensação de alívio por ter menos chances de perder a amizade da jovem para sempre. Quem sabe sentindo o mesmo ela pudesse ser mais sensível à situação, mesmo sendo contra todos os paradigmas aprendidos em toda sua vida?
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