As Prattis

31 [Capítulo 30]


3 horas depois.

Organizada minuciosamente pela anfitriã e amante de festas, Sandra, a ampla e luxuosa casa dos Pontes teria aberto os portões para receber os convidados do casamento, em comemoração ao “glorioso” – tirando todo o descontentamento original – casamento do filho com a jovem da família Prattis.

Repleto de pessoas pelo o jardim, saguão, e praticamente todos os corredores de acesso às áreas sociais da casa – exceto ambientes privativos como dormitórios que mantinham-se fechadas. Um variado bufê localizava-se na enorme mesa de centro da sala de jantar, e logo a muvuca interna se fez inevitável, e com a movimentação constante, música alta, e conversas animadas, fugir dos barulhos recorrentes tornara-se impossível.

Incomodadas, Mônica e Gabriela já planejavam uma desculpa para voltarem cedo para casa, loucas para aliviarem os tímpanos de tal sofrimento, enquanto a noiva Luísa estava divertindo-se como se não houvesse amanhã na pista de dança, ao lado do recém marido, embora recebesse a todo instante – logicamente sem querer –, palpites da mais velha Prattis sobre os cuidados que ela deveria ter em seu estado.

Alheia a tudo isso, a mais nova Prattis, Angelina, só tentava uma oportunidade de falar com Jéssica, e melhorar o clima entre elas já que a mais velha continuava evitando deliberadamente qualquer tentativa de contato.

Começara a segui-la pela festa na esperança de encontrar um ambiente vazio para conversarem, sem sucesso. Até que, alguns longos, arrastados e sofridos minutos depois, Jéssica fora até o banheiro que passara por uma área pouco mais reservada, e a mais nova aproveitou o momento para surpreende-la entrando depois da garota sem que fosse notada, e fechara a porta por trás de si.

— Você não vai passar a noite inteira me ignorando, Jéssica. — Afirmara, recebendo um olhar de reprovação da outra, logo que reparara sua presença.

— Oh! Você quer conversar agora? Não acha que teve dias o suficiente pra isso? — Provocou, referindo-se claramente à conversa com Henrique, e Angelina suspirou contrariada, retrucando em seguida:

— Se você quer saber o que houve com Henrique, me pergunte diretamente, mas não me trate assim.

— Mas por que eu iria querer saber algo que aconteceu há semanas e que você não se deu ao trabalho de me dizer? Não vejo muito sentido nisso.

Angelina sentira-se cortar com a mágoa que ecoava pela voz da namorada, enquanto relembrava os acontecimentos em sua mente que teria levado à involuntária falha. Realmente não teria contado, por esquecimento, o que acontecera com Henrique naquele dia, e depois que ocorrera o flagrante com Gabriela, sobreveio a decisão de terminar, e elas acabaram se afastando.

Agora, tanto tempo depois, precisava explicar a razão para aquela omissão de modo que a outra compreendesse a total falta de relação entre os fatos supracitados.

— Eu esqueci. — Dissera, simplesmente, dando ombros, tentando apenas ganhar tempo enquanto maquinava como responder à inquisição de maneira mais sincera e convincente possível.

— “Você esqueceu?” – respondera soando intencionalmente irônica, enquanto forçava um riso. — É essa a sua desculpa? Você quer mesmo que eu acredite nisso?

Embora fria, a voz de Jéssica não soara rude aos ouvidos da menor. Cada palavra pronunciada transparecia a necessidade da mais velha de uma resposta que a fizesse convictamente acreditar naquelas palavras, e de repente, Angelina compreendera o que precisava ser dito.

Com tanta coisa acontecendo em sua vida ao mesmo tempo, – fatos e sentimentos inesperados, conflitos familiares e todos os receios internos –, revirando-a por completo em ritmo alucinante, o encontro que tivera com Henrique e o comportamento do rapaz naquela manhã, logicamente seriam as últimas coisas que a preocuparia. Essa era a única resposta plausível.

— Jéssica, eu não sei se você percebeu, mas o que Henrique faz ou deixa de fazer já não é importante para mim. Você é. E a situação ocorreu bem no dia que você desapareceu com Luísa, que eu fiquei preocupada, e com saudade. Então eu não tive tempo nem vontade de me preocupar com Henrique bêbado se jogando em cima de mim. Ele é passado, Jéssica. Você é meu presente.

Jéssica se calara, consciente da ótima resposta que teria recebido, capaz de desarma-la, em questão de segundos, de qualquer irritação ou mágoa. Como poderia argumentar alguma coisa, diante de tal declaração com uma intensidade de sentimento que por alguns instantes gerara um efeito paralisante.

— E ele te beijou? — Perguntara em um tom de voz mais ameno, embora ainda transparecesse sua aflição pelo provável movimento do rival em sua namorada. No entanto, mesmo sentindo-se invadir pelo ciúme, ela já demonstrava o discernimento necessário pra compreender a possível inocência de Angelina na história.

— Tentou, mas eu não permiti. E ainda deixei ele plantado no meio da rua, para ir procura-la no parque, pensando que você estaria lá.

As palavras de Angelina remeteram à Jéssica onde ela esteve naquele dia, e que também não teria sido tão honesta com a namorada sobre o que estivera fazendo com Luísa na rua. Lembrara em seguida do momento em que a mais nova soube a verdade sobre a gravidez, na conturbada reunião familiar onde deduzira a omissão, e mesmo assim não julgara seu comportamento. Ao contrário, preparara tudo aquilo à noite no estábulo só para surpreendê-la.

Sentindo a mudança na expressão corporal e visível suavização no rosto da jovem à sua frente, Angelina aproximara-se de Jéssica amorosamente, enlaçando-a com seus braços, puxando-a de leve para si.

— Te amo. – Sussurrara no ouvido da maior, que enterrara reativamente o rosto nos ombros de Angelina, cheirando e acariciando com a própria face a pele da outra, sua maior fonte de calmante natural.

Instantes depois, sentira a mão suave da mais nova tocar delicadamente no seu rosto, guiando-o em sua direção, e Jéssica deixara-se aquecer por toda a ternura e magnetismo que aquele roçar de lábios a propiciava.

Depois disso, elas finalmente saíram do banheiro. Com muito cuidado, para não serem descobertas, e uma de cada vez. Obviamente Angelina fora a primeira a sair, até mesmo para deixar que Jéssica concluísse o intuito inicial, e fizera o necessário para não ser notada, e assim a festa para as caçulas Prattis e Lopes logo ganhara uma cor diferente, em um clima mais alegre e espontâneo.

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Semanas se passaram e o clima no casarão Prattis tornara-se muito melhor desde o casamento de Luísa, que agora estaria morando na casa de Mário Pontes, seu legítimo esposo.

Embora Mônica continuasse sofrendo com o fato da barriga dela já começar a aparentar a gravidez, que já começava a incendiar as fofocas na cidade, a mais velha finalmente aprendera a conviver com a realidade, compreendendo que certas preocupações era melhor guardar para si, evitando assim um mal estar geral na família. Afinal, toda aquela confusão com Luísa teria abalado muito a sua relação com os parentes, especialmente Gabriela, que era a pessoa que mais estimava naquela casa, e seus comportamentos teriam decepcionado ela.

Era capaz de sentir a distância que surgira entre elas. Até por causa das idades semelhantes, e gostos em comum, as duas eram muito próximas, e confidentes, então Mônica fora capaz de sentir o consequente afastamento por parte da irmã de coração, e melhor amiga, que claramente tomara as dores de Luísa com tudo o que acontecera. E diante disso, decidira compensar Gabriela pelas aflições causadas, um pouco a cada dia, agradando-a de várias maneiras diferentes que conseguira pensar.

Algum tempo depois, o esforço parecera alcançar o resultado esperado. E tudo voltou a ser como antes para a família Prattis Lopes... Exceto pela ausência de Luísa, que embora não morasse mais lá, ainda mantinha-se parcialmente presente, já que vivia indo à casa Prattis Lopes encontrar a família, especialmente Jéssica.

No entanto, a calmaria familiar estava fadada a um prazo de validade curto, e no fatídico dia 9 de novembro, que caíra em uma sexta feira exatamente um mês após o casamento de Luísa, um acontecimento inesperado provocou um jogar de dados capaz de revirar a realidade daquela casa pelo avesso, ameaçando mais uma vez a harmônica união e paz da família Prattis e seus aderentes.